Leandro Sarmatz

Mania de efeméride

Por Leandro Sarmatz


(Capista: Debóra Bianchi)

Assim como no caso das listas, há algo de vertiginoso nas efemérides que escapa à compreensão imediata. É um fetiche, um vício, uma mania. Não é preciso recorrer a Freud (motivos óbvios) ou a autores como Benjamin, Sebald e Hornby, que trabalharam criativamente a partir elencos de coisas e datas, para ingressar nesse terreno vasto como um catálogo de manias. Tão obsedante quanto elencar os 10 mais (livros, discos, fracassos) é pescar uma data fechada — dez, vinte, cinquenta anos — e a partir daí reconstruir, com rigor ou imaginação, aquele tempo.

O que nos leva a uma conversa que tem cinquenta anos. Pois foi em março de 1964 que os militares enxotaram o presidente João Goulart e instauraram uma ditadura que só teria fim na metade da década de 1980. Período triste em todos os sentidos. Politicamente, culturalmente. Pois se o regime foi relativamente permissivo até 1968, quando ainda havia até ali uma certa liberalidade com a demonstração de insatisfações e criação artística (esses quatro anos até o AI-5 ainda deixaram escoar teatro de ponta, Tropicalismo, o cinema mais transgressivo), depois a pasmaceira sob o tacão verde-oliva fez o país mergulhar num vácuo cerebral e emocional que, ainda hoje, parece cobrar seu preço. Foram tempos tristes. De algum modo continuam em nós.

Voltando às efemérides. Foi numa conversa entre os editores que surgiu a ideia de publicarmos um livro que falasse desse período sombrio do país mas que também desse conta da efervescência do Brasil e do mundo há cinquenta anos. Tinha repressão, jogo sujo e caretice por todos os lados? Sim, mas também Nara Leão, Beatles, 007, Glauber, uma penca de gente criando nas artes, no pop, reinventando os costumes. Porém não queríamos outro ensaio historiográfico, por mais essencial que seja esse tipo de trabalho. O desejo mais ou menos geral era por um livro que, em tempos de informação acessível numa googlada, organizasse e reconstruísse — com rigor mas também leveza, atenção aos fatos principais e às miudezas — o movimentado ano meia-quatro. Então veio a imagem do almanaque, um desses volumes que retraçam determinado período, com dados à beça, fotos, curiosidades, pérolas.

Pronto: tínhamos a ideia do Almanaque 1964, que agora em março chega às livrarias. Escalamos Ana Maria Bahiana, uma das jornalistas mais experientes e versadas em cultura pop do Brasil. Ela fez um trabalho incrível. O projeto todo, aliás, de produção complicada e com diversas pessoas essenciais envolvidas (alô, Lucila, Ana Laura, Elisa, Alceu, Debs!), foi — com o perdão do possível sentimentalismo e do tom quase edificante — um aprendizado durante os últimos meses.

Efemérides, efemérides. Pois não foi em 1984, numa tarde de agosto, que nevou em Porto Alegre? Há trinta anos…

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Vícios, fissuras, devastações

Por Leandro Sarmatz

Cracolandia, Sao Paulo
No começo de janeiro, a prefeitura de São Paulo começou a implementar um novo programa para a abordagem da tragédia – pessoal, social, sanitária, urbana – que é a Cracolândia, a região no centro da cidade que concentra um grande número de viciados em crack. A operação, chamada de “Braços abertos”, derrubou os desmazelados barracos ocupados pelos dependentes químicos, encaminhou-os a hotéis e pensões das redondezas e ainda proporciona-lhes um trabalho como varredores urbanos a R$ 15 por dia.

Pois bem. Na última quinta-feira a Polícia Civil desembarcou nessa região com o objetivo declarado de reprimir o tráfico de drogas. A confusão reinou. Balas de borracha, pauleira comendo solta, o desconcerto total dos usuários da droga em relação aos últimos acontecimentos, afinal agentes da prefeitura e policiais civis são a mesma coisa para eles. São o Estado.

Há todo um debate sobre a melhor forma de lidar com dependentes químicos. Certamente a violência não está nesse rol. Repressão e bafo na nuca servem para quem vende, em grande escala, pó, pedra, o escambau. Isso, claro, enquanto não houver uma dinâmica mais inteligente para tratar da questão. Uma política econômica e social para redesenhar o ecossistema de algumas substâncias. Chinelada, porrete ou algema não garantem uma nova vida livre do vício para ninguém. Essa é uma das ilusões mais caras de nossos governantes. Ou pelo menos de parte de seus eleitores. Político, em geral, joga para a torcida ou de olho na próxima eleição. Interesse público – real – costuma ser artigo raro. Civismo não parece ser o nosso forte. Há exceções, claro, mas que apenas confirmam a regra. “Quero ver na Copa”, diz o seu vizinho naquela modorrenta conversa diária dentro do elevador. De fato. Dessas frases feitas e clichês bandeiras são costuradas.

A literatura, esse antídoto para o jorro demagógico que contamina a fala oficial, trata do vício de outra maneira. Textos como A consciência de Zeno (cigarro), O almoço nu (heroína) e Pileques (álcool) representam a questão da adição da única forma possível: com ambiguidade, sem preto no branco, com céu e abismo justapostos. Zeno Cosini, internado (por conta própria) numa clínica para se tratar da dependência em tabaco, sabe o quanto pode ser melhor para ele largar o cigarro. Também sabe que só o cigarrinho lhe traz tanto prazer e abre tantas portas dentro da sua cachola. O tabagismo de Zeno esconde outras questões. Há o medo de envelhecer, há a pilha (previsível) de frustrações de toda uma vida, o amontoado universal de ambição, autorrepressão e fragilidade, caros a todos nós. O mesmo com aqueles que bebem pesado ou usam outras drogas. Há prazer, há mascaramento, há culpa. Às vezes, é só a busca por sensações novas, por ampliações (né, Blake, hein, Baudelaire) dos sentidos. Pouco importa.

Claro que, igualzinho à Inglaterra dickensiana, quando o álcool era sim uma epidemia social, o crack há muito já ultrapassou o capítulo “drogas recreativas” no grande livro dos vícios para se tornar outra coisa, uma doença social contemporânea, uma forma pós-industrial de produzir degradação em massa. Quem está doente e deseja realmente tratamento, merece ser encaminhado a uma clínica. Mas que ninguém – principalmente o Estado – desça o sarrafo sobre os usuários.

Afinal, como escreveu Chaucer – dublado à perfeição por José Francisco Botelho –, “Quando algo é proibido, desejamos”.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Chaucer, Chico, Ivan

Olha que beleza de carta (carta mesmo: em nobre papel e com o timbre “Ad Imortalitatem”) recebeu José Francisco Botelho, o tradutor de Contos da Cantuária (dos livros mais divertidos que publicamos em 2013). O remetente é nada menos que Ivan Junqueira, poeta, grande tradutor — responsável por verter para a última flor do Lácio as obras de, entre outros, Baudelaire, T.S. Eliot e Leopardi  — e imortal da Academia Brasileira de Letras:

“Meu estimado José Francisco:

Li, maravilhado e quase incrédulo, a sua excepcional tradução de The Canterbury Tales. Jamais passou por minha cabeça que se pudesse verter Chaucer para nosso idioma com tamanha fluência, elegância, concisão e inteligência métrico-rítmica. Vou mais longe: não se percebe que se trata de uma tradução, e apraz-me às vezes dizer, calcado naquele conceito coleridgiano da suspension of disbelief, que gosto mais de certas traduções do que dos originais, exatamente porque se trata de uma tradução, ou seja, a poesia ‘alheia’ que nos serve o ‘homo ludens’ a partir do que escreveu o ‘homo faber’. Pode estar certo de que você realizou um milagre… Abraço afetuoso do seu

Ivan Junqueira”.

Foi

Por Leandro Sarmatz

Danilo Kis in Tablet magazine

Aqui e ali, no meio de um dia absorvente e frenético, quando há uma miríade de páginas-emails-telefonemas para dar conta, num daqueles momentos em que respirar parece um luxo – sim, é uma observação banal, e por isso verdadeira –, você lembra que o ano está terminando e então procura, ainda que desajeitadamente, fazer um balanço das alegrias, remorsos, ressacas, tentativas malogradas, tudo o que forma nosso estofo (“We are such stuff as dreams are made on”), passado-presente-futuro encapsulados num espaço menor que uma aspirina – ela, sempre ela, o mais prático dos sóis, dizia João Cabral –, algo espantoso de se pensar porque, é isso mesmo, o filme do ano que está terminando parece se encaminhar rumo a um final, que não precisa ser justo nem crivado de sorrisos, mas também não é de bom-tom ser escuro e espesso como aquelas noites que pareciam intermináveis em sua agonia nada recatada, serões ultrapassados graças às leituras de boa poesia ou prosa, mas é alta noite e o raciocínio parece cumprir outras medidas, cronologia diversa, tudo é sempre tão raro durante a madrugada!, numa dessas noites de olhos abertos, a rua lá fora num silêncio de feriado, abri quase ao acaso Jardim, cinzas, de Danilo Kis, e a delicada vertigem instaurada pela prosa na história de Andreas Scham, filho da fronteira, assim como o próprio autor, que habitava esse lugar fluído, cuja história insistiu em ser tenebrosa ao longo dos séculos, que é ser meio judeu no Leste Europeu, escrevendo numa língua – o servo-croata – que reluz em paradoxos e desvios, em meio à revoltas, regimes que pareciam imutáveis e convulsões típicas de alguns lugares especiais assinalados no mapa-múndi,  esse Danilo Kis cujo diálogo com a obra de Bruno Schulz parece tão forte, resultando numa conversa entre dois filhos da Europa que de fato nunca se encontraram (Schulz morreu em 1942, Kis em 1989) ao menos nessa opaca dimensão que é a realidade, mas é certo que seus pontos de contato são infindáveis, ambos polvilham a narrativa com o pirlimpimpim irônico e desencantado típicos de quem já esteve perto do horror, e o fato de que Schulz, assassinado, não tenha de fato conseguido retornar é apenas um detalhe que corrobora ainda mais esse conúbio entre os dois escritores, com Kis escancarando isso a cada página, a cada momento dessa prosa que, à falta de adjetivos mais pontuais, poderia ser chamada de lírica, mas é mais que isso, ele trabalha o lirismo mas também a oração fúnebre, a canção folclórica, o murmurinho ao pé do berço, o sermão, a ordem de despejo, a alegria sincera e a euforia feroz, tudo isso vai do começo ao fim da frase, está no ponto final do dia, pode ser escutado lá-lá-lá longe nos últimos suspiros do ano que está se dissolvendo… enquanto termino a leitura desejando que o próximo ano seja ainda mais pleno para todos nós.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

Doença d’alma

Por Leandro Sarmatz
nostalgic

Algumas coisas botam a gente comovido como o diabo. Claro que a libação colabora um bocado, mas outra madrugada dispensei o táxi na volta para casa e elaborei meticuloso itinerário sentimental em Perdizes, meu primeiro bairro paulistano. Subi e desci a pé as impiedosas ladeiras, aprendizes de montanha-russa encravadas na malha da cidade. Cheguei exausto em casa. Estava tranquilo. Havia cevado bem a nostalgia.

Tempos atrás li o maravilhoso The future of nostalgia, de Svetlana Boym, russa radicada nos Estados Unidos. (Numa enciclopédia sobre as doenças da alma humana, o verbete “Rússia” e “nostalgia” deveriam estar relacionados em eterna remissão. Sei disso porque, ora, tenho algum sangue eslavo.) Mas o livro da dona Boym é uma apresentação magistral da nostalgia na História e nas artes. Alguns autores examinados por ela, como Nabokov e Brodsky, estão entre os exemplares máximos do gênero nostálgico. Claro que nos dois casos o exílio é a – digamos – dinamite que faz explodir imensa cratera dentro do coração. Nabokov, filho da nobreza, teve que picar a mula com o advento da União Soviética. Brodsky, poeta com uma mão na frente e outra atrás, que amargou período na prisão por “parasitismo social”, saiu do país nos anos 1970, período irrespirável, entre tantos. Oxigênio não foi o forte do século XX.

Natural: lá no início, a nostalgia justamente era a doença dos viajantes, dos deslocados, dos exilados. O tempo não é um lugar, mas ocupa um espaço dentro da gente – daí, no meu modesto caso, a saudade dumas ruas da Zona Oeste de São Paulo, para onde me mudei em 2001, tanto tempo já passado. A literatura brasileira desde sempre experimentou isso. Pense em Drummond, em Nava ou – para não ficarmos apenas entre mineiros, esses nostálgicos com PhD –, Raduan Nassar. Agora saiu Nu, de botas, do Antonio Prata, e o garoto (safra 1977) é um nostálgico daqueles que os leitores estavam… sentindo saudade.

São páginas e mais páginas revisitando a infância na década de 1980, boutades nada menos que extraordinárias sobre essa coisinha que é a meninice, camafeu literário de honrosa tradição nas letras daqui. Porém Prata não é sentimental; pode até ser lírico, e é, mas o humor e o sentimento gauche para observar a própria vida fazem de seu texto uma adorável novidade. Há toda uma tese (na verdade minha) sobre a suposta inexistência do bildungsroman, o romance de formação, na literatura brasileira. Temos ensaios formativos, com os de Nabuco, Sérgio Buarque, Gilberto Freyre, mas na ficção a história é outra. Outra hora tentarei explicar a razão. Modestamente. Mas Nu, de botas pode ser lido como uma nova aparição, uma atualização, em tempos de textos mais breves, do romance de formação. E isso estava faltando. Pelo menos para esse leitor aqui, nostálgico de tudo. Inclusive do que não viveu.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.