Luisa Geisler

Carta de Amor

Por Luisa Geisler

3713924090_28aeee7804

Meu Querido,

Não sei por onde começar. Nós nos falamos tanto e tão pouco. Talvez eu deva usar um começo clichê pra cartas como estas. Peço desculpas por isso, sei como é algo que te fere.

Mas sinto tua falta.

Tu, que aceitou e aceita minhas esquisitices, minhas escolhas gaúchas.

Um amigo me disse que a ideia de fazer um mestrado em Criação Literária, em Creative Writing era um pouco absurda. Ele mesmo se considerava fluente e dizia que não se sentiria confortável. A questão não era fluência em si, ele dizia.

Mas tu perdoou e compreendeu, como sempre, como até hoje. Tu sabe que comecei a me relacionar com outros muito cedo. Uma geração que nasceu ouvindo a lenga-lenga toda de globalização, uma geração de anjos alfabetizados em inglês.

Ignorei meu amigo, segui em frente com as applications. Achava que seria mais fácil. Tu sabe que trabalho e trabalhei com tradução do Inglês e do Francês. Só aí já te traio com tanta frequência. Já passei longos períodos de tempo longe de ti. Uso expressões gringas o tempo todo. Fiz 96,8% de acertos totais no TOEFL, Test of English as a Foreign Language. Mas, como já diria Wesley Safadão, aquele 1%… (No caso, 3,2%.) Não é o mesmo sem o teu calor em torno. Algumas palavras que em inglês pareciam ajudar a ilustrar um ponto agora parecem atrolhar tudo. Atrolhar, olha que linda palavra.

Não que faltem palavras, não que eu não consiga me expressar. Não me vejo como uma pessoa que inventa moda com linguagem. Ah, inventar moda, olha que bela expressão. Amo Guimarães Rosa, Manoel de Barros, mas meu vocabulário total em português deve ter umas trinta e cinco palavras — talvez cinquenta se contar as expressões pra comida. Uso no máximo três tempos verbais. Então não é o vocabulário, e não é a fluência, como disse meu amigo.

Consigo discutir com os coleguinhas em aula — e, ah, discutiria mesmo se não conseguisse em certos momentos. Escrevo meus assignments em inglês, os professores conversam comigo depois da aula, corrigem alguns ons que são ins, dizem que algumas coisas são bastante publicáveis e que eu deveria começar a pensar nisso. I can get the message across, entende?

Existem um milhão de memes sobre palavras em inglês e em francês e em alemão e em japonês que significam sentimentos específicos, ideias tão complexas. Como a famosa Schadenfreude — literalmente, alegria do dano — e traz a ideia de satisfação e alegria dado pelo sofrimento ou infortúnio de um terceiro. Como L’esprit de l’escalier, Tsundoku e a menos famosa Leidenschaft, que meu pobre editor Marcelo Ferroni conhece há tanto tempo.

Mas a gente tem tantas palavras for granted o tempo todo. Tipo atrolhar. Tipo chamego, dengo. Existem milhões de autores geniais em inglês, mas esses tempos quis mencionar um negócio que o Luiz Ruffato falou e fiquei parecendo a pessoa que lê as coisas mais underground do mundo. E Guimarães Rosa? E Machado de Assis? Referências indie, todos.

Não que nós não soubéssemos que ia ser assim. Era óbvio que seria. Não que eu esteja me queixando. Por mais que estejamos distantes, sei que nossa relação cresce, cresceu, vem crescendo e crescerá ainda mais. Mas fazes-me falta, entende? Preciso deixar claro.

Em agosto, não só tenho que entregar uma tese quanto tenho que entregar um projeto criativo, um romance. E vai ser sobre nós, sobre os deslocados, somos os emigrantes e imigrantes. Só que não sei se vou saber fazer sem a tua ajuda. Apesar de fazer tudo com o outro, ainda sonho contigo todas as noites.

Espero que não te ofenda, mas talvez mais do que de ti, Português, eu sinta falta da Língua Brasileira. Língua Brasileira, como diz no título do livro do Sérgio Rodrigues. Talvez mais do que tua falta, eu sinta falta de ser brasileira. Talvez não.

Fique bem.

Com saudades (essa palavra intraduzível),

Luisa

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Escritores amarelos

Por Luisa Geisler

388434496_82d77e04a7

Queria falar do Setembro Amarelo, um mês de conscientização e prevenção do suicídio, cujo slogan é “Falar é a melhor solução”. Segundo o site oficial, 32 brasileiros morrem por dia de suicídio, o que é um número maior do que o número diário de vítimas da AIDS e da maior parte dos tipos de câncer.

Suicídio é inclusive um dos “grandes” “temas” da minha “literatura” (muitas aspas). Em Quiçá, um adolescente falha na tentativa de suicídio, e isso é o gatilho pro desenvolvimento de uma história com ele e a prima de onze anos. Uma estudante universitária me questionou em uma aula na UCLA (beijos pro professor, José Luiz Passos, que lança livro novo por agora) a respeito disso. A partir de uma pequena writing sample, ela conseguiu ver uma predominância de doenças mentais, instabilidade psicológica, depressão, suicídio, temas que eu nunca tinha pensado como “meus” (mais aspas).

Por estar num contexto universitário, respondi algo bonito e pomposo: citei Camus, dizendo que suicídio é a grande questão filosófica do nosso tempo, que a questão de a vida merecer ou não ser vivida é uma pergunta fundamental da filosofia, blablablá. Fiz uma piadinha depois, porque é o eu que faço.

Mas eu não deveria ter dito nada disso.

Tudo bem, talvez devesse ter feito a piadinha.

Mas deveria ter falado da minha própria batalha com depressão, pensamentos negativos e especialmente suicidas, ansiedade, fobia social, ataques de pânico, síndrome de fraude, transtornos alimentares and all that jazz. Quando eu tinha nove anos, a psicóloga da família avisou minha mãe que eu era uma criança sensível demais e precisaria de acompanhamento pelo menos até o fim da adolescência. E escrever foi parte disso. Não foi consequência. Mas fez parte.

Existe uma certa aura em escritores que cometem suicídio, escritores doentes. Ernest Hemingway, Raymond Chandler, Sylvia Plath cometeram suicídio. A carta de Virginia Woolf é linda. No livro Although of Course You End Up Becoming Yourself, do jornalista David Lipsky, a narrativa de como teria sido o suicídio de David Foster Wallace é de chorar.

Existe um estereótipo do artista psicologicamente torturado, que sofre para e pela arte. Mas acontece que esse sofrimento não é bom para o artista. Depressão não é uma forma de inspirar literatura “de qualidade”. Depressão é querer parar de existir para que a dor vá embora. Na minha experiência, a depressão e capacidade criativa se opuseram na maior parte do tempo. Eu escrevo/escrevi apesar dela. Se questionar a respeito da grande questão do nosso tempo pode até ser interessante por um viés filosófico, mas é necessária muita energia para chegar à conclusão de que, sim, viver vale a pena.

Podemos discutir. Podemos discutir o privilégio da terapia, da análise, das drogas, do ato de escrever, do próprio fato de ser um depressivo funcional. Podemos discutir que nem todos chegam tão longe, não dá tempo, não tem dinheiro, fazer arte é um hobby (?). Podemos discutir que nem todos têm acesso. Podemos fazer piadas com o fato de tirar uma hora (ou mais) em horário comercial para discutir nossos problemas, veja só. Podemos discutir que (muitas linhas de) terapia pode até ajudar a criação literária, buscando sempre os porquês, os comos, fuçando e revirando tudo que aparece. Podemos discutir as medicações. Podemos discutir outra vez o caso de David Foster Wallace, que não conseguiu obter o mesmo efeito anterior de uma medicação. E sofria com isso. Não porque fosse um gênio torturado, mas porque sofria. Podemos discutir se ele trocaria todos os livros escritos e publicados e o “sucesso” por um momento só. Um momentinhozinho só.

Sim, podemos.

Mas existem pessoas mais qualificadas que eu para todos esses tópicos. Existem textos mais bem-escritos. A própria carta da Virginia Woolf. A própria cena narrada pelo Lipsky. Assim como nas semanas de orgulho LGBT, é importante sair do armário, é importante não ignorar o tópico. É importante falar a respeito. Então saio do meu armário aqui. Para ser honesta, eu não sei qual é a cura para desejos suicidas. Ainda os tenho. Eu só queria escrever sobre o Setembro Amarelo, com seu slogan “Falar é a melhor solução”. Não sei se é. Talvez escrever seja.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Grande digressão sobre a prateleira hipotética

Por Luisa Geisler

2131292365_4b9a969b4f

Ano passado precisei fazer uma cirurgia que envolvia internação que poderia ser de cinco a dez dias, conforme recuperação, blablablá. Mas levei dez livros. Se eu sabia que não leria todos? Sabia. Mas levei livros? Não só levei dez como levei o Uma vida pequena que lia na época, de 720 páginas. (Digressão: sim, operei, deu tudo certo.)

Agora me preparo para algo bem mais grave do que uma mera anestesia geral e médicos fuçando minhas entranhas. Agora me preparo para um mestrado no exterior. Em literatura. (Digressão: na verdade, em Creative Process com ênfase em Creative Writing, mas todo mundo entendeu.) Tecnicamente, as probabilidades de morrer durante um procedimento cirúrgico e durante um procedimento acadêmico são as mesmas.

Mas a fonte da minha maior ansiedade não tem tanto a ver com ter que estudar e ler — em Dublin, com coleguinhas irlandeses, no original em inglês —, James Joyce na University College Dublin, que é a alma mater do homem. (Digressão: antes que digam que estou tranquila com essa situação, deixo claro: não é minha maior ansiedade. Mas tenho muita capacidade de ansiedade.)

Minha maior ansiedade se resume a duas malas com limite de peso de trinta e dois quilos.

Italo Calvino tem um ensaio* sobre a ideia de uma prateleira hipotética, uma prateleira onde o escritor imagina estar ao escrever um livro. Um exemplo dele é justamente um livreiro que sabe vender ao dizer “Você gostou desse autor? Vai gostar desse daqui também”. O ensaio vai além dessa metáfora inicial, mas traz a discussão de quais ideias entre livros são afins de fato, quem é o “leitor ideal”, onde um livro fica numa estante e por que ali?  (Digressão: beijos a todos os livreiros.)

A questão toda é que, ao organizar quais livros levar em uma viagem bastante permanente, me peguei pensando nesse ensaio. Porque não basta levar livros de teoria literária, levar Ulysses traduzido pelo maravilhoso Caetano Galindo, o guia de leitura escrito pelo maravilhoso Caetano Galindo, levar uns Machados de Assis pra abraçar ao dormir.

Acontece que eu não estava planejando me lembrar desse ensaio — portanto, precisar do livro — semana passada. Mas como resumir anos de influências literárias de coisas nada-a-ver? Desde uma palavra em alemão que gostei até uma piadinha que o Stephen King fez num conto em que nem lembro o que acontece. E se isso me acontece na Irlanda? (Digressão: beijos Leidenschaftianos a todos os fãs de piadas internas.)

Como resumir anos de estante hipotética? Esse me parece ser o problema da estante não-hipotética. Da estante real. Argumento ainda que um mestrado em literatura tem o problema de que vou precisar de literaturas. E aí imagine você encomendar um livro da Elvira Vigna lá da ilhota do outro lado do Atlântico só por uma citação.

Sim, é claro que existem e-books. E meu Kobo no momento está sob mais pressão do que eu. Mas jogue a primeira pedra quem não preferiria riscar o Calvino de lápis mesmo.

Quando fui internada, sabia que não leria meus dez livros. Eu sabia que dormiria muito, que estaria sob o efeito de drogas, que iria me ocupar com essas atividades pós-operatórias. Mas eu queria um quarto hospitalar com livros. Uma mesinha de cabeceira que não fosse só remédios.

E talvez agora eu saiba que nem vou folhear o Thesaurus que está separado, que não vou me lembrar de outro ensaio aleatório, que eu não preciso de uma versão física de um livro que tenho um PDF. Mas se estou levando fotos da minha família, minha família literária pode vir junto. Meu quarto irlandês precisa de uma estante, hipotética e não-hipotética.

* * *

* CALVINO, Ítalo. Para quem se escreve? (A prateleira hipotética). In: Assunto encerrado — Discursos sobre literatura e sociedade. Companhia das Letras, 2009, 1ª ed. [Una pietra sopra. Discorsi de letteratura e società, 1980]. Tradução: Roberta Barni. **

** Peço fortes desculpas pelo academicismo, mas estou morrendo de medo do meu futuro mestrado. Obrigada pela compreensão.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Três ou mais causos da escritora fangirl

Por Luisa Geisler

1745480_4a48b54c24

O bom escritor vem de um bom leitor. Sempre? Sempre. As oficinas de criação literária que fiz ao longo de minha curta (e meio sem graça) vida não me ensinaram a escrever. Nem sei se poderiam. Mas me ensinaram a ler. Não ensinaram a ler apenas o que me era informado, mas como.

Antes das oficinas, eu já era uma leitora. Ávida, esquisitinha, obcecada de leve por autores ou temas. Lia o que entendia, lia o que não entendia até entender, lia e achava um significado que decidia que estava bom.

Sigo assim, mas a questão toda é que eu já era assim.

Nisso, comecei a escrever, blablablá. E segui ávida, esquisitinha, a coisa toda, mais leitora do que escritora, mais interessada em ouvir do que de fato achando que tinha algo a dizer.

Algo que nunca dizem aos ratos de biblioteca é como é difícil interagir com autores, com o meio literário. O já clichê esprit de l’escalier nos consome. Talvez tudo isso seja muito normal para as pessoas normais. E talvez só nunca digam isso para socialmente inaptos ou fóbicos sociais com ansiedade e ataques de pânico. Minha convivência com meus companheiros de profissão é em geral vergonhosa (para mim).

Esse post não é uma grande tentativa de falácia de autoridade ou de name-dropping, a técnica em que se mencionam pessoas ou instituições relevantes numa tentativa de impressionar os outros. Até porque seria o segundo name-dropping mais errado da história [O primeiro name-dropping mais errado da história sempre foi e sempre será o de Aaron Burr (sir!). Aaron Burr, depois de matar Alexander Hamilton em um duelo em 1804, se referia a ele como “my friend Hamilton, whom I shot” (meu amigo Hamilton, em quem atirei). E acho que isso é mais errado que esse post, que nem objetiva o name-dropping. Perdão pela digressão, mas precisava acrescentar um fato histórico para me sentir validada].

Na verdade, esse post é uma grande tentativa de rir disso tudo.

O contato mais bem-sucedido que já tive com um escritor foi também um dos primeiros: com Marina Colasanti, que tinha sido jurada de meu livro de contos Contos de mentira para o Prêmio SESC de Literatura. Assim, resolvi ir conhecê-la na Feira do Livro de Canoas, antes do lançamento do dito livro, que recém chegara às mãos da equipe editorial. Eu me contive de não fazer um interrogatório sobre a sua bibliografia de livros infantis. Mas no caso, me apresentei, expliquei quem eu era, agradeci a participação dela como jurada do livro e por ter escrito uma bela resenha. Marina me olhou e disse: “Menina! Eu achei que você era um homem gay roteirista de quarenta anos!“

Isso foi bem-sucedido. Explico: uma vez, após uma entrevista, Carol Bensimon me deu carona até a estação de trem. Na empolgação juvenil, eu me esqueci de avisar onde ela poderia parar. Eu poderia ter conversado sobre Porto Alegre, Canoas, relações metrópole e cidade-satélite, cidades cinzas e feitas para automóveis? Poderia. Mas no lugar disso, fiz ela dar toda a volta na BR. Num carro.

Alguns diálogos são — se tornam — tranquilos, em especial se pela internet. Hoje, não paro e respiro num saquinho se Elvira Vigna me menciona num tuíte (tweet?). Até já mandei uma mensagem inbox no Facebook para Paulo Scott. Mas não responderia por mim se visse a Zadie Smith na recepção de um hotel.

A mais recente interação malsucedida foi minha presença em uma feira literária para assistir aos gloriosos Benjamin Moser e Arthur Japin. Por sorte, já tinha lido o novo livro de ensaios de Benjamin, Autoimperialismo. No momento de perguntas da plateia, eu poderia ter perguntado a respeito da relação bairrismo x autoimperialismo, a respeito da qual eu criava uma pequena teoria? Poderia. Eu poderia ter perguntado em particular a ele referências de ficções que tratassem dessa coisa esquisita que é o conceito de glocalização ou até mesmo não-lugar (lembram da obsessão por autores ou temas?)? Só caso alguma coisa ocorresse a ele? Poderia. Mas eu disse que meu nome era Luisa. Ele perguntou se era com S ou Z. Eu disse que era com S e sem acento. Então agradeci.

Esse, inclusive, é um resumo de 90% de todos os contatos interpessoais que tenho com escritores. Pessoas cujo trabalho admiro. Pessoas que às vezes me fazem pensar “se um dia eu chegar à metade da qualidade do fulano(a)…”. Pessoas que escrevem coisas tão bem-feitas e bem pensadas que me tiram a vontade de escrever, de pura insegurança ou raiva. Pessoas cujas ideias ecoam na minha cabeça por anos. Mas ainda assim, pessoas. E talvez eu seja só uma pessoa também, com direito aos meus momentos fangirl.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Carta aberta ao autor não-publicado

Por Luisa Geisler
 
"Berlin, 1936"
Crédito: simpleinsomnia

Querido(a) autor(a) (ainda) não-publicado(a),

Sei que você já está rindo do meu tom condescendente. Sei sim. Eu tenho só vinte e cinco anos e não devia vir encher o saco. Mas sempre brinco que era universitária antes de começar a publicar. Portanto, não tinha currículo algum (pra publicar por ser famosa ou bem sucedida em outras áreas), sem pessoas influentes (pra convencer de publicar o livro da amiguinha) e, óbvio, sem dinheiro no bolso (pra pagar por publicação). E até agora, cada avanço me parece um passo na Lua. Queria compartilhar algumas coisas que aprendi nesse processo. Talvez seja uma espécie de FAQ, mas talvez não tão irônico.

Vamos começar de novo?

Querido(a) autor(a) (ainda) não-publicado(a),

É foda. É horrível de foda. Existe um mundo de pessoas com livros na gaveta, que escrevem, que não são publicadas, que ninguém quer ler. Existe um mundo de pessoas publicadas que ninguém quer ler. Existe um mundo de pessoas que têm zero interesse na literatura, que são publicadas, e um mundo de pessoas que quer ler sim. E você aí com seu livro.

É preciso abrir com a informação de que cada jornada é diferente. Alguns autores fundam editoras, alguns publicam com editais, alguns ganham dinheiro de editais e publicam, alguns ganham prêmios de manuscritos, alguns mantêm blogs e são bem-sucedidos, alguns misturam tudo isso e dá certo. Soa como um livro de autoajuda? Soa. Mas é isso.

Pessoalmente, publiquei graças ao Prêmio SESC de Literatura, que é um prêmio que apoio e divulgo. No entanto, ninguém viu as inúmeras tabelas do Excel que eu preenchia com prêmios, datas de inscrição, gênero, premiação. Até poesia — gênero que hoje tenho o bom senso de apenas ler — escrevi. Qualquer coisa pra ser escritora mesmo.

Sempre que vemos alguém que “deu certo” (muitas aspas), vemos como tudo é linear e faz sentido. Mas a manchete “Luisa Geisler tem um livro que enviou pra trocentos prêmios e depois percebeu que era uma desgraça e o engavetou para sempre” não é tão interessante quanto “jovem de 20 anos ganha o Prêmio SESC de Literatura”.

E, aliás, sim, esse livro engavetado existe. E, não, você não pode ler. Marcelo, tô vendo a sua cara. Não, não pode ler, eu disse. Não.

Esse livro engavetado inclusive não pode existir publicamente. A versão melhorada dele é o Quiçá, meu primeiro romance. Há intersecções, a estrutura e modus operandi com semelhanças por todo o lado. Mas é um romance diferente, sem dúvida, é outra história com outros personagens. Mas os erros e disfunções neste primeiro geraram os acertos do segundo. E antes que você diga que estou mudando de assunto — a-há! —, não estou.

É importante saber abandonar. Nossa, como é importante. Não digo apenas tirar adjetivos, aparar frases, rever a utilidade de parágrafos. Às vezes textos inteiros podem ser geniais pra você e só pra você. Inclusive, achar algo genial é em geral pista pro fato de que não é genial. Seu livro não é genial. Você pode achá-lo genial, mas ele não é. Tampouco meus livros são geniais, deixo claro.

Em especial quando é a primeira coisa que se escreveu, é fácil se apegar. É fácil mandar o mesmo texto pra vinte concursos, postar em trinta mídias diferentes marcando noventa pessoas na postagem (nunca faça isso). O stand-up comedian Louis C.K. disse que se impressionava como George Carlin, um deus em forma de stand-up comedian, tinha um especial pra HBO todos os anos. Ao perguntar a George a respeito disso, George disse que conseguia produzir porque ao final de cada ano, ele colocava todo o material produzido fora. E começava do zero.

Não que eu faça isso, deus me livre e guarde.

Claro que reciclar uma ideia não é trabalhar nela. Claro que livros em geral são trabalhos de anos de aprimoramento. Mas o nível de apego que pessoas que trabalham com ideias têm em relação a elas é imenso. E às vezes reciclar uma ideia até ela servir em algo só serve a você mesmo, não a quem lê.

E essa é a última e mais importante coisa.

Existe um leitor.

Por que ele tem que ler o que você escreveu?

Por que ele tem que ler seu livro e não um Saramago? Ou uma Alice Munro? Ou até um Stephen King, que seja?

Não que eu tenha respostas pra isso. O que realmente sei é que começar é foda. E permanecer também. O resto é pura especulação mesmo. Usem filtro solar?

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

1234