Luisa Geisler

Trabalho

Por Luisa Geisler

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Foto: Sarah Ross

Ainda hoje tenho que começar a repensar o que vou dizer naquela Jornada de Escritores que me chamou. Eu tinha algo mais ou menos elaborado, mas o tema da jornada é José de Alencar. Pediram para incluir o autor. A última vez que falei dele foi numa apresentação de escola.

Mas já que você gosta de ler, faz por gosto.

O pagamento daquele frila vai atrasar um mês porque o contrato que enviei via Sedex 10 chegou dois dias depois. Eu tinha esquecido, não quis sair de casa com infecção na garganta. E nesse prazo, o financeiro (justamente) agenda o pagamento para o outro mês.

Mas escrever é coisa de rico, então não faz falta.

Ontem enviei para o meu editor um trecho do livro novo, que gentilmente chamo de 50% do livro. Demorei quase três meses escrevendo e reorganizando as últimas vinte páginas. Agora tenho certeza que nada faz sentido no livro inteiro (que descrevi no e-mail como “esquisito”). E, mesmo se fizer, será um livro publicado em um país em que 44% da população não lê.

Mas trabalhar de pijama não é trabalho de verdade, não é?

Aceito o convite para participar de um bate-papo em uma escola pública. Os alunos leram contos meus em fotocópias passadas em aula. A professora pede que eu traga os meus livros para que os alunos possam vê-los pela primeira vez. A escola fica a meia hora de caminhada do ponto de ônibus, e ela tem medo que eu me perca. Semana que vem, professora Renata virá me buscar em casa com seu carro particular.

Mas você só escreve ou trabalha também?

Sim, posso fazer esse prazo acontecer se trabalhar direto das oito da manhã às oito da noite, de segunda a sexta. Não, não posso sair para almoçar hoje. Não, não dá para deixar para semana que vem. Não, claro que não, não dá para pedir para outra pessoa terminar. Se não mandar o texto até às cinco da tarde, não sai nessa edição.

Mas você já se achou no seu trabalho dos sonhos, que inveja!

Começo a reescrever pela terceira vez uma crônica para o blog da Companhia das Letras. A única solução para as ideias anteriores era a lixeira.

Mas você é escritora? Que chique!

Imagine uma advogada que cobra três reais para um conselho jurídico na internet, e tem quem reclame que ela deveria distribuir conselhos de graça. Imagine um deputado feliz porque não está sendo pago desta vez, porque isso vai abrir portas para muitas outras chamadas de trabalho no futuro. Imagine um médico que não está sendo pago por uma cirurgia, mas que o paciente garantiu que seria uma excelente divulgação do nome dele. Imagine um dos contadores de uma multinacional dizendo que, não adianta, tem que manter uma profissão como ilustrador para poder trabalhar pela paixão de rever tributos. (Esses comentários são adaptados de um quadrinho de Melanie Gillman, “If Other Professions Were Paid Like Artists [Se outras profissões fossem pagas como artistas]”, disponível no Tumblr dela, pigeonbits.)

Mas você ganha com a venda de livros! Não faz nada, aí vai alguém, compra seu livro, e você fica rica sem se esforçar…

Tento falar de arte, de cultura, de como isso muda as pessoas e faz diferença, mas tenho medo que soe como um mimimi classe média esquerda caviar. Tenho de justificar o que faço, pedir autorização. Com licença, eu queria retratar a realidade. Desculpa, mas vocês podem me deixar falar de como livros efetivamente melhoram as pessoas? E que a chave de uma sociedade analítica e pensante é justo poder ler ideias e falar de ideias e discutir ideias, construir em cima delas e assim opinar?

Mas essa menina só escreve por capricho! Fica falando bobagem assim como se fosse uma brincadeira!

Iam acabar com o Ministério da Cultura, que já tinha um orçamento e atuação bastante restritos. Depois de muitos protestos, decidiram mantê-lo, ainda com seu orçamento e atuação bastante restritos.

Mas artista é tudo vagabundo mesmo.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Isabel

Por Luisa Geisler

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Começou com Raphael Montes sugerindo que eu era um pseudônimo, me comparou à Patrícia Melo. Em uma entrevista minha para o Estado de S.Paulo, ele sugeriu que fosse Antônio Xerxenesky. Ou até mesmo Rubem Fonseca.

Na mesma matéria, Joca Reiners Terron também suspeita que eu seja o Antônio.

O crítico Eder Alex diz estar quase chutando que eu seja o J.P. Cuenca.

Ora, obrigada.

Mas confesso estar um pouco decepcionada.

Meu primeiro texto para o blog da Companhia das Letras foi sobre Stephen King, a coisa toda. Uma das crônicas mais recentes tratava de por que gosto de escrever: por gostar de ser outras pessoas. Começo a viajar na entrevista falando de literatura e identidades. A escrita de meu livro atual está tomada por um “inexplicável” atraso.

É óbvio que eu sou Isabel Moustakas.

E vocês aí culpando um pobre doutorando que nem tem tempo para manter Facebook!

Confesso (de novo) que não ia abrir o jogo logo de cara. Estava me agradando a coisa toda do pseudônimo, de ser uma pessoa misteriosa, com foto misteriosa em preto e branco. Poder dar entrevista sem os ranços que já tenho (mesmo sendo pré-adolescente), poder lidar com zero expectativas. Nem me perguntaram como é ser jovem! Mas voltaram as expectativas e o jogo ficou chato de novo.

É claro que, se eu não fosse Isabel Moustakas, esse texto seria muito conveniente para a própria. E, se eu fosse Isabel Moustakas, esse texto seria mais conveniente ainda (para mim). Ora, olhem o tom jocoso, as piscadelas subentendidas, os risinhos só com os lábios. Se eu fosse Isabel Moustakas, a última coisa que faria seria sair por aí falando que sou. Não é verdade? (Aqui entraria uma piscadela subentendida). Mas se a última coisa que eu faria seria abrir o jogo, não aliviaria todas as suspeitas eu sair dizendo que sou?

Tipo quando a sua mãe pergunta quem é que quebrou o vaso da sala (você quebrou), e você olha para o seu irmão mais novo com uma cara feia e diz:

— Ah, é, fui eu.

Sabe qual a coisa menos incriminadora que pode acontecer durante um interrogatório em uma investigação de homicídio? Você dizer que se dava mal com a vítima, ou não gostava dela. Porque uma pessoa culpada vai tentar omitir isso, vai tentar parecer que tudo estava perfeito (aqui se nota a menção ao direito, formação de Isabel, e mais uma piscadela).

Então sou Isabel. E não sou também.

Se eu não soubesse que sou eu (e eu sei), eu chutaria a Elvira Vigna. Até porque é sabido como pago-pau pra Elvira e, no livro, tentei emular em parte o estilo dela. Mas se não fosse minha emulação, talvez fosse a Elvira original.

Não sei por quê, desejo que seja o Sérgio Sant’anna. Ou alguém inesperado para o gênero, tipo a Carol Bensimon. Depois dos problemas que a realidade tem com a autoficção do Ricardo Lísias, ele próprio seria uma escolha plausível, não? Um começo fresco, um nome que não pode ser processado por bobagem.

Ou o próprio felino do Antônio Xerxenesky, por quem ele jura na minha entrevista.

Acima de tudo, acho que Raphael Montes é Isabel. Como quando a J.K. Rowling criou Robert Galbraith. Montes, traduzido e bem vendido em trocentos idiomas, quis se desafiar um pouco. Já publica na Companhia das Letras, quis saber opiniões além das dos fãs de carteirinha. Saindo do carioca carismático rei das redes sociais, entra uma persona mais séria, mais contida (até textualmente), mais reservada: Isabel. E o próprio Raphael seguiu o meu plano original. Disse que leu o livro de Isabel, ainda fazendo críticas à autora, apesar de incluir uns elogios cá e lá, incitando curiosidade de leitores. Um gênio.

Mas isso tudo se eu não fosse Isabel Moustakas. E eu sou Isabel Moustakas. Podem enviar perguntas nos comentários, no Facebook, onde quiserem. Me desafiem, se quiserem. Isto é, se ninguém mais ousar se assumir como Isabel.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

(Ainda) precisamos falar disso

Por Luisa Geisler

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Venho querendo falar disto há bastante tempo (vou perder leitores em 3…). Apesar das notícias, conjuntura política e memes recentes, ainda estamos em março (2…). Que é o mês da mulher (1…). Então precisamos falar de feminismo (boom. Cabou leitores).

Precisamos, eu disse.

Precisamos porque uma mulher que manda um livro sob um pseudônimo masculino ganha mais e melhores respostas de editoras (fonte). Mulheres são mais interrompidas em reuniões que homens (fonte). Mulheres são avaliadas como programadoras e musicistas melhores quando os avaliadores não sabem que são mulheres (fonte, fonte ). Aplique isso na literatura. Eu inclusive já fiz um texto sobre isso. E não falei tudo o que precisava.

Precisamos, eu disse.

O tema que me interessa desta vez são as listas. As listas de escritoras mulheres que vão mudar sua vida; Sete escritoras negras que você precisa ler; citações de livros escritos por mulheres que vão te fazer chorar. E por que precisamos dessas listas. Assim mesmo. Listas de escritoras mulheres. Por que precisamos delas? Vou responder com uma lista, pois metalinguagem, jovens, geração Y, essas coisas todas.

1) Pelos motivos anteriormente citados.

Mulheres têm menos voz. As pessoas já são socializadas pra ouvir mulheres menos. E eu já sei que você vai dizer que você respeita mulheres e lê tudo igualmente. Mas não é assim que funciona o machismo estrutural. Notado através de pequenos comentários pequenos. Um “princesa não pode falar enquanto os outros não terminaram”, um “menino sempre quer atenção mesmo”. Por construções que mal se notam quando são feitas e que resultam num condomínio fechado antes de você sequer notar que estão ali. Mulheres são menos ouvidas e menos levadas a sério porque o cérebro foi treinado assim. Se não houver esforço pra desconstruir isso, começando com um questionamento sério, seu cérebro vai seguir assim.

2) Porque já existem muitas listas só de homens.

Um currículo de literatura do Ensino Médio sem dúvida vai incluir Machado de Assis, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa. Viu o que fiz aqui? Uma lista de autores homens. Não falam Melhores Livros do Romantismo Escritos Por Homens, mas são escritos por homens. Inclusive achei uma lista online de Obras Mais Relevantes da Literatura Brasileira e… Zero mulheres. Estudamos mais homens. Nunca vi uma estante com mais mulheres que homens. As mulheres nunca escreveram tanto quanto agora. E elas ainda escrevem pouco.

3) Porque já lemos mais homens que mulheres.

Essa pesquisa da gloriosa Alpaca Press com mais de 2500 brasileiros mostra isso. Mulheres são menos lidas. Ponto. Uma lista só de mulheres que te fizer ler uma só que tenha sido citada já é uma vitória. Inclusive, já discuti um pouco dessa ideia neste texto n’O Globo. Por ter menos espaço na mídia formal (menos resenhas de seus livros, por exemplo), uma lista só com mulheres vai contra esse padrão.

As ideias de mulheres foram vetadas por séculos. O direito ao voto feminino só surgiu no Brasil em 1932. Não tem cem anos. Minha avó se lembra de quando ela não podia votar. Se o voto não era permitido, o que dizer de pôr sua opinião em papel?

As listas exclusivamente de mulheres ajudam a compensar esses descompassos. As listas seriam um espaço onde haveria o tal pé de igualdade. Claro que precisamos de listas com homens e mulheres juntos, e muitas não funcionariam de outra forma. Claro que homens escreveram (e escrevem) brilhantes obras literárias. Mas alguém usou um exemplo: quem a professora na aula tem que incentivar a falar? O aluno mais quietinho? Ou o que já fala o tempo inteiro?

E eu sei — eu sei, eu sei, eu sei — que ninguém se sente fazendo nada de “errado”. Que todo mundo acha que é igualitário e que o problema são os outros. Mas quem de fato não associa trabalho doméstico a mulheres? Quem de fato não associa “frescura” e “emoções demais” a mulheres? Ou não associa narrativas sentimentais, empoladas, melodramáticas a mulheres*? Quem de fato não cobra mais — nem um pouquinhozinho — mulheres por suas aparências mais que homens? Por isso precisamos falar. Precisamos dessas listas pra falar. Desconstruir, idealmente.

*A newsletter da Taize Odelli indicou: Knausgaard Writes Like a Woman. Sobre justamente como Knausgaard escreve sobre temas sentimentais, autobiográficos, “femininos” e a diferença de recepção, gênero, entre outros.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

“Mas por que você escreve?”

Por Luisa Geisler

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Meu começo no meio literário aconteceu por causa do Prêmio SESC de Literatura. Ele funciona por meio de pseudônimos, e os autores dos textos só são revelados se vitoriosos. Você manda seu manuscrito completo e, se ganhar, abrem o envelope com as informações reais. Hoje em dia, é tudo pela internet, até onde sei, mas os envelopes parecem mais dramáticos. Pra mim, insegura, envergonhada e assustada, parecia perfeito. Mandei o livro de contos Contos de mentira com o pseudônimo Brian McElfatrick. Os jurados finais foram Raimundo Carrero e Marina Colasanti, que escreveram belas orelhas pro livro, a coisa toda. Antes do lançamento, ao descobrir que Marina Colasanti estaria em Canoas em um evento literário, resolvi ir agradecer pela seleção, pelos elogios e tal. Quando me apresentei (tremendo), ela respondeu com algo que jamais esquecerei:

— Meniiiiiiiina! — com muitos is mesmo. — Eu achava que você era um homem gay roteirista de quarenta anos!

Por ter sido uma escolha por pseudônimo, Marina jamais tinha sido informada de quem ela tinha de fato escolhido como vencedor. No caso, vencedora. No caso, euzinha. “Inha” porque eu tinha dezenove anos.

E ela tinha argumentos pra cada uma das escolhas. Homem, pois o pseudônimo era masculino; mas gay, por ter algumas questões de feminilidade; quarenta anos por conta de alguns personagens com problemas “adultos” (divórcio, a coisa toda); roteirista por escolhas de linguagem. Não vou problematizar muito, foi um momento especial demais pra isso.

Essa história acabou ganhando uma boa dose de significado pra mim. Após a vitória do Prêmio SESC de Literatura, vieram as entrevistas, e eu ainda não tinha meu FAQ. Entre os comentários sobre a idade, veio a famosa pergunta de por que escrevo.

E a resposta é que eu não faço ideia.

Nem ideia.

Nenhuminhazinha.

Nada.

Desde pequena, escrevia. Eu gostava de ler e fazia meus próprios livros. Fazia grandes desenhos, frases simples, grampeava tudo, vendia pro meu pai por um real. Notem que, desde novinha, foquei em escrever como trabalho e não hobby.

Isso tudo pra dizer que não sei por que escrevia. Não sabia naquela época, não sei agora. Sei que escrevo.

Mas se tenho alguma resposta, é a resposta do homem gay roteirista de quarenta anos. O que mais me interessa em escrever é ser outras pessoas. Sendo insegura, envergonhada e assustada, nada me aterroriza mais do que me identificarem em meus textos. Não, não sou eu. Mas parece muito, alguém dirá. Mas não sou eu. No entanto, ninguém me procura mais nos meus personagens do que eu. Procuro, é claro, pra aniquilar (exterminate, exterminate).

Mesmo quando um personagem tem características minhas, existe um trabalho ficcional de me ver como um personagem. Ver como sou insegura, envergonhada e assustada — e ridícula por tudo isso. Aparo umas arestas que não interessam à ficção e tadam.

Talvez eu escreva justamente pra poder ser outras pessoas. Porque me diverte muito criar um personagem que não fica problematizando cada ideia de cada escolha de palavras [Ike, do Luzes de emergência se acenderão automaticamente].

Outro exemplo: fui bolsista de Iniciação Científica em economia. E sou estudante de ciências sociais. E consigo pensar tanto quanto um leitor de Mises, seguir a argumentação toda em série. E consigo acompanhar a linha de raciocínio da Luciana Genro sem piscar. Quase um duplipensar, pros leitores de George Orwell.

Porque construir um personagem é construir um jeito novo de ver ideias, e talvez eu não consiga ficar com apenas um par de “óculos de ver o mundo”. E, me repito, talvez seja por isso que eu escreva. Porque não consigo decidir se o Ike está mais certo que eu. Porque essa decisão na verdade não existe. Porque uma pessoa que diz que “arte é inútil” não é tão diferente de mim. Pode ser que seja só um lance da idade, ou da insegurança, da vergonha, do medo. Pode ser que mude. Pode ser que o desafio seja me achar no meio dessa bagunça. Mas é muito bom ser homem e mulher e ter vinte e quatro anos e quarenta e ser todas as pessoas e ninguém ao mesmo tempo.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

O inferno são os outros (online)

Por Luisa Geisler

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Trecho do vídeo “This video will make you angry”. 

Eu não gosto de escrever pra internet.

Pronto. Falei.

Por mais que seja uma frase vaga, há precisão: eu não odeio escrever pra internet. Mas não gosto.

(Mas, por favor, Blog da Companhia das Letras, siga aceitando meus posts, por favor, por favorzinho, meu cachorro precisa operar a hérnia.)

E, não me entendam mal, eu gosto da internet. Gosto tanto da internet que não só tenho Snapchat como gosto dele. E, não, não é só pra nudes. Mas escrever pra internet é “o inferno são os outros” elevado na quinta potência.

Em 2014, o portal National Public Radio postou uma piada de Primeiro de Abril. As manchetes e linhas iniciais eram algo como “Por que pessoas nos Estados Unidos não leem mais? Cerca de 80% dos leitores comenta em notícias sem passar da terceira linha”.

Na quarta linha da notícia, o texto falava que aquele dado era uma mentira de Primeiro de Abril. Pedia-se que não se revelasse nos comentários que a informação era falsa. Isso permitiria que apenas as pessoas que leram as três primeiras linhas comentassem.

Em resposta, os comentários partiam de ideias simples como “nós, pessoas que lemos e nos preocupamos com a informação, sabemos que é um absurdo…” até culpar os imigrantes. Todos que não tinham passado da terceira linha expressavam sua revolta sobre essa população que não lia e ficava o tempo todo nas redes sociais, mal informados.

Bem-vindo ao inferno.

Não culpo os “leitores da internet” num maniqueísmo abobado. Faço essa leitura. Confiro a manchete, passo os olhos. Às vezes, quando começo a gostar de um artigo, compartilho sem ler o final e depois volto. Ou não volto. Ou não gosto do autor e não leio. Cometa um sincericídio aqui comigo: você faz isso também.

Não falo de todos os sites e todos os artigos, mas uma maioria. Mas não se lê muito na internet. Ou se lê e não se interpreta. Ou existe uma massa de pessoas “de zuera” na internet. Ou todas as anteriores. Para coroar, o que mais se lê na internet (ou pelo menos, mais se compartilha) é ódio. O que faz o dedo do “compartilhar” coçar é… raiva, revolta. E antes que você diga que estou tirando da minha cabeça, confiram o artigo “What Makes Online Content Viral?”, de Jonah A. Berger & Katherine L. Milkman, da University of Pennsylvania. Se um artigo é muito longo ou muito tempo, existe um vídeo que resume muito bem: o “This Video Will Make You Angry”.

É por isso que certas pessoas de quem ninguém gosta seguem na televisão ofendendo todo mundo. Ironicamente, se eu fizer um texto dizendo que Machado de Assis era um imbecil, ele vai ser mais compartilhado que este aqui. Ta-dã (visualizem aqui umas jazz hands).

Mas a gente não deveria compartilhar o que causa ódio? Eu não tenho que denunciar o comentário homofóbico do Malafaia? Meu ponto não é esse. Digo isso explicitamente porque compartilhar ou não compartilhar (eis a questão) é um outro debate. E não cabe aqui (já passei de três mil caracteres).

Meu debate é que escrever pra internet requer colocar as frases em ordem com cuidado. Porque qualquer frase pode ser mal interpretada. Pode ser tirada de contexto. Pode viralizar porque o remix com “Asereje” ao fundo fica engraçado pra caramba. Ou, o pior de tudo, pode não ser lida e ficar flutuando num vácuo maior que meu vazio existencial.

A literatura se constrói na interpretação. A possibilidade de contar com o leitor: sim, aquele subtexto é, na verdade, um histórico anterior subentendido. A falta de imediatismo que uma narrativa longa propõe — inclusive a trava de tempo que ela oferece naquele momento — me encanta. O que diabos são “olhos de ressaca”? Pois então. Agora imaginem “olhos de ressaca” e uma imagem do Minions da Zuera ao fundo.

Não gosto de escrever pra internet. Mas vou seguir no Twitter, no Instagram, no Facebook, no Snapchat, no Tumblr, no Reddit. Afinal eu gosto da internet.

Só que gosto bem mais de literatura.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.