Luisa Geisler

Escrever enquanto dinossauro

Por Luisa Geisler

16824934615_588e9cf4ba

Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, no lugar de sua coluna mensal no blog, Luisa Geisler escreve sobre a primeira vez em que “foi” um dinossauro.

* * *

Tenho um irmão. Naquela tarde de verão gaúcho, eu estava na fase da infância entre o ódio e a mais pura admiração por ele. Aquela fase em que ter quatro anos a mais parece não só uma geração inteira como um oceano de sabedoria apenas comparável ao dos adultos. E também a fase em que dizer “vou te matar” partia verdadeiramente de um desejo visceral de consertar minha existência por meio de fratricídio.

Eu não gostava de crianças. Odiava a maioria das outras crianças da minha faixa etária. Eu me achava muito madura para a minha idade. Isso em algum lugar entre seis e nove anos de idade. As crianças da escola não sabiam de nada, sabe por quê? Porque meu irmão tinha me dito que o Ensino Fundamental era moleza, e difícil mesmo era o Ensino Médio. Pouco importava que meu irmão tinha ouvido isso de um outro garoto, e nenhum de nós entendia bem a diferença entre Ensino Fundamental e Médio.

Ao mesmo tempo, porque nunca fui tão psicopata quanto quando era criança, eu tinha planos de matá-lo durante o sono. Meu irmão me batia, brigava melhor, era mais forte, riscava meus livros de colorir, roubava bonecas, comia os restos de McLanche Feliz que eu colocava na geladeira, não me emprestava os quadrinhos do Homem-Aranha que a mãe assinava para ele e me ameaçava com a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Eu nunca tinha visto a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu tinha medo de que fosse sentir medo da Cuca. Claramente, esse medo do medo é a característica mais neurótica que tenho, e só me tornei escritora — não pelos quadrinhos, não pelas histórias antes de dormir, não pela Feira do Livro de Porto Alegre — por essa neurose precoce. Logo, sempre que se citava a Cuca, eu desligava a televisão para não precisar vê-la.

E meu irmão ligava de volta.

E só a mente infantil compreende o quão aterrorizante é a possibilidade de ver a Cuca na televisão.

Acho que era final de semana. Então: calor, irmão, pura admiração, puro ódio. Ah, e um VHS de Jurassic Park. Se eu tinha medo da Cuca, pensem em quanto medo eu tinha de dinossauros. Por algum motivo, meu irmão não tinha o direito de ver a televisão (na minha opinião), e eu me recusava a sair da sala. Ele sabia que se colocasse o filme dos dinossauros e eu estivesse na sala, eu iria começar a chorar do medo do medo, meus pais iriam achar que ele estava me provocando e ele ficaria de castigo. Eu era a menina, eu era menor. Logo, ele sabia que eu tinha que sair por livre e espontânea vontade ou não haveria paz.

E eu sabia disso também.

Logo, não saí da sala. Não me lembro por quê, mas era uma causa justa. Fiquei no sofá, esperneei e ameacei chorar enquanto ele rebobinava e iniciava a fita. Tanto reclamei que:

— Tu não quer ver o filme? — meu irmão disse. E tacou um pano (?) do sofá na minha cara. — Pronto. Não vai ver o filme.

Segui na sala, ameaçando que conseguia ver o filme entre partes do pano. Mas meu irmão se absolvera de culpa. O medo do medo tomou conta de mim, mas travei quando um dos funcionários do parque foi puxado para dentro da gaiola na cena inicial. E vi um olho de dinossauro. Shoot her. Fazia muito calor sob o meu pano. Depois ainda, minha frase favorita de todas: clever girl (especialmente porque entendi sem as legendas). E tudo isso levou a um segundo de duas horas e dois minutos que cresceu a ponto de eu cogitar ter “velociraptors” no título do Livro Novo em que estou trabalhando hoje.

Dias (?) depois, meu irmão sugeriu brincarmos de dinossauro. Basicamente a gente iria pisar bem forte no jardim. Tivemos uma discussão porque é claro que sim. Ele queria ser o tiranossauro. Eu queria também. Meu favorito era a clever girl, mas o tiranossauro era maior, e eu não queria reforçar os sistemas de poder e opressão causados por tamanho, que já existiam na vida não pré-histórica (para referência, meu irmão hoje tem quase dois metros e eu, 1,79m e 50mm). Discutíamos.

Meu irmão, então, sentou e começou a me contar de um dinossauro. Que era tipo o tiranossauro, só que maior e mais forte. E mais colorido. Tinha muito de velociraptor misturado. Ele tinha visto nos livros de dinossauro. Ele ia mostrar depois. E ele ia me deixar ser esse dinossauro, porque ele era generoso assim.

Eu me levantei. Eu sorria. E, pela primeira de muitas vezes, eu fui um dinossauro.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Sincericídio #25

Por Luisa Geisler

11872537803_d7785d5ddc

1.

Detesto melhores do ano. Melhor livro, melhor filme, melhor banda que todo mundo fingiu adorar, mas ninguém entendeu bem. Aliás, corrijo: não gosto de lista de melhores do ano. Em especial quando lançadas durante aquele ano. Lista de melhores filmes de 2015 lançados em 2015. Ora, que modéstia. Você, durante o ano de 2015, viu todos os filmes lançados em 2015? Até aquele iraniano que não foi exibido em lugar nenhum e cujo DVD vai sair só em 2017?

2.

Claro que sempre que me citam nisso, tenho certeza de que quem decidiu foi um especialista genial e de excelente gosto, que leu tudo possível e avaliou criteriosamente.

3.

Álvaro de Campos disse que “todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. Listas de melhores do ano são isso. Todo mundo leu Os Luminares, Graça infinita (original e traduzido) e tem uma opinião.

Mas não nas listas de lidos no ano. Essas sim. Especialmente de quem usa o Goodreads, uma das redes sociais para leitores (junto com o excelente Skoob).

4.

Ah, a vergonha alheia dos que têm coragem de confessar tudo — tudo mesmo — que leram.

5.

Falando em todo mundo ler Os Luminares (não li), comecei a ler o badalado finalista do National Book Award, A Little Life. Devo terminar as setecentas páginas esse ano. Deve ser o último. Acho que já posso confessar tudo que li em 2015.

6.

Quem ainda fala “badalado”?

7.

A lista vai do mais recente para o mais antigo. Assim sendo, o último livro que terminei em 2015 foi O próximo da fila, e Do que eu falo quando eu falo de corrida, o primeiro.

8.

Segue, abaixo, meu sincericídio de leituras de 2015.

9.

10.

  • Pnin – Vladmir Nabokov

(Quando sair da escola, quero ser engraçada que nem o Nabokov.)

11.

  • Capitolina: o poder das garotas – diversas (e lindas e maravilhosas) autoras
  • O Torreão – Jennifer Egan
  • Bossypants – Tina Fey
  • Pode o subalterno falar? – Gayatri Chakravorty Spivak
  • Yes Please – Amy Poehler

(Rá! Formou uma frasezinha!)

12.

(Sim, eu só li Madame Bovary em 2015. Não tenho nada em minha defesa.)

13.

  • Onde vivem os monstros – Maurice Sendak

(Marquei um livro infantil de dez páginas como lido. Esse é o objetivo da crônica.)

14.

  • Destrua esse diário – Keri Smith
  • The Fixer: a story from Sarajevo – Joe Sacco
  • Demolidor: a queda de Murdock – Frank Miller e David Mazzucchelli
  • A Room Of One’s Own – Virginia Woolf
  • Flowers for Algernon – Daniel Keyes
  • O perfuraneve – Jacques Lob, Jean Marc-Rochette e Benjamin Legrand

15.

  • Operação Impensável – Vanessa Barbara

(Li esse na edição da Biblioteca do Paraná, para quem fizer as contas.)

16.

  • Although of course you end up becoming yourself – David Lipsky

17.

  • Confessions of an Imaginary Friend – Michelle Cuevas
  • Vitória Valentina – Elvira Vigna
  • A parede no escuro – Altair Martins
  • O salmão da dúvida – Douglas Adams
  • Valsa com Bashir – Ari Folman e David Polonsky
  • Amsterdam – Ian McEwan
  • As intermitências da morte – José Saramago
  • Chamadas telefônicas – Roberto Bolaño
  • O Brasil é bom – André Sant’anna
  • Monstros fora do armário – Flavio Torres
  • Fish in a tree – Lynda Mullaly Hunt

18.

  • Voces -30: Nueva narrativa latinoamericana – Claudia Apablaza (org.)

(Casualmente, estou nessa antologia. Já prevejo comentários de masturbação de egos.)

19.

  • Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre

(#esquerdopata #comunista #foraditaduragayzista #ironiamigos)

20.

  • The Ballad of Mulan – Song Nan Zhang

(Tive um surto obsessivo com Mulan. Li uma versão traduzida em inglês. Por quinze dias, fui uma grande especialista na figura histórica. No momento, só sei cantar Alguém pra quem voltar.)

21.

  • Essa história está diferente: dez contos para canções de Chico Buarque – Ronaldo Bressane (org.)
  • O grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald
  • Sejamos todos feministas – Chimamanda Ngozi Adichie

22.

  • Please Stop Helping Us: How Liberals Make It Harder For Blacks To Succeed – Jason L. Riley

(Quero meu tempo de volta. Mas a culpa foi toda minha.)

23.

  • Contos de Natal – Alessandro Garcia (org.)

(Outra Dessas Antologias De Que Participei e Que Li.)

24.

  • Desnorteio – Paula Fábrio
  • A invenção das tradições – Eric J. Hobsbawm
  • Do que eu falo quando eu falo de corrida – Haruki Murakami

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Um sincericídio (e a parte final dos seis livros que estou sempre lendo)

Por Luisa Geisler

6712093369_1fef50d951
Imagem: Nicolás Santiago Romero Escalada

Olá, desculpa, bom dia, boa tarde, boa noite, como está, com licença. Vou cometer um pequeno sincericídio, desculpa, com licença. Obrigada, de nada, desculpa. Aqui está:

(insira música dramática)

Não vou terminar a segunda parte do post dos seis livros que estou sempre lendo.

*

Eu queria comentar sobre como comecei a ler Moby Dick, que configura um clássico. No entanto, o peso do livro e meu medo de estragá-lo na mochila tem feito com que ele lentamente passe para a categoria de “parado”. A intenção era ser uma apresentação de ideias orgânicas, que se constrói e faz o leitor fazer “sim” com a cabeça.

*

Existe um momento em que o autor tem que desistir. Tem que ir ao cerne da força do texto e perceber que ele (o cerne ou o texto) nunca esteve lá. A imagem que melhor me ocorre é que esse cerne da força seria como o reator arc do Homem de Ferro. Um Homem de Ferro sem reator arc seria como um Lolita em terceira pessoa.

*

O texto deveria terminar mencionando como estou ouvindo o audiobook de Orange is the new black (Tantor Audio, 2012) e sobre como eu amo audiobooks e sobre como sempre que me perguntam se os e-books vão dominar o mundo, eu me pergunto se essa pessoa já ouviu falar dos audiobooks.

*

E inclusive por isso brinquei com a procrastinação na crônica anterior. A barreira entre o idealizado, bonitinho nas ideias, e o real, o que se pode fazer com essas ideias, é imensa. O ato de escrever exige, por um lado, muito ego (“o que eu tenho a dizer importa”) e, por outro, uma humildade imensa para perceber o que se é capaz de fazer. Claro que se pode desenvolver o que se é capaz de fazer, mas ainda assim. Escrever requer humildade. Bom, pelo menos o ato de escrever bem.

*

Queria fazer um pequeno tratado/ensaio interessante e informativo, embora levemente quirky, sobre como estou estudando alemão para provas de proficiência e como isso tem enlouquecido não só meu uso de palavras (imaginem três sufixos grudados), mas também a ordem das palavras nas frases. A ideia seria uma reflexão sobre como a ordem padrão das frases em alemão (Sujeito + Verbo + Objeto Indireto [no caso de Dativ] + Objeto Direto) tinha transformado a minha escrita em algo mais confuso do que ela é. Também é importante lembrar como a ordem padrão dos advérbios (Tempo, Modo, Lugar) soa engraçada (ou seja: escrevi ontem eficientemente em casa [espero que o Marcelo Ferroni, meu editor, leia]). Esse seria o trecho quirky, com menções a filósofos e desconstruções de estereótipos. Seria o alívio cômico.

Aliás, nunca esqueçam de como os verbos apartáveis (trennbare Verben) podem, com um prefixo, mudar o sentido inteiro na última palavra da frase. Sim, o prefixo como a última palavra da frase. Ia ser um texto lindo. Vocês tinham que ver.

*

E foi por isso que o post da lista dos seis livros foi para o lixo. Não estava ficando como eu gostaria. Era um problema com a lista em si, com como eu queria apresentar as ideias. Tenho uns cinco documentos de Word para comprovar, todos escritos, e tudo meio fraco. Meu melhor resultado foi mecânico, cumpria uma tarefa a terminar, listando e falando, listando e falando, até bater o cartão. Eu até poderia terminar a lista, de verdade, agraciar o T.O.C. alheio, mas: pra quê?

*

Queria fazer um texto sobre ser criada na Vila Militar no V Comar em Canoas e nos aviões e nas transferências e no sentimento de não-lugar. A segunda metade do texto analisaria o clichê do sentimento de não-lugar.

*

Algumas ideias têm que ficar na cabeça por mais tempo. Ou nem sair. Ou sair antes de crescer demais. Algumas ideias soam boas num boteco, soam boas na estrutura, soam boas nas frases isoladas que a gente anota para usar em algum lugar, mas o conjunto não funciona. E, às vezes, projetos têm tudo para dar errado e funcionam. É um problema grave da literatura, que as coisas só existem na nossa cabeça e têm que existir na cabeça dos outros. Gravíssimo. Eu deveria fazer um texto sobre isso.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

O processo criativo

Por Luisa Geisler

4970112226_2474aea600

(Prezados leitores do blog da Companhia das Letras: a continuação do post “Seis livros que sempre estou lendo” já volta. Peço desculpas pelo transtorno, mas o resultado da segunda parte estava abaixo do que vocês merecem [plateia ao fundo: “awwn”]. Retomarei no próximo mês. Agradeço a compreensão.)

Antes de começar, Luisa precisa arrumar sua escrivaninha. Nenhum autor jamais escreveu algo decente em uma escrivaninha bagunçada. Luisa esvazia os quatro porta-canetas em sua mesa, categorizando cada grupo de objetos em: canetas e lapiseiras pretas e azuis; canetas coloridas e marca-textos; canetas bonitas demais para usar; tesoura, grafite, carimbos e outros acessórios de papelaria. Após meia hora de reflexão, ela decide que não faz sentido as canetas coloridas ficarem no porta-canetas, que é uma xícara preta, enquanto as canetas pretas ficam num porta-canetas cor-de-rosa com ursinhos. Ela reinicia o processo.

Luisa abre o arquivo de Word em branco e sabe que isso é progresso.

Luisa encara o documento aberto.

Semanas atrás, Luisa havia achado um brinquedo de infância que pretendia doar. Uma mola, dessas plásticas que vão do rosa-choque ao verde. Luisa encara a mola. Talvez ela não deva doar tão cedo. Empurra a mola e todos os aros param em uma das mãos. Ela tenta de novo. Luisa brinca com a mola por aproximadamente oito horas seguidas.

Após um artigo inteiro da Wikipédia sobre a física das molas e um par de documentários, Luisa está pronta para o trabalho.

Luisa digita “(sem título)” e dá espaço. Progresso.

Luisa nota que deixou o filme que estava assistindo na noite anterior ainda aberto no Netflix. Não custa fechar. Janela indiscreta, de Hitchcock.

Luisa brinca com a mola por mais quarenta e cinco minutos, até acabar o Room 237, documentário sobre a produção de O iluminado.

Após buscar O iluminado no Netflix Brasil, Luisa descobre que o filme está indisponível. Ela tem de voltar ao trabalho.

Abaixo de “(sem título)”, Luisa escreve “por Luisa Geisler”. Quebra de linha. Progresso.

Luisa configura a página conforme sua obsessão: fonte Times New Roman 12, espaçamento 1,5, justificado, linhas numeradas de maneira contínua. Salva o arquivo. Progresso.

Luisa volta à linha de “por Luisa Geisler”, que ela agora sabe que é a linha número 2. Luisa deleta “por Luisa Geisler”. A pessoa para quem enviar o arquivo vai saber que foi ela quem escreveu. Duas quebras de linha. Progresso.

Luisa descobre que se jogar a mola na direção do cachorro, ele tentará buscá-la. O yorkshire corpulento odeia e teme a mola.

Luisa resolve lavar o cabelo antes que escureça. Ela pode escrever durante a noite, mas dormir de cabelo molhado causa gripe.

Luisa tenta pensar a respeito do texto enquanto deixa o hidratante agir no cabelo, mas acaba contabilizando o número de pintas do braço esquerdo. Luisa se indaga a respeito do câncer de pele.

Luisa passa três horas buscando sintomas de câncer de pele na internet.

Luisa escreve: “(introdução)”. Quebra de linha. Escreve: “(problema #1)”. Quebra de linha. Escreve: “(aqui vem o exemplo com o salário do Neymar)”. Nova linha. Escreve: “(aqui entra a digressão sobre aquilo que eu li em Moby Dick)”. Nova linha. Escreve: “(aqui eu faço uma piada sobre autores que citam Moby Dick.)”. Na mesma linha: “>>paralelo com Jurassic Park possível? y/n?”. Quebra de linha. Escreve: “acho que já li um artigo sobre isso. PROCURAR.” Luisa seleciona a palavra PROCURAR e coloca tons de amarelo ao fundo. Quebra de linha. Luisa seleciona a palavra PROCURAR novamente. O tom de fundo é verde-limão. Progresso.

Luisa tenta usar a mola colorida como pulseira no braço com possível câncer. Ela sacode a nova pulseira. O yorkshire corpulento salta e late de raiva para o maligno acessório. Luisa sabe que tem de voltar ao trabalho.

Luisa anota em um post-it “marcar dermato”, e gruda o recado no canto da tela do computador.

O post-it cai atrás da escrivaninha. Luisa passa aproximadamente oito semanas o resgatando. Ela demora mais três dias para grudar o post-it em seu lugar anterior.

O yorkshire corpulento quer fazer suas necessidades na rua. Justo quando Luisa ia começar o texto.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Os seis livros que estou sempre lendo (parte 1)

Por Luisa Geisler

3083136521_9881ff7cfb

Chuto que o “hábito de leitura” (muitas aspas) em geral envolve mais de um livro. Pelo menos, das pessoas que conheço e que leem, essa amostra de gente privilegiada. Após cuidadosa análise do meu perfil na rede social Goodreads, comecei a perceber um certo padrão de quais livros eu lia ao mesmo tempo, porque sempre estava lendo mais de um livro ao mesmo tempo. E são seis (mínimo três): a graphic novel, a não ficção, o livro parado, o audiobook, o livro aleatório e o clássico.

Decidi postar a respeito, porque o único lugar onde me deixam fazer pseudoteorias sobre os livros que leio é aqui, no Blog da Companhia.

Obrigada, Blog da Companhia.

Resolvi dividir isso em mais de um post porque não quero ficar correndo e cortando e mudando caracteres. O post de hoje é a introdução às categorias (a seguir) e a categoria clássicos (mais a seguir). Provavelmente, teremos mais dois posts. Talvez mais um só. Talvez nenhum. Provavelmente mais um. A ver.

Vamos às categorias.

6 — A graphic novel.
Tudo que tem figurinhas. Tudo que não entra no tradicional livro cheio de palavras. Eu nem sei a terminologia correta: HQ, graphic novel, livro interativo, livro infantil pop-up que leio pra minha irmã de dois anos.

No momento, é Haarmann, de Peer Meter e Isabel Kreitz (2010, Carlsen Verlag).

5 – A não ficção
O termo é horrível. Mas envolve tudo que não é poesia, nem prosa. É/foi uma leitura particularmente comum na faculdade, em que fui bolsista de pesquisa em economia e, depois, viciada no próprio TCC em antropologia. Muitas vezes misturado com a categoria #4.

No momento, é Pode o subalterno falar?, da Gayatri Chakravorty Spivak (2010, Editora UFMG).

4 — O livro parado
Esse eu já vou voltar a ler, ainda não me esqueci da história, mas devia retomar logo. Está numa espécie de limbo em que eu devia seguir a leitura logo ou recolocar na estante (trilha sonora dramática). Fica numa pilha entre a estante e a escrivaninha.

No momento, é Sábado, do Ian McEwan (2005, Companhia de Bolso).

3 – O audiobook
São livros que deixo em áudio enquanto arrumo as coisas, faço as unhas, cozinho e outras atividades femininas que baseiam minha personalidade. Em geral, precisam ser livros mais conhecidos e best-sellers (sem juízo de valor aqui), de maneira que exista o audiobook. Ou isso, ou são clássicos-clássicos, já disponíveis na internet gravados por vozes de celebridades.

No momento, é Gone Girl, da Gillian Flynn (2012, Random House Audio).

2 — O livro aleatório
O livro por acaso. O livro que alguém me emprestou e que furou a fila. O livro que estava na estante há anos.

No momento, é Respiração artificial, do Ricardo Piglia (2010, Companhia de Bolso). Eu o achei no balaio de uma grande magazine por cinco reais (!) enquanto comprava grafite pré-aula.

1 — O clássico
É o livro que me desafia, de onde roubo ideias. É o livro que rabisco demais. Muitas vezes misturado à categoria #3.

No momento, é A Room of One’s Own, da Virginia Woolf (Penguin Modern Classics, 2002).

Essas categorias se intercruzam e se completam, e nada é muito normativo. Às vezes, tenho três livros aleatórios e nenhum clássico. É a vida, segue em frente, tem outros livros, já diria o meme.

Os clássicos têm importância pra mim porque compõem uma biblioteca que eu mesma construí. Fui criada numa família de classe média educada e leitora, mas não o tipo de leitora que eu me tornei. Não que isso seja ruim (ou bom), mas a primeira edição de Madame Bovary eu comprei aos dezessete anos num sebo. Não quero dizer que sou a pobre menina que juntou o troco do pão pra comprar Dublinenses, mas vocês entenderam.

Conto isso várias vezes, mas aos doze anos, tentei ler Grande SertãoVeredas. Entendi droga nenhuma (eufemismo). Fui relendo e crescendo com esse livro. A leitura de um clássico não é necessariamente prazerosa como o audiobook, que posso ouvir enquanto faço lasanha. Mas é uma leitura de desvendar e ir encaixando o livro com outras experiências, até formar algo que faça sentido. É esse tipo de satisfação, esse pequeno quebra-cabeça particular. Eventualmente, fiz uma tatuagem de Travessia, um livro que leio anualmente. Sei que nem aos oitenta anos vou entendê-lo totalmente. E que nem aos oitenta vou entendê-lo como o entendi aos trinta.

E esses clássicos — esses que eu estou sempre lendo de fato — são os livros que são só meus.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.