Michel Laub

O boom do ego

Por Michel Laub

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Tenho restrições a argumentos estatísticos quando o assunto é literatura. A principal é que se usa um critério quantitativo para avaliar o que tem outra natureza: um único grande escritor é mais importante para a sua época do que duzentos contemporâneos sem talento. Quando falamos de estética, e não de sociologia ou história, a representatividade de um conjunto pode residir menos em raça, classe, gênero e local de nascimento do que em idiossincrasia pessoal e acaso. Machado de Assis era negro. Lima Barreto era filho de um ex-escravo. Oswald de Andrade era de família rica. Clarice Lispector nasceu na Ucrânia.

Isso não quer dizer que levantamentos assim sejam desinteressantes, pelo contrário. Num ensaio publicado na Folha de São Paulo, o crítico e escritor Luís Augusto Fischer comparou gerações de autores nacionais a partir da leitura de três coletâneas: Os cem melhores contos brasileiros do século (Objetiva, org. de Italo Morriconi), Geração 90 (Boitempo, org. de Nelson de Oliveira) e a edição Os melhores jovens escritores brasileiros da revista Granta (Alfaguara). Parte das conclusões vem ao encontro do que se percebe de uns anos para cá: a maior prevalência da ficção urbana, feita tanto por homens quanto mulheres, com personagens de classe média ou alta e cenários não necessariamente locais.

Fischer identifica também uma tendência aos narradores em primeira pessoa e à chamada autoficção, com tramas que aproveitam fatos biográficos e, como decorrência, personagens que gravitam em torno do meio literário. Também é fato: a era das celebridades favorece o interesse pela vida privada, e a literatura confessional é uma resposta à demanda; poucas gerações são tão egocêntricas quanto as mais recentes, e isso se reflete em obras que giram em torno dos respectivos umbigos; é mais fácil sentar no ar-condicionado e criar histórias sobre editores, tradutores, jornalistas e bacharéis das letras ― o que a maioria de nós somos ― do que sair à rua para pesquisar universos alheios.

Mas o principal impulso para o fenômeno, e aí eu daria ênfase a algo que Fischer cita apenas de passagem, foi tecnológico. Impossível desconsiderar o impacto da Internet quando se comparam as últimas duas ou três décadas: de uma cultura quase toda visual, imersa na linguagem do cinema e da TV, foi-se para um tempo em que se gasta o dia lendo e escrevendo. Uma prática com desdobramentos não apenas na ficção, mas na cultura que a cerca. Se nos 1980 havia videomakers demais no mundo, e nos 1990 começou a febre dos designers, profissões para onde escoava uma massa de indecisos de temperamento vagamente artístico, nos 2000 tivemos uma espécie de boom dos escritores. Que acompanhou outras novidades, em paralelo ou numa relação de causa e efeito: ferramentas de autopublicação, barateamento dos custos do livro impresso, florescimento de oficinas, festas literárias, prêmios, rapapés e oba-oba em geral, sem contar os maiores índices de escolarização e a consolidação de campanhas oficiais de estímulo à leitura.

Como não acontecia havia décadas, a figura do autor voltou a ter certo status. Alguém de 14 anos e com gosto por romances russos, digamos, o que antes era atalho seguro para uma adolescência classicamente viscosa e solitária, hoje pode se iludir que está cumprindo etapas do calvário que terminará em consagração, processo narrado em sua página lida e discutida por outras almas românticas na cidade, no país e no mundo. É natural que essa idealização apareça em forma ficcional, e daí tanto a constância dos protagonistas literatos quanto o risco do esteticismo autorreferente.

Fischer situa o fenômeno, também, numa espécie de ambivalência histórica: “Duas linhas se mostram. Uma convergente: a economia brasileira de fato se volta para fora, como um ‘global player’, e a nova geração se afina com isso. Outra divergente: a nação segue chafurdada em mazelas (…) e a nova geração parece passar ao largo disso.” Faz sentido, mas continuo achando que a internet é um responsável mais direto pelo individualismo: a experiência contemporânea espelha o modo de existir e interagir na rede. Um meio onde todos são estimulados a dizer o que pensam e narrar o que vivem, e onde a aparência geral é a de diversidade de ideias, mas o que há na maioria das vezes são monólogos que confirmam opiniões cristalizadas.

Num cenário assim, o próprio conceito de engajamento talvez tenha sido deslocado. Uma semana acompanhando as redes sociais é o suficiente para se empanturrar das palavras de ordem do momento, sejam elas sobre costumes ou realidade nacional. Seguir militando em tais esferas por meio da ficção perdeu parte de seu alcance e sentido: é redundante girar em torno de temas já tão repisados. O que dizer num romance sobre o mensalão, digamos, depois de meses de cobertura massiva? E como encontrar estímulo para o que em geral acaba sendo uma pregação para convertidos?

O compromisso da literatura, se é que existe algum, mantém-se em domínios menos acessíveis: a busca por uma voz particular, uma visão de mundo que não se confunde com nenhuma outra. Não é proibido um panorama social ser traçado por meio da paisagem íntima, mas o movimento é de dentro para fora, e não o contrário. Ao menos nisso o tempo atual ajuda: na democracia, é mais fácil para um escritor dizer o que precisa ser dito sem se prender a limites ideológicos, restrições de classe, repressão política ou preceitos morais. Cabe a ele cultivar essa liberdade, condição individual para a relevância em termos coletivos.

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos publicados pela Companhia das Letras. O mais recente, Diário da queda, foi lançado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Palavras e cacarejos

Por Michel Laub

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Para quem cresceu na cultura televisiva dos anos 80, é visível que a internet melhorou a média dos textos. A simples prática de redigir com frequência tornou mais eficiente a comunicação. Compare as manifestações de sua timeline com uma dessas cartas de sindicato ou avisos de condomínio que chegam pelo correio, como um museu em papel de termos e formas que não existem mais: ninguém abaixo de certa idade, com o mínimo acesso à informação e que não trabalhe no STF escreve daquele jeito. Para a elite letrada, a afetação bacharelesca morreu com o modernismo do século 20. Entre um público mais amplo, com a interação virtual do 21.

Aproveitando facilidades como os corretores automáticos, a mudança também acabou com o conceito de texto bom ou ruim baseado apenas em ortografia e gramática. Ou seja, aquilo que no passado se chamava “saber escrever”. Num paralelo com a ficção, o hábito das mensagens por email, dos posts e das conversas digitais cumpre o papel dos antigos primeiros anos de um escritor, durante os quais ele saía de um nível rudimentar de prosa — despindo-se das travas e do exibicionismo típicos dessa fase — para um grau mínimo de clareza na hora de dizer o que gostaria. Mas esse é só um passo inicial. Levar a tarefa adiante com particularidade, graça e inteligência, ou com o oposto consciente disso, é outra história.

Num texto de 2010, arrisquei previsões sobre como a internet mudaria (ou não) a ficção. As coisas andam rápido, e foi o tempo de relativizar alguns dos meus próprios argumentos. Não o principal deles: a necessidade de uma linguagem autônoma, que se diferencie da torrente de vozes nas redes sociais, o cacarejo teimoso e exaustivo que torna tudo uniforme e irrelevante — expressões raras que viram clichês em dois dias, a originalidade que nasce morta pela replicação imediata e sem crédito, o infinito de opiniões que se anulam umas às outras por excesso, o barateamento de atributos como a ironia (cada vez mais sinalizada e óbvia) e o cinismo (em geral ignorante e falso).

Contraditoriamente, é num nível elementar da prosa — a escolha de uma palavra, e não de outra — que a facilidade da escrita contemporânea parece ter deixado efeitos mais nefastos. Como se o exercício disseminado e contínuo causasse mais desgaste que aprimoramento, numa velocidade muito maior que a praxe na dinâmica do idioma. O termo exato é um clássico da linguagem, e seu uso continua sendo um dos antídotos para que ela não desapareça, como vem ameaçando fazer, nos braços mornos da ideologia, da moda estética, da frouxidão e do lugar comum. Pense no que aconteceu com expressões como “fascismo”, “censura”, “polêmico” e “gênio”, entre tantas e tantas outras, e no efeito de seu uso banalizado. Se qualquer ato de um político adversário faz com que ele seja comparado a Hitler ou Stálin, os atos de Hitler e Stálin deixam de ser histórica e moralmente incomuns.

Linguagem é fim e instrumento, forma e conteúdo. Uma personagem de J.M. Coetzee diz que a marca do grande escritor é ser capaz de “deformar sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito”. Mas até para que isso ocorra é preciso ordenar a deformação, escolher a maneira como ela aparecerá na página, o que ela atacará e o que será preservado. Coetzee mesmo é um exemplo da simbiose: a carga reflexiva que sustenta livros como Desonra e A vida dos animais é construída palavra a palavra, frase a frase. É só porque tal sabedoria é forjada aos poucos, aproveitando as possibilidades de argumentação que um texto longo proporciona, e também a disposição do leitor em acompanhar as idas e vindas da prosa de maneira concentrada, em seu ritmo interno de convencimento — algo também raro hoje em dia —, que o triunfo do autor acaba sendo definitivo.

Isto é: sem vocabulário, que gera sintaxe, que gera estilo e ritmo, que geram atmosferas e poder de persuasão, as ideias que pareceram novas e brilhantes sob a roupagem formal de um texto se apequenam com facilidade. Preservar essas ideias, uma das qualidades da literatura desde sempre, passa por salvar o elemento básico que as constitui. Uma ecologia tão urgente quanto a de animais, plantas, recursos e condições climáticas: numa era soterrada pela onipresença da escrita, é preciso reaprender a chamar as coisas pelo nome.

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos publicados pela Companhia das Letras. O mais recente, Diário da queda, foi lançado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Elogio aos livros difíceis e chatos

Por Michel Laub


Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta e da (bem-vinda) Geração subzero, voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano Vianna, Raquel Cozer e Francisco Bosco se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida em geral com mais competência por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos publicados pela Companhia das Letras. O mais recente, Diário da queda, foi lançado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Uma dramaturgia nada clássica

Por Michel Laub

No último encontro que tive com a querida, generosa e talentosa Christiane Riera, que morreu de câncer no mês passado, conversamos sobre um ensaio que ela escreveria para a revista que eu estava editando. A ideia era fazer um paralelo entre a experiência pessoal de um doente e a tradição histórica da dramaturgia, partindo de um exemplo ao mesmo tempo evidente e inusitado: House.

Chris comentava que algo da rotina do tratamento, da relação com os médicos e do ambiente dos hospitais parecia dever à série televisiva, e não o contrário, como seria natural. Não sei até onde ela exploraria o argumento — do texto só ficaram anotações e o esboço de alguns parágrafos —, mas a reflexão sobre os vetores de influência, vida na arte ou arte na vida, seria um começo interessante. Que poderia se estender por outro vetor, o da arte na arte, até porque House não caiu do céu: estrelada por um médico misantropo cuja tarefa é diagnosticar pacientes com sintomas extravagantes, cada um de seus episódios atualiza — com o cientificismo, as fobias e os dilemas éticos de hoje — modelos como o do velho romance policial. Ou do romance psicológico, cujo ritmo se apoia em camadas de informação que vão se sobrepondo, fatos/segredos revelados por um protagonista que investiga outros personagens ou a si mesmo.

Convenções narrativas giram em torno de linguagem e estrutura, e também de temas. Do ideal estético clássico ao registro histórico realista, dos castigos divinos no teatro grego ao amor romântico suicida, de Dante e Shakespeare a Proust e Beckett, a grande arte sempre falou direta ou subliminarmente da precariedade da vida, do tempo que se esvai rumo a algo que não conhecemos — a morte, em suma, cuja presença está sempre por trás de representações da enfermidade. Não é assim porque os artistas decidiram, mas porque a realidade é: crentes, ateus, otimistas, cínicos, todos vivemos diariamente o que Susan Sontag chamou, no clássico A doença como metáfora, de “dupla cidadania” entre “reino dos sãos” e “reino dos doentes”, na qual cedo ou tarde precisaremos usar o “passaporte ruim”.

Se artistas são pessoas como as outras, ao menos na ignorância e fascínio diante da morte, o trabalho que produzem tem sempre algo da perspectiva — real ou potencial, não importa — de um doente. No ótimo O imperador de todos os males, uma “biografia do câncer” que se estende por ciência, história, política, crônica social e linguagem, Siddhartha Mukherjee diz que todo paciente começa como um narrador que confessa sua história: “Nomear uma doença é descrever certa condição de sofrimento — é um ato literário antes de ser um ato médico”. Na via oposta, pode-se acabar existencialmente preso a simbolismos que começam na linguagem: quando o tratamento do câncer é chamado de “guerra”, rotula-se esse paciente como um soldado que precisa ser corajoso e manter o ânimo. Daí a culpá-lo por uma eventual derrota, como se ele não tivesse feito esforço suficiente para viver, é um passo lógica e moralmente curto.

Tais metáforas, mostra Sontag, são frutos de valores históricos. A associação entre tuberculose e poesia no século XIX, por exemplo, é uma resposta ao conservadorismo vitoriano, ou desdobramento dele. O que seria impensável nos menos heroicos anos 1980, quando surge a AIDS e a carga punitiva cristalizada num de seus primeiros apelidos, “peste gay”. Hoje há uma espécie de híbrido entre os extremos romântico e pragmático: cultuando a forma física (dietas, ideal apolíneo de beleza) e uma certa relação entre inteligência e neurose (nada é menos popular na TV, na publicidade e nas redes sociais que a antiga “normalidade” de comportamento), nosso tempo é contraditório quando avalia o desvio dos padrões de saúde. E, como consequência, os artistas que os representam. Do ponto de vista científico, nenhum destes males traz menos ou mais capacidade criativa, mas faça o teste: há mais sugestão de “alma literária” na depressão de David Foster Wallace ou na psoríase de John Updike? Nas internações psiquiátricas de Lima Barreto ou na úlcera que Nelson Rodrigues tratava como “gata de luxo”?

Palavras fazem sentido, e Chris também pretendia escrever — ecoando os ensaios finais de Christopher Hitchens, ele também vítima de câncer — sobre a inexatidão de ditados como “o que não mata engorda”. O que ela chamou de “dramaturgia nada clássica”, protagonizada por uma doença caótica surgida em momentos e locais aleatórios, em nada se relaciona com os elementos que nos acostumamos a identificar numa narrativa — a organização em causas e efeitos, as jornadas de aprendizado e redenção. Com sinceridade comovente, ela só via algum paralelo entre a vivência do “corpo dilacerado” e uma definição de tragédia parafraseada de Aristóteles: “Algo que aproxima e distancia ao transmitir compaixão e horror ao mesmo tempo”. No caso de Chris, a lucidez e a coragem surgidas dessa experiência apenas reforçaram minha antiga — e agora eterna — admiração.

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos pela Companhia das Letras. O mais recente Diário da queda, foi publicado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Gênios que nunca escreveram

Por Michel Laub

“Nesta geração, é visível que as gentes que escrevem melhor não escrevem livros. Escrevem blogues durante uma época, fazem umas graças, depois talvez twitter. Depois param de escrever, ou gastam o talento em jornalismo ou outras coisas abaixo deles”. A opinião é de Alexandre Soares Silva, ele mesmo um escritor muito bom e engraçado, e segue num tom talvez a sério, talvez não, provavelmente as duas coisas: “Entendi que sempre deve ter sido assim: que no mundo sempre houve Goethes que escreveram um soneto ou dois, que mostraram para os amigos e depois foram fazer outra coisa (…). Flauberts que não se deram ao trabalho de escrever um livro, porque acharam a busca pela glória uma boçalidade.”

Desde o início do ano estou tentando iniciar um romance, e ao menos numa coisa concordo com os tipos descritos por Alexandre: o universo se expande, o tempo é ilusório e tudo é triste, e diante disso é penoso se dedicar a uma luta que sempre tem algo de ridículo. Só que o argumento da escolha, do talento que só não se concretiza por falta de vontade, tem algo de idealizado. Primeiro porque a literatura — óbvio — só existe no mundo concreto. Num outro contexto, Lacan declarou que pensava com os pés. Um escritor pensa/cria com os dedos, durante a digitação ou caligrafia de algo que ele acha que já conhece, mas cujo resultado não conta com nenhuma garantia anterior e em geral é diverso do que se espera. O Flaubert que nunca escreveu poderia ser o Fangio que nunca pilotou — jamais saberemos, e por isso não tem importância.

O segundo motivo é que o conceito de “escrever bem” — óbvio igualmente — é um tanto variável. As exigências da ficção são atenuadas num formato menor e menos imaginativo, como uma reportagem, um post ou um tuíte. Aos últimos pode bastar repertório, esperteza ou humor, enquanto quem pratica a primeira está entregue à imensidão tediosa que deve ser preenchida parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo num calvário de bloqueio e angústia. Para um tuiteiro ou jornalista, a tarefa é encontrar as palavras certas para exprimir uma ideia que já está cristalizada, polir ou não atrapalhar sua expressão. Já para um ficcionista a ideia é só um primeiro passo. É preciso ter fôlego, técnica, paciência, concentração e sorte de ver a faísca inicial — na melhor hipótese, uma sinopse longa ou um caderno cheio de anotações sobre personagens e cenas — se transformar numa narrativa autônoma, que obedece a convenções particulares e é julgada segundo critérios não aplicáveis a qualquer texto.

Considerar o segundo caso uma extensão bem-sucedida do primeiro, portanto, e sem entrar no mérito sobre qual é mais relevante diante da eternidade indiferente, é discutível. Idem a visão do que é glória: ao tuiteiro/jornalista/frasista basta querer participar do chamado debate público, e o talento tornará a tarefa relativamente fácil. Se há analogia mais próxima da inspiração romântica que pouco depende de trabalho, algo normalmente associado a artistas, é essa. E se há exemplo melhor de busca por sucesso cintilante, certamente não é o do autor que passa anos enfrentando suas 300 páginas em branco — para ao final ser lido por meia dúzia, e quem sabe elogiado por outra meia dúzia em meia dúzia de textos que serão esquecidos em meia dúzia de dias. Um caminho quixotesco, digno e patético, que o próprio Alexandre descreve no que soa como ironia carinhosa: “Ponham-se à prova contra as gerações que os precederam, ao invés de ficar do lado de fora do ringue, comendo mendoratos.”

Olhando bem, é uma ambição contraditória, que se mistura com a humildade da espera e a necessidade de eventualmente se rebaixar: como regra geral, válida para a maioria das obras fora dos domínios da sátira e gêneros correlatos, um ficcionista precisa estar no nível de seus personagens — incluindo suas limitações de linguagem, intelecto e charme — para gerar autenticidade e empatia. Tente achar um tuiteiro/jornalista/frasista que abra mão de parecer esperto e informado. Tente achar um desses talentos literários em potencial que aceite a aleatoriedade (e o vazio) do sucesso e do fracasso. A diferença, que talvez seja a origem da vocação genuína de um escritor, conceito que passa longe do que ele pensa que é e de onde pensa que pode chegar, começa por aí.

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos pela Companhia das Letras. O mais recente Diário da queda, foi publicado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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