Colunistas

Editor de calças curtas

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. A partir de hoje, contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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Editor de calças curtas

O endereço é histórico, rua Barão de Itapetininga, 93. O ano, 1982. Minha vida de editor já começara havia algum tempo, mas foi com a coleção Tudo é História que eu pela primeira vez ganhei autonomia editorial e liberdade de decisão. Não precisava aprovar previamente a escolha dos títulos e dos autores; podia ler sozinho os livros e, se quisesse, gritar da janela do último andar, para que todos ― do centro de São Paulo até o Brás, onde ficava a gráfica dos livros de bolso da editora Brasiliense ― ouvissem: IMPRIMA-SE!

Ao propor ao Caio Graco Prado* uma coleção como a Primeiros Passos, só que voltada exclusivamente para livros de história, ouvi com surpresa: “Boa; só que essa você mesmo vai editar”. Não era a primeira vez que o Caio me surpreendia. Alguns anos antes, depois que reportei a ele que não havia conseguido convencer nenhum crítico literário importante a organizar uma coletânea de contos de Lima Barreto, Caio mandou entregar, na minha sala, as obras completas do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, em capa dura e encadernação vermelha e preta, com um bilhete ao recém-promovido estagiário: “Luiz, divirta-se, faça a antologia você mesmo”.

Quanto à “minha coleção”, foi só a partir do segundo volume que eu teria toda a liberdade.

O editor, então com 25 anos, resolvera compensar sua falta de experiência, ou melhor, a falta de anos corridos, convidando autores já consagrados, frequentadores assíduos de qualquer tratado de historiografia brasileira que se prezasse. Até que o primeiro original viesse a ser entregue, conversei diariamente com Maria Yeda Linhares e Franciso Iglesias, que, sem saber minha idade, acabaram passando de conselheiros a amigos telefônicos íntimos. Evitei falar com os autores sobre a minha cronologia pessoal. Ninguém perguntou, eu não anunciei. Com Paula Beiguelman, importante cientista política da USP e a primeira a terminar sua encomenda para a coleção, ocorreu algo semelhante. Falava com ela sobre detalhes da obra, sobre os requisitos da coleção, procurando, até exageradamente, demonstrar conhecimento da sua obra sobre o ciclo do café no Brasil. Conversa de intelectual, gente grande. O tom das conversas telefônicas era menos pessoal, mas, mesmo assim, elas eram frequentes.

Certo dia, nova surpresa: muito antes do previsto, Paula anunciou que queria entregar os originais pessoalmente e me conhecer. Já havíamos discutido longamente o teor do livro, em conversas mais profundas do que o necessário, mas ela claramente não tinha ideia de quem eu era. Mesmo que eu deixasse de fazer a barba por alguns dias, o resultado seria pífio. Nada mais patente na minha aparência do que a cara de editor neófito, com jeitão de militante estudantil, tarimbado em inexperiência como ninguém.

Por tudo isto, fiquei nervoso nos dias que antecederam nosso encontro. E o encontro em si, mais do que qualquer outra coisa, provou que, ao menos no quesito nervosismo, eu estava cheio de razão.

A telefonista anunciou: “d. Paula está na recepção”. Com um pigarro respondi: “faça-a entrar”. Tentei desamassar as roupas com as mãos, levantei-me para cumprimentá-la e ouvi: “você é o Schwarcz?”.

Em seguida, vi minha primeira autora dar meia-volta, esbravejando: “Não, não, um moleque não vai avaliar meus originais!”. Hesitei por alguns segundos, não sabia bem o que falar. Resolvi segui-la até o elevador e sem dizer nada apoiei com uma mão o seu braço e com a outra indiquei que retornasse para a minha sala. Paula Beiguelman voltou atrás.

* Publisher da Brasiliense.

Salão de Beleza

Por Erico Assis

Rafael Coutinho trabalhando em Cachalote no Salão de Beleza.

Tem um vira-lata embaixo da mesa de desenho. Se não me engano, vi outro andando pela casa. Esse, embaixo da prancheta, está placidamente deitado sobre almofadas velhas. Parece que o canto dele é ali mesmo, ao lado de skates.

Ele observa, com olhar triste de vira-lata, o dono da mesa de desenho, no momento checando os e-mails em outra mesa. Na parede atrás do computador, juntam-se algumas dezenas de pinturas em acrílico. Na parede ao lado, mais ainda – a maioria delas com mais de 1 metro de largura. No chão, ainda mais telas, fileiras delas encostadas na parede.

Rafael Coutinho, nessa tarde, já havia desenhado sua quota diária e tinha outras coisas na cabeça. Sua exposição individual na galeria Choque Cultural havia aberto na semana anterior, com grandes quadros figurativos cujo destaque é o crop ousado.

No seu estúdio, também há uma coleção desorganizada de livros e quadrinhos ao lado da mesa de desenho, e originais de seu pai, pequenos, em uma parede. No caso, o pai é Laerte, quadrinista também e respeitado por quem entende. Os quadrinhos com originais de outros artistas seguem pelas paredes e levam para fora da sala. Lá tem mais Laerte, um Angeli, Fábio Moon, Gabriel Bá e outros.

Agora é o outro habitante da casa, Rafael Grampá, que está me mostrando um dos quadros: uma página de jornal amarelada e desgastada do Little Nemo (1905-1914) de Winsor McCay. Na seu próprio estúdio, colado ao de Coutinho, a estante tem ainda mais influências: Jeff Smith, Frank Miller, Geoff Darrow, Paul Pope, Jamie Hewlett.

Na mesa de desenho de Grampá, uma cena de ação que envolve um aquário despedaçado. Grampá deu detalhes e expressões próprias a cada peixinho. Estatuetas de Rufo e Sangrecco, os personagens de Mesmo Delivery, seu primeiro trabalho, ficam sobre a escrivaninha. Ao lado deles, um troféu do Eisner Awards e dois HQ Mix. Aqui só um há quadro na parede: um pôster de Lourenço Mutarelli.

Há mais um habitante na casa: Fabio Cobiaco.* Seu estúdio é o que deve ter sido uma sala de jantar. Não há divisórias, e você obrigatoriamente passa por ele quando vai à cozinha ou ao banheiro. Em compensação, acaba sendo o maior estúdio da casa. Cobiaco é mais na sua; naquela tarde, é o único que está compenetrado na prancheta.

Não há nada demais na casa da Pompeia, bairro paulistano, se você não souber que Rafael Coutinho está desenhando Cachalote, a graphic novel escrita por Daniel Galera, a HQ nacional mais comentada antes do lançamento; que Rafael Grampá prepara Furry Water and the Sons of the Insurrection, co-escrita por Daniel Pellizzari, tão aguardada quanto sequência de blockbuster, tanto no Brasil quanto nos EUA; e que Fabio Cobiaco está igualmente ocupado com V.I.S.H.N.U., roteiro de Eric Archer e Ronaldo Bressane, outro lançamento para este ano.

Se esse pontinho na Pompeia não é um planeta importante na constelação dos quadrinhos contemporâneos, nada mais é.

* Após a visita do colunista, Fabio Cobiaco mudou-se do estúdio.

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Erico Assis Lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.