Colunistas

Tirar pombos da manga

Por Carol Bensimon

15411209549_5094ebef6b

Não sei se escrever é transpor ideias para o papel. Parece que isso pressupõe que as ideias já estão guardadas em algum lugar. E talvez não estejam, quero dizer, talvez seja a intenção da materialização (sentar na frente do computador, abrir o bloquinho de notas) o que faz a gente ter as ideias. Acontece muitas vezes comigo. Eu não teria pensado em tal coisa — seja um argumento, seja um detalhe de uma cena fictícia — se não fizesse um esforço mental, se não me dispusesse a parar com qualquer outra atividade por alguns minutos ou algumas horas. Não há um livro inteiro flutuando na minha cabeça, nem mesmo uma resenha de livro, nem mesmo esse post. Claro que outra maneira de colocar isso seria dizer que há algo na cabeça sim — memórias, pedaços de sonhos esquecidos, material inconsciente –, e que a decisão de transformar isso em concretude é precisamente o que joga uma espécie de luz sobre essa confusão. De qualquer forma, isso não muda em muita coisa o que estou dizendo: que muito da criação se dá, de fato, quando começamos a colocar uma letra depois da outra.

Cada frase é uma tomada de decisão. Não acho que essa seja uma afirmação tão óbvia a ponto de não precisar ser dita. Isso porque há uma visão romântica muito difundida que acredita, entre outras coisas, que personagens tomam vida e começam a agir sozinhos, como se fossem crianças que crescem e passam a não depender mais dos pais/escritores. Pode ser bonita, essa ideia, mas é tipo acreditar em Adão e Eva, e não no Big Bang. O personagem é o que o livro disser sobre ele. Para chegar a esse tudo que eu, escritor, resolvi colocar no livro sobre o personagem x, há uma enorme quantidade de coisas que eu deixei de lado, que descartei, todos os caminhos não escolhidos. Quando escrevo, em uma narrativa, a frase “ele calça as botas”, eu não estou escrevendo “ele vestiu a camiseta havaiana” ou “ele colocou o fedora na cabeça”, por motivos que só eu conheço (ou nem isso). Se a frase seguinte é “quer ser desesperadamente um cara que usa botas”, opa, eu dei uma informação psicológica, alguma humanidade pra esse sujeito: parece que ele está tentando ser alguém que ainda não é. A partir daí, é preciso manter uma coerência interna, então pode parecer que a personagem está “tomando as decisões”, mas simplesmente porque, quanto mais o livro avança na escrita, mais o personagem acumula características físicas e psíquicas, mais se define uma trajetória, mais se revela um passado, até o momento em que, bem, a gente sabe que de que jeito ele vai entrar naquele bar, como ele costuma agir com as mulheres e que tipo de música ele ouve.

Então não, meu personagem não poderia se rebelar na página 32, resolver arrancar as botas contra a minha vontade e dizer que ele se sente ótimo na sua pele, que aquilo tudo de estou-procurando-meu-lugar-no-mundo é uma besteira, que ele tem uma ideia melhor de conflito etc. Ele fica quietinho. Eu meio que afasto a câmera e mostro um pouco a cidade, iluminando uns detalhes que, pela lógica narrativa since Flaubert, são entendidos como coisas que ele, o personagem, está percebendo, mas até isso é ambíguo (e realmente não importa, importa?). Quando volto ao personagem, ele já encontrou uma pessoa na beira da praia. Eles conversam sobre diversos assuntos. Eventualmente, ela diz: “Gostei das suas botas.” Ele diz: “brigado”. Aí é a deixa para que eu fale mais sobre as tais botas, porque dar toda a informação em bloco às vezes não é legal: “Ele comprou as botas em uma loja que vendia tudo quanto é tipo de coisa de segunda mão. Patos de porcelana. Discos arranhados da Dolly Parton. Cinzeiros de cassinos que não existem mais. São marrons com cadarço e parecem ter passado por momentos difíceis”.

O que eu quero dizer é que eu não sei se acreditar em mágica ajuda nesse ofício. É muito mais ilusionismo do que mágica, e isso não tira a beleza do ofício, muito pelo contrário. Grande parte dos erros e acertos pode estar na montagem, essa que ocorre ali, palavra a palavra, linha a linha, com ideias que, muitas vezes, surgem principalmente da nossa disposição em tê-las.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Sonho

Por DW Ribatski

sonho_baixa_dwribatski

* * * * *

DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
Site — Facebook — Twitter

Acariciando as páginas que se vão — ou qual é o papel do papel

Por Luiz Schwarcz

luiz-26

Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Vocês já sabem o que penso sobre o aspecto tátil do livro. Num dos primeiros posts desta série, falei sobre o momento em que um editor recebe o livro da gráfica e o cheira. Comentando sobre o carisma que os livros carregam, que deve ser respeitado quando se elabora uma capa, também destaquei o componente material da edição como parte fundamental do trabalho do editor. Na minha opinião, ao pensar no formato e no aspecto de um livro, estamos sempre tentando unir espírito e forma, de certa maneira por entender que o produto com o qual trabalhamos não é um objeto qualquer — ele permanece vivo e mutante mesmo depois de impresso.

Chego agora à questão que me foi colocada por Wellington Machado. Tentarei escrever algumas linhas sobre o papel do papel nas edições dos livros físicos, já que hoje convivemos também com o livro digital, aquele que liga no “on” do nosso tablet e some da tela sozinho quando vamos dormir. Aliás, é curioso pensar — e sem qualquer demérito para com as edições eletrônicas — que livro digital, imagino, cai menos da nossa mão quando adormecemos lendo. Suponho que por termos o costume de desligar o tablet ao finalizar a leitura — eu pelo menos desligo — a ocorrência de cair no sono com o livro digital na cama deve ser bem menor. Talvez terminamos a leitura do dia, quando utilizamos aparatos eletrônicos, mais despertos do que com o livro físico, com quem já nos acostumamos a passar a noite juntos.

Vários componentes do papel usado em um livro passam desapercebidos a muitos leitores, mas não são desimportantes. Creio que, dado o seu aspecto corpóreo, o livro físico valoriza mais essa relação carismática sobre a qual falei em outro post. Essa pode ser uma das razões de o hábito de ler edições no formato convencional ser tão duradouro, e o apocalipse do livro, como ouvimos dizer desde o advento do rádio, não ter acontecido como previam os mais chegados aos constantes temores com o final dos tempos.

Seguindo essa linha de pensamento, é interessante pensar em alguns aspectos materiais, por exemplo: por que será que, no contato com o livro físico, é tão melhor ler em páginas não tão brancas? Por que será que o toque com os dedos em um papel mais poroso cria uma sensação diferente para a leitura?

Recentemente lançamos o livro Viva a língua brasileira!, de Sérgio Rodrigues, e usamos um papel totalmente alvo, com a intenção de manter mais identificadas as cores das ilustrações em preto e laranja, que acompanham a edição. Ao receber o primeiro exemplar, confesso que tive um choque.

Desde o segundo ano da editora passamos a usar, de maneira crescente, o papel de cor creme, desenvolvido pela Suzano, em parte talvez devido a um pedido ou incentivo da Companhia das Letras. Naquela época eu já me incomodava com as edições brasileiras, todas impressas em papel offset convencional, onde as palavras vibram mais, devido ao contraste entre a tinta escura e a página tão branca. Nos outros países isso não ocorria. As edições em capa dura já há muito tempo eram impressas em papel de tonalidade creme, e os pockets usavam um papel-jornal mais caprichado, acinzentado. Sabe-se que o papel mais escuro, ou melhor, a diminuição do contraste entre papel e tinta que se dá com essa tonalidade, permite maior descanso para os olhos. Mas, para mim, não é só isso que ocorre. Ao marcar as páginas brancas com a tinta durante a impressão, aparentemente realizamos um ato definitivo. O que está impresso assim permanecerá para sempre, o que está dito não pode ser corrigido, apenas em uma futura edição, ou em um livro que contenha uma revisão das ideias expostas.

Nesse sentido, o preto no branco potencializa esse sentido peremptório inerente às edições físicas; o contraste exacerbado entre papel e tinta tem quase um toque de declaração, transforma o livro em statement, o que, no meu entender, está longe do ideal. Acreditar que algo escrito não passará por elaborações pessoais diversas ou imaginar que a página marcada pela tinta não será remarcada com a imaginação dos leitores é um erro típico de escritores donos da verdade, que querem permanecer senhores da sua própria criação. Embora a escolha do papel seja um atributo do editor, ele, o papel, de certa forma, representa os olhos ou a mente dos leitores, abertos para conhecer uma história ainda não contada. De alguma maneira, somos nós leitores os papéis em branco, é esta a posição na qual devemos tentar nos colocar previamente, antes de nos encontrarmos com a imaginação do escritor. Assim, um papel mais próximo da tinta, que diminua o contraste entre o que é dito e o que se espera ouvir, manifesta maior igualdade entre escritor e leitor, garantindo a harmonia necessária para que um livro solte também a imaginação de quem lê.

Seguindo a mesma linha, acredito que um papel poroso, menos liso e menos uniforme, tem também uma função importante. Ao tocarmos uma página antes de virá-la, sentindo na pele suas irregularidades, inconscientemente nos colocamos em contato com algo que pode mudar durante e após a leitura e lembramos que o livro traz imperfeições que o tornam mais humano.

Antigamente um livro tinha que ser aberto pelo próprio leitor com um cortador de páginas. Era necessário separar as páginas, uma a uma, já que estas vinham agrupadas, demarcando um trabalho final que cabia ao leitor, e não ao autor nem mesmo ao editor ou ao gráfico. Cada página trazia, assim, uma dimensão diferente, todas elas marcadas pela imperfeição do corte feito à mão. O livro visto de lado não era uniforme, cada folha tinha um tamanho, como que simbolizando as viradas de uma história e o percurso imprevisto da imaginação de quem lê. O livro apresentava-se como fisicamente mutante, nos intervalos assinalados pela mudança de página, se não a cada linha ou palavra.

Por vezes demoramos dias para voltar a um livro, e tudo que parecia imutável no papel mudou devido a uma nova condição do leitor ou da leitora. O desenrolar de um romance acompanha acontecimentos por vezes dramáticos em nossas vidas. Podemos começar uma história casados e terminá-la solitários, ou tendo nos despedido de alguém importante em nossa vida. Será que a página virada é diferente apenas pelo novo sentido agregado pelo autor, pela continuidade da história? Ainda hoje, algumas editoras americanas como a Knopf mantêm seus livros com acabamento irregular nas bordas das páginas, fazendo com que eles se assemelhem às edições que exigiam a abertura individual pelo leitor. Acho maravilhosos os livros que nos lembram desse tempo, que marcam fisicamente as diferenças que virão com a leitura, aos poucos.

Não quero dizer que o livro era irregular de propósito, para marcar o que imagino ser inerente ao ato da leitura, mas sim que esses sentidos poderiam ou podem ser atribuídos ao formato material de um livro, já que os símbolos não ganham existência por vontade ou intenção de alguém, mas pela riqueza espontânea de nossa vida interior e social.

Por tudo o que tenho dito neste espaço, é fácil verificar o quanto defendo o aspecto simbólico das edições, o quanto penso no livro como algo vivo, objeto de uma criação coletiva, que adiciona os leitores aos criadores originais, na posição mais igualitária possível. Se talvez os tenha cansado, caros leitores, com a repetição dessas ideias, com meu apego a detalhes aparentemente tão pequenos, peço que me desculpem. Não sei se as ideias começam a escassear, se esse espaço já começa a anunciar o seu próprio final. Quem sabe? Como editor, estou muito mais acostumado a ler do que a escrever. Por isso, por vezes me parece difícil ser sempre original ao tentar expressar o que penso. Sei, no entanto, que leio os livros como todos os leitores, de forma pessoal e única, assim como viro uma página tentando tirar dela o máximo que posso, acariciando o papel antes de me despedir dele, mesmo que por um brevíssimo instante, e assim partir para o que me espera logo a seguir.

* * *

Devido ao feriado do dia 12 de outubro, o próximo texto da coluna de Luiz Schwarcz será publicado na semana seguinte, no dia 19. 

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

Sopa de Eduardo Medeiros

Por Érico Assis

Processed with VSCO with hb2 preset

Sopa de salsicha, de Eduardo Medeiros, começa com o próprio e a esposa, A Baixinha, mudando-se de Porto Alegre para Florianópolis. Os dois estavam cansados da cidade onde nasceram e cresceram, cansados dos malucos dos prédio onde moravam, queriam uma sacada com vista para alguma coisa que não outro prédio e, como 98% dos gaúchos, queriam morar na grande praia gaúcha de Santa Catarina.

Quis o destino, uma proprietária autoritária e os advogados desta que, quando Sopa de salsicha foi lançado, com sua declaração de amor à tranquilidade que encontraram na Praia dos Ingleses, o casal não estivesse mais morando em Florianópolis. No início deste ano, eles voltaram para o Rio Grande do Sul. Mas não para Porto Alegre. Foram para Imbé, no litoral, quase no meio do caminho entre Porto e Floripa.

“Eu fui criado em Capão Novo, que é outra praia perto daqui”, Medeiros me disse numa conversa via Facebook, “e tenho uma relação de nostalgia que me agrada mais que a quase solidão que sentia em Floripa. Resposta meio fruta, mas é verdade.”

Sim, Floripa também estava cansando — como acontece com 98% dos gaúchos que vão para lá. Eles estão se adaptando à nova casa e gostam que a proximidade de Porto Alegre rende cerveja com os amigos da cidade natal. Mas a solidão não é necessariamente uma coisa ruim. “A característica do litoral gaúcho é de ter três meses de uma super população absurda de gente e nove meses de uma solidão até que boa”, escreveu ele em uma HQ recente.

* * *

GRAPHIC NOVEL é quando nós, artistas, fazemos histórias em quadrinhos com mais de 100 páginas, totalmente dedicadas a falar de nós mesmos e problemas mal resolvidos de nossas vidas”, Medeiros diz nas primeiras páginas de sua… graphic novel. Outras características da gréfic nóvel segundo o gréfic novelista: finalização com pincel para aumentar o status, contar tristezas e, se possível, falar de doenças para aumentar as vendas.

“Às vezes tenho a impressão que o termo graphic novel só é aplicado a um seleto time de artistas. Esses fazem graphic novel, os outros fazem quadrinhos”, Medeiros disse na nossa conversa. “Daniel Clowes faz graphic novel, o Zezinho faz HQ.”

Sopa de salsicha trata do problema mal resolvido de Medeiros com seus dreads (check), com gente que cospe na rua (check), com a sunga verde que seu pai marombado passou a usar depois do divórcio (check), parece finalizada em pincel (check), mostra receitas com banana (check) e fala de depressão (jackpot).

“Mas acho que é mais como o artista vende o seu material, né. Na real acho que é tudo pompa do artista mesmo. Não que aquele não seja eu, mas é tudo mais exagerado”, ele me diz na conversa. “Pelo personagem é uma graphic novel, mas por mim tanto faz, cara. Mesmo.”

* * *

“Perdi meu HD tem uns dois anos, quando caiu um raio na minha rua lá em Floripa”, ele conta. Algumas páginas se foram. Ele continua com alguns projetos que vem tocando desde antes do HD perdido. Neeb e Open Bar, duas HQs que publicou independente, vão ganhar continuação. Não me mande flores, colaboração com o escritor Paulo Scott sobre a história da banda DeFalla, terá 300 páginas — um terço está desenhado, mas ele quer redesenhar. E sua História mais triste do mundo deve ganhar versão ampliada e em inglês.

Publicar em inglês para chegar a outros mercados faz parte do seu plano de carreira. Ele já colaborou em um álbum lançado nos EUA (Mondo Urbano) e teve pequenas histórias na Marvel e na DC (a do Homem-Aranha é sensacional). Os dois amigos que ele mais cita em Sopa de salsicha, Mateus Santolouco e Rafael Albuquerque, estão ajudando no processo — também porto-alegrenses, eles trabalham exclusivamente para o mercado norte-americano.

* * *

“A internet cria essa ilusão de que tu tem muita gente acompanhando teu trabalho, mas a parcela de pessoas que realmente vê e comenta é muito pouca”, Medeiros diz. Cada comentário tem seu valor, porém: “As poucas resenhas que saíram foram ótimas, o que me deixou mais tranquilo, porque sempre bate aquela vergonha/incerteza que dá vontade de me esconder.”

* * *

Sopa de salsicha terá lançamento em Porto Alegre no dia 15/10, a partir das 14h, na Galeria Hipotética (Visconde do Rio Branco, 431), com participação do autor.

Eduardo Medeiros publica suas HQs mais recentes em http://sopadesalsicha.com/.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

Bem-vindos ao baile de máscaras

Por Ana Maria Bahiana

832495198_c7e4955f21

Eu prometi a mim mesma que não ia escrever sobre o Oscar. Porque é sempre um tema meio exausto, que se repete como Natal e Dia das Mães. E porque este ano estamos todos que nem as mulheres de Almodóvar, à beira de um ataque de nervos, emoções à flor da pele.  Então pronto, não vou falar sobre o Oscar — vou falar sobre a chuva de prêmios que vai começar em breve, e que significado e/ou importância eles tem além de nossas torcidas passionais.

Todo mundo gosta de torcer — todos temos alter egos onde colocamos nossas aspirações e desejos. O cinema vive em grande parte desse nosso impulso tão antigo quanto o teatro das arenas gregas: nossa vida nua não tem lá tanta graça mas, ah!, quantas portas se abrem com máscaras! Na nossa narrativa de plateia, esse monte de prêmios enfatiza essas paixões: queremos que as histórias/pessoas com que nos identificamos — nossas máscaras — saiam na frente, sejam laureadas (cobertas com coroas de louros ou, na falta destas, estatuetas douradas). Os programas de entrega de prêmios são chatos, arrastados, longos demais — não é à toa que sua audiência está em queda livre há anos. Mas ainda permanecem na casa dos milhões de espectadores, gerando uma mais que saudável receita de publicidade por conta de nossa alma de torcedores, curiosos para saber qual de nossas máscaras será glorificada desta vez.

Nesse momento faço um parênteses: eu entendo nossa frustração brasileira com o fato de nunca termos levado o mais dourado de todos os prêmios, o Oscar. É como, na minha infância, ouvir a litania de lamentações de meus pais e tios porque Frank Sinatra nunca tinha ido ao Brasil. Ao mesmo tempo desprezamos e queremos esse endosso, essa atenção, esse banho de ouro, esse dedo apontado dos céus, como no quadro de Michelangelo, dizendo: sim, aí estão vocês, em nossa imagem e semelhança, nós, o resto do mundo.

Como esse tal de cinema é complicado! Como ele é psicologicamente profundo, mexendo tanto com nossos desejos, com nossas angústias, as coisas não inteiramente resolvidas.

Objetivamente, um prêmio é só a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. É um registro tão emocional para quem vota quanto para quem acompanha e torce, e tem, no fim das contas, menos peso que a passagem do tempo. É a perspectiva das décadas que estabelece quem realmente deixa sua marca, muda o rumo, introduz novas ideias, novas técnicas, novos desafios, novas emoções. Que tal esta lista de 50 grandes filmes, cada um importante a seu modo, que jamais foram sequer indicados? Ou saber que Akira Kurosawa, Robert Altman, Stanley Kubrick e Jean-Luc Godard (entre muitos outros) jamais receberam um Oscar de melhor diretor?

Pronto, falei de Oscar.

Mudemos de assunto. Ou melhor: a grua sobe, temos agora um plano geral.

Do outro lado das emoções, angústias e vaidades, eis o poder que interessa na disputa desse monte de bibelôs dourados: a visibilidade que eles dão. Isso sim vale. Cada prêmio (e nessa leva estão também os grandes festivais) tem lá seu sistema para afunilar de modo administrável o vasto oceano da produção internacional (“internacional”compreendido como “o resto do mundo além do país que está dando o prêmio”).

Meu tempo de janela me diz que o real valor de se aventurar por esse mundo das premiações — onde a frustração é um prato muito mais frequente do que a deliciosa sobremesa da vitória — é a possibilidade de expandir as fronteiras do próprio cinema, chamando a atenção para realizadoras e realizadores trabalhando com outros idiomas, outras culturas, outras experiências, criando novas oportunidades para quem investe e quem precisa de investimento, gerando novas parcerias e novas colaborações. Cinema é caro e complicado — arriscar-se a colocar o fruto de tanto labor debaixo das lentes das escolhas alheias traz como compensação a abertura de portas que nem se sabia que existiam.

No final das contas, reduzido ao essencial, todo esse drama em torno de estatuetas e escolhas é isso: um baile de máscaras onde dançar é mais importante que ter o aceno do rei.

E sabem o que ainda é mais importante? Aquilo que a Argentina acaba de fazer, seguindo os passos da França: colocar a educação audiovisual no currículo da escola primária. Porque sem plateia não há cinema. E com uma plateia informada se faz sempre um cinema melhor.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
Twitter — Facebook