Colunistas

Escritores amarelos

Por Luisa Geisler

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Queria falar do Setembro Amarelo, um mês de conscientização e prevenção do suicídio, cujo slogan é “Falar é a melhor solução”. Segundo o site oficial, 32 brasileiros morrem por dia de suicídio, o que é um número maior do que o número diário de vítimas da AIDS e da maior parte dos tipos de câncer.

Suicídio é inclusive um dos “grandes” “temas” da minha “literatura” (muitas aspas). Em Quiçá, um adolescente falha na tentativa de suicídio, e isso é o gatilho pro desenvolvimento de uma história com ele e a prima de onze anos. Uma estudante universitária me questionou em uma aula na UCLA (beijos pro professor, José Luiz Passos, que lança livro novo por agora) a respeito disso. A partir de uma pequena writing sample, ela conseguiu ver uma predominância de doenças mentais, instabilidade psicológica, depressão, suicídio, temas que eu nunca tinha pensado como “meus” (mais aspas).

Por estar num contexto universitário, respondi algo bonito e pomposo: citei Camus, dizendo que suicídio é a grande questão filosófica do nosso tempo, que a questão de a vida merecer ou não ser vivida é uma pergunta fundamental da filosofia, blablablá. Fiz uma piadinha depois, porque é o eu que faço.

Mas eu não deveria ter dito nada disso.

Tudo bem, talvez devesse ter feito a piadinha.

Mas deveria ter falado da minha própria batalha com depressão, pensamentos negativos e especialmente suicidas, ansiedade, fobia social, ataques de pânico, síndrome de fraude, transtornos alimentares and all that jazz. Quando eu tinha nove anos, a psicóloga da família avisou minha mãe que eu era uma criança sensível demais e precisaria de acompanhamento pelo menos até o fim da adolescência. E escrever foi parte disso. Não foi consequência. Mas fez parte.

Existe uma certa aura em escritores que cometem suicídio, escritores doentes. Ernest Hemingway, Raymond Chandler, Sylvia Plath cometeram suicídio. A carta de Virginia Woolf é linda. No livro Although of Course You End Up Becoming Yourself, do jornalista David Lipsky, a narrativa de como teria sido o suicídio de David Foster Wallace é de chorar.

Existe um estereótipo do artista psicologicamente torturado, que sofre para e pela arte. Mas acontece que esse sofrimento não é bom para o artista. Depressão não é uma forma de inspirar literatura “de qualidade”. Depressão é querer parar de existir para que a dor vá embora. Na minha experiência, a depressão e capacidade criativa se opuseram na maior parte do tempo. Eu escrevo/escrevi apesar dela. Se questionar a respeito da grande questão do nosso tempo pode até ser interessante por um viés filosófico, mas é necessária muita energia para chegar à conclusão de que, sim, viver vale a pena.

Podemos discutir. Podemos discutir o privilégio da terapia, da análise, das drogas, do ato de escrever, do próprio fato de ser um depressivo funcional. Podemos discutir que nem todos chegam tão longe, não dá tempo, não tem dinheiro, fazer arte é um hobby (?). Podemos discutir que nem todos têm acesso. Podemos fazer piadas com o fato de tirar uma hora (ou mais) em horário comercial para discutir nossos problemas, veja só. Podemos discutir que (muitas linhas de) terapia pode até ajudar a criação literária, buscando sempre os porquês, os comos, fuçando e revirando tudo que aparece. Podemos discutir as medicações. Podemos discutir outra vez o caso de David Foster Wallace, que não conseguiu obter o mesmo efeito anterior de uma medicação. E sofria com isso. Não porque fosse um gênio torturado, mas porque sofria. Podemos discutir se ele trocaria todos os livros escritos e publicados e o “sucesso” por um momento só. Um momentinhozinho só.

Sim, podemos.

Mas existem pessoas mais qualificadas que eu para todos esses tópicos. Existem textos mais bem-escritos. A própria carta da Virginia Woolf. A própria cena narrada pelo Lipsky. Assim como nas semanas de orgulho LGBT, é importante sair do armário, é importante não ignorar o tópico. É importante falar a respeito. Então saio do meu armário aqui. Para ser honesta, eu não sei qual é a cura para desejos suicidas. Ainda os tenho. Eu só queria escrever sobre o Setembro Amarelo, com seu slogan “Falar é a melhor solução”. Não sei se é. Talvez escrever seja.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

A elegância é a alma do negócio — ou o borzoi que foi criado por um imperador vienense e acabou nas mãos do silencioso guru indiano das edições

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42A lendária editora americana Alfred Knopf comemorou seu centenário em 2015. Como parte das celebrações, produziu um livro no qual consta uma lista completa com todos os títulos editados pelo selo, ano a ano. Na introdução, Charles McGrath — ex-editor da seção de livros do The New York Times e atual colaborador da New Yorker — fez um perfil, independente e isento, da editora.

Para mostrar como na época da fundação da Knopf os tempos eram outros, McGrath lembra o leitor da ausência de paperbacks, clubes de livros, cadeias de lojas e de qualquer tipo de edição eletrônica. Ele chama a atenção para o fato de que os livros eram todos compostos a partir de linotipias em metal, impressos em máquinas offset não digitalizadas e costurados, nunca colados. Também não havia leilões ou disputas entre editoras pelos direitos de um livro, até porque, para ser apresentado a mais de um editor, o manuscrito teria que ser todo redatilografado, já que ainda não era possível fazer múltiplas cópias dos originais.

Assim, diz ele, o mundo da edição era povoado por gentlemen — o que significa que as regras de competição entre as editoras eram menos selvagens e que as mulheres não eram muito bem-vindas, a não ser ocupando cargos menores na hierarquia. Além disso, se no início do século XX um judeu almejasse trabalhar no mundo dos livros, sobretudo em algum posto de direção, teria que montar sua própria editora.

Após ter se graduado pela Universidade Columbia, onde entrou com apenas dezesseis anos, Alfred Knopf começou sua vida editorial trabalhando na Doubleday, primeiro no setor de contabilidade e posteriormente no de propaganda e divulgação. Saiu de lá aos 22 anos e com cinco mil dólares no bolso para fundar a sua editora.

A Alfred Knopf publicou, durante muitos anos, mais autores estrangeiros do que norte-americanos, escolhidos por ele e por sua assistente editorial, Blanche Wolf, que depois de um tempo se tornaria Blanche Knopf. A escolha, aparentemente esnobe, dos livros que formaram o catálogo inicial da Knopf se devia muito ao gosto dos dois, principalmente ao de Blanche, mas também pode ser explicada por um motivo mais mundano. Com o antissemitismo reinante na sociedade americana da época, poucos autores nascidos no país aceitavam ser publicados por uma editora cujo dono era judeu. (É curioso notar que na biografia de Blanche Knopf*, recém-lançada nos Estados Unidos, esta aparece como cofundadora da Knopf, a quem foi prometida participação igualitária nas ações da companhia, tendo por fim recebido apenas 25%.)

Alfred Knopf era um editor peculiar. Com seu moustache proeminente, vestia-se como um dândi, sempre com ternos de seda e gravatas muito coloridas. McGrath diz que John Updike, de quem Knopf, com o tempo, ficou muito amigo, descrevia o editor como um misto de imperador vienense com pirata bárbaro. Pois o “pirata bárbaro” não gostava de livros que deveriam ser editados fortemente, desprezava, de certa forma, o trabalho de edição de texto, e achava que os editores eram pessoas que costumeiramente compravam direitos de livros que ninguém queria ler. Knopf em geral seguia as escolhas de sua mulher e indicações de amigos, como o sarcástico crítico cultural H. L. Mencken. Os releases escritos por ele mesmo para os livros que publicava soavam muito mais como “malhos descarados” de um gerente comercial do que sinopses editoriais. Aliás, ele mesmo gostava de vender os livros para parte dos clientes.

O imperador vienense mostrava-se presente no gosto acentuado pelo design gráfico, mais especificamente pela arte tipográfica. Parecia querer vestir seus livros tão elegantemente como ele próprio julgava trajar-se no dia a dia. Curiosamente, o terceiro e atual publisher da casa, o indiano Sonny Mehta, conhecido por sua extrema discrição, um dia ganharia menção como um dos homens mais elegantes de Nova York. Justamente Sonny, que trabalha quase sempre com o mesmo uniforme: calça jeans, tênis preto, blazer azul e suéter preto de gola rolê.

McGrath comenta, com muita graça, que Sonny, que não liga para moda ou qualquer tipo de badalação, ganhou justamente o prêmio que mais encantaria Alfred Knopf e que este nunca viria a receber.

O amor pela tipologia e pelo acabamento sofisticado nas impressões, associado às relações íntimas de Blanche Knopf com escritores europeus, como Albert Camus e Thomas Mann, fará com que Alfred consiga criar uma das marcas mais perenes de qualidade da história editorial de todos os tempos. Vem de Blanche também o interesse da Knopf por autores latino-americanos, como Gilberto Freyre e Jorge Amado, que acabou se tornando amigo do casal. A edição da única tradução de Grande Sertão: Veredas para a língua de Henry James também entra na conta dos méritos do casal Knopf, embora, segundo dizem, ela esteja longe de fazer jus ao original.

É justamente neste ponto que o exemplo da Knopf é singular. Seu proprietário respeitava tanto a aura gráfica dos livros — que venerava tátil e esteticamente —, quanto tinha noção de que através desse cuidado conseguiria fixar uma marca para sua empresa, fazendo que autores e leitores diferenciassem seus livros dos outros disponíveis no mercado. Buscava assim que os escritores escolhessem a Knopf, principalmente por conta do tratamento gráfico que a editora lhes proporcionava. O mesmo valeria para os leitores, que diferenciariam os livros bonitos e bem cuidados que exalavam um espírito de qualidade e se destacavam nos balcões das lojas e magazines. Curiosamente, os livros americanos, por tradição, não trazem o logotipo da editora nas capas, apenas na lombada e dentro dos livros. Mesmo assim, o cuidado gráfico de sua linha era tal que a marca da Knopf na capa tornava-se quase dispensável. E, de fato, os borzois — os esguios e elegantes cachorros russos, xodó de Leon Trotsky — que compõem o símbolo da editora nunca simularam caminhar elegantemente sobre as capas, apenas na lombada ou dentro dos livros.

Alfred Knopf, assim como Allen Lane — fundador da Penguin, cuja história já contei em outro texto —, tinha a clara noção de que precisava de um logotipo forte. Knopf seguiu a sugestão da esposa. Anos depois, Blanche chegou a comprar um casal borzoi, para tê-los também em sua vida doméstica. Segundo McGrath, o casal ficou com os animais por pouquíssimo tempo. Alfred e Blanche acharam que os cachorros tinham um comportamento covarde, estúpido e desleal. Curiosamente, a fidelidade que o editor conquistou para a sua marca foi adquirida utilizando a imagem de um animal que, com a convivência, lhe pareceu tudo, menos fiel.

Um aspecto muito importante para entender a personalidade da editora Knopf e a fama que mantém por mais de um século está no fato de a editora ter sido dirigida até hoje por somente três publishers: Alfred Knopf, Robert Gottlieb e Sonny Mehta. Do dândi fanático por tipografia, a editora passou às mãos de um editor excêntrico e dinâmico. Vindo da Simon and Schuster, Gottlieb agia por intuição, fazia reuniões deitado no chão, de meias, e pouco ligava para encontros ou trajes formais. Foi o escolhido para substituir Alfred Knopf no ano de 1972, quando a editora já pertencia ao grupo Random House. Extremamente centralizador, Gottlieb tinha um carisma diverso de seu antecessor. Falava muito nas convenções de venda e era conhecido por sua capacidade de convencimento. Tinha excelente relação com as maiores agências literárias, que muitas vezes escolheram a Knopf para seus autores mais importantes, graças ao contato próximo com seu publisher.

O indiano Sonny Mehta, atual diretor da Knopf, radicalizou as diferenças de estilo ao operar as engrenagens da editora com o uso de poucas palavras e de um estilo definitivamente antissocial. O carisma de Sonny Mehta vem do seu profissionalismo, assim como de seu silêncio.

A verdade é que, com estilos radicalmente diversos, os três editores souberam manter a aura que caracteriza a Knopf. O estilo dos publishers pode ter mudado, mas a marca da Knopf continuou intacta. Alfred gostava de chamar a atenção para seus trajes e gostos sofisticados — dizem que, ao convidar alguém para jantar em sua casa, pedia abstinência de cigarro por 24 horas para não prejudicar a degustação dos vinhos a serem servidos. Gottlieb, por outro lado, era informal, mas muito controlador. Já Sonny valorizou o silêncio e a introspecção, com enorme respeito à liberdade de seus editores. Na sua gestão, a Knopf voltou a elevar a criatividade gráfica, com designers de ponta, como Chip Kidd, entre tantos outros. Sonny, que se mudou para os EUA e assumiu o cargo na Knopf depois de ter realizado enormes mudanças no mercado inglês de paperbacks na Picador, é hoje uma lenda viva do mundo editorial. Como Alfred Knopf, um dos seus maiores prazeres é se dedicar à capa dos livros. Com ele, tive a sorte de criar uma amizade enormemente instrutiva para mim.

Assim, é curioso notar que o respeito ao design é algo que liga Alfred Knopf e Sonny Mehta. Ambos entenderam que o livro é um objeto com alma e carisma, um produto com personalidade singular.

Se a composição das marcas editoriais na Europa deu-se principalmente pela formação de catálogos literários fortes, de qualidade radical, como é o caso da Gallimard, da Suhrkamp ou da Adelphi, nos Estados Unidos a base literária para a constituição da fidelidade do autor e do leitor pode ser mais fluida. Na Knopf, a convivência de livros mais comerciais ao lado dos de maior peso literário nunca afetou a legitimidade da marca. Mas também entre os europeus, principalmente no caso da Suhrkamp, o design gráfico contribuiu fortemente para o carisma da empresa. Adelphi e Gallimard marcaram padrões gráficos fortes em suas capas, que são facilmente identificáveis em seu estilo, porém não especialmente bonitas ou criativas. A vanguarda que está nos textos nem sempre se espelha em capas especiais.

Um livro se lê, mas também se toca, se cheira, se guarda. O gosto por ternos de seda de Alfred Knopf explica por que ele cuidava de seus livros com tanto amor e vaidade. Já no silêncio e na elegante discrição de Sonny Mehta encontra-se outra explicação para a valorização do design. Como se para ele um livro devesse falar por si, com menos malhos de venda verbais e mais comunicação visual direta com o leitor. Essas são abordagens diversas, que levam, porém, a um resultado semelhante e explicam a alma da editora, que permanece intacta. Não há um só caminho para a confecção de livros de qualidade, mas todos eles passam por um componente fundamental de seus editores: a elegância, na mais ampla acepção do termo.

* * *

*Nota : The Lady with the Borzoi: Blanche Knopf, Literary Tastemaker Extraordinaire, de Laura Claridge. Farrar, Straus and Giroux, 2016.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

Ritmo circadiano

Por Carol Bensimon

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Não sei se um dia vou deixar de olhar com inveja para os que escrevem de noite e seguem madrugada adentro, ouvindo eventualmente um gato no cio, um bêbado atravessando a rua ou nem isso. Talvez eu ainda me deixe ser seduzida pela imagem fácil do “artista”, esse que deve ser o contrário de tudo; ficar acordado quando os outros já estão dormindo há muito tempo, etc. Nunca consegui. Meu corpo parece se regular de acordo com a luminosidade. Desconfio, às vezes, de que tenho um parentesco com as plantas. Quando o sol cai, quase dá pra sentir a energia indo embora.

Ao mesmo tempo, me pergunto o quanto há de social em nossos hábitos de sono. Agora estou em um lugar cuja diferença de fuso com o Brasil é de quatro horas (para menos) e, como vivo de certa forma isolada, sem muito contato humano e longe de qualquer centro urbano que se regule por horários bem determinados, me parece que acabo vivendo uma mistura de horário-do-Brasil com aquela regulagem ancestral pela luminosidade. Curioso.

Então fui ler um pouco sobre isso. Esse artigo publicado pela BBC questiona a suposta naturalidade de nossas almejadas oito horas seguidas de sono. Segundo uma exaustiva pesquisa do historiador norte-americano Roger Ekirch, o homem, sobretudo até o século XVII, costumava ter seu sono dividido em duas porções. Entre elas, era comum que as pessoas levantassem da cama, rezassem, conversassem, fizessem sexo ou visitassem os vizinhos. Há inclusive um trecho de Dom Quixote ilustrando isso! Ekirch parece acreditar, portanto, que nossas desejadas oito horas de sono são menos um chamado da biologia e mais uma construção social que nasce a partir da modernidade. O artigo também coloca que muitos problemas relacionados ao sono teriam surgido a partir do século XIX, com o fim definitivo do sono em duas porções distintas. Russell Foster, professor de neurociência circadiana em Oxford, e Gregg Jacobs, psicólogo especialista em sono, acreditam que hoje as pessoas ficam estressadas e ansiosas quando acordam no meio da noite, quando o fato pode ser apenas um resquício de um hábito que nos acompanhou por séculos e séculos. Não deveria, em suma, ser tão preocupante assim.

Também descobri que, só em 2005, os hotéis americanos gastaram 1,4 bilhão de dólares em colchões!

O mesmo artigo do Huffington Post que me dá essa informação perturbadora também me mostra que o mundo nunca se interessou tanto pelo sono. O investimento em colchões do ramo hoteleiro deixa isso bem claro, sem dúvida, mas também o número de pesquisas na área e tudo que se tem demonstrado através delas: que um bom sono, em resumo, é essencial para a saúde e para a produtividade de nossas horas de vigília. Fica, no entanto, um necessário alerta: não estamos mercantilizando o sono, vendo nele uma “utilidade”, como fazemos com alimentos ou com praticamente tudo em que encostamos a mão e pesquisamos pesquisamos pesquisamos?

“Queremos dormir mais não porque valorizamos mais o sono em si”, escreve Eve Fairbanks, “mas porque estamos obcecados com produtividade. Em vez de ser uma terra estranha e selvagem cujo propósito não entendemos totalmente, o sono foi colonizado por nossa ambição, tornando-se apenas mais uma zona a ser domesticada em nome da produtividade.”

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Em tradução (Tim Minchin)

Por Caetano Galindo

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Tim Minchin é um gênio. Pronto. Ponto. Taí.

Ele toca um piano do demônio, canta direitinho (toca o piano do demônio ENQUANTO canta direitinho! Veja lá em “Mitsubishi Colt”, por exemplo), escreve letras com umas sonoridades que não ficam devendo nada aos bons rappers, compõe umas harmonias e umas melodias pra lá de lindinhas e… como se não bastasse isso tudo, é engraçado pacas.

Minchin, que é australiano, é representante de uma tradição bem forte no mundo anglófono (que vem forte desde Gilbert & Sullivan) e que aqui, fora, sei lá, o Juca Chaves, nunca teve muito gás: o cantor-cômico ou comediante-cantor. Longe da baixaria Mamonas Assassinas (sim, eu sei, eles morreram novinhos e isso é mega triste: não, isso não faz eles terem sido menos bostas), sofisticado pacas, em todos os níveis. E, no que me interessa aqui, um excelente exemplo de intraduzibilidade. Só pra mostrar que não precisa ser poesia hermética torre de marfim pra ser impossível, só pra dar um exemplo mais a fundo de uma coisa que eu já mencionei aqui também, que é o fato de que tudo se aproxima do intraduzível quando um texto tematiza a própria realidade, a própria materialidade da língua em que ele está escrito.

Vou dar uns exemplos a partir de uma única música (tem no youtube, claro), chamada “Prejudice”. Preconceito.

É fucking brilliant.

Dizem que ela existe porque Minchin usava demais a palavra nigger no palco e, como se sabe: não rola. Você tem que ser membro da comunidade em questão pra usar sem problema. É como, sei lá, bicha?

A música começa com uma discussão sobre palavras tabuizadas e diz que uma delas, de apenas seis letras, tem mais poder que as espadas…

Aí ele soletra, e diz que a palavra em questão tem dois Gs, um I e um E, um R e um N… ele parece estar dançando em volta do tabu…

(Não vou nem mencionar que ele diz “a couple of Gs” e aí segue com “Jees”…)

E aí, depois de já quase três minutos de música e de suspense (será que ele vai dizer a palavra!), ele entra num groove mais funkeado no piano, começa a soltar uns yeah, uh, meio de rapper e se prepara pra atacar o refrão, que diz…..

Only a ginger can call another ginger ginger!

Ou seja, só um ruivo (como ele!) pode chamar um ruivo de ruivo. Porque, claro, agora você se dá conta, ginger é um anagrama perfeito de nigger.

E aí ele entra numa série louquíssima de piadas e trocadilhos com ruivos (os ruivos são espertos, diz ele, porque são “well read, o que só funciona graças à homofonia entre lidos (read) e vermelhos (red); ele menciona os riscos da gingervitis, trocadilhando com gengivite, sendo que, claro, gengivas são “ginger” )… sério, é hilário e denso demais pra analisar tudo de uma vez aqui.

Mas, além desse detalhe totalmente intransponível na brincadeira ginger/nigger, quase no fim da música, quando o “suspense” meio que tinha deixado de existir (ele adora guardar esses “presentinhos” pro fim das músicas), ele vem com a ideia de que só os ruivos podem se chamar de ruivos, exatamente como only a ni… e rola uma prolongada nessa vogal… e você fica “pô, agora ele vai dizer!” e o verso termina sendo “só um ninja consegue pegar outro ninja desprevenido”.

Sem nem contar que, na pronúncia de um australiano, ninja rima perfeitamente com ginger.

Já imaginou traduzir?

E fazer caber na métrica?

E arrumar um ruivo pianista endiabrado pra cantar?

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Fogo

Por DW Ribatski

Não posso dizer que fiquei leve ao fazer essa HQ, mas algo urge em sair FORA, certo?

DWR.

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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