Colunistas

Em tradução (Joyce)

Por Caetano Galindo

5412968573_eca125958c

Recentemente eu li o belíssimo romance The Crimson Petal and the White, de Michel Faber. Na semana anterior eu tinha lido The Book of Strange New Things, que me deixou encantado. Aí li correndo Under the Skin e depois encarei o romanção histórico. Sabe como, né? Quando você quer ler tudo de um autor.

Depois de terminar o Crimson Petal, eu descobri que ele tinha escrito alguns contos, de início pra aquietar os leitores que queriam um “volume dois”. São contos com personagens do romance, às vezes em momentos anteriores, às vezes depois da ação descrita ali. Até o destino da personagem principal, a prostituta Sugar, fica mais ou menos iluminado.

Me deu vontade de sair recomendando pra tudo quanto é autor bom esse negócio de reaproveitar as personagens.

Claro que Balzac meio que inventou o jogo, nem que pra isso tivesse, como teve, que mudar o nome de personagens de obras já publicadas anteriormente. Claro que Shakespeare (Henrique, Falstaff) tinha feito isso antes. Claro que Conan Doyle fez Sherlock Holmes virar grife. Claro que, no Brasil, Rubem Fonseca já brincou disso, Dalton Trevisan e, mais recentemente, Cristovão Tezza com a sua Beatriz, que já esteve em dois livros (um romance e um de contos) e deve voltar em novo romance este ano.

E em todos esses casos me parece que a gente encontra uma maneira bem poderosa (talvez precisamente por ser “fraturada”) de conhecer mais a fundo aquelas personagens… Uma maneira que, no nosso tempo obcecado por séries de televisão, me parece ter alguma coisa a ver com a dinâmica da “longa duração” dessas narrativas que duram 5, 7 anos…

Curiosamente, Joyce também participou da brincadeira.

Claro que ele foi diferentão, e fez a coisa ao contrário. Se tivesse escrito o Ulysses e aí saído reaproveitando as personagens, tudo bem, a gente estaria em casa. Mas o que ele fez foi escrever seu grande romance usando como protagonista o herói de seu romance anterior, Um retrato do artista quando jovem, e usando como figurantes, ou pessoas mencionadas de passagem, cerca de trinta personagens de seu livro de contos, Dublinenses.

Os três livros foram publicados num intervalo de oito anos. Para o leitor de hoje, no entanto, que pode ter os três à mão ao mesmo tempo (aguardem a minha tradução de Dublinenses!), eles podem funcionar em qualquer ordem.

Como os dois livros menores são em alguma medida “mais simples”, é normal recomendar que eles sejam lidos antes. Mas a experiência de usar os dois como “consolo” depois do fim do Ulysses, mais ou menos como eu fiz com os contos do Faber, também é muito interessante…

No caso de Um retrato… que será lançado este mês aqui na Penguin-Companhia, o que rola é uma verdadeira explosão das ideias que o leitor elabora a respeito de Stephen Dedalus durante o Ulysses. Como eu acho que já disse aqui, depois de traduzir e anotar o Retrato, depois dessa leitura “funda” que é a tradução, cada vez menos me parece que ele seja um livro que “prepara” o Ulysses: ele é efetivamente a primeira parte do Ulysses, que, na medida em que seja possível, fica “mais perfeito” se lido junto com seu irmão “menor”.

Menor?

Bom… não é crime ser menor que o Ulysses.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
Twitter

O Cara do Norte

Por Carol Bensimon 

7627166006_8efa32af85

Dá pra dizer que eu conheci esse cara através de uma lesma chamada banana slug. Ele devia estar com insônia um dia, lá sozinho numa propriedade no norte da Califórnia, pegando uma rádio distante numa caixinha de som meio fodida enquanto os pinheiros descansavam em pé. Ele tinha que levantar junto com o sol, mas não conseguia dormir, então ligou o gerador (não havia luz na propriedade) e ficou olhando uns sites. Como ele andava pensando naquelas lesmas que parecem bananas — elas meio que estavam por tudo, empenhadas em decompor folhas e restos de pequenos animais no grande tapete que era a floresta — ele acabou topando com as fotografias de um cara chamado Hans. Hans morava umas três horas mais ao sul, em Albion. Ele também tinha fotografado a lesma amarela.

Uma mensagem minha, provavelmente cheia de erros de inglês, estava no mural do site de Hans. Ele era algum tipo de artista que aparentemente ganhara algum dinheiro, embora não estivesse claro se isso tinha relação com sua arte ou se ele era apenas um herdeiro com pendores criativos. O fato é que ele comprara uns sei lá quantos hectares de terra onde antigamente havia um comunidade hippie chamada Little Creek Farm. E ele estava a fim de deixar aquilo tudo tinindo de novo, as cabanas com formatos estranhos que se erguiam respeitosamente no meio do mato. Dizia que aquele seria um lugar para artistas. Eu queria escrever meu próximo livro lá.

Hans não me deixou ficar em Little Creek Farm, mas eu acabei conhecendo o Cara do Norte — tudo por causa do banana slug. O Cara do Norte amava o Brasil. Quando fui para a Califórnia, a gente se encontrou em uma cidade chamada Arcata. Tanto eu quando ele dirigíamos carros velhos de cores improváveis. Demos um tempo em Arcata e depois ele disse para eu desligar o GPS e seguir o carro dele. Andamos por um bom tempo entre as montanhas. Eu jamais conseguiria chegar àquele lugar de novo, sabia disso. Acho que em vinte minutos paramos na frente de uma cerca de madeira sem vãos, exatamente igual a de todas as propriedades dos arredores. O Cara do Norte colocou o carro para dentro e sinalizou para que eu deixasse o meu ali fora. Era um trambolho que eu tinha alugado de um amigo. Eu acabei me afeiçoando a ele. Uns meses depois, meu amigo vendeu o carro para uns mariachis de Los Angeles.

Difícil dizer quantos pés de maconha havia lá dentro. 500? 600? Cada um deles era mais alto que eu. Ele me mostrou uma tirolesa que usava para ir de um lugar pro outro. Eu não quis usar a tirolesa. Havia umas pedras empilhadas em uma clareira, num equilíbrio meio mágico. Parece que aquilo era algum tipo de prática zen. Nós jantamos comida pronta de um supermercado orgânico enquanto o sol se punha sobre as plantas. Ele disse que tinha uma arma. Precisava ter. Lembro de mostrar pra ele uma banda americana que eu gostava e, coincidentemente, a primeira faixa do disco tinha o nome da cidade natal dele, um lugar não muito importante lá do Meio Oeste. Ele me deu um monte de camarõezinhos das suas plantas em um velho pote de geleia.

Isso não é ficção. Isso é o que acontece no meio do mato no norte da Califórnia.

O Cara do Norte me contou duas histórias que eu guardei. Ele disse, andando pelas ruas de Arcata, que alguém uma vez tinha feito um experimento com minhocas da Austrália. Levaram as minhocas para outro continente e, monitorando as minhocas, descobriram que elas entravam debaixo da terra e tentavam encontrar o caminho para a Austrália. E elas estavam certas. Estavam indo na direção da Austrália mesmo, embora não soubessem que havia todo um oceano para cruzar. Ele chamou aquilo de “earthworm antenna”. O instinto de encontrar o caminho de casa. O Cara do Norte achava que as pessoas tinham uma coisa daquelas também.

A outra história era sobre redwoods, as sequoias avermelhadas da região. Ele disse que uma árvore nunca tocava na outra; que elas respeitavam suas irmãs, era só eu reparar, os galhos nunca se tocavam, o que devia servir de lição para todos nós, etc. Por aqueles meses, eu fiquei cuidando isso cada vez que estava na floresta e olhava para cima. Parecia fazer sentido mesmo. Mas nunca achei sequer uma informação sobre o GPS interno das minhocas ou o imenso respeito das redwoods pelas suas iguais. Gostei das histórias mesmo assim. No fim da viagem, dei aquele pote de geleia quase cheio para uma menina desconhecida em um estacionamento de San Francisco. Era noite de Halloween e foi bonita a cara que ela fez, como se houvesse algo de milagroso naquele meu gesto.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

O machete

Por DW Ribatski

Este conto faz parte do livro 50 contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson.

Machadão é um dos meus autores favoritos, e este conto que abre a coletânea é muito interessante pela contemporaneidade que exala. A mulher do tocador de violino erudito o larga pelo tocador de machete (cavaquinho). O tema, que poderia ter tom chistoso, é retratado por ele de uma forma amargurada, na perda de espaço e voz do antigo com a chegada do novo. A história é uma boa analogia, se pensarmos, da chegada do funk carioca como forma muito mais popular que o samba e o pagode, por exemplo.

omachete_dwribatski_ciadasletras_baixa

Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer — ou um tempo à toa na estação de trem

Por Luiz Schwarcz

luiz22

Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42A brincadeira que fiz no fim da minha participação num encontro de editores da Penguin, quando perguntei se no ano seguinte poderíamos falar também sobre livros, ecoa o conflito que caracteriza a vida do editor, muitas vezes sobrecarregada por questões comerciais ou financeiras. Quando percebo o quanto os números tomam conta do meu dia a dia, e quantos exercem a profissão sem o mesmo apreço pelos momentos de leitura, sinto o senso crítico aflorar e repenso se gosto mesmo da profissão que escolhi. Em momentos de inconformismo já me peguei falando comigo mesmo, criticando colegas com a frase mais devastadora que posso dedicar a um profissional do mercado editorial: “Ele(a) não gosta de livros”. Nesses casos, sinto que essas pessoas, que acabam por merecer o meu desprezo, trabalham com livros pelo seu glamour, mas não se encantam com seu conteúdo. É comum nessas ocasiões que eu continue meu diálogo interior raivoso, impensadamente, em tom cada vez mais acusatório: “fulano não é de fato um editor, é um simples comerciante!”.

Porém nada poderia ser mais preconceituoso do que essa frase, da qual eu deveria me envergonhar. Só o cansaço oriundo de uma rotina difícil, principalmente em tempos sombrios, justifica que ela seja sequer pensada. Afinal, o tino comercial que há em cada editor é absolutamente fundamental para o bom exercício do trabalho no ramo e dignifica nosso cotidiano. O fato de a carreira de editor possuir um lado intelectual, de estarmos nas bordas da arte ou acompanhando o labor criativo de escritores, não permite que nos esqueçamos de que nossa função primordial é intermediar autores e leitores, e que essa intermediação ocorre por meio do mercado, do comércio, todos os espaços distantes do universo artístico.

Assim, é interessante notar que enquanto há editores que se destacaram por serem leitores extraordinários, outros serão lembrados por suas inovações mercadológicas, dedicando-se pouco aos textos ou ao acompanhamento da criação autoral. E não há problema algum em nenhuma das duas escolhas.

Esse é o caso de um dos maiores heróis do mercado editorial de todos os tempos chamado Allen Lane, o criador da Penguin e grande responsável pela existência dos livros de bolso como são conhecidos hoje. Lane era conhecido como um homem que lia muito pouco e quase nunca chegava ao final dos livros que começava. Não tinha interesse em outras áreas artísticas, era indeciso e pouco ligado em números ou relatórios gerenciais. No The Book of Penguin (editado institucionalmente em 2009 pela empresa que Lane fundou), seu criador aparece como um homem de enorme energia, obcecado, predestinado e detalhista. Era muito mais um empreendedor do que um intelectual, mas sabia se cercar de pessoas brilhantes na área editorial. Teve a ideia de criar a Penguin em 1935, supostamente numa estação ferroviária, à espera de um trem que atrasou. Interessado em comprar alguma coisa simples para ler e matar o tempo, percebeu que não havia livros baratos nos quiosques. Então, por que não criar uma linha de publicações com este fim?

Ao voltar a sua cidade, propôs um brainstorming no seu escritório em busca de um símbolo para a marca de livros baratos que queria lançar, dizendo de saída que preferia nomes de pássaros. Foi a sua secretária quem perguntou, de supetão: “Por que não um pinguim?”. Lane ouviu a sugestão e imediatamente enviou um funcionário do departamento de arte para o zoológico, a fim de que rabiscasse sketches do simpático animalzinho alvinegro.

Por trás de tudo isso estava a convicção de Lane de que no período entre guerras as pessoas gostariam de comprar livros baratos, que coubessem em seus bolsos e que tivessem um design moderno e atraente. Para ele estava claro que precisaria de uma marca forte, seguindo os caminhos da sociedade industrial do início do século XX. Allen Lane possuía concepções modernas de marketing, muito adiante do mercado de sua época.

Ele não foi o criador do livro de bolso, já existente desde o século XIX, mas o idealizador de seu formato contemporâneo — que não devia custar mais do que um maço de cigarros e atingir um grande número de leitores, mas sempre com qualidade e substância. Para que o modelo desse certo, ele teria de conseguir comprar por um preço baixo os direitos de republicação dos livros já lançados em capa dura; isto é, pagando um royalty bem inferior ao da primeira edição. Mesmo assim, com o preço baixíssimo que ele buscava alcançar, o breakeven para que as edições fossem lucrativas era muito alto para a época, ou seja, a Penguin só teria lucro a partir de um mínimo de 18.000 exemplares vendidos. Todos consideraram a aposta inviável, menos Lane. A reação inicial do mercado foi negativa, com editores, livreiros e autores se posicionando contra o barateamento dos livros. A voz discordante foi, como sempre, a de George Orwell, que disse: “Esses livros possuem um grande valor para o preço de 6 pence. Se os outros editores fossem espertos, se juntariam para enfrentá-los e derrubá-los”.

A surpresa foi grande quando o breakeven foi superado logo de cara, com uma compra de 63.500 exemplares por parte de uma grande rede de livrarias. O primeiro livro da Penguin foi Ariel, de André Maurois. Em 1937 passaram a fazer parte do projeto as obras de não ficção, através do selo Pelican, e mais à frente a linha infantil, pelo selo Puffin. No mundo do pós-guerra, o interesse por educação a preços acessíveis cresceu muito, como Lane previra, e assim sua aposta continuou dando certo e passou a se multiplicar. A conquista do mercado mundial em língua inglesa não tardou, tendo Lane mudado os escritórios da Penguin para próximo do aeroporto de Heathrow, até por conveniência operacional.

Na história de Allen Lane e da Penguin podemos ver como grandes editores por vezes são mais inovadores empresariais ou culturais do que companheiros artísticos dos autores. Caio Graco Prado, com quem aprendi o meu ofício, era parecido com Lane, embora fosse também um editor, que, ao contrário do criador da Penguin, ocupava-se sobremaneira com a leitura. Como Lane, Caio tinha um instinto empreendedor aguçado, em seu caso particularmente aliado ao interesse pela participação política. Sua vida de editor e o empenho pessoal devotado à abertura democrática brasileira caminharam juntos. Numa reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), nos tempos da ditadura, Caio sacou que havia um público jovem de peso ao lado dos intelectuais, o que transformava esse tipo de encontro em uma espécie de manifestação pela abertura democrática. Percebeu, além disso, que esse mesmo público emergente ansiava por leituras acessíveis, devido à lacuna de formação política e cultural existente nos currículos da grande maioria das escolas na época da hegemonia militar. Comprou os direitos de uma coleção intitulada Biblioteca de Iniciación Política, por sugestão de um amigo exilado na Espanha, da qual se originou a Coleção Primeiros Passos. Eu ajudei na confecção final da série brasileira, formando uma dupla com Caio, o verdadeiro empreendedor e inovador. Nesse sentido, encaixo-me mais no caso do editor que atua nos inúmeros detalhes que formam um livro, e menos nas grandes sacadas e inovações que movem o mercado para novos patamares. Eu tinha, é verdade, longas discussões com ele por ocasião das leituras dos livros que compartilhávamos, ou mesmo sobre a confecção dos produtos que fomos criando em dupla. A minha maior especialidade como editor sempre esteve nos infinitos detalhes de texto e no acabamento do livro.

Mas é bom dizer que, ao contrário de Lane, Caio Graco era um profissional que intervinha na redação dos livros. Nossos critérios aos poucos foram se distanciando, e nem sempre líamos os textos com olhares semelhantes. Ainda assim, aprendi com ele a ter o desprendimento de me colocar como leitor privilegiado, como companheiro, comparsa ou cúmplice dos autores, e falar com estes com total sinceridade. É claro que tento dosar a franqueza com certa diplomacia, mas é comum um autor estreante na Companhia estranhar o volume de questões e a forma direta com a qual tento expor minha visão dos textos. Devo ao Caio mais essa lição.

Allen Lane e Caio Graco, cada um a seu modo, e com abrangências diferentes, fizeram o mercado de livros dar saltos e mover montanhas. Outros editores podem se vangloriar de outros feitos, como ajudar o autor a encontrar sua voz, acertar enredos, dar o título correto às criações ficcionais, ou mesmo mudar uma vírgula de lugar — uma façanha muitas vezes capaz de influenciar o significado de um livro. Com um gesto pequeno, o editor é capaz de agregar sentido à viagem imaginária compartilhada pelo autor e seu leitor, feita de tantos “detalhes tão pequenos de nós dois”.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

“Tenho todos os dentes”

Por Érico Assis

worldsinpanels-susceptible-castree-650

Geneviève Castrée em Susceptible. 

Quando Geneviève Castrée tinha uns 4 ou 5 anos, seu pai disse que ia ficar uns dias fora, visitando amigos em outra parte do Canadá. À mãe, ele disse que ela saberia se virar bem, sozinha com a criança.

“Quando voltou, falei que ele tinha razão: eu não precisava mais dele”, a mãe conta à filha crescida. Pai e mãe nunca mais se viram. A filha levou dez anos para rever o pai, que foi morar no meio do mato em uma ilha de Vancouver.

* * *

Geneviève Castrée faleceu no último dia 9 de julho. Tinha 35 anos. Ela descobriu um câncer no pâncreas pouco depois do nascimento da primeira filha, um ano atrás. Em junho, seu marido montou uma campanha GoFundMe para pagar o tratamento. A campanha continua ativa.

Castrée — que às vezes assinava Geneviève Elverum — produziu cinco álbuns, participou de algumas antologias e tinha carreira paralela como cantora. Na música, identificava-se Woelv e, depois, Ô PAON. O marido, Phil Elverum, também é músico e os dois organizavam festivais de bandas indie. Pamplemoussi, um dos álbuns de Castrée, vinha com um LP.

* * *

Aos 15 anos, nos dias em que passou com o pai depois de uma década sem se verem, os dois entraram em uma loja de quadrinhos e Castrée encontrou um gibi de Julie Doucet. Disse ao pai: “Se eu fosse menina, eu fazia quadrinho ASSIM!”

Ela já lia Tintim desde criança, e também se dizia influenciada pela Mafalda do Quino — que, embora quase desconhecida na América do Norte, tinha sua cota de fãs francófonos no Québec.

* * *

Depois de vários minicomics, Castrée publicou seu primeiro álbum em quadrinhos aos 19 anos. Um editor sugeriu que ela produzisse um álbum mais pessoal, quem sabe autobiográfico. Ela levou onze anos para atender o pedido.

Susceptible mostra principalmente a relação entre ela e os pais, da infância ao fim da adolescência. A mãe, envolvida com drogas e namoros complicados. O pai, distante emocional e geograficamente.

Uma página é dedicada ao seu primeiro amor: “Ele e eu montamos um forte com cobertores. Lá dentro a gente desenhava e fazia outras coisas que não tão sérias assim mas que ainda quero deixar em privado.” Seguem-se três quadros de um emaranhado de cobertores se mexendo, soltando balões de risadinhas.

* * *

Anders Nilsen, também quadrinista, escreveu no site do Comics Journal sobre a amiga. “Ela devia ter tido mais cinquenta anos para exibir para o planeta esse gênio particular que tinha — como música, contadora de histórias, mãe, esposa e amiga.”

Também mostra um dos últimos desenhos que ela fez: sorrindo, desenhando, junto com a filha. Há um balão de fala apontando para Castrée, que não diz nada.

* * *

No final de Susceptible, Castrée reencontra a mãe depois de passar uma temporada de seis meses com o pai. É o momento em que decide sair da sombra e dos problemas dos dois. Como Miranda July diz na quarta capa, é o final simples e perfeito. Castrée espaça sua declaração final em três páginas:

“Tenho dezoito anos.”

“Tenho todos os dentes.”

“Eu faço o que eu quiser.”

* * * * *

Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.