Paulo Scott

Obrigado, Spock

Por Paulo Scott

2255311082_c67a764c48

1.
Há muitos critérios para se apontar a presença de uma grande personagem — a aptidão que essa personagem (uma personagem de consequências irrecusáveis) tem de desfazer toda e qualquer convenção que, por ventura, sustente a realidade que a recepciona e a defina é um desses critérios.

Essa significância pode se tornar ainda mais intrigante quando decorrer de uma personagem concebida para coadjuvar, adjuvar, ajudar. No Dicionário Houaiss, na rubrica literatura, a palavra adjuvante se relaciona à função desempenhada, numa narrativa, por personagem ou força cuja atuação ajuda a realizar o desejo do herói.

2.
Talvez não haja resumo melhor para definir a infância do que a palavra procura — uma procura que será o centro, ao menos daquela existência específica, um centro que muito provavelmente não corresponderá à graça da competição (e do sentir-se confortável na competição) e da vitória (a vitória que deveria ser a decorrência óbvia da competição). É magia pura o conjunto de equipamentos, e a sua desenvoltura animal, embutidos na condição infância. Milagrosa é a efetividade desses equipamentos contra os processos de frustração, produzindo (na infância) uma espécie de imunidade contra o caos, contra a loucura causada pela avalanche de novidades e agressões.

A posição de herói é o começo de tudo, não importando o acaso, o imponderável; a criança é o altar (a singularidade) desatinado que a herdou. Valendo-me (e em seguida subvertendo-a) de uma imagem do James Wood, no Como funciona a ficção, poderia se dizer que só com a maturidade o herói é liberado da tirania de uma inevitável eloquência.

As fabulações e as leituras sentimentais que fazemos dessas fabulações podem facilitar ou dificultar o distanciamento daquela tirania.

3.
Não pretendo aqui cometer um milímetro sequer de inovação diante de tudo que já foi dito após a morte do ator Leonard Nimoy. E pouco importa que em algum momento da sua jornada esse ator, esse grande artista, tenha escrito que não era Spock (e tempo depois que era, era sim, Spock). Minha intenção é, provavelmente de uma forma muito desajeitada, dizer, dizer de novo, o quão necessárias são as fabulações e as personagens que as movimentam, não só as que protagonizam.

Metade terráqueo, metade alienígena, Spock — como foi bem destacado pela Alessandra Stanley quando escreveu sobre o ator e a personagem ao The New York Times, aqui em tradução capenga e levemente adulterada deste colunista — era insensível, insensível até mesmo em relação ao amor, mas sua mãe era humana, e isso significava que nem sempre ele conseguia evitar (suprimir) seus sentimentos. E isso foi justamente o que fez dele o mais inacessível e romântico herói imaginável.

4.
Essa figura e o seu não lugar (a condenação à procura), não tenho direito de esconder, foram alívio em diversos momentos de insegurança extrema da minha adolescência, foram minha banda de Heavy Metal, meus versos de Baudelaire, um modo de encarar que também ecoou nos primeiros anos da minha fase adulta.

Uma personagem marcante, inserida em um grupo de personagens muito marcantes, que aniquilou (não importa se metaforicamente ou não; não dá para perder tempo com isso, né?) todas as convenções que eu conhecia quando assisti à série, nas telas das tevês preto & branco, naqueles anos mil novecentos e setenta.

O mundo obrigando que fossemos Capitães Kirk, James Tiberius Kirk, e aparece Spock. A sobriedade possível, a contenção possível, a bondade que advinha do simples fato de aceitar o não lugar, da solidão e da estranheza que eram só suas e não eram motivos para lamentação.

Sem dúvida, uma nova dimensão ao processo de formação da palavra adjuvante na cabeça de uma criança, de um adolescente – um caminho que, naquele tempo de curtos-circuitos constantes de afirmação da identidade, tempo de precariedades, reforçou a importância da palavra colaboração.

5.
Escritores têm a capacidade de mitificar o que esteja ao seu redor. Escritores adoram mitificar a própria estranheza, a própria solidão. Penso que a solidão é um universo que nunca para de se expandir, penso que um escritor precisa mesmo ser capaz de suportar essa expansão.

6.

No livro Ithaca Road tem essa personagem Anna, uma garota com Síndrome de Asperger, que é um tipo de dupla-face de Narelle, esta sim a protagonista absoluta da história, que, no final das contas, também foi minha forma de homenagear o vulcano/terráqueo. Anna não compreende o trem-bala de sentimentos que é Narelle e não compreende quase nada desse campo, mas é justamente Anna, com toda sua insensibilidade, que guia Narelle à sua redenção possível. (Anna presta um pequeno tributo a Han Solo, outro coadjuvante genial, talvez ela quisesse ser Han Solo, porque era Spock.) As duas, a protagonista e a coadjuvante-primeiro-oficial-da-ponte-de-comando, são solidão, embora só Anna, deflagrada, ocupe a nave da estranheza. O segredo foi descoberto?; tenho convicção de não ter dado spoiler – o afeto entre as duas não é tão óbvio assim.

7.
O mundo de hoje é muito mais Spock do que era na minha adolescência; se você não fosse Kirk você não era nada. Não estou reclamando. Talvez tudo continue igual e eu não tenha notado.

8.
Antes de me dar conta da solidão, eu me dei conta da estranheza. São inúmeros os ínfimos detalhes que fazem de uma criança uma criança estranha. Mas chega um momento em que toda a narrativa dá um salto. Na adolescência, acabei compreendendo (ou me autoconvencendo) que todo mundo é estranho. Compreendi também que a estranheza não estava no ser uma pessoa estranha, mas no se sentir estranho.

Na sétima série, teve uma manhã, aqueles abomináveis sete e vinte e poucos da manhã, em que entrei na sala de aula do colégio marista onde estudava e tinha essa lista de nomes no alto do canto direito do quadro-negro. No topo dessa lista — até onde eu me lembro, não tinha mais do que dez nomes nela, era uma turma de cinquenta e poucos alunos — estava escrito: NERDS DA 7ª-A. E o meu nome estava entre eles. Era para ser ofensivo, era para inspirar o minicirco e o riso categoria minicirco de todos os que não estivessem arrolados na lista — naquela passagem da década de mil novecentos e setenta para a de mil novecentos e oitenta, ser chamado de nerd era receber na testa o carimbo oficial de socialmente desajustado, em caixa alta e com todas as letras —, mas eu me senti tranquilo, nem sequer cogitei algum tipo de vingança futura, o que até teria sido divertido do ponto de vista narrativo ficcional (mas vingança é sempre um troço fraco; como era bem fraca aquela turma dos que sofriam bullying sistematicamente e, para se vingarem da vida que não ajudou o titereiro a pregar em seus peitos a medalha de “Eu sou Capitão Kirk”, praticavam bullying contra os, em tese, mais fracos e expostos do que eles). Eu era um nerd — Que tal, Senhor Spock? Obrigado, Senhor Spock — e para mim estava tudo bem.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Twitter

Confetes

Por Paulo Scott

4570913045_0aac3eaf7a

Aposto que Rita Lee não tinha a menor ideia do estrago que provocaria nas cabeças dos sonhadores, dos inquietos, dos criadores, dos estranhos de toda ordem, não apenas da sua geração, mas das gerações subsequentes, quando compôs a música que tem este trecho na letra: “Levava uma vida sossegada / Gostava de sombra / E água fresca /Meu Deus / Quanto tempo eu passei / Sem saber / Foi quando meu pai me disse / Filha, você é ovelha negra / Da família / Agora é hora de você assumir / E sumir”.

O rock glamorizou as ovelhas negras (e depois deu até uniformes e crachás para essa turminha desfilar). Penso que daria um caldo teorizar sobre o quanto dessa onda impulsionada por Madame Lee repercutiu no universo literário brasileiro contemporâneo. A ideia hoje, contudo, não é falar das mitificações do mui glorioso rock paulistano e seus desdobramentos, mas da ovelha negra da família, ao menos quando se trata da família das pontuações: as reticências.

Se você conversar com os melhores editores de narrativa de ficção do país, sejam eles das grandes editoras ou das pequenas, as que sambam de verdade na cara da sociedade, constatará que a maioria esmagadora desses editores torcerá o nariz quando o assunto for o uso de reticências em texto literário. Avanço. É entendimento corrente que bom escritor não precisa de três pontinhos, como não precisa de ponto de exclamação ou de parênteses — ou de uma pá de outras soluções que acabam reduzidas à condição de muletas usadas pelos escritores que, em outras palavras, não se garantem.

Reticências é pontuação sujeira, dói no olho, irritando da córnea até a veia central da retina, azedando o humor vítreo dos acurados, não importando o gênero literário, não importando se há boa intenção — quase como a inobservância de um daqueles pré-requisitos formais processuais que podem impedir, sem que se possa chegar à análise do mérito, que determinado recurso suba ao superior tribunal da aprovação, ou reprovação, das boas práticas literárias. Se há reticências, várias reticências, muitas reticências (exceto se você for aquele escritor francês racista, filho de uma mãe e, apesar de tudo, genial conhecido como Louis-Ferdinand Céline), você corre o risco de ser tachado sumariamente de escritor padrão mais ou menos.

Use travessão (incrível a tolerância que se costuma ter com os travessões), barras olímpicas, omita o céu, suprima-o com o fio das suas próprias unhas, interrompa a frase sem o uso do ponto final, extermine o alfabeto inteiro naquele preciso momento, naquele ótimo que só um bom escritor consegue calcular, salte no abismo, sonorize o horizonte à custa da invisibilidade de anjos desmemoriados, faça o diabo se lhe der na cabeça, mas não use os três pontinhos, porque três pontinhos é o tipo de solução que não pega bem e vai comprometer suas ambições, seus sonhos, sua glória.

Será?

Não tenho sentimentos contraditórios em relação às reticências; nada a favor, mas também nada contra, dependerá da situação concreta. Espalho punhados delas nas oportunidades de discurso direto — aquele da reprodução literal das fala das personagens, daquele que acontece sem que o narrador fale pelas personagens, sem que o narrador interfira na fala das personagens — quando acho que preciso espalhar. Um dia talvez eu consiga avaliar com o devido distanciamento se as empreguei porque eram mesmo necessárias ou se, infantilmente, estava apenas dizendo para mim mesmo algo como: bem se isto é deselegante sob os padrões da melhor literatura então é justamente isso o que eu quero usar.

Mencionei Céline três parágrafos atrás (a propósito, sobre Céline e a pontuação na prosa de Céline, recomendo este texto) porque sou fã da sua escrita, nunca neguei a enorme influência que os seus livros têm no meu modo de escrever, de contar, de arquitetar personagens, mas não acho que exista destemor, alguma irresponsabilidade estilística, da minha parte que tenha se programado a partir das leituras que fiz dos livros desse francês racista, filho de uma mãe e genial.

Penso que no fundo, mesmo tendo alguma noção do que pega bem e do que não pega bem diante dos olhares mais exigentes, acabo empregando reticências em função do peso (ou presença do peso) que busco atribuir ao tempo que será o tempo daquele conto específico ou daquela narrativa longa específica — vamos deixar os poemas de fora dessa reflexão, ok?, e vamos deixar as reticências parentéticas de fora também. Gosto de pensar que a execução do texto mandará no autor, que determinará o narrador ideal, que dirá qual o relógio da narrativa e, igualmente, as quantidades de gordura, laquê e sujeira da narrativa.

Imagino que lutar — ainda que tal luta pareça algo exageradamente romântico (ainda que pareça burrice) — contra a sofisticação inevitável que sempre vem com o tempo, com o acúmulo de experiências, seja uma das tarefas que o escritor empenhado tenha de assumir. Mas, como sempre digo (desculpa, sou velho), não há regras, e cada um vê o mundo pela lente que melhor lhe convier.

O que mais eu acho da pontuação reticências?

Bem, é o tipo de pontuação que nunca chegará ao status da vírgula, essa princesa que permanece importantíssima até mesmo quando não está lá (sobre vírgulas, recomendo com entusiasmo o texto do Emílio Fraia publicado aqui mesmo no blog da editora). Reticências é pontuação hiperbólica, vulgar. Mas e daí?

Gosto da sua presença desnorteada, da sensação de vinil rodando seus arranhados sob a agulha do toca-discos, da agressividade que varia graus imprevisíveis de pertinência ganhando o leitor para dentro de um incontrolável conjunto de empatia ou mandando-o embora feito aqueles sambas que não acomodam todos os pés, que não descem seus ritmos e invencionices a todos os passos.

A verdade — a minha verdade neste texto — é que as reticências são três bonecas, três bonecos, às vezes guardas, às vezes palhaços, às vezes tenores engessados, às vezes meros espantalhos, às vezes mergulhadores com o respirador na boca sem poder falar e sem poder usar as mãos, significando mais do que interrupção ou suspensão, prolongamento, banner de elipse, homem-sanduíche a serviço de anacoluto, aviso desenhado de que em algum apartamento do prédio talvez a festa já tenha acabado, e o pessoal já tenha dormido (e ficou apenas sonhando), mudez imagética, hesitação, dúvida, sarcasmo, suspense, surpresa, incompletude (incluída a incompletude cartorial), insinuação, entreato, ironia obviamente sujeita a tal capacidade de interpretar do outro, ao estado de espírito do outro, dor.

Respiro e volto.

O bom da literatura — ainda operando na faixa a minha verdade neste texto — é que ela não se dobra a moldes, a normas, a bom senso, fineza, rebeldia de segunda mão, rebeldia clonada, mal clonada, a didatismos, à moda, a rompante, à demora, a etiquetário, a navegar preciso; literatura, no meu modo de entender, é isso que tem os pés afundados na sensibilidade e no risco, por isso nunca dirá não à sujeira, nunca dirá não ao que seja. Você sabe. Ovelhas e o rebanho. Confetes restando ao chão…

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Pólvoras

Por Paulo Scott

15474998_2394e66230

Em que ano e para qual geração recente o século XX se tornará por completo um século antigo e incompreensível? Um século de comportamentos e lógicas não mais compatíveis? Difícil dizer. Por certo não será minha geração que sentirá esse descompasso; por certo o olhar divisor desse eventual quadro de ciclos, e o desfazimento da simetria entre os seus vagões, não será o meu. Ainda assim, tenho lidado com a sensação crescente de que já não conversam na mesma linguagem, no mesmo desassossego, o século que me formou e este século no qual me encontro.

Durante o ano de dois mil e catorze, manifestação alguma me deixou mais entregue à noção de estar (definitivamente embarcado) em história que vem se encarregando de me fazer esquecer as tatilidades do século XX, do que a declaração de uma tradutora francesa, em debate ocorrido em São Paulo, dizendo ter certeza que, em pouquíssimos anos, por causa dos esforços e interações diárias e adesões dos melhores tradutores e especialistas em linguísticas espalhados pelo mundo interagindo com essa ferramenta, o Google Tradutor seria capaz de traduzir um romance brasileiro para o francês, para o inglês, com um grau impressionante de proficiência.

O choque se renovou quando alguém da plateia, dizendo-se pesquisador universitário (desculpem, mas não consigo me lembrar em que grau) envolvido em processos de acompanhamento e contribuição à mencionada ferramenta do Google, disse que a formulação da tradutora francesa estava longe de ser absurda, antes pelo contrário.

Na condição de integrante da mesa por ser autor brasileiro traduzido do português para outras três línguas, nada além, desconectei por completo as chaves e fiações que poderiam me levar a outra intervenção naquele debate, a dizer algo que estivesse à altura, não que estivesse à grande altura, do que falei minutos atrás, quando contei da minha experiência com os tradutores dos meus textos e também quando informei a respeito de encontros ocorridos em eventos literários nos quais dois tradutores submetem suas traduções feitas a partir de um texto específico e, sob o arbitramento de um terceiro tradutor, procuram chegar, ali diante de todos, ao que seria uma boa tradução, e — tentando achar meu esforço para traduzir um poema em inglês, era um do Dylan Thomas, para a língua da minha pátria e sem saber que, meses depois, o Google Tradutor lançaria um olhar, um olho, para ficar dentro do meu celular, que se corretamente apontado para um texto em língua estrangeira mastigaria a língua estrangeira, regurgitando a familiaridade da língua da minha pátria num estalar de dedos — fiquei acompanhando a conversa, aquela boa conversa, sem tentar acrescer mais nada.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter

Qual narrador?

Por Paulo Scott

11797644534_f926c0d97b_b

Não acho impossível que, ao pegarmos aleatoriamente a timeline de alguém numa rede social por aí, não se consiga projetar uma narrativa coerente, não se consiga identificar um núcleo dramático principal (mesmo que por conta da mais mundana das empatias), um arco narrativo convincente — a unidade estará lá e, com boa vontade do que editará com a sua leitura e sua tesoura, um desfecho do tipo desfecho inesquecível estará lá também. Portanto a hipótese é: a timeline de um perfil no Twitter, no Facebook, pode ser narrativa poética, narrativa de prosa ficcional.

Saltemos duas casas.

Essa expulsão não seria novela literária — embora alimentada pela mesma pluralidade caótica de núcleos dramáticos em firmamento aparente (constelação?) de uma novela literária —, não seria romance — dificilmente proporcionaria a chance épica do romance, a profundidade do núcleo dramático absorvedor dos demais núcleos dramáticos secundários do romance, a verticalidade psicológica do romance —, não seria conto — dada a visível impossibilidade de chegar à perfeição, ao estranhamento polar flutuante e à brevidade programática, do conto.

Sem cogitar se essa expulsão tangenciaria as peculiaridades de crônica ou de poesia (lembrando que o debate em torno do cercadinho entre gêneros literários está fora de moda desde a primeira metade do século XX), sigamos. Saltemos mais três casas.

Imaginemos uma timeline esculpida com esmero (com entrega real e máscaras, todas as máscaras a que um vivente criativo e na pegada jardim de infância hell house teria direito), uma timeline na era de ouro do Facebook — quando foi a era de ouro do Facebook no Brasil?, Dois mil e dez?, Dois mil e onze?; certo que a resposta variará de usuário para usuário, certo que dependerá da quantidade de sorte narrativa, sucesso e felicidade que o usuário experimentou no Facebook —, e, nessa timeline, muitas interações, cumplicidades, paixões, conflitos e, rufem os tambores, um narrador inevitável. Qual narrador seria esse?

Descansemos uma rodada.

Já se disse que para conseguir hipnotizar alguém, antes você precisa hipnotizar a si mesmo, assumir um poder e uma condição que não estavam ali, convencer-se. Todo processo demanda a fase entrar no clima, no acreditar que você, num momento ou outro, funcionará como o grande misturador de grãos.

Não seria absurdo sustentar que o Facebook é uma grande narrativa em primeira pessoa e o usuário dono do perfil, o motorista, um narrador em primeira pessoa hipnotizado por si mesmo, autoinduzido a achar que é narrador em terceira pessoa (mais do que testemunha do enredo, o próprio motorista do enredo geral; parece que aqui está o truque e a enrascada), um narrador onisciente eventualmente seletivo (seletivo no sentido mais sórdido) e o dono supremo do espaço também.

Joguemos duas vezes.

Que hipótese seria essa em que o dono do espaço (a ilusão de ser o dono do espaço) funcionaria como o próprio espaço? Uma pretensão dessas está longe de ser um extremo impossível. As sentenças jogadas diariamente nas redes sociais (sobretudo se levado em conta o contexto em que a razão da pessoa vestida com o uniforme do usuário de login efetuado difere bastante da razão da pessoa circunstancialmente longe das redes sociais, a do login não efetuado) extrapolam a perspectiva do narrador em primeira pessoa, porque o ânimo, a empresa de se colocar feito bandeirante insano diante do todo imenso, avança ao encontro da tentação de controle dos resultados, dos desdobramentos do todo imenso.

Existe essa tese de que nas redes sociais as pessoas estão falando para elas mesmas, sempre. Um limite desses afastaria a possibilidade mais séria de uma narrativa em terceira pessoa, mas não a da hipnose ou de uma eventual esquizofrenia que, por conta do deleite do usuário de login efetuado — no fundo, no fundo, insisto, o login está continuamente efetuado — remeteria esse usuário (dono do espaço, a persona se confundindo com o próprio espaço) à acumulação de papéis, o que daria no mesmo. O usuário de login efetuado seria o protagonista, mas também o antagonista, as personagens-gatilho, as personagens-escada, as personagens-testemunha, as personagens-solução e por aí segue.

Uma timeline será sempre matéria-prima, isso é fácil perceber; difícil é localizar o narrador, eu insisto, e a posição determinante do resultado expulso que esse narrador ocupa; é um labirinto cujas paredes são edificadas na pretensão descontrolada do usuário (nas suas necessidades afetivas) e também na suposta presença do outro.

Nas redes sociais, o outro (os outros usuários alinhados atrás do véu que na verdade é um design) é o novo deus-instrumento, é o elemento permitido, o elemento aceito na medida em que serve bem para restar absorvido pela auto-hipnose do usuário protagonista. Diante do altar de todas as conveniências narrativas, o outro se tornará, quando muito, um falso protagonista a serviço do protagonista dono do perfil.

E a possibilidade de narrativa continua lá.

Entremos na fase final deste inferno.

Este ano de dois mil catorze foi um ano difícil (lembram quando reclamamos de dois mil e doze e de dois mil e treze?). É cedo para qualquer espécie de atestado de óbito, cedo para decretar se, para além de um ano difícil, este foi também um ano ruim — o diagnóstico vai depender dos anos que estão por vir.

Listei as situações mais perturbadoras de dois mil e catorze antes de começar a escrever o texto desta coluna. Essas situações é que deveriam ter pautado o texto, mas diante da sua extensão considerável veio a preguiça e certo constrangimento, difícil não se constranger com listas. E, além de tudo, surgiu essa vontade de falar de máscaras. De qualquer forma: um ano que termina sempre deixa restos a pagar e algumas sobras lúdicas também.

Para não morrermos na praia (será que no inferno ainda tem praia?), já que o final está mesmo logo ali, e ainda evitando a sangria das listas, divido o seguinte em clima de o que sobrou foi: sensação de que a velocidade que estamos usando como uniforme não está funcionando como deveria dentro das redes sociais; vontade crescente de escrever texto de dramaturgia no qual pessoas agiriam na vida real da mesmíssima forma como agem nas redes sociais, inclusive quanto à manifestação, e concretização, do desejo de fuzilamento, linchamento, enforcamento, estapeamento; torcida incontrolável por imprensa livre e plural, por mais mobilizações populares, por judiciário decente.

Vencemos (jogávamos sozinhos, é sempre assim no inferno, esqueci de avisar).

Não acho impossível. Acho até cabível o quadro de um narrador em segunda pessoa. E não importa se o login está efetuado ou não, porque se vocês têm contas abertas, não duvidem, vocês estão pagando o preço, estão se narrando, usando máscaras — e tudo continua lá se você não se apagou.

Falamos sozinhos. E, como sempre, mais um ano nos mastiga (como bom lanche que somos) e nos expulsa. Não culpemos o pobre do login. Se existe mesmo inferno, esse inferno e seus banhistas somos nós.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter

Criaturas

Por Paulo Scott

1352119191_dcb542cbb3

1.

Por iniciativa de dois jovens editores ingleses que publicaram no Reino Unido um dos meus romances, viajei para a Inglaterra em meados de agosto e retornei na segunda semana de outubro. Não pretendo relatar aqui a viagem e os seus cinquenta e três dias, o que aconteceu e o que não aconteceu, quero apenas registrar uma sensação específica, intimidante, que me acometeu lá pelo início da sexta semana, quando me dei conta — talvez pela significativa quantidade de horas e dias em que fiquei obliterado pelo ócio dentro de quartos de hotéis ou das residências que me acolheram, com tempo de sobra para pensar — da possibilidade de algo que escrevi se transformar, ao menos nos microcosmos dos leitores tocados pelo que escrevi, em algo maior e mais resistente do que eu.

Não importa o quão calorosas sejam as recepções nas embaixadas, nas universidades, nas livrarias, nos festivais literários, nos olhos dos leitores que conseguiram atravessar a história que você inventou, mais cedo ou mais tarde, você acaba percebendo que eles, aquelas pessoas, estão ali na sua frente esperando um autógrafo única e exclusivamente por causa do livro, da relação que desenvolveram com o livro. Então onde fica o seu novo lugar? Você não sabe, sobretudo porque na sua cabeça você está num inevitável processo migratório, num leve desespero, em busca de outra história, de outra narrativa, diversa daquela que conduziu você a recepções em embaixadas, universidades, livrarias, festivais literários, podendo até se sentir irritado com aquelas pessoas falando das personagens do livro, questionando sobre personagens de um livro que, na verdade, já morreu dentro de você, dentro da sua “manipulação suprema”, dentro da resistência que é seguir em frente, e agora é outra coisa, algo que renasce longe do seu domínio (e nem serve para sua vaidade, porque você não é mais criança e aprendeu a controlar sua vaidade).

Alguém já me disse que uma leitura dessas é problema de autoestima, que o livro é seu (a “glória” é sua) e será seu para sempre, porque afinal, diabos, você o escreveu. Mas não é essa a sensação que eu tenho. Os livros já escritos e publicados, por mais que restem o carinho e a lembrança quase epidérmica da insanidade que esteve presente na criação, acabam em papéis de outro tempo, de outro espaço, são outros países, são territórios para os quais você talvez até possa migrar, mas sem conseguir se livrar da impressão de ser mais um estrangeiro.

Há certos cuidados que devem ser tomados quando se pretende entrar num país que não é o seu e não lhe dá privilégios. No país que não é o seu país, o funcionário da imigração sempre pode lhe surpreender com alguma pergunta a mais, com alguma exigência para a qual você não esteja preparado (na internet, existem dúzias de páginas de dicas aconselhando como se portar diante do guichê de imigração, como se vestir, como usar o cabelo, como apresentar o passaporte aberto na página em que estão foto e dados de identificação, como preencher o formulário e entregá-lo junto com o registro do seu voo de retorno, reserva do hotel e o cartão do seu seguro-viagem), com uma longa entrevista numa sala reservada ou com um rompante que pode acabar na recusa da sua entrada no país que não é o seu país.

Imagino que o desaparecimento da ilusão de familiaridade seja algo que deva ser aceito.

É possível que um livro escrito por você não te aceite mais. É possível que um livro escrito por você não permita que haja outros livros tão significativos como ele, tão importantes quanto ele, e — se considerada a criação, o processo de criação em andamento, na qual o outro livro ainda é você — não permita que você produza como o produziu e não permita até mesmo que você exista. Um livro que você escreveu pode se revelar um grande inimigo.

Penso naqueles cineastas que produziram um grande filme e passaram o resto da vida atormentados por esse filme, o grande filme, que resistiu ao tempo e resistiu a todos os trabalhos posteriores daqueles mesmos cineastas. Há muitos tipos de morte para um criador (para os criadores em geral), suponho que essa seja uma delas; mas sei que tudo isso é relativo.

Essa viagem de quase dois meses, iniciada na Inglaterra e depois estendida a outros países, me deixou menor, não por causa do livro que foi traduzido e lançado por lá (um livro que, de certa maneira, dentro de mim já está morto), mas por causa dos pensamentos, de pensamentos muito parecidos com os pensamentos que tive em dois mil e oito quando fiquei um mês na Austrália buscando elementos para contar a história de afeto entre Narelle e Anna. O distanciamento é um mentor implacável. Para longe da história dos livros inimigos, nos pensamentos dessa viagem feita há pouco estavam os adensamentos de algumas escolhas importantes — preciso admitir — nem sempre tão conscientes, tão bem calculadas, e também a constatação de que já há o que avaliar, apesar da crescente consciência da passagem. A certa altura pareceu alagamento, sem delicadeza por certo a claridade, das dúvidas, em boa sorte, avizinhadas contra o nome, contra o capricho do gesso. Algo de novo para ser desconsiderado, com delicadeza, se o plano for mesmo o de seguir, de lidar com o eterno presente.

2.

No momento em que comecei a revisar o texto acima para mandar para o blog da editora, fiquei sabendo da morte do poeta Manoel de Barros.

Quando, em mil novecentos e noventa e um, ganhei de presente o seu Gramática expositiva do chão — poesia quase toda (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1990), ele ainda não era o poeta festejado, aclamado, que acabou se tornando anos depois. Esse livro e os poemas desse livro foram de uma importância tremenda para mim. No recente Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo — e isso eu não tinha mencionado em lugar algum — há um critério de seleção dos poemas produzidos ao longo de oito anos que parte da intenção e da necessidade de diálogo com certa tradição poética e também com a produção mais recente. O diálogo (e sei que isso não será exatamente óbvio para os leitores) se estabelece em torno de alguns poemas fundamentais para minha condição de leitor de poesia, nove ou dez, possivelmente onze, como, por exemplo, o “Poema em linha reta”, do Fernando Pessoa, que na minha adolescência se tornou uma das igrejas, embora eu siga na luta para não me conformar a igrejas.

Dentre os poemas com os quais pretendi dialogar está um do Manoel de Barros; o poema se chama “O Palhaço”. Peço licença para reproduzir seus quatro versos aqui:

 

O Palhaço

Gostava só de lixeiros crianças e árvores

Arrastava na rua por uma corda uma estrela suja.

Vinha pingando oceano!

Todo estragado de azul

 

Esse poema, tão simples e despretensioso, se mantém na minha cabeça, na minha maneira de ler poesia, de me encantar e desconfiar da poesia. Essa é a magia.

Até uma próxima, Manoel; obrigado por tudo.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter