Paulo Scott

Livros, boates e gritaria

Por Paulo Scott


Tempo atrás escrevi que não gostava de futebol, que não compreendia como alguém que tivesse um mínimo de inteligência pudesse gostar de futebol — a assertiva, evidentemente, se tratava de uma provocação. Pessoas, independentemente do seu grau de inteligência ou de patetice, seja lá o que a hierarquização das inteligências ou patetices signifique, têm o direito de gostar de um esporte tão fascinante (o esporte que mais mobiliza hipsters e intelectuais de toda ordem nos Estados Unidos da América do Norte no momento é o futebol), minha provocação tinha outro alvo: esta grande máquina de enganar que é o esquema inventado e constantemente aprimorado pelos cartolas do futebol no Brasil e no Mundo.

Pessoas sofrem, gastam até o último centavo do seu dinheiro e até matam por algo que é escancaradamente manipulado por meia dúzia, que beneficia financeiramente apenas meia dúzia. Embora a paixão pelo Colorado prevaleça em momento e outro da minha medíocre existência (cheguei a comprar aquela camiseta da edição especial “Campeão de tudo”), faço o que posso para não perder um segundo do meu tempo com essa bobagem que é fazer do futebol uma religião e, quem sabe, no saldo geral, salvar minutos, horas, turnos, dias para empregá-los, por exemplo, na missão de reduzir a lista imensa de livros que pretendo ler antes que chegue ao fim minha participação por aqui — nesta “arena da vida”, diria alguém.

Algo que aprendi na “arena da vida” foi: não duvidar do poder do circo e da boate. Futebol é circo e também é boate (é o lúdico desesperado e é zorra total), uma ferramenta eficaz garantindo que um bando de gente consiga atravessar a semana e a derrocada psicológica que aguarda boa parte da humanidade nas tardes e nas noites de domingo. Pessoas precisam se apoiar em algo e fingir que tudo está bem — não dá para tapar o sol com peneira, pelo menos não o tempo todo. Por que não o futebol? Por que não a chance de sonhar com a vitória que, no final das contas, é um tipo de truque perfeito que faz o vitorioso imaginar que é mais especial do que o outro? Por que não o maniqueísmo irracional tão propício da disputa em perspectiva simplificada?

A Copa do mudo foi o grande turn point na narrativa deste ano — quem trabalha com roteiro de cinema sabe a razão de dividir a narrativa ao meio e encontrar os dois grandes pontos de virada, de saber tirar proveito disso —, e eu poderia continuar falando sobre as garantias fundamentais que mais uma vez foram completamente desrespeitadas em solo brasileiro (os jovens de pele escura das periferias chamam isso de constância). A novidade, uma das tantas, foi o alinhamento de governantes em todos os níveis de governo arquitetando um estado renovado de repressão. Pois é, ninguém escapa. O salvador da pátria não existe, nunca existiu. Ainda assim não resistimos ao conforto do papel de bons torcedores, ingênuos e esperançosos, apesar de todas as evidências — uma parte corre para um lado e o restante, quase na mesma proporção dos seus opostos, corre para o outro, e tudo bem se o resumo do chilique geral, de um lado e de outro, for só descabelamento e gritaria, porque depois será a segunda-feira e será o marasmo, de novo.

Na semana passada chegou às minhas mãos um exemplar bem castigado — benditos sejam os exemplares castigados — de um dos livros que mais influenciaram o meu modo de escrever, um livro do qual (tenho até vergonha de confessar) eu mal lembrava, é o Eu falo dos que não falam, uma seleção de poemas do alemão Hans Magnus Enzensberger, publicada no Brasil em mil novecentos e oitenta e cinco pela Editora Brasiliense. Graças à Morgana, que o conseguiu — a forma e a razão como o livro chegou até ela renderiam uma coluna à parte, acreditem — e perguntou se eu conhecia aquele poeta, aquele livro, eu tive a sorte de reler poemas que foram fundamentais para que eu chegasse à convicção, que é pura teimosia, sobre como escrever e o que escrever, não importando se o que resultar será apontado como agradável ou desagradável, cômodo ou incômodo, não importando qualquer rótulo que eventualmente o resultado possa receber.

No exemplar castigado do livro do Hans Magnus Enzensberger tem este poema:

 

Defesa dos lobos contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?

O que exigem do chacal,

Do lobo, que mude de pele? Querem

que ele mesmo extraia seus dentes?

O que é que não apreciam

nos comissários políticos e nos papas,

por que olham, feito burros,

o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue

Nas calças do general? Quem

trincha, diante do agiota, o capão?

Quem pendura, orgulhoso, a cruz de lata

sobre o umbigo que ronca de fome? Quem

aceita a propina, a moeda de prata,

o centavo para calar-se? Há

muitos roubados, poucos ladrões; quem

os aplaude, quem

lhes põe insígnias no peito, quem

é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,

temendo a fadiga da verdade,

sem vontade de aprender, entregando

o pensar aos lobos

um anel no nariz como adorno preferido,

nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo

barato o suficiente, cada chantagem

ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs

são as gralhas comparadas a vocês;

vocês se arrancam os olhos uns aos outros.

Fraternidade reina

entre os lobos:

andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês

convidam para o estupro

deitando-se no leito preguiçoso

da obediência. Mesmo gemendo

vocês mentem. Querem

ser devorados. Vocês

não mudam o mundo.


E também tem este outro (cuja coincidência com o romance que terminei em abril deste ano é assustadora):

 

Os Desaparecidos

Não foi a terra que os engoliu. Foi o ar?

Tão numerosos como a areia, mas não se tornaram

areia, e sim nada. Em massa

foram esquecidos. Muitas vezes, de mãos dadas,

como os minutos. Mais do que nós,

porém sem memória. Não registrados,

não decifráveis no pó, mas desaparecidos

seus nomes, colheres e solas.

Não nos fazem arrepender. Ninguém

os lembrará: nasceram,

fugiram, morreram? Sem vazios

é o mundo, porém seguro

pelos que não moram nele,

os desaparecidos. Eles estão em todas as partes.

Sem os ausentes não haveria nada.

Sem os fugitivos nada seria firme.

Sem os esquecidos nada seria certo.

Os desaparecidos são justos.

Assim também se vão os nossos.


Imagino que só exista um lugar para o escritor: o lugar o mais longe possível das aspirações dos políticos, dos governos, das sucessões familiares na política, do engajamento religioso — que no fundo, e no médio prazo, é sempre interesseiro e contabilístico — na política, do engajamento apaixonado como os dos torcedores de futebol (o suporte irascível da faceta do futebol que mencionei acima). Sempre haverá bandidos para todos os gostos, para todas as cegueiras, paixões, chiliques, para os dois lados do campo.

E a poesia — este é o momento cretino e gagá “temos de cuidar muito bem da poesia, meu querido” —, suponho, sempre dará um jeito de achar o leitor (bastam trezentas cópias de um bom livro de poesia, lembra?) e dar sinal de que a vida é uma só e sempre poderá ser mais do que a paisagem que eventualmente tremule diante dos nossos olhos e da nossa pressa. Há os detalhes, as pequenas investigações, os pequenos acertos, as pequenas cobranças, há, sobretudo, as pequenas coisas importantes, do nosso lado e do lado oposto, que nos acostumamos simplesmente a jogar fora.

Sempre fica repleto de heróis dentro das boates, a justiça (essa palavra que cabe na boca de qualquer um) é boutique, carteiraço e mão no popô dentro das boates. Todos são podres de tanta erradicação da pobreza — não importa se carenados de socialismo ou de mão invisível do mercado — dentro das boates e podres de total franqueza diante da vida dentro das boates. Bacana é pagar de passarela olha como eu sou especial e enxergo o que o resto não enxerga dentro das boates. Mas boates não são planos de voo, não são projetos de vida. Boates operam em modo apagar os detalhes.

Hoje, fico por aqui (um pouco mais perplexo do que antes); e, sim, leiam Hans Magnus Enzensberger se tiverem chance.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal(Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Remoções

Por Paulo Scott*


Foto: Paulo Scott

Enquanto serve mais um pouco da coca-cola nos nossos copos, o investigado diz que hoje à noite o bicho vai pegar. Falo que ele precisa tomar cuidado, que não é legal ficar o tempo todo tão exposto, que o segredo da coisa é avançar e depois recuar, que é deixar pra fazer o que tem que fazer quando for o momento certo. Ele diz que nunca sentiu tanta adrenalina, que não é tão fácil de controlar a adrenalina. Pergunto quantos mais vão estar por lá no final de tarde. Ele diz que não sabe, que sabe tanto quanto eu, que deixa pra ver o que pega quando o bicho pega. Digo que não quero correr riscos desnecessários. Ele diz que é divertido, que pra ele não passa de diversão. Digo que faço porque quero que as coisas melhorem no país, que não é possível que os que já têm muita grana fiquem ainda com mais grana enquanto a classe média e os trabalhadores só se ferram. Ele me encara com um olhar de quem está entendendo o que eu digo, mas que considera o que eu digo algo sem muita importância, diz que nada é mais foda do que quebrar vidraça de banco, que os bancos têm mais é que sumirem do mapa. Digo que concordo com ele, que se tem alguma coisa que eu vou quebrar certo esta noite é vidraça de banco. Ele ri. Ele não é muito de falar, isso não facilita o meu trabalho, mas aos poucos eu chego lá. Ele pergunta se eu não topo tomar uma cerveja. Digo que é um pouco cedo pra mim. Ele diz que pra um cara de trinta anos que está desempregado há meses eu pareço conformado demais com a vida. Esqueço de responder, fico olhando o movimento dos carros na Rio Branco. Quando trabalho meses disfarçado preciso disto, destes momentos em que digo pra mim mesmo que não importa o que vai acontecer a seguir. Ele diz que sou estranho, mas que sou legal. Respondo que estamos juntos nesta. Ele pega o cardápio do bar, que é uma folha A4 plastificada com a lista de sanduíches e aperitivos que eles preparam ali, diz que está com um pouco de fome. Digo que estou com um pouco de fome também. […] É a primeira vez que saímos os dois juntos do prédio. Fico um pouco nervosa, mas, droga de paranoia, quem é que vai descobrir? Ele toma a dianteira, vai na direção da Cinelândia. Fico parada em frente ao prédio por um instante mexendo no meu celular. Quando percebo que ele já está a uma distância de cem metros, começo a caminhar na mesma direção. Sei que hoje ele vai me dar um presente, não tenho certeza do que vai ser, mas sei que em algum bolso do blazer ou da calça tem algo que ele comprou pra me dar. Aniversário de seis meses. Seis meses transando duas vezes por semana à tarde no escritório do primo que está na Argentina. Os caras na rua me olham. É bom ser olhada aqui, muito diferente de ser olhada na praia. Perco ele de vista, melhor assim: ele ganha tempo pra pegar o elevador, chegar no escritório, ajeitar as coisas e pensar em uma forma bem show de me entregar o presente. Passo por um cara interessante. Ele faz uma careta engraçada, fofa, e fala pra mim uma frase que não consigo entender. Não seguro o riso. Aqui é bem melhor do que na praia. Espero que isso da gente ter saído junto do prédio não tenha sido um erro. Seis meses. Maneiro demais. Só não dá pra se descuidar. Da próxima vez espero cinco minutos ou mais. Seria uma burrice pôr tudo a perder por bobeira. […] O passageiro me dá uma nota de cem reais. Digo que não tenho troco pra cem reais. Ele diz que é por isso que o Brasil não vai pra frente e insiste: como é que você não tem troco pra cem? Explico que pra uma corrida de dezoito reais, não ter troco pra uma nota de cem, considerando que peguei no trabalho há menos de meia hora, não é algo tão absurdo. Ele pede pra eu esperar ali, que ele vai dar um jeito de trocar em algum lugar, afinal estamos na Rio Branco. Não há o que eu possa fazer. Digo que por mim está tudo bem. Ele diz que eu deveria ficar mais esperto com esse detalhe do troco, que sair atrás de troco só vai ferrar com a vida dele, que quando alguém pega um táxi é porque quer agilidade, rapidez. Eu fico calado. Ele sai do táxi, bate a porta e desaparece na multidão que circula pela calçada. De longe, uma dupla de fiscais do trânsito me observa. […] Ela já devia ter saído desta porra de livraria, não deve estar se controlando, deve estar pegando mais livros do que consegue esconder na bolsa. Caraca, maluco, o que essa louca tá pensando? Vai querer furtar a coleção do Deleuze inteira? Não acredito, não acredito, não acredito. Eu que não vou ficar segurando livro quando ela cansar de ficar segurando a bolsa durante a passeata. Se demorar mais um minuto pra sair por aquela porta, juro que vou embora. Um minuto a partir de agora. De repente vou ali, na farmácia, e volto, ou fico cuidando de lá. É, fico olhando de lá. Caralho, essa garota me paga. […] A contadora insiste que prestou toda a assessoria que o nosso contrato previa. Digo que ela está enganada, que estou fazendo tudo sozinho, que nem sequer das certidões negativas que a Funarte está solicitando ela se encarregou de providenciar. As pessoas que vêm no contrafluxo da calçada são em número maior do que as que estão indo, por vezes eu e ela precisamos nos distanciar para em seguida ficar um ao lado do outro de novo. Ela diz que eu sou um arrogante, que é impossível conversar comigo. Deixo que ela fale à vontade e na esquina da Rio Branco com a Rua do Ouvidor eu paro, digo que entrarei ali. Ela diz que eu sou terrível, diz que se dependesse dela tudo se ajeitaria. Respondo que se a Funarte recusar a prestação de contas do projeto eu vou processá-la, que estou profundamente arrependido de um dia tê-la contatado, que ela é uma tremenda Um Sete Um, uma tremenda incompetente. Ela ameaça me dar uma bolsada, mas eu me afasto. Meu telefone toca. Viro de costas para ela, atendo. É o meu sócio no projeto perguntando como foi minha conversa com a contadora. Olho por cima do ombro para saber se a vaca ficou ou foi embora. Foi embora. Respondo que teremos de contratar outro contador e depois vamos ter de processar a vagabunda. Ele diz que não teremos dinheiro para contratar outro contador. Explico que darei um jeito. Uma ruiva toda montada de executiva passa e me dá uma olhada. Faço uma careta engraça e aponto para o celular falando sem emitir som: estou falando com a sua futura sogra. Ela ri. Faço sinal para ela esperar. Ela dá uma paradinha, mas segue adiante. Peço ao meu sócio que não se preocupe, proponho de nos encontrarmos no café da Livraria Travessa ali da Rio Branco daqui a duas horas. Ele diz que não está nos seus planos ficar pelo Centro mais do que o necessário. Peço que ele me ligue quando já tiver se liberado. Passam duas mulatas estonteantes. Aceno para a que está mais próxima. Ela acena de volta. Meu sócio diz que vai tentar, mas que não está mesmo disposto a ficar pelo Centro mais tempo do que o necessário. […] Desembarcamos do metrô na estação Cinelândia, saímos na esquina do Cinema Odeon. Processando impassível a quantidade brutal de informações a que o estou expondo desde que saímos do meu apartamento em Ipanema, o menino segura minha mão. Digo que ali é o centro do Rio de Janeiro (ele me olha com certa devoção, talvez me olhe dessa forma por conta das boas maneiras que sua mãe lhe ensinou, porque talvez tenha enfatizado que ele precisa ser obediente e atencioso, principalmente com os velhos, principalmente comigo, ainda assim percebo o quanto ele está concentrado operando a máquina moedora que existe dentro da sua mente e na mente de qualquer criança sadia como ele, uma esponja insaciável que absorve tudo sem diferenciar normalidade e anormalidade, um estado constante que ficará lá até algum momento da sua adolescência e depois enfraquecerá). Caminhamos até a frente da Biblioteca Nacional, digo que atrás daquele prédio bonito existia um morro bem grande, onde os meus bisavós compraram uma casa quando se mudaram para o Rio, que o nome do morro era Morro do Castelo e que foi desmanchado no início do século passado. Pergunto se ele sabe o que significa a palavra século. Ele volta a me olhar, sem perder seu jeito inquietante, inquietante ao menos para mim, faz cara de quem interrompeu o funcionamento da máquina moedora de informações por um instante e está procurando no seu fichário mental de palavras em português e também em norueguês – porque mora na Noruega e, mesmo que sua mãe fale em português com ele em casa, na casa da Noruega, e o esteja alfabetizando também em português, é com a língua norueguesa que ele se sente mais confortável nas conversações –, responde que um século são cem anos e se volta na direção do Teatro Municipal. Pergunta se eu já entrei dentro daquele lugar. Respondo que sim, muitas vezes, inclusive com a sua mãe quando ela tinha quase a idade dele. Se fosse mais velho talvez perambulássemos pelas ruas secundárias, mas como fazer uma criança de oito anos que nunca esteve no centro desta cidade lembrar para o resto da vida da primeira, e talvez única, vez em que esteve com o seu bisavô no centro desta cidade se não andar pela principal avenida do centro desta cidade de extremo a extremo. Seguimos até a esquina com a Almirante Barroso. Quando o sinal abre para os pedestres, eu o pego nos braços, ele não se surpreende, que criança maravilhosa. Pela faixa de segurança, vamos até onde ele possa perceber a reta que deverá acabar na Praça Mauá. Aponto na direção da Praça Mauá, pergunto se consegue ir caminhando até a outra ponta. Ele sorri, balança a cabeça, diz uma palavra em norueguês, uma palavra com uma sonoridade maravilhosa, tão maravilhosa quanto ele, uma palavra que eu não faço a menor ideia do que significa. […] Reclamo por quase termos sido atropelados só porque do nada ele gritou o nome de Getúlio Vargas e, desconsiderando por completo o fato de que não tenho menor simpatia pela figura do Getúlio Vargas, me puxando pelo braço, saiu correndo feito um destemperado na direção do obelisco onde os gaúchos amarraram os cavalos na Revolução de mil novecentos e trinta. Ele retruca afirmando que de nada valeria estar de férias no Rio de Janeiro pela primeira vez juntos se não tirássemos uma foto naquele monumento tão emblemático para a história dos gaúchos e do Brasil. Pergunto se ele não poderia ter esperado o sinal fechar. Concentrado na operação de tirar sua maldita máquina fotográfica do estojo, ele não responde, apenas sorri da maneira artificial de quem está usando óculos de sol que lhe cobrem quase todo o rosto. Aviso que não vou tirar foto alguma com ele naquele lugar. O sorriso desaparece. Ele argumenta que seria uma foto importante. Não sei o que dizer sem que acabe perdendo de vez o pouco de paciência que me resta. O mais acertado talvez fosse contar que pretendo me separar dele quando voltarmos a Santa Maria, pegar um táxi e voltar ao hotel, deixando que ele vá sozinho até a loja masculina onde seu pai costuma comprar as tais camisas sociais de linho duma tal camisaria da zona norte do Rio que está à beira da falência há anos, mas que fabrica as melhores camisas de linho que se possa encontrar no Brasil, deixando que se entretenha à vontade com as lojas da Rio Branco. Pego a máquina da sua mão, digo que farei uma foto bem bacana. Resignado com a minha recusa, ele diz que é melhor eu colocar no automático. Obedeço. Ele pede que eu tente um ângulo em que apareça a torre onde está o relógio da antiga Mesbla. Obedeço. Pede que eu me afaste mais um pouco, mesmo que esse eu me afastar mais um pouco me leve a alguns passos fora do calçamento me deixando à mercê dos carros que estão passando. Obedeço. […] Tentando não ser o único a ficar dizendo que tem alguma coisa estranha nisso do motor do barco ter parado de funcionar da maneira como funcionou, o único a insistir com o dono do barco pra que ele baixasse a âncora enquanto resolvia o problema do motor e, principalmente, fazendo de tudo pra não pegar o caminho fácil, que seria começar a beber cerveja e, pior do que beber cerveja, a beber no mesmo ritmo dos outros caras convidados da festa, daquela festa de homens jovens e sarados vestindo apenas sungas que ele inventou porque estava entediado, resolvo parar de fazer perguntas sobre qual seria o plano B se o motor não voltasse a funcionar e dar descanso ao dono do barco que neste momento está às voltas com a maquinaria tentando compreender o que aconteceu com aquele motor a diesel nada agradável de se olhar porque está visivelmente sem a conservação adequada. Subo até a cabine do condutor, pego o binóculo sobre o tampo do lado direito do timão, me acomodo longe da muvuca que ele e os seus convidados estão promovendo, como se não houvesse motivo algum para se preocupar. Coloco os fones de ouvido, programo o álbum da Adriana Calcanhoto pra rodar no iphone, pelo binóculo, olho na direção do centro do Rio e relaxo. O barco está de frente pra Avenida Rio Branco, consigo ver o corredor de prédios que se estende em linha reta, uma reta perfeita, até o outro lado do Centro, o resultado do que a terra firme é capaz de proporcionar e a altura que só a terra firme pode proporcionar. Um dos caras de sunga vem falar comigo, a voz delicada da Calcanhoto está suficientemente alta pra que eu não entenda uma palavra do que ele está dizendo. Então ele faz sinal pra que eu tire ao menos um dos fones e o escute. Opto por colocar a reprodução no silencioso, pergunto se está tudo bem. Ele me dá uma piscada, que é claramente uma forma de afirmar que não podia estar melhor, e pergunta se está tudo bem. Respondo que sim. Ele explica que o meu amigo, o dono da festa, pediu pra ele vir perguntar o que eu estou pensando. Respondo que estou só olhando a Rio Branco e pergunto se ele não acha engraçado que o nosso barco ancorado esteja coincidindo com o alinhamento da Rio Branco. Ele diz que a Rio Branco faz ele se lembrar do carnaval, dos blocos, principalmente do bloco Cacique de Ramos. Eu digo pra ele que ela me faz lembrar trabalho, conto que quando saí da casa dos meus pais aos dezesseis anos trabalhei por quase dois anos numa daquelas lanchonetes de calçada e que as lembranças daquele lugar não são as melhores. Ele pergunta se eu já fui alguma vez nos desfiles de carnaval que acontecem lá. Digo que não sou muito fã de carnaval e que, na verdade, nem gosto muito de circular pelo centro do Rio, mas que precisava admitir: a Rio Branco tinha a sua energia. Da mesma forma que sentou ao meu lado ele se levanta, diz que ficou contente de ver que eu não estou triste, que só estou admirando a cidade. Não digo nada. Ele retorna à muvuca dos caras só de sungas. Tiro a música do iphone do silencioso. A tarde está linda, fico mais tranquilo ao me dar conta de que a tarde está linda e a terra firme não está tão longe, não sou bom de natação, mas com um dos coletes salva-vidas do barco, ainda mais estando sóbrio como estou, tenho certeza de que consigo me virar se for mesmo necessário. Meu Jesus do Céu, que tarde linda. Não importa o que de pior aconteça por aqui, pelo menos ali, na terra firme, não vai ter o que tire a graça e a tranquilidade desta tarde linda, linda, linda.

*Este conto foi escrito para um projeto artístico que deverá ser veiculado até o final do ano. Por razões que não vêm ao caso explicar neste momento, teve de ser modificado, adaptado e reduzido. Aproveito tudo que está em jogo neste período pré-eleitoral para lembrar (ainda tentando entender toda sua riqueza) o que aconteceu em junho do ano passado não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil inteiro. Literatura e política são dimensões culturais muito distintas, mas são consequências relevantes da vida; o que sei é que uma dessas duas dimensões jamais chegará tão perto da alma brasileira e da sua inquietude única como a outra. Na próxima edição, prometo, retomo o estado normal da coluna. Até lá.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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O ambivalente

Por Paulo Scott*


O sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado é um escritor brasileiro de ficção de pouco mais de trinta anos que mora em São Paulo e consegue tempo e tranquilidade emocional para escrever seus livros sem que absolutamente nada o aborreça — ao menos durante a maioria dos meses do ano, isso já há seis anos —, graças ao trabalho de redator que sempre consegue em campanhas eleitorais. Pouco lhe interessa o partido, a coalizão partidária; sua verdadeira preocupação, praticamente a única preocupação (aguçada pelo velho e bom instinto de sobrevivência), quando chega o momento de se preocupar, é descobrir que político vai lhe pagar mais do que os outros políticos pagariam para fazer a sua magia de sempre, a magia de escrever para conseguir os resultados que esperam que os seus textos e ideias consigam produzir.

Neste ano de dois mil e catorze, o sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado, no dia seguinte ao fim da Copa do Mundo, trabalhará para uma coalizão de partidos num dos estados mais pobres do nordeste do Brasil e não se ocupará apenas da eleição para governador, participará também de reuniões que definirão as estratégias para a participação da coalizão partidária na eleição presidencial. Este é um ano de Copa, mas também de eleição; e se, de certa forma, a Copa no Brasil só aconteceu porque antes dela houve uma eleição vencida por todos os que, juntando ambições políticas e esforços, trouxeram a Copa para o Brasil, então, de certa forma, é verdade que eleição no Brasil é mais importante do que Copa no Brasil.

O sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado é bom de estratégias e é bom de pesquisa também, encontra o que ninguém encontra, afinal é bom leitor, do tipo de leitor que prevalece sem esforço entre os cabos eleitorais que, de tão rotineiros, estão acostumados à correria desenfreada da vitória, só à correria desenfreada da vitória, e domina como poucos a arte do recuo e do avanço na argumentação, a arte dos slogans, discursos, perguntas, respostas, mentiras que desmoralizem os adversários políticos da campanha política para a qual trabalha, é, sem dúvida, um sujeito criativo, afinal é um escritor, e escritores têm seus direitos, suas licenças poética, suas prerrogativas, sobretudo, quando se trata de estragar a festa dos outros.

Ele sabe que hoje os partidos brasileiros já não existem para representar, mas para se conservar no poder: a manutenção do poder pela manutenção do poder. Tudo fica mais prático e objetivo quando se entende que um projeto político pode ser apenas a manutenção do poder, fica mais fácil de encontrar a retórica adequada e fazer dela, enquanto se cria os textos de campanha eleitoral, um agradável parque de diversões. Esse é seu pequeno segredo, e ele não pretende revelá-lo a ninguém.

Alguém já lhe disse: nunca vi um redator de campanha com tanta vocação para destruir. No final das contas, tanto faz se você planta boatos absurdos em inocentes caixas de comentários, usando todos os recursos para que o seu endereço IP jamais seja descoberto, e esses boatos se espalhem como um vírus pela internet e pela imprensa e causem todos os estragos imagináveis na reputação das suas vítimas antes de serem apontados como falsos, ou se você consegue, numa velocidade impressionante, um contra-argumento que reduza o argumento inimigo a pó, que lapide uma versão ainda mais escandalosa envolvendo a vida secreta escandalosa de um parente próximo do inimigo eleitoral, tanto faz e tanto fez se você não conseguir emplacar no seu próprio olhar aquele seu velho olhar de destruição.

O sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado é um brasileiro que não gosta muito de futebol, pelo menos não a ponto de bater no peito e gritar que o futebol é sua pátria, sua religião, sua alma, é do tipo de brasileiro — da parcela mínima de brasileiros que nos anos da adolescência descobriu que dedicar tempo demais da sua vida ao futebol, torcendo pelo futebol, mesmo sabendo que futebol sempre foi assunto de cartolas, pode estragar a sua vida. Ainda assim, não conseguiu conter-se de alegria quando ficou sabendo que a Copa do Mundo de dois mil e catorze seria no Brasil; até ficou feliz pela eleição dos que conseguiram trazer a copa do mundo para o Brasil.

O sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado é um cínico, por isso, ao menos do seu ponto de vista, jamais será um ingênuo, um bobo alegre, como a maioria dos brasileiros costumam ser, ao menos os brasileiros do lugar de onde ele diz que veio, embora até hoje não tenha deixado claro de onde exatamente veio; sendo um cínico e um bom leitor, portanto um cético, ele sabia que as manifestações contra a Copa não resistiriam ao som do apito dando início à partida entre Brasil e Croácia. Nada como a democracia, o jogo da democracia, o tudo pode da democracia. (Democracia traz trabalho para escritores, e você é um escritor.) Ele gosta de assistir à seleção jogando as suas partidas da Copa e ele sabe que o seu trabalho vai depender do que vai acontecer com a seleção, porque atacar ou defender gastos exorbitantes não será algo efetivo se desconsiderar o desempenho da seleção.

Na verdade tanto faz o que vai acontecer com a seleção, o sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado terá de escrever o que tiver de escrever, convencer quem tiver de convencer. Por isso, prefere pensar que a Copa é uma trégua, uma sequência de prestidigitações impedindo que ele entenda o que de fato está acontecendo, outro tipo de farra, um tipo diferente da farra para a qual trabalhará e que é uma farra à base de releituras, algumas mediúnicas até. Tudo que se ensaiou para acontecer, mas não aconteceu será a matéria-prima do seu trabalho, da sua magia.

O sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado não vê problema em ser uma pessoa sozinha, uma pessoa sozinha observa melhor. Para observar o que talvez fosse mais que uma manifestação de protesto que não receberia atenção da imprensa, saiu do seu apartamento no centro de São Paulo, caminhou alguma quadras e foi até a Praça Roosevelt, lugar de resistência cultural onde ficam alguns teatros e onde estava acontecendo uma reunião pública com algumas centenas de pessoas para discutir os abusos cometidos pelas polícias civil e militar de São Paulo durante os protestos recentes contra a realização da Copa do Mundo, inclusive para tratar da prisão de um professor e um estudante, acusados de serem Black Blocs, detidos durante manifestação dias atrás.

O sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado percebeu que o ambiente estava tenso, havia tropas especiais da polícia militar cercando os que estavam na reunião, intimidando a todos os que circulavam na área da praça, pensou em dar meia-volta e retornar, mas decidiu avançar, encontrou um lugar menos exposto e observou a reunião e os seus desdobramentos. Acompanhou quando dois advogados que estavam ali prestando assessoria aos manifestantes foram imobilizados e levados presos. Da última vez ele foi ao um protesto que lembrou todos os operários mortos nas obras dos estádios para a Copa do Mundo. Ele sabe que todos os protestos contra a Copa do Mundo durante a ocorrência da Copa do Mundo serão capitalizados pelos políticos de situação e pelos de oposição, por isso esperará pelo fim da Copa. Ele ainda só não sabe que o Brasil não será o campeão.

Para o sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado o ano de dois mil e catorze só começa no dia seguinte à Copa do Mundo, então, junto aos problemas de sempre, problemas que ganham outra importância durante as campanhas eleitorais, ele vai ter que decidir rápido o que fazer com a Copa do Mundo e com todas as surpresas que aparecerão depois da Copa do Mundo. A vantagem está em saber antecipar, conseguir ler nas entrelinhas das tréguas. Ele sabe que para muitos dos que lucraram com a Copa do Mundo o ano acaba no dia seguinte ao fim da Copa do Mundo, mas não é o caso dele. Para o sujeito que solicita que o seu nome não seja revelado, o ano só acaba depois das eleições, quando então ele embolsará a pequena fortuna que lhe prometeram, tirará umas férias e voltará a escrever seus livros com a tranquilidade que a democracia lhe traz. Afinal ele sabe muito, só ainda não sabe que o Brasil não será o campeão.

*Trecho selecionado (e readaptado) de um texto que escrevi sobre o Brasil a pedido da Revista Granta Online em julho deste ano.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Monstros e bibliotecas

Por Paulo Scott


1.

Depois que eu escolhi o título deste texto (escolho os títulos depois de já ter escrito algum parágrafo, desta vez foi diferente), fiquei pensando que talvez ele soe bizarro, parecendo um daqueles títulos de histórias em quadrinhos do tipo “Cadillacs & Donosaurs”, “Love and Rockets”, “Cowboys & Aliens”, sugerindo abordagem sobre mundos inconciliáveis que — no mais inusitado que alimenta o céu das histórias em quadrinhos — acabam se combinando. Adianto, entretanto, que não se trata disso. A intenção é menor, é falar de uma das categorias mais curiosas de frequentadores de bibliotecas: os tímidos. A razão? Bem, talvez porque eu já tenha integrado essa categoria, talvez porque, apesar dos campos de força protetores que vamos aprendendo a vestir durante a fase adulta, eu ainda a integre.

2.

Gostaria de ter uma justificativa glamourosa para explicar a origem da minha ligação quase sagrada com as bibliotecas — no começo com as bibliotecas das escolas onde estudei e depois com as bibliotecas públicas e com as bibliotecas particulares, especialmente as daqueles amigos que têm livros raros ou difíceis de encontrar em livrarias, reunidos em razão de um interesse específico, de uma pesquisa específica, e ficam ali todos bonitinhos nas prateleiras das estantes formando uma coleção que não só te surpreende, mas que te fisga de verdade —, mas não, a justificativa real é que fui uma criança muito tímida e um pré-adolescente muito tímido também, e as bibliotecas, o ambiente das bibliotecas, pari passu com o encantamento crescente pela leitura em si, eram uma espécie de esconderijo ideal.

Como é de conhecimento de todos, às vezes, os muito tímidos (sobretudo uma criança que ainda não compreende a complexidade e a extensão dos efeitos colaterais da própria timidez) precisam mais do que ficar invisíveis, precisam se esconder e, por conta disso, tratam logo de achar um bom canto longe dos olhares do mundo para se enfiar, se esconder – algo como acontece com um dos protagonistas do romance Habitante irreal. Desculpem a reprodução do trecho:

“Ela vem correndo em sua direção com um CD pra lhe entregar, é o Love on the Beat, do Serge Gainsbourg, diz que ele tem de perder tempo é com esse cara, não com os Nine inch nails da vida. Donato olha para ela agradecido, coloca o CD no bolso do casaco, pergunta se não quer ir com ele até a biblioteca. Ela ri e diz que se alguma vez trocar o intervalo de um dia ensolarado no pátio principal da escola pela biblioteca que a internem num manicômio, beija ele no rosto e volta para sua roda de amigas. Donato, então, caminha até o início do corretor que leva à saída do colégio, dobra à esquerda e segue até a biblioteca. Ali é o seu refúgio. Dizer bom dia às bibliotecárias é refúgio, atrapalhar-se com os fichários e nomes nas lombadas dos livros é refúgio, achar que entende a poesia dos autores brasileiros é refúgio, que entende Walt Whitman e Camões, quando mal são tratados em sala de aula, é refúgio. Ali tem a sensação de não estar perdendo tempo e (espremido nos corredores junto aos outros alunos, os sinceramente interessados e os que muito provavelmente apenas adotaram uma estratégia de invisibilidade como a sua) tem a sensação de possuir algum controle sobre a autobiográfica. Ali não precisa se submeter a testes de força, carisma, atilamento, humor, ali não precisa descobrir o quanto se parece com seus colegas futuros grandes líderes de seus países, ali na impessoalidade das estantes de ferro ele, que é sempre tão impecável, passa os únicos minutos do dia em que admite para si a oportunidade de enfraquecer, de se acovardar”.

3.

A timidez é fator curioso, ao mesmo tempo em que se atrela a uma condição de fragilidade, reserva um parentesco meio perverso com a megalomania e até com a arrogância, o tímido evita se sentir exposto porque, de certa forma, se sente o centro constante das atenções, se interpreta como o ápice do mundo; o tímido nunca é, animicamente, tão frágil quanto parece. Essa superlatividade, psicológica, emocional, equivocada, é um bilhete de primeira classe para o trem do desconforto rumo a um abismo que nunca chega de verdade. Mas essa é uma versão poética.

A ideia de isolamento, a própria singularidade do isolamento, e a série de escolhas que uma pessoa imersa no isolamento comete tentando encontrar o conforto, alguma paz, pode ter endereço justamente na discrepância em relação ao contexto que sua condição etária, social, familiar o insere. Uma curiosidade e uma propensão à leitura, exacerbadas porque os outros colegas não as têm na mesma intensidade que você, ao menos alegoricamente (no mundo alegórico que funciona dentro da cabeça do tímido), pode acabar criando um endereço na avenida do estranho, da estranheza que, se o vivente tiver sorte, poderá se revelar no artístico. Mas essa é uma versão poética.

Em certos contextos o artístico é um crime, querer imergir na dimensão artística é um crime — essa condição, essa identidade, eu arrisco dizer, é mais difícil de ser conduzida pelo tímido pré-adolescente. Estar fora do gosto médio, do comportamento médio, dependendo, é algo que te empurra inescrupulosamente para onde haja um cenário mais amplo, um horizonte em que um número maior de coisas faça sentido, e esse lugar são os livros, podem ser os livros. A estranheza, aquela que vem quando o vício pela arte, a pecha da arte, cola em você, não é mais estranheza dentro dos livros. Mas essa é uma versão poética.

O monstro. Mas essa também é só uma versão poética.

Sem mais.

4.

Talvez eu esteja tentando generalizar o que só faz sentido dentro das minhas sinuosidades, das minhas leituras — e esteja tratando como timidez o que talvez não passe de um modo específico de timidez. Não sei. O fato é que a minha timidez de pré-adolescente acabou me levando para muitos lugares legais, alguns deles foram as bibliotecas. E até hoje, quando entro em uma biblioteca pela primeira vez, tenho aquela sensação de nova amizade, de conforto que dificilmente não se comprovará, embora eu já não tenha mais o desejo, a compulsão, que tinha na pré-adolescência pela invisibilidade e por me esconder.

Mas, como é de conhecimento de todos, um tímido nunca se cura cem por cento. Vez ou outra — isto variará de acordo com o ambiente — eu volto a ficar muito tímido de verdade. Para minha sorte os tempos mudaram, a tecnologia avançou, e quando isso acontece, tiro o celular do bolso, aproveito a rede sem fio ou o péssimo 3G nosso de cada dia, navego na internet (esse esconderijo muito maior do que as minhas queridas amigas bibliotecas) atrás de algo para ler, para imergir, mesmo que o meu celular seja notoriamente um celular do tipo bem simples e nem sequer preste para conectar a internet, muito menos atrás de algo novo, algo que valha a pena, para ler.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

O gargalo do cordel

Por Paulo Scott


Nas poucas vezes em que fui jurado — e pude conviver com as inquietações de outros jurados — em processo de seleção de textos literários para atribuição de prêmio (considerando aqui a concessão de bolsa literária também como prêmio), tive chance de reconhecer alguns impasses que, em menor ou maior proporção, tornam a equidade, a construção de uma possível equidade pelo grupo julgador, bem mais difícil. A relação de hipóteses de confrontos de critérios e parâmetros de afirmação de relevâncias é infindável. Eu poderia recuperar algumas discussões, temáticas que pautaram algumas discussões das quais participei, apenas para ilustrar o quanto complexo, e às vezes demorado, pode ser o nivelamento, ou estabelecimento de algum equilíbrio apaziguador, entre subjetividades provavelmente tão distintas entre jurados, mas não farei. Sem qualquer pretensão de apresentar contribuição definitiva a respeito do problema, anoto aqui a dificuldade que é avaliar a pertinência e a qualidade literária de um texto literário apresentado como cordel.

Para evitar confusões, preciso dizer que parto da seguinte premissa: um jurado não pode pura e simplesmente afastar o formato literário que se lhe apresente alegando falta de familiaridade ou versão. Um jurado com problemas de humor e preconceito precisa ter a coragem (e a honestidade) de se declarar impedido e se ausentar do processo, mesmo que isso lhe custe alguns reais a menos no bolso, algum ruído nas suas projeções financeiras imediatas. Considero aqui, portanto, perfil de jurados que assumam a sua função, e se integrem, em processo de julgamento deixando seus preconceitos e acomodações estéticas do lado de fora da sala de avaliação.

Formatos, e conteúdos neles contidos, desde que pré-enquadráveis, sempre condicionam empatias, desencadeiam empatias, ou não, e quando há pressa e volume considerável de texto a ser vencido em julgamento para premiação, esse quadro, esse processo de leitura e apreensão, é ainda mais crítico. Um jurado sempre precisa dar conta do tempo e da quantidade de cenários que lhe foram destinados. Superado isso (digo, a hipótese da má-vontade), especificamente com relação ao cordel, sobretudo quando o espectro — contendo formatos e gêneros literários vários — no qual o cordel esteja presente e competindo seja amplo, há sempre possibilidade de estranhamento (e, talvez, recusa). Determinado jurado pode se perguntar: que ferramentas usarei para saber se este cordel tem relevância, tem qualidade, e, por isso, merece o meu voto entre tantos textos literários em relação aos quais me sinto mais próximo?

Começa-se pela forma? Começa-se pelo conteúdo? Começa-se pela beleza e pelo caráter da xilogravura que eventualmente acompanhará o texto (e ao longo da história do cordel se tornou um elemento quase indissociável da sua identidade, embora não se confunda com sua integridade)? Onde inseri-lo? No gênero prosa? No gênero poesia? Deve-se pesar a relevância histórica do conteúdo? Deve-se considerar o humor? É possível querê-lo contemporâneo? Como confrontá-lo com a prosa urbana de hoje e saber se a supera? Como confrontá-lo com a lírica de hoje e saber se a supera? Descartar ou não o olhar e a justiça reparadora da condescendência (o que, na prática, seria o inverso do preconceito)? O que fazer?

No ótimo Apontamentos para uma história crítica do cordel brasileiro (São Paulo: Editora Luzeiro, 2012), o escritor e professor Aderaldo Luciano conjuga alguns elementos que, na perspectiva inicial da descoberta de uma genealogia do cordel, realçam a identidade do que seria o próprio cordel. O autor sustenta que o cordel seria uma forma fixa de poesia passível de se manifestar “de formas distintas, sem pureza textual, com uma característica predominante”, podendo ser predominantemente lírico ou predominantemente narrativo, sem ter “cunho efetivamente rural”, já que é “fruto da confluência do mundo rural com o mundo urbano, do sertão com a cidade”.

Além desses parâmetros, o autor acresce no seu estudo os seguintes apontamentos, que parecem bem oportunos à reflexão que pretendo aqui fazer, apontamentos que parecem atenuar a eventual vocação ao estranhamento referido acima: “a) o nome literatura de cordel é de origem lusa, mas mal empregado em relação aos nossos folhetos de cordel, pois são fenômenos distintos, havendo mais diferenças do que semelhanças entre eles; (…) e) o cordel não é a versão escrita do universo dos cantadores e repentistas nordestinos, é um produto estritamente escrito, tendo inclusive o cordel influenciado as modalidades de cantoria; f) as tentativas de conceituar o cordel foram sempre regidas pela sua apresentação material, nunca pela sua forma literária; g) o cordel sempre foi tido como um subproduto popular; h) o autor de cordel é um poeta como outro qualquer, escreve porque tem necessidade vital; i) o cordel é literatura brasileira e como tal deve ser estudado; j) os estudiosos do cordel foram incapazes de oferecer-lhe sua verdadeira dimensão literária; (…)”.

Na visão de Aderaldo, o cordel deveria ser reconhecido pelos jurados de qualquer premiação como forma poética em seus aspectos formais e poéticos, justo por estar assentada nas presenças de estrofes na maioria das vezes estruturada em sextilhas, septilhas ou décimas, “metrificadas em versos setissilábicos (o verso de pé-quebrado já é um item de avaliação), as rimas na sextilha são alternadas (na forma abcbdb) e sempre soantes (devendo os finais das palavras coincidirem totalmente, o que já é outro ponto avaliativo); as septilhas são dispostas assim abcbddb e as décimas abbaaccddc”.

Ainda na consideração do autor: “Todo cordel deve ter no mínimo 32 estrofes, considera-se, numa flexibilização, até 30, abaixo disso não é cordel, mesmo contendo todas as outras características. O seguinte aspecto é a abundância de rimas: a presença constante das rima em ÃO e no infinitivo dos verbos ou no gerúndio derruba a qualidade do cordel. O desejado é que o cordel de 32 estrofes apresente 32 rimas diferentes. Se o poeta quiser seguir a tradição e, por exemplo, fechar seu cordel com um acróstico, aumenta seu valor. Mas diminuirá se ele fez o acróstico, mas não abriu com a Invocação, que é um traço herdado da épica clássica e faz parte da tradição do cordel”. Acróstico é técnica na qual cada letra do nome do cordelista iniciará um verso da última estrofe de seu folheto; uma espécie de assinatura (e ferramenta de registro da autoria).

Quanto ao que poderíamos chamar de avaliação gramatical propriamente dita, reforça Aderaldo: “a presença de inversão sintática prova que o poeta não domina os desígnios da narrativa. A inversão é uma possibilidade, mas não uma regra. Só deve ser utilizada em caso último para adequação da rima e, mesmo assim, se a rima for banal, a inversão torna-se uma muleta e derruba o valor do cordel. As presenças do ‘E’ apenas para completar os pés do verso, o abuso do ‘QUE’, do ‘ENTÃO’, do ‘PRA’ são intoleráveis. É importante apontar que no cordel o uso de linguagem “matuta” não é tolerado de maneira nenhuma. Palavras escritas seguindo a imitação fonética devem ser execradas. A tradição prova que o poeta só erra uma palavra por não conhecê-la e não voluntariamente”.

Por fim, mas sem esgotar todas as abordagens e leituras a que pode ser submetido um texto de cordel, o autor considera a relevância da obra em função do seu valor poético asseverando: “o valor poético, que deve prevalecer, mesmo porque tudo dito acima deve estar a trabalho da poesia. O poeta pode seguir tudo à risca e não ser capaz de criar nenhuma situação poética, ou seja, todo o esforço foi inútil. Mas é necessário observar que o cordel pode ser narrativo, onde o principal valor está na história contada, no enredo, no perfil dos personagens, nas tramas e na finalização, devendo como em toda narrativa surpreender o leitor. Nesse caso a poesia deve ser sutil para não atrapalhar o desenrolar da narrativa. Mas o cordel também pode ser lírico, reflexivo, aí a poesia deve sobrepor-se às pequenas narrativas. Nesse caso, o mais importante é a construção de imagens cujo objetivo é envolver o leitor em suas próprias experiências. Agora, há um tipo de cordel que chamamos de dramático, no qual não aparece narrador ou, se aparece, é discreto, deixando aos personagens desenvolverem a poesia: são as pelejas, os encontros, os debates, os desafios. Apresentam até outro tipo de forma, pois nesses podem aparecer outras estrofes medidas pelas modalidades da cantoria”. Ou seja, na visão de Aderaldo, o jurado de cordel “deve também conhecer o ritual e a poética dos cantadores”.

Muitas das reflexões sintetizadas acima não estão em obra escrita, foram obtidas por meio de conversa (não entrevista, conversa mesmo com Aderaldo), e estão aqui pelo seu valor analítico e também para que eu pudesse expor com alguma profundidade — e aval de quem conhece, e por isso tem seus critérios claros — a quantidade de fatores que podem, eventualmente, estar em questão quando num julgamento se procure investigar e descobrir a relevância e qualidade de produção literária. Tratei do cordel, mas poderia ser qualquer outro formato que escape de uma produção de narrativa, em prosa ou poesia ou mesmo de crônica (sempre lembrando o absurdo que é misturar crônica e conto numa mesma categoria de avaliação e premiação), a que estamos mais habituados.

Estar à margem de padrões e da moda não deve fragilizar a produção de qualquer formato literário que seja. Com relação ao cordel, temos um cenário promissor até, pois há pequenas editoras que vêm apostando nele, é o caso da Editora Nova Alexandria, a Panda Books, a Editora Peirópolis, a Duna Dueto, a Acaju, a Livro Falante, a Hedra, a Escrituras, a Editora Lê, o próprio Maurício de Souza, que publicou no ano passado a Peleja do Violeiro Chico Bento com o Rabequeiro Zé Lelé, a Lira Nordestina. Há produção, há futuro, e julgar é sempre difícil, ainda mais quando não se tem critérios.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.