Paulo Scott

Crowdfunding literário

Por Paulo Scott

1.

Nesta semana foi lançado no Brasil um interessante pequeno projeto para financiamento coletivo de livros literários, o Bookstorming. A ideia é basicamente a seguinte: um grupo de pesquisadores e editores idealiza um projeto de livro, levanta o custo da sua viabilização, divulga o projeto nas redes sociais convidando leitores que se agradem da ideia para colaborarem financeiramente com a sua realização — e, como apoiadores, a acompanhar cada etapa da sua concretização, como, por exemplo, a definição do projeto gráfico, podendo inclusive opinar na escolha da capa — e tendo como contrapartida direito a receber um exemplar da obra nas portas de suas casas.

Os crowdfundings, como são conhecidas mundo afora essas iniciativas de financiamento coletivo, já são comuns no Brasil. A hipótese que me ocorre é aquela dos grupos de fãs que organizam vaquinhas com o objetivo de trazer bandas do exterior para virem tocar em solo brasileiro, possibilitando shows que não ocorreriam se estivessem na dependência de alguma grande produtora de espetáculos e de algum patrocinador de peso assumi-los.

No mundo das histórias em quadrinhos, os crowdfundings foram responsáveis por uma pequena revolução recente porque viabilizaram uma série de projetos autorais que não aconteceriam se estivessem na dependência da resposta das grandes editoras, projetos esses (pelo menos alguns deles) que acabaram revelando trabalhos notáveis que contribuíram bastante para o arejamento da tradição narrativa desse campo da arte que desde sempre influencia bastante minha escrita, principalmente a produção poética.

2.

Imagino que, nesse contexto de crowdfundings, a palavra-chave seja mobilização. Conseguir mobilizar interesses, expectativas, necessidades, inquietações se tornou um movimento bastante possível se o conteúdo sugerido (de acordo com os critérios de determinado grupo, microgrupo, macrogrupo) tiver relevância. Sei que não estou dizendo nada de novo, ainda assim, com o texto de hoje, queria muito registrar o fato da utilização de crowdfundings em projetos literários ser um caminho, uma solução, relativamente nova se comparada a outras áreas culturais.

No exterior temos alguns casos bem interessantes de editoras pequenas, como, por exemplo, a inglesa And Others Stories e a americana Deep Vellum, que trabalham (e chamam bastante atenção) a partir da tônica da mobilização, contando com o apoio direto de seus leitores, principalmente para garantir a tradução e a publicação de obras estrangeiras que dificilmente seriam encampadas por editoras inglesas e americanas voltadas à preferência geral do público leitor inglês e americano.

Ainda sob a tônica da mobilização, imagino que muito mais se possa fazer a partir desses financiamentos coletivos, não apenas para se conseguir editar e publicar um livro de autor nacional desconhecido ou esquecido, ou para resgatar uma obra que esteja fora de catálogo, ou viabilizar tradução e posterior publicação de obra que não tenha merecido atenção de qualquer editor brasileiro — uma obra cujo original esteja em língua de pouco acesso aos leitores brasileiros, que tradicionalmente se resolvem com alguma facilidade lendo em espanhol, inglês, italiano, francês, alemão —, mas para viabilizar projetos de escrita literária, projeto que, pelos critérios do grupo que se mobiliza, pareça relevante, subsidiando o tempo de pesquisa do escritor, dando-lhe condições para se dedicar com exclusividade à escrita por um período. Claro, estou aqui apenas especulando.

Há, entretanto, aqui no Rio de Janeiro, um grupo de leitores (não estou autorizado a dar mais detalhes) que se mobilizaram para garantir os recursos financeiros para que um cientista na área da botânica, cujo trabalho já era bem conhecido desse grupo, pudesse se dedicar exclusivamente à pesquisa e a redação de um estudo seu com propósito de publicar um livro dentro de determinado prazo. Faço esse destaque para dizer que as mobilizações de leitores das quais tento tratar apressadamente aqui, mesmo que não superem — nem é esse o propósito — a tradição de procura, seleção e aposta em autores, e projetos literários de autores, pelas editoras já estabelecidas, são possibilidades importantes, possibilidades que merecem atenção.

Suponho que um clube de leitura bem estruturado estaria bastante apto a algum tipo de mobilização como essa. Penso também que, eventualmente, a universidade poderia acomodar projetos reunindo recursos públicos com o dinheiro advindo de crowdfundings pontuais para viabilizar bolsas para escritores que se disponibilizassem a algum tipo de residência e diálogo constante com os alunos da instituição, não só os de pós-graduação, mas os da graduação também — sei que há restrições de comprometimento orçamentário quando se trata desse tipo de combinação, mas a verdade é que sempre há uma brecha que as soluções mais criativas se habilitam para encontrar.

A esse respeito o que posso anotar é que não tenho dúvida: a presença de um autor nacional junto à rotina acadêmica, por um período de meses, com possibilidade de elaboração de trabalho literário, pode ser um fator importante de aproximação entre o universo, predominantemente empírico, daqueles que escrevem (dedicados exclusivamente à literatura ou não) e os que no futuro se encarregarão da leitura crítica, do assentamento ou do descarte, da expansão teórica, das correlações que não se dariam em outro fórum — porque, programaticamente, não há espaço de maior generosidade do que o espaço acadêmico —, daquilo que está se produzindo em termos literários hoje.

3.

Pois bem, como é possível perceber juntou à palavra mobilização a palavra generosidade. Há sim uma vocação plural e uma ousadia que só podem ocorrer no ambiente acadêmico. Imagino que não se possa — e não se deva — esperar que uma diretriz fundada na generosidade, como elemento de integração, de atualização, de ousadia, prevaleça de maneira absoluta em espaços pautados pelo mercado e seus limites inevitáveis. Penso que determinadas mobilizações, resgatando o que se afirmou inicialmente, tendem mesmo a ocorrer, e progredir, nos pequenos grupos, nas combinações sem finalidades lucrativas, movidas por algum tipo de paixão e certeza (que não sejam mera aventura sem realizações), mas também no espaço acadêmico, sobretudo porque tal ambição general não se viabilizaria em contexto que não o das universidades. Ainda um aspecto a aprofundar.

Crowdfundings dependem de comprometimento — que por si só já é um componente interessante, valoroso, agregador —, dependem de qualidade, reconhecimento, empatia. Graças às redes sociais, financiamentos coletivos são cada vez mais relevantes no contexto artístico e, como já se verifica em algumas experiências no exterior, no contexto literário. Obviamente, no caso brasileiro, por todas as razões conhecidas, não seria difícil sugerir que o calcanhar de Aquiles é o leitor, está na quantidade de leitores realmente interessados e comprometidos com esse modo de expansão e também, dependendo do parâmetro pré-estabelecido, na própria ausência de leitores.

Prefiro pensar, entretanto, que sempre há espaço, pensar que sempre cabe uma boa aposta como a desse projeto Bookstorming (tenho de cabeça pelo menos dez projetos recentes, surgidos nestes anos de século XXI, que foram apostas ousadas e contribuíram na redefinição do cenário da literatura brasileira; dentre eles o Sarau da Cooperifa, articulado pelo escritor Sérgio Vaz, e toda a movimentação que ele incorpora), pensar que se corrermos os riscos, sim, haverá mais espaço e — apesar de todas as evidências conjunturais preocupantes de enxurrada de estátuas do ufanismo e da glória nacional rolando ladeira abaixo, sobretudo na educação e no seu gesso bom de esfarelar —, sim, haverá mais leitores.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Making of

Por Paulo Scott

1.

Nestes tempos de acesso online a filmes, seriados e entretenimentos audiovisuais de toda natureza, um DVD, ou blu-ray, se justifica quando traz bons extras dentre os extras não há nada mais interessante do que o making of, aquele documentário no qual são registrados os bastidores da pré-produção, produção e realização da obra audiovisual. No making of, eventualmente, é possível descobrir ótimas linhas de argumentação, justificativas e defesas do que foi contado no filme, do que se pretendeu contar no filme, além de diálogos elucidativos entre diretor e produtor, diretor e ator, diretor e técnico, e por aí.

Em alguns casos, o making of é mais interessante do que o filme em si e, noutros, expande e confirma a narrativa já captada e aplaudida. Sempre que penso em um ótimo filme que teve um making of à altura lembro o caso do filme Blade Runner O caçador de androides, do Ridley Scott, último filme futurista de grande impacto produzido pela indústria cinematográfica ocidental sem recorrer massivamente à computação gráfica.

Não tem jeito, a mecânica do paraquedismo cognitivo funciona assim, você valoriza ainda mais aquilo que gostou quando fica sabendo de certos detalhes, quando recebe certas informações, mesmo que no processo do revelar se quebre o aconchegante encanto da ignorância. No caso do Blade Runner, a saga em torno da elaboração do roteiro do filme sem esquecer que o filme se baseou no romance Do androids dream of electric sheep?, do escritor norte-americano Philip K. Dick é impagável. Recomendo.

2.

Será que alguns livros seriam mais bem recebidos se fossem oferecidos com um anexo, e nesse anexo viesse um making of ou algo que cumprisse função semelhante? Certamente não. Entretanto, não são poucos os casos em que o leitor muda de opinião a respeito de um livro após conhecer as justificativas, pela voz do seu autor ou de terceiros, que conduziram à feitura da obra. Convenhamos, não é o melhor caminho. Há também, embora seja claramente contexto diverso, aqueles casos em que espectador de palestra, após o fim da palestra, motivado pela eloquência do autor, pela empatia que desenvolvera em relação àquele autor, compra o livro e, vencida a etapa do obter o autógrafo do autor, nunca mais se dá o trabalho de abri-lo; é quando o livro vira objeto de decoração. Isso faz lembrar a síndrome do eu te sigo, eu te adoro, sou teu fã, mas acho que nunca te li. Evite.

Essa conversa de making of na literatura esclareço que se há algum sentido na coluna de hoje é tão somente o da exposição de alguma conjectura , respinga em várias direções, inclusive na mais remota que contempla a participação de escritores em encontros literários, em diálogos e questionários literários, nos quais autores são convidados a enfrentar, como verdadeiros comentadores, autorizados, semiautorizados, não autorizados, de si mesmos, o que produziram, a analisar festivamente (leia-se: tornar mais interessante o objeto da digressão do que ele é) o que produziram, sujeitando-se a diferentes graus de constrangimento e de autoconstrangimento, o que sempre dependerá de sua própria disposição, de sua casuística.

Estranha (a partir da pergunta, que não é em si uma pergunta relevante) essa sensação de realização, e projeção interminável e obrigatória, de um making of daquilo que um dia se escreveu para ser apresentado como literatura. Estranha a consciência de que todos nós, em graus diferentes de autoconstrangimento, estamos em pleno exercício da realização, inevitavelmente intercalada por eventuais projeções prematuras, do making of do que fazemos e, o que é mais grave, inegavelmente acumulando milhagens pro grande voo: o making of das nossas vidas. Estranha pertinência, mesmo tendo sido escrita no começo dos anos oitenta, esta pertinência da canção do músico gaúcho Nei Lisboa: Meu amigo, não se desfaça nessa fama / Todo esse mundo do rock’n’roll / É ruim de cama / Eles querem diversão e bolo / Eles querem tudo e mais um pouco / Eles querem Krig-há, Bandolo! / E champaigne / Eles querem frases nos jornais / Eles querem parecer sinceros demais / Eles querem diversão e bolo / Eles querem te fazer de tolo / E eu também.

3.

Vive-se neste angustiante editar e reeditar, e não estou falando de literatura, falo de algo maior; e ao escritor sempre estarão disponíveis maturidade e silêncio, não exatamente um junto ao outro. Mas como fará o escritor neste mundo e nesta rotina em que o escritor ganha, logo consegue dinheiro para pagar suas contas, para falar e falar e falar do que escreveu e do que não escreveu? Sei que não tenho tanta coisa assim a dizer, sei que me justifico muito mais ouvindo, escutando, do que falando. Sei que há convites que jamais vou aceitar.

Se o filme for uma droga não despertará qualquer interesse pelo making of, e tudo se decidirá no plano mais elementar: no simples abandono. Tenho trabalhado com a ideia do abandono na minha rotina de escrita do romance novo, e a abordagem do tema, agora que estou entrando na reta final, já não é a mesma do início dos trabalhos; incrível como as certezas mudam ao longo da escrita de uma narrativa longa. Tenho pensado, mas isso não passa de cogitação, que talvez literatura não seja esquecimento (essa tese da qual tenho falado por aí), talvez seja abandono (e só depois esquecimento), porque cada leitura que desperte algum reconhecimento, com ajuda ou não de making of, se acumula num roteiro, numa condução de roteiro, que posiciona o leitor em lugar novo, forçando-o a abandonar a sua exatidão anterior, a que ele segurava antes da leitura.

O fato é que um bom livro de literatura tem sua resistência e tem seus aliados, certamente um making of não é um deles. Um making of, apenas pela evidência e em favor da metáfora aqui praticadas, não é um fundamento e não é resistência mesmo que se diga sobre ser hoje outro tempo, outra época, a época da exposição a valer, e que ele, mesmo sendo metáfora, em sua função, não existia porque nunca havia sido necessário , mas também não é ameaça. No final, acaba sendo uma etapa possível, que nos lembrará, ao início da exaustão de falar, que o importante, até mais do que escrever um livro, é ler, talvez reconhecer, e pensar, ajustar, e calar.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Viajar sozinho

Por Paulo Scott
Walk
1.

A onda selfie – você sabe (depois da última edição da entrega do Oscar, todo mundo sabe) –, isso da pessoa se autofotografar, não é novidade alguma, apenas ficou superagravada pelas facilidades tecnológicas recentes e pela adesão eventual de celebridades em chamas, – transformando a maioria do mundo num grande funcionário do mês, na melhor das hipóteses, num colaborador não remunerado, do Instagram – como tudo na história da humanidade, deve ter surgido de uma necessidade.

Aqui nas minhas conjecturas, e já ficcionando sobre os primórdios dessa manifestação que se transformou em febre comportamental, imagino a figura do viajante solo em férias – resisto com todas as forças a rotulá-lo de viajante solitário. Porque o bom de viajar de férias (e férias sempre arrastam uma série de exigências) para um lugar bacana, todo mundo sabe, é poder mostrar depois que se viajou para um lugar bacana. Registros de imagem, eventualmente de ação, colocam-se como exigência capital, sobretudo nesta nossa atualidade que cobra de todos um comportamento solar.

Pessoas que viajam sozinhas são subgênero glamouroso do gênero pessoas que estão sozinhas, para o bem ou para o mal da própria sanidade, nesse subgênero estão os que conquistaram uma espécie de blindagem à La Mágico de Oz contra a solidão se reservando (reservando, no caso do viajante solo em férias, a própria imagem, ou ação, acompanhada por uma vista maravilhosa coadjuvante ao fundo e poses especiais, o clássico fazendo caras e bocas, ou não) para se mostrar depois a alguém que possivelmente recepcionará com interesse a imagem, ou ação, do momento, infungível graças ao peso afetivo depositado nele, vivido pelo viajante solar, a ponto de ser compartilhado e aplaudido, completando algo; sim, completando, fechando um círculo, justificando o estar aqui enchendo com pás e pás de carvão o motor do existir, pelo menos à La Mágico de Oz.

Já viajei sozinho pelo Brasil e pela Europa algumas vezes, já viajei acompanhado também. Em matéria de revista lida recentemente em sala de espera de dentista, alguém caracterizava os que viajam sozinhos de férias como sendo pessoas que optaram por se isolar dos problemas, por escapar – escapar no sentido gravitacional extremo do termo escapismo.  No texto dessa matéria estava enfatizado, e isso foi o que mais me soou engraçado, que, muitas vezes, ter companheiros de viagem é igual encomendar problemas. Penso que viajar sozinho para lugares bacanas é legal pelo ineditismo da experiência, pela sua eventualidade também, funciona uma vez, duas, três, no máximo, porque, na grande moldura ideal, o bacana é viajar para lugares bacanas com alguém bacana.

Afinal, de que vale o paraíso sem amor? Ou sem amizade? Ou pelo menos, sem alguém para beliscar gentilmente o seu bracinho e provar que você não está sonhando, nem virou Napoleão Bonaparte?

Prometo que daqui não passo.

2.

No próximo domingo viajo para Portugal, onde ficarei por quase quinze dias participando de encontros literários na Ilha da Madeira e em Lisboa.

A Ilha da Madeira é um lugar que eu sempre sonhei conhecer (nesse imaginário não deixa de ser uma Ithaca de onde eu nunca parti, embora, tendo eu sangue português correndo nas veias, talvez tenha partido de lá ou avistado sua geografia em algum trânsito antepassado perdido no tempo e nas motivações gerais da humanidade). Viajo com a certeza de que encontrarei amigos que prezo e será muito agradável, mas penso que voltar a encontrar Lisboa depois de tantos anos e pisar pela primeira vez em solo mítico da Ilha da Madeira seriam oportunidades que só estariam completas se Morgana viajasse comigo; por conta de nossas agendas de trabalho tão diversas no momento, ela não poderá ir. Não é difícil prever que a experiência em Portugal será maravilhosa, mas tenho certeza que restará pedindo completude em algum lugar da sua ocorrência.

A selfie de alguém, capturada com o fundo coadjuvante de um lugar bacana, ou não, pode ser um baita tesouro, como aquelas fotos três por quatro dos entes queridos que nossos pais ou avós carregavam na carteira, no ímã preso do painel do carro, no tempo em que os carros tinham painéis metálicos, naquela moldura onde estava escrito Não corra, papai – algo de uma potencialidade lúdica tremenda. A força dos objetos e das situações depende do valor que atribuímos a elas, no olhar estão as portas secretas para fora do corriqueiro.

Tempo atrás postei no meu perfil do Twitter uma selfie que Morgana fez em Frankfurt enquanto eu viajava de trem para Stuttgart para uma leitura de trechos do romance “Habitante irreal” na Biblioteca Pública de Stuttgart (considerada a mais moderna da Europa) no início de setembro do ano passado, uma foto que eu não canso de olhar. A solidão não é exatamente ruim quando se sabe, ou se supõe, que se está num atravessar a piscina por baixo da água, esperando enquanto se movimenta braços e pernas a chance de chegar ao outro extremo e voltar a respirar.

É bem possível que eu cometa uma selfie com a câmera do meu celular (às vezes é impossível resistir e não solar), mas a emoção de reencontrar Portugal depois de décadas é tanta que talvez eu só queira respirar Portugal e mais nada; como dizem belissimamente os portugueses: a ver.

Um dia é possível que haja um chip para ser implantado em nosso cérebro permitindo que compartilhemos em tempo real com a outra pessoa, a que se interessa pelas nossas banalidades de viajante solo, solar, as experiências maravilhosas vividas, e isso cause forte impressão de plenitude – veja-se o cataclismo recente provocado pelo filme Her, do Spike Jonze, veja-se aonde podemos chegar com tanta projeção –, e não haja mais tristeza, a que sempre vaza das entrelinhas de uma selfie (esqueça essa baboseira de selfie coletiva), que haja apenas esperança de Oz, quem sabe; mas ainda assim sempre faltará alguém para beliscar de leve o seu bracinho enquanto você atravessa a piscina, dizendo para si mesmo: cheguei até aqui, por baixo da água sem respirar.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

 

A festa e a passagem

Por Paulo Scott


Na primeira vez que passei o carnaval no Rio de Janeiro, já sob a dinâmica deste ressurgimento dos blocos de rua — fenômeno que vem num crescendo espantoso desde o início dos anos dois mil —, ouvi de um casal de amigos cariocas que o bom da festa é a chance de ficar em silêncio e apenas sorrir, sorrir sem parar; lembro-me dela ter dito que no sorrir silencioso estava o segredo da desintoxicação existencial que só o carnaval propicia. Não me lembro de ter chegado perto de bloco de carnaval de rua ou de qualquer outra modalidade de carnaval naquele ano, lembro sim de passar o feriado encerrado nas sessões das salas de cinema de Botafogo, aqueles ambientes escuros e refrigerados onde se você tiver sorte de contar com assistentes civilizados poderá apreciar o que justamente o cinema tem de melhor (algo que a lógica da televisão, dos produtos para a televisão, por exemplo, jamais nos entregará): o silêncio, preciosos momentos de silêncio.

Há mais de oito anos sofro de uma condição física anômala chamada Tinittus, uma disfunção conhecida como zumbido constante nos ouvidos; é como se houvesse um apito soando ininterruptamente dentro da sua cabeça. Quando os sintomas surgiram e se intensificaram, busquei o melhor aconselhamento médico imaginável, consultas, exames, tratamentos, até chegar o dia em que, percebendo que o zumbido tinha vindo para ficar, eu simplesmente me resignei — embora baixo, há um percentual de pessoas afetadas por essa condição que se desestabilizam psicologicamente de maneira grave, principalmente quando se trata de um detalhe bem particular na rotina de todos nós, que é: conseguir dormir. Eu me dei conta de que o melhor a fazer era ignorar a orquestra de cigarras que vieram morar dentro da minha capacidade de ouvir e tocar a vida. Não houve drama.

Apesar da aceitação desse novo lugar, levei quase um ano e meio, talvez um pouco mais, até readquirir a estabilidade e a concentração que antes da invasão das cigarras me garantiam a sensação de tranquilidade, quase playground (embora eventualmente um playground bastante assombrado), a partir da qual eu formulava as plasticidades, a musculatura, as memórias e os labirintos que abasteciam o meu motor da escrita. Porventura química e anatomia reacomodada, resumi em foro íntimo.

Hoje em dia, prefiro escrever com certo grau de barulho ao redor, reinventei um novo silêncio para mim (curiosamente, os momentos de silêncio que acontecem dentro de um bom filme, dentro de uma sala escura e refrigerada, passaram incólumes por essa mudança). É curioso e fascinante — em termos práticos, posso dizer que me tornei um ser humano mais lento, mais contemplativo; sim, nunca termina — estar dentro desse papel, dessa novidade que requer a tal sabedoria do envelhecer, amadurecimento e sobriedade.

Serviu como uma espécie de batismo acompanhar, mesmo que de longe, alguns blocos de rua no ano seguinte ao ano que relatei acima, apenas escutando a alegria franca e contagiante dos amigos e conhecidos. Eu me desvencilhara de um silêncio que não voltaria mais. Ficaria de vez no Rio (neste Rio de Janeiro que terá um ano difícil, mesmo para os que gostam e entendem a complexa lógica do carnaval), os dados estavam lançados, e meu modo de escrever e ler, de me concentrar e concertar, nunca mais seria o mesmo.

Bom carnaval, mesmo para os que não entendem muito bem o carnaval.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Na praia

Por Paulo Scott

Time to Think on the Beach

Estava sentado sob guarda-sóis plantados nas areias fofas da praia do Silveira, Santa Catarina, Brasil, num encontro casual de amigos que surfaram juntos no início da década de oitenta (uma turma que apesar da pouca grana sempre dava um jeito de surfar, se não nas praias de visual caprichado de Santa Catarina, no apocalipse paisagístico contínuo chamado litoral do Rio Grande do Sul) e hoje não passam de senhores de quarenta e tantos lutando, na maciota, contra o colesterol e a obesidade, o tédio e as disparadas de humor relacionadas às finanças pessoais, contabilidades que nunca se amansam, especialmente quando se tem sobre a cabeça a tal missão suprema chamada de filhos para criar, quando na cadeira ao lado amigo arquiteto comentou que o ano de dois mil e treze poderia ser resumido à frase: o ano em que Justin Bieber veio ao Brasil e zoou o Brasil. A frase não causou o impacto que poderia ter causado, não pautou a conversa de polêmicas randômicas fraternas daquele grupo de velhos amigos preguiçosos à beira do mar azul. Ainda assim, desperto pela frase, fiquei pensando.

Não é difícil zoar um país. Não há novidade alguma em vir ao Brasil e zoar o Brasil. A novidade da frase lançada pelo meu amigo arquiteto, ao menos para mim, estava na presença do personagem Justin Bieber, talentoso, carismático, desregrado, transgressor do tipo desrespeitoso barato, como uma estrela do rock até pode ser eventualmente; estava na simbologia da persona Justin Bieber passando uns dias no Brasil. Mas quem, diabos, é Justin Bieber? Ao menos na minha escala dos grandes do entretenimento, Justin Bieber jamais se comparará a um Bob Dylan, a um David Bowie, a um Michael Jackson. Anoto, contudo, não ter nada contra o rapaz, ele faz o que acha que tem de fazer, sobretudo, porque deixam ele fazer (estou a milhares de quilômetros de um dia sonhar em calçar o pijama do tiozinho gritando para as estrelas que no meu tempo, bah, é que era bom).

O meu problema com relação à hipótese é: como eu venho encarando a lógica, a linguagem, as leituras, de um mundo que tem como expoente tão adequado o personagem Justin Bieber (claro, sabemos que há pelo menos uma dúzia de nomes que poderiam substituí-lo, mas foi ele que teve o ímpeto e o charme adolescente James Dean Capeta de tocar um tô nem aí pra cima do Brasil) a ponto de, numa conversa em cenário de areias fofas da praia do Silveira, Santa Catarina, Brasil, ser uma tentativa de resumo, mesmo que irônico, ou cínico, do quadro quase sempre tendendo ao catastrófico que circunda esse imenso estabelecimento chamado Brasil.

O ano de dois mil e treze foi um ano bizarro pro Brasil (e não acho que tenha sido muito diferente dos anos anteriores), a realidade brasileira em vários momentos chegou a picos inimagináveis do absurdo. Um romancista teria enorme dificuldade em levar o improvável de sua ficção ao patamar do improvável da nossa realidade nacional. A farra de Justin Bieber no Brasil, e não estou aqui contraditando tardiamente meu amigo arquiteto, é café pequeno quando se trata da farra de brasileiros zoando o próprio Brasil, um verdadeiro manicômio de onde sairiam, e saem, a qualquer hora do dia e da noite, ótimas histórias de terror absoluto, a começar pela letra a de Amarildo – não me surpreende que livros voltados a dissecar a história nacional recente façam tanto sucesso no Brasil e no exterior. Muitos escritores brasileiros contemporâneos dialogaram com a realidade brasileira e remontaram a realidade brasileira em dois mil e treze, vários deles desta editora, por sinal.

Não acho que se trata de colocar em discussão o aproveitamento e a exploração de personagens genuinamente brasileiras (como se personagem genuinamente brasileiro fosse uma premissa moral, o modo exterior de um postulado ético ou de uma programática correta e justa), não, não mesmo, isso pode acabar se transformando num baita tiro no próprio pé, um tiro ainda mais grave do que o tiro no próprio pé que é ficar bradando, em visível manifestação do complexo de vira-lata, que as histórias contadas por autores brasileiros para serem respeitadas no exterior precisam ser menos exóticas, menos ligadas a um regionalismo de museu ou objeto de tese de universidade francesa, mais atualizadas com o mundo moderno, pós-moderno, subjetivas e urbanas, universais e menos embalagem tropical, como se o escritor brasileiro precisasse ser um arauto efetivo capaz de provar em showroom de feira literária no exterior que o Brasil não é tão Idade Média e território de picaretas com anel de doutor, tão ruralista e falta de saneamento básico, tão violento e terra de coronéis. Mas que há um panorama imenso de possibilidades temáticas no qual colamos com fita adesiva prata nossa cegueira mansa e nossa disposição à falta de originalidade (justo quando sobra originalidade) de elite intelectual, isso há. O tempo passa, e só melhora.

Cada um escreve sobre o que quiser, não há compromisso na literatura. Digo isso pela milésima vez. O que me inquieta, entretanto, é essa sensação de que a realidade (muita atenção: não estou falando de realismo literário) é pouco explorada, pouco investigada (há tempo refiro alguma abertura de canais de patrocínio de pesquisa para obra literária, investigação para juntar material a ser, no exato da sua pertinência em relação ao projeto literário, aproveitado em obra literária; explico melhor em outra sexta-feira); e não estou falando de literatura marginal, literatura de favela, literatura de luta de classes, literatura de minoria (prometo nunca mais usar o termo minoria) como passou a ser lugar comum quando se coloca em discussão a necessidade de ampliar o espectro temático e de abordagens na produção literária nacional. Sei, a discussão é longa.

Disseram que o ano de dois mil e onze foi um marco na literatura brasileira; o detalhe é que marcos e referências sem as quais a humanidade não sobreviverá por mais do que um par de anos são erigidos e derrubados todos os meses. Não é disso que vivem os cadernos e revistas de cultura? A verdade é que, para além de dois mil e onze, dois mil e doze foi um ano único por várias razões, pela projeção de alguns autores novos e alguns nem tão novos assim no mercado europeu, latino-americano e mundial, por exemplo. E dois mil e treze foi o ano de surgimento de novos nomes, de retornos de alguns, de confirmação de outros, tudo isso em quantidade impossível de se ignorar. Sou otimista, que venha o dois mil e catorze oficial (nunca se pode esquecer o efeito carnaval no calendário) e que ele seja um ano bom para a literatura brasileira.

Escrevo esta coluna aqui do Rio de Janeiro, a praia do Silveira é só uma lembrança. Durante a pausa que fiz entre os dois primeiros parágrafos e os restantes coloquei um clipe do Justin Bieber para rodar no Youtube. Nunca tinha escutado uma música inteira do Justin Bieber. O garoto (típico garoto do rock, considerando que o rock nunca passou de música para adolescentes fazerem suas loucuras) tem talento e tem as suas loucuras, sem qualquer ironia da minha parte, acho que combina com o Brasil.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.