Paulo Scott

O monge e o palhaço

Por Paulo Scott

Floating Clowns

Poucos fatores interferem mais na harmonia do universo do que presenciar pessoa aguerrindo a tese de que para ser escritor respeitável (não perca seu tempo dando um Google na expressão, o predicado estará sempre nas entrelinhas), escritor de verdade, o sujeito não pode isto, não pode aquilo, tem que se preservar, tem que decorar a letra da música “Se eu quiser falar com Deus”, do Gilberto Gil, e cantá-la num quarto escuro de joelhos sobre grãos de milho, tem que ser um monge recluso, não um performático.

Na categoria o performático, sempre é bom avisar, caberia uma lista imensa de subenquadramentos, alguns inegavelmente engraçados, como, por exemplo, o comediante da vez, o palhaço da vez, o vendido da vez, o marqueteiro sem limites da vez, o animador de madames em festa literária coxinha da vez, a subcelebridade do circuito palestra animada + resort das estrelas + chofer na porta da vez, o rostinho bonito da novíssima estratégia do novo alpinismo literário estilo assalto da tropa da vez, conspiração internacional da vez, o charmoso da vez, o atuante cênico incensado pela mídia asquerosa esquema sistema financeiro liberal pagando de sistema humorista revolucionário que resolveu mangar de escrever literatura porque, sei lá, é legal da vez, e por aí vai.

Resumindo, para alguém assim, se você circula, interage, organiza encontro literário, promove trabalhos de outros autores, geralmente desconhecidos, se participa de festa literária, se grava vídeo de si mesmo para disponibilizar na web sob o título de telecurso literário de enfoque original, aula protesto, show solo de calouro (não importa a potência do motor verborrágico), se pinta o cabelo de laranja e usa roupa de estilista, se vira colunista polêmico de revista ou jornal selo região sudeste de qualidade do universo, se vira, jogando ou não para a galera, o grande antagonista do colunista polêmico de revista ou jornal selo região sudeste de qualidade do universo, se aparece para dar entrevista no Programa do Jô, se aparece no Sem Censura, se acaba envolvido em algum projeto do pessoal do cinema, de grupos de teatro, bandas de rock, de frevo, de sertanejo pré-universitário, de reggae de raiz, se discoteca em festa de amigos, se aceita participar de partidas esportivas enxertadas como atrações paralelas em eventos literários sérios, seriíssimos, não tem jeito, você é um palhaço, ops, um performático, e jamais produzirá a grande literatura. Bobagem.

A figura do monge recluso, esse ideal que deveria ser o oposto redentor do performático, pode levar a simbologias agradáveis, pode ser, na prática, um eficaz elemento retórico do bem e tantas outras coisas do bem na eterna luta contra o mal, da busca pela empatia. O grande problema é que, no universo literário, o monge iluminado, distante de tudo que é mundano, simplesmente não existe, pelo menos não sozinho, reinando sozinho sobre um mesmo corpo, sobre um mesmo rumo, um mesmo destino.

2.

Existe, acho que no fundo é o que pretendia dizer quando comecei a escrever este texto, um jogo legitimador, repleto de absurdos imediatos. Quem se dispuser a publicar com pretensão de ser lido, mais cedo ou mais tarde, se sujeitará à sua lógica. Por isso, sério, são um tanto curiosos os tais regramentos dizendo que para ser um escritor sério, um escritor de verdade, você não deve jogar o jogo, não pode vestir tênis verde com calça branca e blazer azul marinho, não pode participar deste ou daquele evento, publicar neste ou naquele veículo, não pode ir ao Jô Soares, não pode ir ao Sem Censura. A experiência demonstra, sempre na perspectiva o diabo é o diabo porque é velho, que a rejeição passional a isto ou àquilo neste ou naquele momento, muitas vezes, não passa da ação da velha síndrome do filho querendo chamar atenção do pai – e, claro, não se pode negar que nessa inquietação habita boa parte das grandes motivações artísticas de artistas de todos os tempos – e que, quando o pai dá o mínimo de atenção, o filho rebelde, arauto absoluto da insubmissão, se desmancha.

Todo escritor é um pouco, ou bastante, monge, do contrário jamais produziria, e um pouco palhaço (bem, basta ver no que o mundo, esse mundo selfie das redes sociais e de redes sociais, se tornou), um pouco altruísta e um pouco escroto, um pouco calculista e um pouco kamikaze desvairado. Lembro agora do caso do escritor contemporâneo que, diante dos holofotes, mantém, como poucos, a elegância, a sobriedade, a razoabilidade, resumindo: é um fofo, mas que, no lado B do vinil, é famoso entre os atendentes de livrarias, quase uma lenda urbana, por destratar, sempre sem escarcéu (nunca é bom desconsiderar que sempre haverá seus leitores em potencial circulando em livraria), atendentes de livrarias por seus livros não estarem em local de destaque, por seu livro recente não estar na vitrine, que é o único lugar possível para sua obra. Todos são médico e monstro, e todos querem o seu lugar, o reconhecimento que sua obra mereceria, desconfie de quem posa de santinho justiceiro; a vida não é justa, o universo literário muito menos. Obviamente, não é questão de receber a pecha de performático. Obviamente, todos têm sua estratégia, mesmo os reclusos, os enigmáticos, os lacônicos, os blasés quase estátuas por natureza, têm sua estratégia, jogam o jogo.

Independente do desfecho parcial da novela, haverá sempre a opção de largar tudo para sempre, largar tudo de verdade (nota: não estou falando de suicídio). Ainda assim ficará a certeza do seu envolvimento passado, de alguma contaminação pela lógica do jogo que te promove covardemente, ou não, ou te derruba igualmente covardemente, ou não, algo que jamais se perderá em você, o escritor que foi publicado e notado, nem que tenha sido apenas por seus familiares e amigos próximos, que esteve lá e jogou, e ganhou, e perdeu.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Poesia australiana (primeira parte)

Por Paulo Scott

Direction

Hoje à noite começa aqui no Rio de Janeiro um ciclo de leituras e reflexões batizado de “Ponto Comum — um diálogo entre as literaturas brasileira e alemã”. E pela terceira vez neste ano precisei admitir para mim mesmo que sei muito menos sobre literatura alemã contemporânea do que eu gostaria. O tipo de mea culpa que vem acompanhada de um profundo arrependimento por ter abandonado o estudo da língua alemã há quase treze anos.

Ontem numa conversa que tive com um pequeno grupo de mestrandos e doutorandos na pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro conheci uma pesquisadora portuguesa que participou do encontro e me contou da sua aflição ao tentar estabelecer, nos poucos dias de visita ao Brasil, um quadro seu, uma leitura sua, do que há de relevante na literatura brasileira produzida a partir da virada do século. Ela informou já ter uma considerável lista de nomes, mas que outros nomes surgiam todos os dias, que deixará o Brasil em breve e com a sensação de que precisará de mais tempo para investigar (pois as recomendações decorrentes das conversas com os leitores brasileiros mais atentos à produção contemporânea são tantas) e chegar, portanto, a um conjunto satisfatório. Penso que a lista de novos nomes de poetas brasileiros contemporâneos que lhe passei e outra que pretendo lhe enviar por e-mail não diminuirão sua aflição.

* * *

Em dois mil e oito, quando estive na Austrália por trinta dias, comecei um descompromissado levantamento de nomes de autores daquele país que pudessem integrar uma lista a ser indicada a quem não soubesse nada sobre poesia australiana. Não é um trabalho simples. Desses anos de pesquisa e leituras intermitentes, o que posso dizer é que precisaria de mais tempo; é possível que uma lista minimamente satisfatória jamais seja concluída. A ver.

A singularidade da poesia australiana, tomando como ponto de partida a precariedade das minhas escolhas e leituras — tanto de textos produzidos nestas duas primeiras décadas do século quando os da segunda metade do século passado —, poderia se revelar a partir de alguns olhares e vozes impossíveis de desprezar.

Eu começaria pela poesia produzida por Oodgeroo Noonuccal, importante ativista pelos direitos dos aborígenes, além de uma série de trabalhos atribuídos a outros autores identificados com a preservação e a luta dos povos aborígenes australianos.

Em segundo lugar, passaria às abordagens que dialogam — de uma forma possível somente pela identidade e pelo comportamento de alguém profundamente arraigado ao modo ocidental de encarar o mundo, mas que precisa existir e coexistir tão próximo do contexto asiático —, e com facilidade assustadora, com as culturas de países como Japão e China, além das mais próximas como, por exemplo, as da Indonésia e Papua Nova Guiné.

Em terceiro, as abordagens que celebram a relação do homem com a natureza australiana, uma natureza marcada por uma grande quantidade de fatores inóspitos e desencadeadora de misticismos muito peculiares, como bem retratou o holandês Cees Nooteboom na primeira novela do livro Paraíso perdido, quando narrou a história de duas brasileiras, Alma e Almut, que, tendo uma delas sido estuprada nas imediações de uma favela em São Paulo, partem para Austrália atrás de nova perspectiva.

Em quarto — e talvez aqui esteja a grande proximidade com a poesia contemporânea brasileira —, as abordagens que partem da noção de estar a sociedade australiana, com todo seu sucesso econômico, na periferia de um mundo que se edificou a partir dos interesses de determinadas sociedades ditas centrais dominantes, um mundo cujas certezas e hierarquias foram tremendamente abaladas e ameaçadas nos últimos anos, mas que permanecem.

Essas quatro abordagens iniciais, obviamente, não esgotam as temáticas e envolvimentos possíveis de serem levantados em relação à poesia australiana. Anoto também que as traduções dos poemas que serão apresentadas não foram feitas por especialista em traduções, nem sequer foram submetidas à revisão de um especialista em traduções, podendo, por isso, ser anunciadas como traduções livres sujeitas à paixão e às limitações deste colunista que as cometeu.

* * *

Nunca foi tranquila a relação entre os europeus, que chegaram à Australia mais intensamente a partir do final do século XVIII, e os aborígenes. Do extermínio de tribos inteiras até a política governamental que ordenou a retirada das crianças aborígenes de suas famílias, principalmente as mestiças, o panorama que se configurou foi de extrema brutalidade, de segregação, de falta de diálogo. Nesse contexto, surge na década de sessenta do século XX a poesia de Oodgerro, ganhando um destaque — inclusive por um crescente sucesso de vendas —, muito superior a de vários poetas australianos não aborígenes tidos como grandes referências da cultura daquele país. Um caso curioso de carisma, talento e ativismo. Abaixo dois poemas da autora.

 

RACISMO

Perseguindo o passar da vida,
Mentes frustradas
Clamam pela libertação
Dos moldes cristãos racistas
Moldes que escravizam
A liberdade negra.

Muito cuidado, racistas!
Os negros podem ser racistas também.
Uma violenta batalha pode estourar
E os racistas encontrarão a morte.

Cores, o presente da natureza
Para a humanidade,
É agora razão de conflito,
E o ódio entre as cores sobrevive
Da carne estragada e podre
Que um dia foi o homem.

 

CHINA… MULHER

Montanhas altas pontudas
Avultando contra a linha do horizonte
A grande muralha
Entrelaçando a si mesma
Em volta deles e sobre eles
Como a serpente arco-íris do meu povo
Forjando seu caminho
Através de rochas milenares.
Eu escuto o pesado caminhar
Do exército da libertação
Balançando as montanhas menos firmes
Fazendo as pedras rolarem.
Arrancando, esmagando,
As flores silvestres lamuriosas
Que estiverem no seu caminho.
China, a grande mulher,
O grande porte,
As tetas pesadas
Com o leite do seu proletariado,
Engravidada pela esperança.
As dinastias de outrora
Dormem.
Imperadores estão enterrados
Nos museus.

O povo da China
É agora o guardião dos palácios.
E sábias e antigas
As flores de lótus
Balançam sua formosura
Em consentimento.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Distantes

Por Paulo Scott

stairways to ? (cc)

A parte mais importante de um livro é o seu índice, é o mapa que está no primeiro grande parágrafo, o movimento que se combina à fala do prestidigitador garantindo a seu público este é o mundo inteiro diante de vocês, é a virada fabulosa, é a parte afogada do iceberg, a que obrigará a plateia a se afogar também, é a distração, é a destruição completa do sono quando se estava, antes da casualidade da leitura, morrendo de sono e cansaço, é quando você fica longe do livro pensando na história do livro, é o desfecho? Difícil dizer. Às vezes, um livro é só a prova do esquecimento humano. Quando se abre um livro, qualquer livro, a inércia das letras todas — a princípio, amontoadas, causando uma sensação que não dura mais de um segundo — anuncia que você esqueceu. Livros exigem adequação, readequação. O livro é a prova de que você nunca é igual, nunca está igual.

Tenho esse hábito de ler um tanto de páginas iniciais do romance, da novela — com os contos nem sempre acontece — e, logo em seguida, saltar para o final do livro e lê-lo com entusiasmo ainda maior. Um grande escritor brasileiro que mora em Porto Alegre (embora quase todas as pessoas de Porto Alegre pensem que ele ainda mora no Rio de Janeiro) me disse certa vez, durante um de nossos encontros aleatórios para um café e conversa, que esse hábito demonstrava imaturidade. Pois é. O fato é que eu tenho essa fixação. Penso que uma boa história não pode ser estragada só por causa disso. Gosto de pensar no livro como objeto expressando e propondo algo como: aqui está o tempo, aqui está o espaço, agora vem me bagunçar. Talvez, por isso, um livro de poesia, em sua coleção de poemas, seja potencialmente tão navegar na web, tão desordeiro.

Você não bagunça um filme como bagunça um livro. Ainda assim suponho que ninguém mais duvida: um filme rodando no HD do computador ou num desses discos formato blu-ray com todos os recursos tecnológicos disponíveis é bastante, digamos, bagunçável. A leitura bagunça a ambição iluminada do escritor. Nessa perspectiva, leitura é sombra. Sombra com uma pitada de coleta seletiva de lixo reciclável. Você entende.

Considero preciosos os dois textos de introdução do escritor inglês Nick Hornby inseridos na publicação do roteiro do filme Educação (Rio de Janeiro: Rocco, 2010), aquele filme aparentemente bobinho e aparentemente despretensioso da cineasta dinamarquesa Lone Scherfig, com o Peter Sarsgaard (que é uma espécie de clone rejuvenescido do ator Ewan MacGregor) e que guindou a jovem atriz Carey Mulligan ao posto de estrela definitiva do cinema mundial — mas que é ótima amostra, rara recente, de como uma história pode ser simples e bem contada. Nick Hornby faz pequenas comparações entre o universo do escritor e do roteirista, enfatiza de maneira quase comovente o quanto são baixas, sempre baixas, as chances de um roteiro vir a se tornar um filme — e chegando a filme, que esse filme tenha a sorte de encontrar distribuidores — e, a certa altura, registra que o grande problema em relação ao filme, esse filme, foi o seu final. Nessa edição está, inclusive, o final original, o que foi descartado em favor daquele mais lúdico e óbvio-reflexivo que foi às telas dos cinemas.

São funcionalidades bem diversas as da conclusão de um romance e as da conclusão de um longa-metragem. O que justifica o registro é que essas duas noções dialogam com o ideal de sistema — e, portanto, sistemas que, mais ou menos, precisam funcionar. Na construção de um roteiro, o problema do final é mais visível. Na minha cabeça, tanto no hemisfério do escritor quanto no do roteirista, adiantar o final é buscar um conforto, uma cumplicidade, é garantir a mim mesmo que não estou apenas atrás de surpresas, e é também um rito, um procedimento para garantir a certeza de que a leitura poderá valer a pena. (Lembrando sempre que esse tipo de invenção não garante nada.) Como leitor já constituí muitos ritos, quase todos já superados; deste de ler o início e buscar o que está lá no fim, entretanto, não consigo me livrar. Durante um tempo justifiquei a mania dizendo estar atrás da interação, da lógica interna, da coerência, ao menos de parte dela, para que pudesse, talvez, me concentrar melhor na condução, na solução. Como se fosse fácil explicar o que, no final das contas, não passa de obsessão. Hoje em dia penso que esse rito acaba sendo uma forma de não permitir que o autor do livro que estou lendo saia do contexto (embora para boa parte dos leitores o autor nunca saia) — já que não bastariam personagens, narradores, núcleos dramáticos. Sei lá.

Hoje em dia admito que essa minha mania seja apenas um erro.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Desapego

Por Paulo Scott

Windblown

1.
Quando se está envolvido com a escrita de um livro, de um romance, é brutalmente difícil não se agarrar com unhas e dentes à trama, aos personagens, ao narrador escolhido. Muito já se disse sobre ser o autoencanto, o autoencantamento, uma das armadilhas mais comuns de se encontrar no caminho de quem cria. Imagino que não seja possível contar uma história que acrescente sem que haja muita pesquisa – conhecer a temática, sua geografia, aprofundar e ampliar a quantidade de elementos necessários (aparentes ou não) à construção do perfil psicológico do protagonista, do antagonista, dos que servirão de escada, dos que retirarão a escada garantindo a queda. Não tenho dúvida, é o mínimo que se pode esperar de um autor experimentado. O problema da pesquisada aprofundada é que ela gera (leia-se: pode gerar) um efeito colateral bastante perigoso: a paixão pelo que foi pesquisado.

2.
Na maioria das vezes, uma boa narrativa se estraga quando há explicação demais, descrições demais, quando se torna levantamento estatístico sobre determinado assunto. Entretanto, quando em razão daquela pesquisa exitosa, tem-se diante de si muitas novidades, esquisitices, formulações teóricas de baixa repercussão, singularidades nunca antes reveladas sobre item da sua preciosa ficção em andamento, você tenderá (leia-se: poderá tender) à cegueira que lhe induzirá a socar para dentro do romance o que decretou, consciente ou inconscientemente, como extraordinário, impressionante, a cereja-rainha, “muito massa pra caramba mesmo”, independente de qualquer contexto ou funcionalidade. O detalhe é: narrativa literária é contexto e também é funcionalidade. Sempre digo a mim mesmo: não tenha medo do hermetismo, Elrodris, o hermetismo é uma coisa que está só na sua cabeça e na dos outros. Resumindo, mantenha-se firme nessa grande e interminável missão de jamais pecar pelo excesso. Será?

3.
Caminhar sem as perguntas certas não é caminhar (volta e meia alguém repete isso por aí). Já houve autores que terminaram de escrever o romance, o que lhes tomou meses, anos e outras coisinhas, e – imediatamente após o ponto final – deletaram, sem vacilar, absolutamente tudo que fora escrito, começando a contar a mesma história, a mesmíssima história já narrada, do zero. Lembro-me de escritor brasileiro bastante conhecido que, num debate durante a Feira do Livro de Porto Alegre, até onde lembro isso foi lá pelo início do século, contou que jogou fora romance que concluíra, informando na sua fala ter ficado contente até com o resultado do trabalho abandonado, porque não encontrara as perguntas certas para contar aquela história. Ele disse que recomeçou do nada (embora qualquer um saiba que esse nada está longe de significar o verdadeiro nada) justamente para encontrar as perguntas certas, as perguntas que justificassem o tempo gasto para contar aquela história. Na época isso me pareceu absurdo.

4.
A tentativa de escrever narrativa de ficção de maneira profissional, profissionalizada, quando os meios concretos de viabilização financeira desse projeto estão sempre por ser encontrados, é absurda. Por mais romantizadas que pareçam as repostas nas entrevistas que se cometeu por aí, garanto, é absurda. Quando se assume uma empreitada desse tipo, é necessário encarar o que para muitos escritores é o próprio deus: o tempo. Prefiro pensar que estou na lista dos que reconhecem o tempo como um aliado – entretanto nunca me iludi quanto à possibilidade do prazo final (que funciona como uma espécie de representante comercial autorizado para o tempo) operar milagre. Na maioria das vezes, a aproximação do prazo final serve apenas para colocar você frente a frente com os seus próprios limites, com a sua própria mediocridade, e, diante dessa mediocridade, colocá-lo diante da oportunidade de ser honesto consigo mesmo e dizer a quem lhe fez a encomenda: esse texto não está bom, não acrescenta, não justifica a leitura de terceiros. (Há os que não se constrangem em atribuir seus fracassos diante do tempo e, portanto, ao longo do percurso — leia-se: da carreira — a terceiros.) O tempo engole a todos, o tempo afoga.

5.
É preciso se controlar, evitar o naufrágio diante de ambições e horizontes amplos, amplíssimos. Uma vez, tive a sensação recorrente de que todo dia era domingo (isso foi há poucos anos e durou por meses); desapareceu por completo a noção de dia útil, de segunda, terça, quarta, quinta ou sexta-feira. Não havia horário, e não havia alguém percorrendo os outros cômodos do apartamento; havia somente as leituras, as tentativas de escrever e, claro, a atuação, geral e em PVT, nas redes sociais. Alguém já disse, ou replicou numa dessas redes sociais, que tempo é a quantidade de informações em uso que uma pessoa tem em seu pensamento. Quando se chega a certa idade e se passa o dia em casa trabalhando sozinho, o tempo vira uma espécie de solilóquio contínuo – e não estou falando de fluxo de consciência, aquele relacionado por alguns a James Joyce; falo de solilóquio mesmo, solilóquio na perspectiva mais dramatúrgica, cênica, mundana –, uma impressão de que quase nada importa. Quando W.H. Auden, num de seus ensaios, destacou as três noções importantes para o teatro elisabetano (a importância da escolha, a importância do sofrimento e a importância do tempo), observou ser o tempo o veículo no qual o protagonista realizaria seu potencial de personagem. O tempo é variado, destoa de pessoa para pessoa; nessa variação está um dos degraus da empatia. Há alguns anos, passei a refletir sobre o tempo dos velhos; o tempo dos velhos é o tempo perfeito do teatro.

6.
O tempo é a quantidade de informações que uma personagem carrega – é a maneira, talvez a menos elaborada, como essas informações se combinam. O autor, mesmo com o filtro do narrador providenciado, a voz judicante excelente, e de sua falsa onisciência, se condiciona ao tempo que decorre dessa quantidade de informações abarrotando as variadas personagens que ele próprio supõe originar. O tempo das narrativas tem origem difusa (as justificativas das narrativas de ficção não são as mesmas da vida real); o tempo, obviamente, é a palavra.

7.
A palavra é um tipo de envenenamento providenciado durante o jantar oferecido a visitas quando se torna gratuita, rotineiramente gratuita. (Minhas leituras se tornam sempre litúrgicas, o tempo não deixa de ser o tempo durante quaisquer dessas leituras; a liturgia é um truque para dizer a si e aos outros que se está longe da gratuidade, do diabólico tomado como face do caos). Imagino como sendo crescente, e crescente de maneira inevitável, o espectro da gratuidade. Quando se trabalha em casa o tempo todo, escrevendo, a gratuidade é uma possibilidade assustadora. Às vezes falo em voz alta para mim mesmo: é melhor não dizer nada. Tenho medo que esse é melhor não dizer nada se transforme em um é melhor não querer nada. Uma vez um escritor disse que é melhor encarar o filho do diabo quando não se tem nada nos bolsos; algum escritor já disse que a invenção do bolso foi o início do inferno. Bolso é apego, não é difícil relacionar – licença poética um. Um escritor iniciante precisa entender que literatura é, sobretudo, esquecimento – licença poética dois. Tenho minhas fórmulas, instáveis, reativas, de levar essa tal vida de escritor, questionavelmente escritor, Concurso Miss Brasil transmitido pelo SBT, que também é a própria vida, a única vida – desta fôrma. Licença poética três. O que posso dizer é: cheguei ao fim de um romance (um que me pareceu até bem executado) e o joguei fora, recomecei do zero, comecei de novo. Não acho que tenha feito isso para encontrar as perguntas certas, porque me faltavam as perguntas certas. Acho que, no fundo, eu quis apenas provar para mim que era capaz de enfrentar o tempo e essa minha ansiedade crônica que, tenho certeza, foi ele que plantou (em mim).

8.
Tudo indica que estou na fase seguinte do game. Para alguns homens mais velhos, game significa apenas sexo. Escritores param na borda da piscina e se perguntam: será que ainda sei nadar. Desculpem. Encontrar uma história não é menos difícil do que encontrar as perguntas que serão a própria razão para contá-la. O que estou querendo dizer é: o complicado não foi chegar até aqui, até a escolha que me fez largar tudo numa cidade e mudar para outra com a intenção básica de reconfigurar o tempo, o complicado é encontrar (necessariamente todos os dias) as razões para permanecer aqui, neste lugar onde sonhei estar. (Grande domingo interminável.) O sonho é uma forma de raptar o tempo sem pedir resgate; resgate é acordar. Tipo um dizer aos outros: morei em São Paulo, venci em São Paulo. O desapego não é impossível; o problema com a prática do desapego é que você vai praticando e vai ficando cada vez melhor. O problema é a frieza que vem combinada com o fato de você não ligar mais, ao menos não como antes, para a passagem do tempo. É um estado mineral, algo bem estranho; não é o momento de explicar. Continua. Sei que é imprescindível encontrar a coragem de ficar. E tudo se resume a enfrentar, como no esporte, só que ao contrário – ref. sua rede social preferida.

9.
Um dia, em meio a uma aula na universidade, escrevi no quadro (foi numa explicação sobre o conceito de bis in idem), e veio do nada a frase: aos novatos é sempre bom avisar que nem todo sonho sabe voar. Os alunos não entenderam minha atitude, alguns talvez sim, imagino. O correto seria dizer: é tudo questão de como se encara o tempo. Não se trata de uma questão de desapego, mas de seguir em frente sabendo que o tropeço será inevitável, a queda será inevitável e que depois deles (e por não haver aptidão que se complete diante do que é unicamente movimento) será inevitável levantar.

PS.: Agradeço os votos dos leitores; enorme alegria contar com sua atenção, baita honra, mesmo.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Posteridade alguma e posteridade já!

Por Paulo Scott

Ideas

[Novos colunistas no Blog da Companhia!]

1.
Folheando o romance de estreia da Laura Erber, o Esquilos de Pavlov, me deparei com a frase: “Saibam, meus pintinhos, sem a varinha mágica do curador, o melhor de vocês não passa de poeira de rua”. Talvez — por uma questão de honestidade intelectual — diria alguém — eu devesse apontar o contexto narrativo do qual esse trecho foi extraído e, talvez, até falar um pouco sobre o trabalho dessa jovem autora, que merece toda atenção, e devesse também explicar o quão bizarro pode ser o processo mental de escolha de um tema quando se está precisando encontrar um tema para cometer o texto que recheará uma coluna inaugural do tipo “coluna de escritor brasileiro contemporâneo”. Relacionar esse trecho escrito pela Laura, entretanto, se deve ao seguinte fato: foi do encontro da minha leitura zapeada com o que ela escreveu que surgiu, e depois grudou em mim, a ideia de anotar algo sobre curadoria e universo literário.

2.
Diz-se por aí que os curadores são as grandes estrelas da mise-en-scène literária contemporânea; são figuras consensualmente dispostas à enxurrada de novidades e talentos, são os agentes que canalizam a voz, uma voz inevitavelmente suprema, a declarar o que vale a pena e, por consequência, o que não vale, porque de fato há tantos títulos bons que se renovam vertiginosamente a cada vez que se visita uma livraria ou se abre a página eletrônica de uma editora, uma revista literária, um suplemento, um jornal, há tantos autores bons escrevendo e há essa acessibilidade plena que empanturra (como um esquilo descontrolado e mórbido se empanturraria numa fábula ocasional) boa parte dos que se propõem a conhecer o novo, adquiri-lo, consumi-lo de maneira extensiva, mantendo alguma atualidade, alguma independência de eleição, inclusive. É necessário instituir um lugar, de preferência o lugar, aquele que permaneça — é questão de contingência cultural, questão de prosseguimento.

3.
Quando ministro oficina de criação literária começo sempre pela frase: ninguém é obrigado a gostar do que você escreve. Há sentidos variados nessa afirmação. Da minha parte, posso garantir que nunca pretendi esgotá-los. Alguns alunos me acusam de ser precipitado ao anunciar que ninguém é obrigado a gostar do que o outro escreve, um precipitado que consegue aniquilar a esperança de alguém que se imagina escritor dali a um tempo. Outros, no entanto, a leem como sendo uma dica, a seguinte dica: se você quer escrever, se você precisa mesmo escrever, acha importante escrever, deve estar preparado para seguir escrevendo mesmo que não venha o tal reconhecimento, o reconhecimento que estava em suas expectativas iniciais não declaradas. O fato de seu trabalho não existir sob o foco, sob o guarda-chuva de alguma eleição, ou de qualquer eleição, não pode ser impactante a ponto de enterrar um projeto de escrita, o seu projeto de escrita. Os alunos sempre se lembram desse registro. Mas não é só isso.

4.
Alunos de oficina literária, mais do que qualquer outro grupo coeso dentro do mundo literário, versão mundo literário ampliado, tendem a levar demasiadamente a sério as listas de melhores lançamentos do ano, de finalistas deste ou daquele prêmio, de convidados desta ou daquela feira literária, tendem a aderir às mitologias eventualmente orquestradas pelo escritor-professor que ministra a oficina (imagino que não seja impossível encontrar ministrante de oficina que ceda à tentação de se colocar no lugar de Zeus). Alguns alunos de oficina tendem a cogitar o seguinte: no que o fato de publicar um livro de literatura ajudará meu projeto de conquistar notoriedade? Fale a verdade, se você escreve, seja em guardanapo para depois mostrar aos amigos bêbados da mesa, escreve e publica nas modalidades de mídia impressa, em blog, rede social ou nos muros do seu bairro, sinto muito, você quer notoriedade. Querer notoriedade não é pecado, não pega mal. Nada disso que anunciei, todavia, é regra absoluta. Seguindo. Quase sempre — enquanto os outros deixam a sala ao final de um primeiro encontro —, alguém se aproxima e pergunta: como faço para publicar por uma grande editora e como faço para meu trabalho ser conhecido e, depois de conhecido, como faço para ser ainda mais conhecido? Pois é. E não seria descabido resumir esse quadro numa palavra cíclica já referida aqui: eleição.

5.
A pessoa que elege o trabalho de outras faz parte de uma cadeia, justifica-se pelo que já disse (e como disse), pelas posições que já ocupou, pelos pensamentos e leituras que formulou, pela coerência que conseguiu ao apresentar tais pensamentos e leituras, pela sua singularidade dentro do meio funcional dentro do qual escolheu agir e, em última instância, pela sua biografia — o que envolverá implicações afetivas, as bem-sucedidas, os desastres sem vítimas, os meros desconfortos, os grandes desconfortos. Quero dizer com isso: sempre haverá uma carga significativa de subjetividade, de fixação do tipo obsessão estética e retórica, de gosto pessoal e ideologia. Já foi observado em outras análises relacionadas que são aqueles que definem os curadores, julgadores, avaliadores, os verdadeiros donos do destino de uma eleição; basta olhar a composição de um júri para que as conjecturas e apostas comecem a brotar (sem serem de todo absurdas). Essa, contudo, nunca é uma dinâmica óbvia; um curador, um julgador, sempre pode ter a consciência de que é preciso desconstruir-se para enxergar melhor, para assumir uma solução, uma resposta, que resista a questionamento futuro.

6.
O olhar da história é sempre cruel. O que foi tido como o melhor de nossos dias pode ser pouco mais do que nada daqui a uma década, pode estar completamente esquecido daqui a duas. E a culpa será do curador, dos curadores; será deles a culpa pela leitura errada, pela incapacidade de revelar o que já se apresentara, mas não recebera atenção devida. Já fui curador, já fui jurado, já opinei em preparação de projeto que resultou em panorama do que havia de notável em determinado momento. Eleger não é tarefa fácil, como já disse, há muita subjetividade e muitas limitações envolvidas. Uma coisa eu sei: não vale a pena perder tempo criticando as escolhas de um curador — um curador, honesto e coerente, tentando ser o mais justo possível é alguém que jamais dormirá totalmente tranquilo, porque sabe que não acertou por completo, que será o primeiro a ser julgado quando o distanciamento histórico vier.

7.
Alguns alunos de oficina acham que você chegou até onde chegou porque aprendeu a controlar certos fatores, porque desenvolveu truques de criação e compreendeu a lógica do sistema. Em razão disso, sempre digo que os decepcionarei no quesito desvelar o segredo do universo. O contexto literário não é justo, nunca foi. Há grande chance de que os melhores romances, novelas, coleções de contos ou poemas destes dias não tenham sido publicados, tenham sido recusados por editoras (tanto pelas grandes quanto pelas pequenas), tenham sido colocados entre os últimos lugares e, por isso, desclassificados das seleções e concursos literários. A pessoa que pretende seguir o tal ofício de escritor deve estar disposta a prosseguir mesmo que não haja aplauso, mesmo que nada se diga a seu respeito. Costumo incentivar a primeira publicação, imagino que seja uma forma razoável de se situar, de afastar uma ou outra idealização que não melhorará em nada o que você escreve. Geralmente, quando se publica o primeiro livro, como se diz na linguagem coloquial, ele “passa batido”; claro, sempre há a possibilidade remota de seu livro de estreia ser uma obra-prima e, a conta disso, o que já seria uma sorte, ser reconhecido e comemorado por todos, ao menos naquele momento da história (aquela moça do olhar cruel).

8.
Um aluno me disse numa oficina de criação literária que ministrei há pouco tempo: eu sei que tudo é questão de estar no lugar certo e na hora certa. Respondi que havia muito de verdade naquela afirmação. Nunca sei direito como agir diante de um aluno convicto, que espera tão somente de você palavras de estímulo e concordância. Costumo dizer que não há regras definitivas na literatura. Já houve quem retrucasse, durante um encontro de oficina, afirmando que tudo nesta vida depende dos ciclos. (Jamais imaginei que me encontraria ministrando oficinas de criação literária.) Há muito de verdade na tese dos ciclos. Dizem por aí que ensinar é uma cachaça, uma parte do ciclo, uma parte que sempre volta, que se você pegou o gosto (e isso, no meu caso, talvez tenha acontecido no tempo em que fui professor universitário) jamais perderá o prazer de ensinar. Dizem por aí que se colocar diante de alunos é se colocar num palco. E também dizem por aí: quem sabe faz, quem não sabe ensina. Na verdade, costuma-se dizer muita coisa por aí; nem tudo o que se diz vira eleição. Nem todos têm o poder de eleição. Ser contemplado não facilita em nada a rotina de criação, o prosseguimento. A vontade de escrever, a determinação pela escrita literária, está num lugar que ainda não descobri, mas está lá, no lugar nenhum; sei que essa vontade não depende de endosso alheio. Chega, é poesia demais, alguém diria.

9.
Lembro da vez em que escrevi meu primeiro poema, foi durante uma atividade em sala de aula, e lembro que tempo depois, ainda naquele mesmo ano, mostrei o poema a uma colega (não consigo lembrar o nome dela), ela não disse nada, e eu o rasguei quando cheguei em casa. Longe de qualquer ambição ou certeza a respeito do que, por ventura, ficará destes dias, aquele foi o meu passo, e já sem eleição ou posteridade, o verdadeiro primeiro passo.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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