Paulo Scott

Uma procura

Por Paulo Scott

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1.

À exceção de alguns nomes consagrados, a poesia brasileira realizada nesses últimos anos não tem sido favorecida pelas apostas relevantes do mercado editorial. Há uma ressaca não confessa — embora exista quem já tenha denunciado a inviabilidade desse tipo de engajamento —, que levou várias editoras a maneirarem na oferta de poetas contemporâneos ao público, um público nunca tão ávido e corpulento quanto desejaria a cartilha da sobrevivência empresarial dos que se empenham pela manutenção da literatura de qualidade.

Ainda assim, tomado esse contexto e suas decorrências, sobretudo ao longo do ano de 2012, se descobre um quadro no qual se concentram, de um lado, lançamentos, portanto apostas, de livros impressionantes (e imprescindíveis) como, por exemplo, o Formas do nada do Paulo Henriques Britto, o Porventura do Antonio Cicero, o Sentimental do Eucanaã Ferraz e o Astronautas daqui do Marcelo Yuka, autores que já consolidaram seu espaço, sua voz e peso na geografia poética contemporânea, e, de outro, a persistência de pequenas editoras — dividindo ou não os custos das publicações com seus autores — conseguindo renovar o círculo de nomes e trabalhos, e, o que precisa ser melhor compreendido, uma inclinação cuidadosa por parte das grandes editoras que, apesar desse momento difícil, se dispõem a diálogos que acolham promessas periféricas aqui e ali, reconhecendo que há novidade e relevância, o que não deixa de sugerir aposta, mesmo não sendo resultado.

Valendo-me apenas da minha condição de leitor pretensamente dedicado, imagino que seja oportuno sustentar: sob a ausência dos grandes holofotes há trabalhos aptos a alterar e refazer eixos e dicções que preponderam nos silogismos mais e menos legitimados de afirmação do que é a verdadeira amostra das letras poéticas nacionais — este é um momento em que transformações relevantes estão acontecendo de maneira sutil.

Pode não ser prudente uma assertiva dessa ordem, mas sempre é necessário assumir algum risco e apontar nomes e trabalhos. Por certo há quantidade de nomes, outros nomes, impossíveis de serem ignorados, mas que no acréscimo demandariam mais espaço e mais tempo para serem postos (já que implicitamente pressupostos), sem que passem de lembrança protocolar e nada além — não há como ignorar que se trata do gênero literário mais difícil de conformar em hierarquias, em panteões de um só juiz.

2.

Dentre os trabalhos desta segunda década do século, dialogando com todos os influxos e negações que a revolução tecnológica provocou até aqui, é possível encontrar publicados vários que se alinham em visível falta de obrigação diante dos deveres de observância de lirismos pré-ordenados, concisões, de obediência a esta ou àquela ótica. Há mistura, mistura que da aparência de mistura se desprega. Desse âmbito são, por exemplo, o mineiro Bruno Brum e o seu Mastodontes na sala de espera (Belo Horizonte: Crisálida, 2011), a gaúcha Angélica Freitas e o Um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2012), o gaúcho Diego Grando e o Sétima do singular (Porto Alegre: Não Editora, 2012), a paranaense Ana Guadalupe e o Relógio de pulso (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), a mineira Ana Martins Marques e o Da arte das armadilhas (São Paulo: Companhia das Letras, 2011), o baiano Gabriel Pardal e o Carnivália (Rio de Janeiro: Oito e meio, 2011), o carioca Ismar Tirelli Neto e o Ramerrão (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011). Há hiper-realidade nesses autores, há busca e afirmação de um quadro no qual não procede mais a distância entre estrutura do verso e estrutura da prosa, há forte pretensão de atualidade, afinal tudo é tão imediato e acessível e sem altares.

Essa aparência de renovação já foi vista em outros momentos do século passado; o que há, portanto, de inusitado além do fato de se tratar de poesia contemporânea produzida em português por jovens autores brasileiros neste início da segunda década do século vinte e um? Penso que no excesso de informações, códigos, signos, e nos acessos tão amplos e imediatos, sendo fatores determinantes, se alteram as noções do que se consolidou até meados dos anos oitenta como sendo o exótico e como sendo o não exótico. Qualquer voz e abordagem se colocam hoje mais facilmente, forçando (e ampliando) o rótulo de normalidade e de narrativa possível: a exaustão como ponto de partida do discurso. É o que se sugere.

Tudo já foi mostrado e tudo está à mão, portanto não há mais o que incensar sob a ilusão de perenidade, não como antes da revolução tecnológica que tornou a rede mundial de computadores — zero de ironia no emprego da expressão — uma realidade. Há preferência pelas metalinguagens igualmente. Conversando com Paulo Henriques Britto, que, junto com seus orientandos da PUC do Rio de Janeiro, se dedica a conhecer a produção poética brasileira contemporânea, estudando com atenção nomes como Fabrício Corsaletti, Ricardo Domeneck, Érico Nogueira, Edimilson de Almeida Pereira, Alice Sant’Anna, Marcelo Sorrentino, Micheliny Verunschk dentre outros, confirmei a impressão de ser impossível sustentar a existência de um movimento, como já se verificou em outras passagens da história, mesmo quando se toma a proximidade geográfica ou a proximidade etária.

“A forma mais utilizada pelos poetas novos é um verso livre diferente daquele que encontramos em Mário de Andrade ou Manuel Bandeira, mais próximo do praticado por Oswald: versos curtos, com pouca pontuação e muito enjambement. As duas temáticas mais praticadas são as contingências do eu e a própria criação poética”, registra Paulo Henriques Britto sem deixar de alertar quanto à presença das questões identitárias do gênero feminino, das etnias minoritárias, das opções sexuais.

De fato, buscando ilustrar, e evitando os rótulos de marginal e periférico, há hoje uma quantidade notável (o que é uma realidade ocidental indiscutível) de autoras jovens desenvolvendo brilhantemente suas narrativas a partir da temática da sexualidade — longe de ser uma restrição, antes, é verticalização de linguagem e enfoque, revelando, em quantidade, desdobramentos e discursos ainda não experimentados e ainda não endossados e assumidos em enormidade pelo mercado editorial.

Há nomes que mesmo sem publicar ganham admiração dos leitores, dos poetas, dos editores. Ocorre-me o nome da catarinense Francieli Spohr, cujos blogs “Bogadições” e “Eu queria que ser Bob Dylan valesse a pena” tornaram-na uma espécie de lenda entre alguns círculos de poetas. Em condição semelhante, a cearense Júlia Studart, que atualmente publica no blog “Torvelim”. Dentre as autoras que lançaram em 2012 não há como deixar de citar a carioca Maria Cecilia Brandi e o seu Atacama (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012). Não conhecia seu trabalho e fiquei maravilhado com a força dos seus poemas; como aconteceu com os livros de Bruno Brum e Angélica Freitas. Três outros nomes que merecem registro são o do gaúcho Pedro Gonzaga e o A última temporada (Porto Alegre: Ardotempo, 2012), o do carioca Ramon Mello e o Poemas tirados de notícias de jornal (Rio de Janeiro: Móbile, 2012) e o paulista Marcelo Montenegro e o seu elegante Garagem lírica (São Paulo: Annablumme, 2012). Claro, há muitos outros livros interessantes lançados, infelizmente não há como esgotar a lista aqui.

3.

A predileção atual do mercado pelo gênero romance — longe de qualquer monomania de perseguição —, reforçada pelo entusiasmo inédito de editoras e agentes literários estrangeiros procurando em quantidades os novos prosadores brasileiros para serem publicados em outras línguas, contrasta com a pouca atenção recebida pela poesia. Alguns dizem que sempre foi assim e sempre será. Não sei se isso é o que importa registrar; como leitor, apenas mais um leitor, o que tenho a dizer com base nesse entorno de 2012 é que vários novos nomes, muitos completamente desconhecidos, estão produzindo a melhor poesia comparável às melhores poesias brasileiras de que se teve notícia. É questão de tempo para que venha o peso histórico. Quem ganha é o leitor que aposta, o leitor que arrisca e, sobre todas as atualidades e urgências da leitura e da literatura, refaz um velho e ainda importante caminho.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Em maio a Companhia das Letras publicará Ithaca Road, seu romance da coleção Amores Expressos.
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