Raphael Montes

Esta terra selvagem

Por Raphael Montes

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Na última quinta-feira, estive na sede da Companhia das Letras para conversar com meu editor e encontrei por lá, saindo do forno, Esta terra selvagem, romance de estreia de Isabel Moustakas. Já no táxi, mergulhei nas primeiras páginas do livro. Em casa, avancei por mais algumas antes de voltar ao trabalho. Naquela mesma noite, perturbado pelo “House of Cards brasileiro” exibido na GloboNews, fui para a cama e terminei a leitura.

Não se espante: o livro tem apenas cento e doze páginas (e muitos diálogos). Apesar de curto, é tenso e conta com cenas memoráveis. A premissa por si só merece atenção. Situado em uma São Paulo caótica e violenta, o romance acompanha a trajetória investigativa de João, repórter do Estado de S. Paulo, acerca de horripilantes crimes de ódio que vêm ocorrendo contra gays, judeus, prostitutas, negros, nordestinos, imigrantes e demais minorias nos pontos da cidade. Praticados por um grupo organizado, que veste a camisa do Brasil e cadarços verde e amarelo, os crimes são chocantes e ganham marcação gráfica nas páginas do exemplar: a autora optou por destacar certos parágrafos, que aparecem solitários no centro da página, como um capítulo de poucas linhas.

A linguagem é seca e visual, feita para impressionar, ao estilo de Patricia Melo e Rubem Fonseca. À exceção de um pecadilho no uso excessivo de reticências, os diálogos são fluidos e bem construídos, com ironia e profundidade no ponto certo. Como disse lá no início, há ainda cenas incríveis, como a de abertura e outra do “presépio”. Infelizmente, em um momento politicamente frágil como o nosso, de extremos perigosos e oposições tão ferrenhas, os relatos de selvageria que aparecem no livro não soam tão distópicos assim.

Tendo em mãos um tema tão complexo e pertinente como este, Isabel peca apenas ao não explorar melhor sua ideia ao longo das páginas: no terço final, parece haver certa “pressa” em terminar de escrever o livro. Sem dúvida, um romance de cento e doze páginas que mereceria ter lá suas trezentas. A sequência final de fatos se sucede de modo banal, quando mereceria maior densidade e força narrativa. De todo modo, sem dúvida, Esta terra selvagem oferece ao leitor um curto romance policial brasileiro de qualidade, o que já é muito.

Ao final do livro, mais um mistério: a orelha apresenta a autora Isabel Moustakas como nascida em Campinas, SP, em 1977, formada em direito, com marido e enteada. Não há foto e, como busquei, não há maiores informações na internet. Ao que tudo indica, Isabel Moustakas é mesmo um pseudônimo e, a julgar pela maturidade do texto, é o pseudônimo de um autor experiente. Tenho cá minhas teorias de quem pode ser Isabel Moustakas, mas, correndo o risco de acertar, prefiro não estragar a brincadeira. Por enquanto, fica apenas o desejo de que o(a) autor(a) escreva mais romances policiais interessantes como Esta terra selvagem.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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Tudo o que me falta

Por Raphael Montes

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Digito as últimas palavras. Salvo o arquivo, imprimo, leio, releio.

Uma bosta.

Os personagens não têm vida; o motivo do ciúme é tosco; o detetive, um completo idiota; a solução depois de duzentas páginas não convence.

Tenho raiva pelo tempo gasto. A vontade é de jogar tudo fora.

Abro o arquivo, releio frases desconexas. Falta ousadia, falta sentimento.

Ela nunca teria matado o cara só porque era traída. Não ela, Eva Green, ambiciosa e decidida. Mais fácil a outra, a sobrinha, uma imbecil.

Os personagens se misturam e carecem de sentido. São todos iguais, insossos, feitos na mesma fôrma de bolo.

Falta criatividade.

Preparo um chá, acendo um charuto, folheio o jornal. Preciso voltar ao texto, mostrar quem manda.

Falta incentivo. Falta autoestima.

Depois de cento e trinta e sete romances escritos… Depois de cento e trinta e sete romances publicados sob um pseudônimo gringo numa revistinha vagabunda de banca de jornal… Depois de cento e trinta e sete romances vendidos a cinco reais… Meu irmão, você pira. E também não consegue fazer mais nada que preste.

Você vira máquina. Vira meta, objetivo, prazo.

Falta humanidade.

Não interessa o que falta. O importante é ter, no mínimo, cento e cinquenta páginas prontas a cada bimestre. Cento e cinquenta páginas. Se não, o editor chama outra máquina pra fazer o serviço.

Falta competitividade.

Estou cagando pro editor. Estou cagando pra qualidade da história. Que interessa que Eva Green não tenha um bom motivo pra matar o marido milionário? Caralho, as pessoas fazem coisas sem motivo! Matam por matar. Riem só por rir. Elogiam por elogiar. Escrevem cento e trinta e sete livros só por escrever.

Por que agora, no centésimo trigésimo oitavo livro, venho pensar em fazer bem feito? A história é igual às outras: uma mulher estonteante — lábios vermelhos, peitões, voz sedutora — chegando ao escritório do detetive, um triângulo amoroso, um crime sanguinolento, umas cenas de luta, outras cenas de sexo e, pronto, fim. Mês que vem já tem outro livro de Bob Hamilton nas bancas de jornal de todo o Brasil.

Tenho vontade de rir quando penso em Bob Hamilton.

Nome tosco da porra.

Bob Hamilton sou eu. Eu e mais outra máquina que reveza comigo. Somos Bob Hamilton. Escritor de sucesso norte-americano que já foi pedreiro, vaqueiro, entregador de pizza, locutor, caixa de supermercado, assistente de farmácia, trompetista, sexólogo, livreiro, agente da CIA e o caralho a quatro. Atualmente, vive com a esposa, três filhos, quatro cachorros e vinte papagaios numa fazenda em Ohio.

Falta personalidade.

Às vezes, fico imaginando o que pensariam se descobrissem a verdadeira biografia de Bob Hamilton: Rio de Janeiro, Copacabana numa quitinete herdada da mãe, escritor, alcoólatra periódico, faculdade de jornalismo incompleta, odeia crentes e políticos, não tem esposa, nem filhos, nem cachorros e nem papagaios. Prefere as universitárias de biblioteconomia e o sotaque do Sul.

Falta sexo.

Não sei bem o que me faz começar o livro seguinte. Falta ânimo, falta autocrítica, falta do que fazer. Isso sim. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer. E que presta — ou prestava.

Tocam a campainha. Atendo. É a outra máquina, a outra metade de Bob Hamilton. Diz olá e vai entrando. Senta na poltrona e pede um charuto, como se fosse o dono da casa, o filho da puta. Digo que fumei o último e ofereço água. Quer água?

Ele diz que não, que tem pressa e que só veio dar um recado. Diz que não é mais Bob Hamilton. Que agora eu terei que trabalhar mais. Que agora eu serei Bob Hamilton inteiro. Cento e cinquenta páginas todo mês. Dá teu jeito.

Pergunto se ele ganhou na Sena, se mudou de vida, se agora vai viver com esposa, três filhos, quatro cachorros e vinte papagaios numa fazenda em Ohio.

Falta humor.

Ele ri mesmo assim. Ri e diz que cansou dessa vida. Que cansou de não ter o próprio nome na capa do livro. Que cansou de escrever a mesma merda de sempre. Vai mudar de editora. Vai lançar um livro que preste. Vai ser rico, famoso, essas porras todas. O novo Paulo Coelho. Maktub.

Minha vez de rir.

Ele ergue o envelope. Aqui está o manuscrito. Digo que não acredito. Ele diz que não preciso acreditar. Diz que preciso escrever. Falta tempo. Cento e cinquenta páginas por mês. Diz que está com pressa, que vai se encontrar com o novo editor, que vai entregar o manuscrito, que vai assinar contrato, que essa vida de bosta é passado, que essa vida de bosta é só minha agora.

Falta respeito.

Ofereço um uísque e uísque ele aceita. Vou à cozinha, trago o uísque e a faca. Sirvo o uísque. Enfio a faca no peito. Ele grita, regurgita, morre. O corpo no sofá, o copo espatifado no chão, cubinhos de gelo boiando no sangue. E o envelope pardo.

Pego. Leio.

Capítulo um. Dois escritores fracassados. O nome dele. O meu nome. Duas metades de Bob Hamilton. Vida que segue, vida que afunda.

Uma ideia genial. Um dos personagens — o que tem o nome dele — decide mudar de vida. Escreve um livro. Sabe que vai ser sucesso. Sabe que vai ser rico, famoso e essas porras todas. O novo Paulo Coelho.

Acho divertida a metalinguagem. Continuo lendo.

O personagem com o nome dele vem de encontro ao personagem com o meu nome. O personagem com o nome dele diz que cansou dessa vida, que cansou de não ter o próprio nome na capa do livro, que cansou de escrever a mesma merda de sempre. Mostra o envelope e diz que está com pressa, que vai se encontrar com o novo editor, que vai entregar o manuscrito, que vai assinar contrato, que essa vida de bosta é passado, que essa vida de bosta é só dele agora.

Metalinguagem do caralho.

O personagem com meu nome mata o personagem com o nome dele. Faca no peito. Mata por raiva. Por inveja. Pra roubar a ideia. As pessoas não precisam de um motivo pra matar. Nem pra rir, nem pra elogiar, nem pra escrever cento e trinta e sete livros.

Continuo a ler e, no final, vem a carta. A carta em que o personagem com o nome dele explica ao personagem com meu nome que sabia que seria assassinado. Que sabia que ele não resistiria à curiosidade e lhe enfiaria uma faca no peito. Que sabia que estava fadado ao insucesso. Que havia avisado à polícia do crime. E que ela chegaria a qualquer momento.

Solto uma gargalhada. Olho pra porta. Solto outra gargalhada.

Que merda de manuscrito é esse?

Tocam a campainha.

Que merda de manuscrito é esse?

Tocam a campainha de novo.

Pego a faca no chão. Caminho na direção da porta.

Falta coragem.

Seguro a maçaneta. Seguro a faca. Sei que vou usá-la. Sei que a polícia me espera do outro lado.

Filho da puta.

Ergo a faca.

Abro a porta.

A vizinha se assusta. Diz que só queria um pouco de açúcar. Explica que o açúcar acabou. Que ela está muito velha pra ficar descendo escadas. Que é um absurdo que esses prédios de Copacabana não tenham elevador. Pede açúcar mais uma vez.

Dou açúcar pra velha. Volto pra dentro de casa. O sangue no chão, o corpo da outra metade de Bob Hamilton com um corte no peito. Releio o manuscrito. O filho da puta denunciou pra polícia que seria assassinado quando me visitasse. O filho da puta escreveu isso num livro. O filho da puta pretendia fazer sucesso em cima da própria morte. A polícia chegando e me flagrando com o livro nas mãos. Best-seller na certa.

Mas a polícia não veio. A polícia não deu crédito ao escritor neurótico que anunciou a própria morte. A polícia tem mais o que fazer.

Vai ver é por isso que romance policial não dá certo no Brasil.

Ps.: Este conto foi o embrião de outro, com ideia parecida, ainda que completamente diferente, já publicado com o título “A verdadeira história de Georges Fullar”, na antologia Rio Noir.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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Recebendo originais

Por Raphael Montes

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Por ser um escritor jovem, é comum que escritores iniciantes venham me procurar para pedir conselhos e dicas para encontrar uma casa editorial. Em geral, não é fácil dar a resposta. Cada autor tem sua própria trajetória, e as possibilidades são tão distintas que fica difícil determinar um “caminho das pedras”. Ainda assim, resolvi fazer um exercício de imaginação aqui, considerando que sou um autor iniciante, com um original pronto. O que eu faria?

Antes de tudo, é preciso se assegurar de que o original está mesmo pronto. E por pronto eu não quero dizer apenas finalizado. É importante que você tenha deixado o livro “descansar” alguns meses e, então, tenha feito releituras, revisões e reescritas. É importante também que ele esteja bem revisado, sem erros grosseiros de português que tornem a leitura desagradável. Por fim, seu livro deve ter um bom começo. A verdade é que, na enorme pilha de originais que chegam aos editores, eles só conseguem ler as primeiras páginas de cada livro e é aí que decidem se vão continuar a ler aquele original ou se vão descartá-lo. Por isso, conquistar o editor logo de início é uma tarefa árdua, mas essencial. Se o seu livro é incrível, mas só engata mesmo a partir da página 27, você perdeu, meu amigo.

Considerando que seu livro está pronto, vamos à caça. No mercado, existem editoras grandes, médias e pequenas. Entre as pequenas, há aquelas que investem 100% no autor e outras que pedem que o autor banque parte da tiragem. Por fim, há sempre a possibilidade de autopublicação. Naturalmente, todo mundo quer ser publicado logo por uma editora grande. A editora grande tem atrativos como um nome conhecido, que vale como “selo de qualidade”, uma boa equipe de marketing e imprensa e, claro, uma eficiente rede de distribuição. Infelizmente, começar a carreira por uma editora grande não é nada fácil. Há, sim, casos de autores iniciantes que já começaram por editoras grandes, mas são raros. Em geral, acontece quando o autor iniciante já tem algum renome em sua área de atuação — como um veterinário que publica seu primeiro livro sobre animais de estimação — ou quando já tem um bom número de leitores garantidos — como um youtuber que tem milhões de seguidores.

De todo modo, sonhar não custa nada. Fosse eu um autor estreante com um original pronto, eu faria uma lista com as editoras grandes, médias e pequenas. Consultaria a política de recebimento de originais de cada uma, selecionaria aquelas que têm mais o “perfil” do meu livro, enviaria meu original para umas nove ou dez casas editorias e… Esperaria! Infelizmente, não adianta ter pressa. Em geral, o tempo de resposta é de meses — e de nada adianta ficar mandando e-mails para a editora cobrando uma resposta. Enquanto espera, comece a escrever o próximo livro.

Outro caminho interessante é enviar seu original para prêmios literários. Em 2011, quando eu buscava uma editora, havia dois prêmios literários para autores estreantes: o prêmio SESC de Literatura e o prêmio Benvirá (posteriormente chamado de prêmio Saraiva). Hoje em dia, o cenário está pior. Ao que tudo indica, o Prêmio Saraiva vai mal das pernas (alguém confirma?) e o Prêmio SESC, ao longo de suas edições, deixou bem claro o estilo de livros que premia — em geral, romances mais “literários”, com investigações de linguagem. Assim, a verdade é que não existe nenhum prêmio literário para autores estreantes de romances de gênero (policial, fantasia, terror, aventura, ficção científica). Talvez por isso nossa literatura de gênero ainda seja tão restrita a nichos. Falta incentivo.

Cabe ao governo federal e aos governos estaduais criar prêmios que incentivem o autor estreante. Por fim, seria bem interessante que algumas editoras fizessem seus próprios “prêmios literários”. Imaginem, por exemplo, um Prêmio Companhia das Letras para autores estreantes ou um Prêmio Intrínseca, Rocco etc. Naturalmente, não é algo tão fácil, pois há que se pensar em questões de logística e orçamento da editora. Mas não tenho dúvidas de que grandes talentos seriam descobertos — principalmente na literatura de gênero, tão maltratada. Fica a ideia.

Ps¹.: Falo um pouco mais deste assunto em uma coluna publicada em O GLOBO, que pode ser lida aqui.

Ps².: Quem quiser continuar a conversa, pode me procurar em minha página de autor no Facebook aqui.

Ps³.: Se você procura informações sobre a análise de originais pela Companhia das Letras, consulte o site da editora.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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O mágico ator

Por Raphael Montes

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, no lugar de sua coluna mensal no blog, Raphael Montes escreve sobre a primeira vez que leu um livro.

* * *

Eu tinha dez anos e queria ser mágico. Estudava no Colégio de São Bento e vivia de um lado pro outro com um maço de cartas nas mãos, mandando alguém escolher uma carta ou pensar em um número para que eu adivinhasse, buscando alguém para me dar uma moeda ou outro objeto pequeno que eu faria sumir diante de seus olhos. A mágica era minha paixão.

Na turma, todos viam desenhos animados, jogavam videogame em casa e futebol na hora do recreio. Eu ficava praticando mágicas. Sempre. Comprava novos truques em um quiosque que havia no shopping Rio Sul, via e revia um show do David Copperfield que passara na Globo com apresentação da Ana Furtado que eu tinha gravado num VHS. A prática leva à excelência, eu sabia. Mas nunca cheguei a ser realmente bom naquilo. Eu era determinado, mas meu público era um só e já ia ficando impaciente após ver o mesmo truque pela vigésima vez. Hoje penso que a mágica me encantava por sua capacidade de surpreender e de iludir diante dos olhos. Ilusão e surpresa: duas sensações que sempre me fascinaram.

Por um tempo, desisti da mágica e resolvi ser ator. Eu gostava de me sentir na pele de outro — pensar e agir como outra pessoa. Por esse motivo também, adorava brincar com bonecos de luta: a cada boneco, eu criava todo um passado para ele, um motivo para que tivesse chegado até ali (algo bem mais interessante do que simplesmente “mamãe foi na loja e comprou”) e fazia com que ele lutasse com todos os bonecos que eu já tinha para que pudesse entrar na gangue. O lado divertido é que, como eu não via desenhos animados, eu escolhia os bonecos pela aparência apenas — não conhecia nada da história deles e podia inventar à vontade. Mais tarde, descobri o nome de alguns. Para vocês terem uma noção, Hagrid e Professor Xavier eram inimigos mortais, ambos maus, contra o bondoso Darth Vader (na minha imaginação, aquele sujeito de máscara preta tinha perdido a família, mas no fundo era um cara legal).

Como gostava de imaginar outras vidas e outras pessoas, atuar me parecia um caminho natural. Fiz um curso de teatro na Barra da Tijuca e cheguei a me apresentar em um ou dois espetáculos infantis, o suficiente para perceber que eu não tinha o menor talento para aquilo.

Então, em uma noite chuvosa, eu estava em uma colônia de férias em Pentagna, perto do município de Valença, com minha tia-avó Iacy quando ela me entregou um exemplar de Um estudo em vermelho. Eu nunca havia lido um livro que não fosse daqueles obrigatórios na escola — meus pais não têm costume de ler e, por isso, consumir literatura não era algo “natural” lá em casa. Fiz cara feia, não queria ficar lendo, mas minha tia-avó insistiu e, afinal, por que não? Estava chovendo!

Deitado na cama, comecei a ler. Quando percebi, estava mergulhado naquele universo, investigando crimes com Sherlock Holmes, tenso pelo que viria nas páginas seguintes e ansioso para chegar ao final. Naquela madrugada mesmo, terminei o livro. Eu estava em êxtase, como só ficamos quando nos deparamos com uma revelação, com todo um mundo novo e cheio de possibilidades. Ainda naquelas férias, li A volta de Sherlock Holmes e dois infanto-juvenis de Sidney Sheldon: O fantasma da meia-noite e A perseguição. Ainda naquelas férias, resolvi que seria escritor.

Fiz meus primeiros contos e, logo depois, um romance policial nunca publicado. Daí, comecei Suicidas, meu primeiro livro publicado. E depois Dias perfeitos, O Vilarejo e sabe Deus o que mais vem por aí. No fundo, continuo a ser o moleque que, naquela madrugada chuvosa, descobriu que ilusão, surpresa, fantasia e encenação podem conviver em um mesmo lugar: nos livros. Mágica e atuação na mente do escritor. Quer experiência melhor?

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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O Fim

Por Raphael Montes

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“Olha, querido, antes de tudo eu quero que você saiba que não é fácil para mim também… Pensei bastante antes de vir aqui falar com você, sabe? Tudo o que nós vivemos foi muito bonito… Muito bonito mesmo… Mas desde o início a gente sabia que estava com os dias contados, não é mesmo? Quero dizer… Gabriel, quando a gente se conheceu, você sabia que o meu coração já tinha dono, não sabia? Você sempre soube… Não era segredo para ninguém! Pois então, uma hora ou outra, esse momento iria chegar… E chegou! Chegou, Gabriel! Não pense que eu não gosto mais de você… Não, não… Ao contrário, eu te amo… Te amo muito, entende? E por isso mesmo é que não dá mais… Você sabe que eu tenho mais idade do que você… E que costumava ter mais controle sobre as coisas… Mas você, Gabriel, você me fez perder o controle… A sua juventude me encantou, me lançou nos ares… Bastava um fechar de olhos, pensando em você, e pronto! Era o fim! Me vinha um calor carcomendo as carnes, uma sede de sexo que nunca senti antes, entende? O seu sussurro quente no meu ouvido, as suas mãos brutas levantando o meu vestido, o gosto de vinho misturando-se em nossas bocas no beijo resfolegado… Ah, Gabriel, nós fomos muito felizes… Mas tudo acaba, não é? Cada um tem que seguir o seu caminho… E, meu Deus, quem sou eu para desviá-lo do seu destino? O seu nome já diz tudo… Gabriel é nome de anjo. E é isso o que você é, menino… Um anjo! Um homem de Deus… Você já era sacristão quando nós nos conhecemos… Sim, sim, eu sei… Foi tudo muito intenso… Fez você repensar os seus desejos, a sua religião… Mas em algum momento uma decisão haveria de ser tomada… E eu a estou tomando por você… Siga o seu caminho. Viva para a fé e esqueça toda essa coisa carnal que tivemos… Foi gostoso, mas acabou! Por favor, esqueça! Finja que nunca aconteceu… Finja que tudo não passou de uma amizade boba… Não faça essa cara… Por favor, não faça esse rosto entristecido! Eu preciso que me entenda… Vamos, Gabriel… Não pode ser tão difícil assim… Você é um sacristão! Tem que entender!”

“Tudo bem, eu entendo, padre.”

FIM

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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