Tony Bellotto

Rotas do Labirinto

Por Tony Bellotto


O personagem Remo Bellini nasceu no dia em que uma correspondência — uma conta de luz — foi colocada por engano sob minha porta. A conta era endereçada a um certo Bellini (não me lembro do primeiro nome) que supostamente morava no apartamento 91. Eu morava no 92. Munido da conta, fui até o apartamento ao lado e conheci Bellini, meu jovem vizinho, que, fiquei sabendo naquele momento, era também o síndico do prédio.

Estávamos em 1989 e fazia algum tempo eu buscava um nome para um personagem que estava criando, um alter ego juvenil. Naquela época eu tentava escrever histórias sobre minha adolescência no interior de São Paulo nos moldes das histórias de Nick Adams, de Ernest Hemingway, que retratam as aventuras à la Huckleberry Finn do jovem Nick — caçadas, pescarias — pelos bosques de Illinois. Outro personagem que muito me fascinava naqueles dias era o adolescente megalômano Arturo Bandini, o alter ego de John Fante. Portanto, quando a correspondência chegou ao meu apartamento — e antes que eu a entregasse ao seu verdadeiro destinatário — meu alter ego já tinha um nome: Bellini, a improvável mistura de Bellotto e Bandini que eu há tanto perseguia.

As histórias do adolescente Bellini em aventuras pelas linhas de ferro da Sorocabana nunca foram escritas. Mas em 1993, quando completei 33 anos — a enigmática “idade de Cristo” — decidi escrever um romance policial, pois me pareceu a forma mais fácil de resolver o enigma do romance de estreia — bastavam-me apenas um crime e um detetive para decifrá-lo. O crime foi fácil: um parricídio, o crime fundamental, o crime de Édipo. O detetive já estava escolhido, ou pelo menos o seu nome: Remo Bellini. Para “rechear” o nome, juntei algumas características de três de meus detetives prediletos: Philip Marlowe, Mandrake e Archie Goodwin — o fiel escudeiro de Nero Wolfe — que, junto com Bandini e Nick Adams, formam o código genético literário do Bellini.

Em 1995 publiquei Bellini e a Esfinge. O romance já tinha sido aprovado pela editora Brasiliense quando uma amiga, a escritora Patrícia Melo, encaminhou-o à Companhia das Letras, que decidiu publicá-lo, para minha imensa satisfação. Eu era fã, e sou até hoje, da coleção de policiais da Companhia. Em 1997, lancei Bellini e o Demônio, e a partir daí, inspirado por Georges Simenon, decidi que alternaria sempre os Bellinis com outros livros, para não ficar refém de um personagem só.

A coisa funcionou até o ano de 2007, quando lancei Os Insones. Pela lógica simenoniana, eu deveria ter lançado um outro Bellini em seguida (já publicara Bellini e os Espíritos em 2005). Mas algo aconteceu nesse período, e talvez tenha a ver com a proximidade da crise dos 50 anos — estava com 47 —, quando vislumbramos pela primeira vez com alguma clareza aquele muro sombrio a que chamam “finitude da vida”. Essa mirada costuma se seguir de uma guinada do pescoço, em que olhamos em retrocesso o que fizemos de nossas vidas até ali.

Lembro exatamente onde se deu esse insight: eu estava numa mesa em que se discutia literatura policial numa Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Ao perceber que os colegas escritores policiais em torno discutiam tipos de veneno e formas criativas de assassinatos que não deixam pistas, entendi que não era àquela mesa que eu pertencia. Eu não queria ser percebido como um escritor policial, mas como um escritor simplesmente.

Sei que soa meio bobo, mas crises existenciais costumam ser assim, previsíveis e desprovidas de encanto. Seguiram-se No Buraco e Machu Picchu, romances em que tentei — e consegui — deixar a literatura policial de lado. Foi justamente no processo de acabamento de Machu Picchu que o André Conti, brilhante editor da casa, me sugeriu escrever uma HQ com o Bellini como personagem. O quadrinista Pedro Franz seria meu parceiro na empreitada. Melhor de tudo, o André tinha uma ideia para a história, um caso do Bellini em algum momento do futuro, já velho e um tanto acabado. Achei a ideia boa, e assim nasceu Bellini e o Corvo, a HQ que sai no próximo ano, comemorando os vinte anos de existência pública do detetive. Logo que finalizei o argumento de Bellini e o Corvo e o enviei ao Pedro Franz, comecei a escrever Bellini e o Labirinto e só parei seis meses depois. Quando teclei o ponto final, tive certeza de reencontrara meu personagem.

Sobre o estado atual do Bellini, deixo que ele o defina em suas próprias palavras: “Privado da visão, tive a impressão de que meus outros sentidos estavam mais aguçados e uma dor difusa se espalhava pelo meu corpo como corrente elétrica. Winston Churchill, no mais famoso de seus discursos, prometera sangue, suor e lágrimas para tentar conduzir a participação inglesa na guerra a um final vitorioso. Sangue e suor já me escorriam pelo rosto. As lágrimas ainda não”.

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BELLINI E O LABIRINTO
Sinopse:
Depois de quase dez anos da publicação de Bellini e os espíritos, Tony Bellotto volta à sua criação máxima, o áspero (e ocasionalmente sensível) investigador que é fã de blues, de mulheres e de uma boa dose de ação. O tempo passou, mas Bellini ainda mora sozinho num apartamento na região da avenida Paulista, coração de São Paulo. O crime para o qual será atraído, no entanto, não tem nada de comum. Depois de receber um telefonema de Marlon, parte da famosíssima dupla sertaneja Marlon & Brandão, Bellini terá de sair da sua conhecida São Paulo e viajar ao coração de Goiânia, onde se verá embrenhado num universo de música sertaneja, césio-137, intriga e pelo menos uma dama fatal.

 

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Criador do detetive Remo Bellini, seu novo livro, Bellini e o Labirinto, já está nas livrarias.

O aprendizado

Por Tony Bellotto

Quando comecei a escrever profissionalmente, no início dos anos 1990, Rubem Fonseca era uma unanimidade. Reconhecido como um escritor de voz originalíssima — daquelas que começam mais ou menos atrás dos joelhos e vão subindo até chegar bem acima da cabeça, segundo a definição de E.I. Lonoff sobre a voz literária do jovem Nathan Zuckerman –, ele era considerado por todos o mestre da literatura urbana brasileira. Seu estilo enxuto devia bastante à literatura americana, notadamente a de prosa seca de Hemingway e Hammett, e seus temas chocavam e surpreendiam pela brutalidade, violência e falta de vínculo com as tradições literárias brasileiras (vertentes regionalistas e o onipresente realismo mágico que deslumbrou tantos escritores latino-americanos na virada dos 1960 para os 1970).

Desde a publicação de seu primeiro livro de contos, Os prisioneiros, em 1963, sua reputação só fez crescer, e em 1973, quando publicou seu primeiro romance, O caso Morel, Rubem Fonseca já era considerado o maior contista brasileiro. Seguiram-se livros de enorme sucesso, como os romances A grande arte, de 1983, e Agosto, de 1990, que lhe valeram o título de maior escritor brasileiro contemporâneo.

A partir de meados dos anos 1980, e por mais ou menos uma década, Rubem Fonseca foi uma referência absoluta para todos que começaram a publicar no período. Marcelo Rubens Paiva, Patrícia Melo, Marçal Aquino e humildemente eu, entre muitos outros, todos tínhamos uma dívida orgulhosa e admirada com Rubem Fonseca. Dizia-se na época que ninguém escapava dele. Nem Chico Buarque, que estreou na arte romanesca em 1991 com Estorvo, escapou. Bruna Lombardi, Jô Soares e Caetano Veloso não publicaram seus livros de estreia sem o beneplácito do Mestre.

Na virada do século alguma coisa aconteceu, e o prestígio de Rubem Fonseca começou a se esvair. Ainda que tenha recebido em 2003 prêmios relevantes como o Juan Rulfo e o Camões, suas obras começaram a ser criticadas primeiro com desdém, depois com ressentimento e escárnio. Começaram a acusá-lo de enfraquecimento literário e de se repetir. Disseram que perdeu a mão. Escritores estreantes deixaram de citá-lo como referência. Jornalistas recalcados deitaram e rolaram. Os ratos invadiram o navio. Hoje em dia qualquer Zé Mané da geração Facebook dá-se ao direito de criticá-lo com o peito imberbe estufado, quando não de ignorá-lo por completo.

Nunca deixei de ter Rubem Fonseca como referência, ou de ler e reler seus livros como inspiração e aprendizado. Discordo de quem o acusa de ter perdido as graças do mar. Basta ler o seu mais recente livro, Amálgama, para entender por quê. Como diz o Mestre no parágrafo final da coletânea de contos, mais agudo que nunca aos 88: “Sei que tem gente que não vai acreditar nesta história que estou contando. Foda-se.”

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

Notas para um obituário

Por Tony Bellotto

Lou Reed
1 – Lou Reed foi o mais literário dos compositores de rock. Não apenas nos aspectos obviamente “literários” das canções – letras, temas – mas na música em si. A maneira como Lou cantava e, principalmente, o jeito com que tocava guitarra, é literatura pura.

2- Para que se cheque a veracidade da afirmação anterior, basta ouvir as guitarras de Lou. Em vários de seus discos ele anota na contracapa, ou no encarte, em que lado do estéreo suas guitarras podem ser ouvidas. Por que faz isso? Para que se tenha certeza sobre para onde pende a literatura.

3- Se ainda restam dúvidas sobre a literariedade da música de Lou Reed, recomenda-se a audição dos discos gravados por Jack Kerouac. O rei do Beat gravou alguns discos entre 1958 e 1959, na esteira do sucesso de seu romance seminal On The Road, publicado em 1957. Esses discos foram gravados pela Verve e reeditados pela Rhino records. Podem ser encontrados até hoje nas boas casas do ramo e em sebos digitais. Nessas gravações, acompanhado por músicos de jazz, Jack declama poemas e improvisa excertos de prosa tóxica ao som da música. O que Kerouac consegue como efeito é apenas o rascunho do que Lou Reed realizou a partir do final da década de 1960, trocando o jazz pelo rock. Pode-se definir Lou Reed como um beat extemporâneo que, de certa forma, conseguiu consumar na música a experiência literária da beat generation.

4- Em seu maior sucesso, Walk on the Wild Side, Lou Reed enumera personagens do underground Nova Iorquino, gente que frequentava The Factory, o estúdio de Andy Warhol nos anos 1960: Holly Woodlaw, Candy Darling, Little Joe Dallesandro, “Sugar Plum Fairy” e Jackie Curtis. A levada jazzy da canção evoca o universo beat enquanto Lou narra as andanças dos personagens por uma Nova Iorque mítica e sombria. Walk on the Wild Side é fina literatura.

5- Lou Reed foi amigo do poeta Delmore Schwartz, seu professor na Universidade de Syracuse. No disco “The Blue Mask”, lançado em 1982, Lou gravou uma música que homenageia o poeta, morto em 1966. Dizem os versos iniciais de My House:

“A imagem do poeta está na brisa
Gansos canadenses voam sobre as árvores
Uma bruma paira gentilmente sobre o lago
Minha casa é muito bonita à noite

Meu amigo e professor ocupa um quarto vago
Ele está morto – em paz enfim o Judeu Andarilho
Outros amigos colocaram pedras em seu túmulo
Ele foi o primeiro grande homem que conheci

Sylvia e eu pegamos nossa tábua de Ouija
Para discar por um espírito – pelo quarto ele voou
Ficamos felizes e impressionados com o que vimos
Flamejando apareceu o fino e orgulhoso nome Delmore”

6- Lou Reed agora ocupa um quarto vago em minha casa.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

O fantasma de Frankfurt

Por Tony Bellotto

Frankfurt am Main sunset skyline

Agora que todos os escritores que eu conheço foram para Frankfurt, aproveito para correr ao computador e tratar de adiantar o trabalho no meu quase finalizado novo Bellini. O tamanho desse “quase” é que são elas. Todo escritor que eu conheço está sempre “quase” terminando ou começando algum livro.

Bem, de volta ao meu computador: aproveito a debandada geral para me adiantar e ganhar alguma vantagem em relação aos colegas. Já que eles foram agraciados com a viagem grátis a Frankfurt, e lá dificilmente encontrarão tempo para escrever, eu honrarei a classe. Alguém tem de trabalhar, afinal de contas. Embora não admita para ninguém, nem para mim mesmo, estou morrendo de inveja deles. Por que não me convidaram para Frankfurt?

Deixa pra lá, vou encarar o Bellini. Tento entrar no clima, releio umas três vezes o último capítulo escrito, troco uma vírgula por um ponto e vírgula, apago um no entanto e substituo por um portanto e… volto a pensar em Frankfurt. Ah, o que estarão fazendo os escritores agora em Frankfurt? Imagino meu amigo Ignacio de Loyola Brandão sorvendo cerveja escura de uma caneca gigante ao lado de outro amigo, o Marçal Aquino. Azar deles. Terminarei meu livro antes deles. Do jeito que esses escritores viajam, quando encontram tempo para escrever?

Sim, o Bellini. Nada. Minha mente não sai de Frankfurt. Imagino Daniel Galera e Michel Laub no vietnamita transado que encontraram perto do hotel. Observarão belas loirinhas sorridentes na mesa ao lado enquanto degustam especiarias de Ho Chi Minh? Ah, a dura vida do escritor… e o Joca? Imagino-o caminhando à beira do Main, quem sabe soltando uma fumacinha de frio pelas narinas, absorto em ideias profundas e insondáveis… Por que não me convidaram para Frankfurt? Meus bons amigos e xarás Paulo Coelho e Paulo Lins me elucidam: porque sou negro e bestseller. Ah, como é dura a vida de um escritor negro e bestseller no Brasil…

Bellini, oi?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

O Bellini profundo e os outros eus.

Por Tony Bellotto

Foto: Fábio Assunção em cena do filme “Bellini e o demônio”.


Quando decidi escrever meu primeiro romance, Bellini e a Esfinge, lá pelos idos de 1993, já tinha o plano de escrever outras histórias com o mesmo personagem, inspirado principalmente pelos romances de Georges Simenon protagonizados pelo Inspetor Maigret. Também gostava muito dos livros com o detetive Nero Wolf, de Rex Stout. Aliás, a dupla Nero Wolf e seu assistente Archie Goodwin foram os modelos para a minha dupla Dora Lobo (o nome é uma homenagem a Nero Wolf) e seu assistente, Remo Bellini. Mas logo depois que Bellini e a Esfinge foi publicado, resolvi escrever outro livro, uma história não policial, sobre um russo exilado num dos Gulags do regime comunista. Não sei por que escrevi esse livro, que era péssimo, e, para minha sorte, a Editora recusou.

Por alguns dias achei que minha carreira literária tinha chegado ao fim. Mas decidi prosseguir, retomando o projeto da série com o Bellini. Foi então que me deparei pela primeira vez com a dificuldade de recriar num novo romance um personagem já existente. Quem disse que eu conseguiria? Como Simenon e Rex Stout conseguiram recriar a mesma atmosfera e o mesmo ritmo das histórias anteriores? E como conseguiram manter as mesmas características dos personagens sem que soassem falsos ou esquemáticos? Eis a questão. Foi um aprendizado.

Respirei fundo, reli alguns trechos de Bellini e a Esfinge e mandei bala. Tive de jogar alguma coisa fora e reescrever alguns trechos, mas consegui manter o personagem vivo no segundo romance da série, Bellini e o Demônio – aliás, o mais vendido dos Bellinis. Após seu lançamento exitoso, ganhei autoconfiança e decidi seguir os passos de Simenon, que alternava as histórias do Inspetor Maigret com outras fora do universo do personagem que o tornou famoso. Escrevi BR 163, e, dessa vez, a Editora não recusou. Foi uma vitória pessoal, que comemorei escrevendo outro Bellini, Bellini e os Espíritos. Nas primeiras tentativas de escrever o novo Bellini, novamente a angústia se abateu sobre mim: seria capaz de reencontrar o personagem? Ele voltaria pra mim?

De novo reli trechos de Bellini e a Esfinge, e agora necessitei também da releitura de partes de Bellini e o Demônio. Novamente deu certo. Planejei, em seguida, prosseguir com meu projeto Simenon, alternando Bellinis e não Bellinis. Escrevi Os Insones. E então algo estranho aconteceu, pois perdi a vontade de escrever Bellinis. Ainda que eu soubesse que o personagem voltaria algum dia, emendei outros dois romances na esteira de Os Insones: No Buraco e Macchu Pichu – não por acaso os meus romances menos “policiais”. Durante esse período, André Conti, que ainda não era meu editor, me propôs criar uma graphic novel do Bellini, em parceria com o Pedro Franz. Escrevi um conto intitulado Bellini e o Corvo, para servir de base para os desenhos do Pedro. Foi o que bastou para eu reencontrar meu personagem. Depois de escrever a sinopse da graphic novel (uma ótima ideia do André) -uma aventura do Bellini já idoso, num futuro indefinido em Florianópolis – comecei a escrever um novo Bellini com o prazer de quem reencontra um velho amigo. Reencontrei-o um pouco mudado, é verdade, mas, depois de rápidas releituras de trechos dos Bellinis anteriores, compreendi que suas transformações foram naturais, afinal ninguém permanece igual depois de sete anos.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.