Tony Bellotto

Agruras de um guitarrista escritor (ou Revelações do Moleskine Negro)

Por Tony Bellotto

(Foto por Andy Buscemi)

A boa notícia — a ótima — é que a editora vai lançar meu novo romance ainda este ano, em outubro. Uau! A não tão boa — pra mim — é que tenho de correr com os arremates finais e correçõezinhas de praxe para que tudo saia a contento. E a tempo. Nada estrutural, não precisarei demolir paredes de cenas, decepar cabeças de personagens ou derrubar tramas cujas raízes já estão arrebentando a calçada, apenas desobstruir algumas sentenças congestionadas de adjetivos, retirar à pinça crases impiedosamente cravadas em inocentes as, e reconduzir ao bom caminho vírgulas perdidas, hífens deslocados e reticências mal empregadas. Não é que eu não goste dessa ensebadinha final, em que na maior parte das vezes se troca seis por meia-dúzia, mas é que realmente ando sem tempo. Jura? E quem não anda? Pra se ter uma ideia, folheemos juntos, a esmo, meu inseparável e frenético diário — o Moleskine Negro — e analisemos alguns excertos aleatórios:

Quarta-feira, 09 de junho.
Encontro com Marta Garcia, minha prestimosa editora, e depois um almoço em que colocamos os pontos e vírgulas em dia. Passamos a tarde na Companhia a devanear sobre as correções e alguns detalhes do texto. Num intervalo dos trabalhos, visita à sala do Luiz Schwarcz, que me mostra um velho vinil do primeiro disco dos Titãs, de 1984, em que estão gravadas as versões originais de Marvin, Go Back e Sonífera Ilha, entre outras. A relíquia foi encontrada por acaso por sua mulher Lili, ao tropeçar num baú esquecido no porão desde os anos 80 (estou fantasiando um pouco, cabeça de escritor é um problema…). Autografo o disco e felicito Luiz, que aniversaria. Em algum momento da conversa, me comprometo a escrever uma coluna semanal para o blog da Companhia (logo eu, tão cheio de tempo livre).

Quinta-feira, 10 de junho.
Ensaio com os Titãs.

Sexta e sábado, 11 e 12 de junho.
Show em Uberlândia. Dia seguinte, dia dos namorados sem a namorada, viagem de ônibus até Franca, para outro show.

Domingo, 13 de junho.
Passo por Ribeirão Preto, onde participo da Décima Feira Nacional do Livro, bato papo com leitores e fãs, autografo discos e livros e bebo um chopinho no Pinguim, porque ninguém é de ferro.

Segunda-feira, 14 de junho.
Já de volta ao Rio, reunião com o grupo de roteiristas do Mandrake, série da HBO, do qual faço parte. Temos de preparar os roteiros de dois telefilmes até o final do mês. O que é isso pra mim, um homem com tempo sobrando?

Terça-feira, 15 de junho.
Alguém terá a concentração necessária para corrigir um romance (ou escrever um roteiro de telefilme ou uma coluna de blog) em dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo? Futebol meia boca, mas vencemos a deplorável Coreia do Norte. Depois do jogo, bebemoro e desmaio em algum canto da sala.

Quarta e quinta-feira, 16 e 17 de junho.
Vou, e voo, para São Paulo, para uma regravação da música Go Back — aquela, que já estava gravada naquele disco de 1984 encontrado na arca perdida dos Schwarcz — para a trilha da novela Ti-Ti-Ti, da rede Globo. Para quem não sabe, não se grava uma música num dia só, portanto a quinta-feira também foi dedicada aos ajustes finais da gravação (que obviamente ainda não está de todo terminada até hoje, mais de uma semana depois).

Sexta-feira negra, 18 de junho.
Estava tudo programado para minha estreia no blog, quando recebo a notícia da morte do grande Saramago, o homem que nos ensinou a escrever deus com dê minúsculo, além de dar à bela e inculta última flor do Lácio o seu único Nobel. Passo pela editora novamente, clima de comoção geral. Luiz particularmente abalado e emocionado. Minha estreia é (justamente) adiada. Perfeito, a melhor forma de um escritor como eu homenagear o Saramago é com silêncio literário. À noite, show na festa junina de Mauá. O guitarrista, em compensação, homenageia o grande escritor com um barulho dos diabos.

Sábado e domingo, 19 e 20 de junho.
Sábado, show na feira agropecuária de Natividade, interior do Rio de Janeiro. Domingo, Brasil 3, Costa do Marfim 1. Ganho o bolão da família, na casa do meu cunhado. Nosso futebol está melhorando, minha sorte também. E meus deadlines se aproximando. As correções do romance, o roteiro e a coluna continuam à espera de um autor. E o autor, de tempo.

Segunda-feira, 21 de junho.
Gravação do programa do Raul Gil em São Paulo. É a estreia (ou reestreia) do Raul no SBT. Os Titãs são convidados de honra, e não podem faltar: foi no programa do Raul que tocamos pela primeira vez Sonífera Ilha em 1984, no mesmo SBT. O homem nos dá sorte. Tenho problemas para embarcar para São Paulo no aeroporto Santos Dumont, um inusitado fog londrino invadiu as ruas cariocas. Só volto pra casa às onze da noite, exausto.

Terça, quarta e quinta-feira, 22, 23 e 24 de junho.
Tiro os dias para corrigir o romance, começar a escrever um dos roteiros de Mandrake e finalizar a prometida coluna do blog da Companhia (estou também tendo uma ideia boa para uma música…). Se eu sobreviver, você terá notícias minhas na sexta, dia 25. O Brasil joga com Portugal, e eu vou para Umuarama, Paraná, fazer um show com os Titãs. Vida de guitarrista escritor não é pudim. Ah, meu novo livro chama-se No Buraco e na semana que vem (se der tempo), falo um pouco mais sobre ele.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em outubro.