Tony Bellotto

Piada

Por Tony Bellotto

Untitled

Acordei com vontade de ouvir uma piada.

Pedi a meu filho caçula, o humorista da família, que me contasse uma piada antes de sair para a escola.

“Olhe-se no espelho”, ele disse.

O escritor Kurt Vonnegut tem uma teoria (que se aplica a si mesmo) sobre os filhos caçulas serem os piadistas das famílias.

A teoria é relatada na primeira crônica do livro Um homem sem pátria. Segundo Vonnegut, a piada é o único jeito que o caçula tem de entrar numa conversa adulta. À mesa de jantar, seus pais e irmãos mais velhos não queriam saber de suas histórias bobas e infantis, mas das coisas realmente importantes que aconteciam na escola secundária, na universidade ou no trabalho. A única maneira que o pequeno Kurt tinha de entrar na conversa era dizer uma coisa engraçada.

Segui o conselho de meu filho piadista e olhei-me no espelho.

“Cadê aquela bichona mulata que preside a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara?”, pensei.

Eu tentava criar uma frase de efeito.

“Se Mark Chapman é o emissário de Deus, deve haver algo de podre no reino dos céus”, pensei em seguida.

Eu continuava tentando criar uma frase de efeito.

Comecei a fazer a barba.

Pensei no que levava um homem a deixar crescer o bigode.

Pensei em homens díspares com bigodes parecidos: Stefan Zweig e Adolf Hitler. Joseph Stálin e Freddie Mercury.

Não consegui criar uma frase de efeito nem entender por que alguns homens cultivam bigodes.

Mas adorei a piada do meu filho caçula.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

Junky

Por Tony Bellotto


Junk: na gíria dos usuários, droga pesada (morfina, heroína).
Junky: dependente de drogas pesadas.

Acabo de reler Junky, de William Burroughs, na tradução de Reinaldo Moraes para a coleção Má Companhia. Reler não é a palavra certa, pois a leitura anterior foi de uma versão antiga e incompleta, ainda com cortes dos editores da primeira publicação norte-americana, de 1953, e que permaneceu como versão oficial por décadas. A publicação recente é a edição definitiva, com texto original recuperado e introdução reveladora de Allen Ginsberg. Isso explica que eu tenha experimentado só agora a sensação de ler o livro pela primeira vez. Ou então foi a tradução primorosa do Reinaldo que me deu essa impressão.

Junky é fabuloso por vários motivos. O primeiro, a narrativa amoral e distanciada do narrador, um certo Bill (?), nascido de boa família do Centro Oeste americano, que nos informa — com secura literária de deixar Hemingway com cara de mocinha — de sua condição, um junky no final dos anos 1940 e início dos 1950 nos Estados Unidos e no México (para onde Bill foge atrás de junk quando a barra pesa com a justiça americana). Contribuem para a força do texto a ironia agulheada do autor e seu conhecimento prático de drogas químicas, ervas rituais, alucinógenos, barbitúricos e afins.

É sabido que Burroughs, além de grande escritor, foi notório consumidor de drogas e matou acidentalmente (?) a esposa com um tiro na cabeça durante uma bebedeira no México, o que talvez ajude a entender a intrigante — às vezes irritante — misoginia de Junky.

Mas o fato que mais me chamou a atenção na releitura do texto, paradoxalmente, não foi o aspecto literário, ou estético. O que surpreende no livro, e que censores e moralistas nos últimos sessenta anos nunca perceberam, é seu teor, talvez involuntário, antidrogas. Difícil alguém que não seja um dependente terminar a leitura de Junky seco por um pico (ou mesmo por uma cafungada). É claro que o texto transpira revolta contra ações policiais e criminalização de drogas e desperta simpatia pela ideia de que liberdade individual deve prevalecer sobre leis impostas por moralismo e interesses políticos. Mas as descrições cirúrgicas das agruras dos viciados quando privados da droga são de virar o estômago. Junky devia ser adotado em escolas (e tribunais e hospitais) como um livro esclarecedor sobre o uso de drogas pesadas (e de drogas leves também). Ou talvez, numa visão menos otimista, o livro simplesmente revela que não há tratamento para a miséria humana. Numa passagem, Bill admite que em certo estágio do vício, o único “barato” da droga é evitar o desespero da abstinência e a vida do junky se resume a garantir a próxima picada.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

Wild horses

Por Tony Bellotto

Andando...

Outro dia, assistindo ao belo filme A busca, de Luciano Moura, encantei-me com o personagem central da história, um menino de 15 anos que foge de casa e vai de São Paulo até o Espírito Santo a cavalo. As imagens do menino cavalgando são poéticas, e evocam o personagem do cavaleiro errante, recorrente em meus sonhos.

De Dom Quixote aos caubóis de Clint Eastwood e John Wayne, sem esquecer os samurais de Kurosawa — cavaleiros vivem passando por aí.

Tenho um amigo que faz longas viagens a cavalo, atravessando centenas de quilômetros pelo estado de São Paulo. De vez em quando ele me manda fotos de suas viagens e, olhando para elas, sempre tenho a impressão de que ele está viajando por algum lugar dentro dele mesmo, um lugar impossível de se localizar num mapa.

Em estradas, olhando pela janela do ônibus ou do carro, vejo às vezes cavaleiros solitários. Mesmo em algumas cidades grandes, como Goiânia, Campo Grande ou Ribeirão Preto, me deparo com cavaleiros e o som metálico que produzem as ferraduras contra o asfalto.

Me pergunto, nessas horas, se esses cavaleiros realmente existem ou se simplesmente cavalgam pela minha imaginação.

Na noite passada, depois de ter lido notícias sobre o consumo de carne de cavalo mundo afora, sonhei que, ao contrário do que se previa, o veículo do futuro não será a bicicleta, mas o cavalo.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

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Eventos de lançamento de Machu Picchu:

São Paulo:
Quarta-feira, 27 de março
19h – Bate-papo “Hora do jantar”: Literatura brasileira, família e cultura pop na atualidade, com Tony Bellotto e Reinaldo Moraes. (Cine Livraria Cultura, sala 2. É necessário retirar senha na loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura, a partir das 9h do mesmo dia.)
20h – Sessão de autógrafos (Livraria Cultura, loja principal, piso térreo)
Local: Livraria Cultura – Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073

Rio de Janeiro:
Quinta-feira, 11 de abril
19h – Bate-papo “Hora do jantar”: Literatura brasileira, família e cultura pop na atualidade, com Tony Bellotto e Artur Xexéo (Auditório)
20h – Sessão de autógrafos
Local: Livraria da Travessa – Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290

As buzinas de Jericó

Por Tony Bellotto


[resposta à carta de quarta-feira]

André,

Confesso que sempre achei que o Ratzinger não levava muito jeito para a coisa. Cínico demais para o papel. Talvez tenha havido um miscasting por parte dos chefões do Vaticano. Só posso dizer que ele ganhou alguns pontos comigo. Há poucos dias, no carnaval multicultural do Recife, encerramos um show com aquela música que diz: “eu não gosto do papa, eu não creio na graça, do milagre de deus”. É uma festa pagã, certo? Foda-se o papa.

Sobre o Bento ser o “nosso” papa, agradeço o elogio, mas tenho idade para ser teu pai. O “meu” papa sempre foi o rapineiro e constipado Paulo VI, embora acredite que papas sejam como escolas de samba: tudo a mesma coisa.

Banda cover dos Beach Boys? Não, o Ratzinger faz um gênero mais sofisticado: sonatas de Beethoven ao cair da tarde.

Não conheço o Cerebus do Dave Sim. Ainda. Tua descrição me deixa curioso. Sobre a sucessão editorial, antes de te tornares o “meu” editor, eu já te admirava pelo trabalho com as HQs e pela ótima proposta para a graphic novel do Bellini (e pela sugestão surpreendente, e um pouco ousada, de localizar a trama num futuro em que meu detetive padece dos desconfortos da velhice e do sobrepeso). Já dizia o I-Ching (ou o horóscopo no jornal de ontem, não tenho certeza): a mudança é a ferramenta da transformação. Aguardo ansioso pelos desenhos do Pedro Franz para Bellini e o Corvo.

Interessante essa história da “síndrome de Cerebus”. Minha intenção ao escrever Machu Picchu era me aproximar do universo do Billy Wilder: uma comédia de costumes, pero sem perder o cinismo jamais.

E tem a “família”.

Não por acaso, Cérbero, o multicerebrado leão de chácara dos infernos, é também o pai da sofisticada e enigmática Esfinge.

Falar da “família moderna” seria um clichê, então optei por falar da família pós moderna, aquela que encontrou a imobilidade num enorme congestionamento, ao som das buzinas de Jericó.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

O beijo da morte

Por Tony Bellotto

Não há como escapar desse horrendo incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e isso me faz pensar numa coisa terrível: não sei como tragédias como essa não ocorrem com mais frequência no Brasil.

Em trinta anos de carreira com os Titãs, constatei (e continuo constatando) como o nosso show business é um negócio improvisado e fuleiro, administrado em grande parte por bandos de aventureiros sem caráter.

Já vi e vivi de tudo nessas três décadas, e é espantoso que tão pouco tenha mudado em tantos anos.

Até hoje é comum que bandas e artistas de ponta façam shows em casas de espetáculo que só têm uma entrada (como era o caso da Kiss).

Nesses lugares, quando você chega para fazer o show, entra pela porta da frente e vai abrindo caminho pelo público até chegar ao palco.

Além do constrangimento que isso gera, sem contar a exposição a que o artista fica sujeito, que se manifesta desde um inoportuno pedido para tirar uma foto até o xingamento de um ou outro bêbado mais exaltado, existe sempre um risco real de tumulto ou deflagração de alguma situação que escape do controle (aliás, controle de quem? Tem alguém no controle?).

Isso sem contar a incompetência dos ditos “seguranças” desses lugares.

Não é espantoso que os seguranças da Kiss tenham impedido a saída dos presentes durante o incêndio porque não tinham pagado a conta?

Se você tem alguma familiaridade com os seguranças dessas casas não vai achar tal comportamento tão “espantoso”, infelizmente. Lembro de um show que fizemos num ginásio em Campinas, há alguns anos, quando um segurança matou a tiros um garoto que não tinha conseguido ingresso e tentava entrar no ginásio por um vão da parede externa.

Outro dia mesmo, chegamos a uma dessas casas e fomos recebidos a vaias. O dono da casa, que nos contratara para tocar à meia-noite, avisara seu público que o show teria início às 21h, assim ele poderia faturar três horas de bebida impaciente no bar.

Sei que tudo isso é pouco perto do que aconteceu em Santa Maria, e sei também que em muitos desses casos, nós, artistas — e nossos empresários — também temos culpa por toparmos trabalhar em condições tão nebulosas.

Que essa tragédia sirva para mudar o estado das coisas.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.