Tony Bellotto

Rio+20

Por Tony Bellotto

Parked on a Highway...

Por conta da Rio+20 pego-me no meio de um congestionamento monstruoso na Cidade Maravilhosa.

Não é justo culpar só a Rio+20, há tempos o Rio vem apresentando congestionamentos dignos de… São Paulo.

Será a forma que a Cidade Purgatório da Beleza e do Caos encontrou para chorar as recentes mortes de Millôr Fernandes e Ivan Lessa?

Não, o Rio já está nessa há algum tempo.

Foi o que me inspirou a escrever meu novo romancinho (é curto…), os congestionamentos que assolam a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A tragicomédia da classe média brasileira, através de um olhar BillyWilderiano sobre a família do século XXI, presa no trânsito. A meu ver, nos congestionamentos encontra-se a solução do enigma da vida moderna.

Desde No buraco venho tentando escrever de forma diferente, de uma forma em que não encontre personagens de Rubem Fonseca, Raymond Chandler e James Ellroy flanando em minhas histórias como fantasmas de carne e osso.

Não sei se é melhor ou pior, mas dá mais trabalho, embora eu me assuste menos com presenças inoportunas de fantasmas literários.

Lembro de Cosmópolis, romance de Don DeLillo em que grande parte da narrativa transcorre num congestionamento de trânsito em Manhattan, por ocasião de uma visita do então presidente Bill Clinton à cidade.

Penso em A auto-estrada do sul, conto do Cortázar que se passa num congestionamento de trânsito numa estrada na França.

O livro teria influenciado Week end, filme de Godard em que um engarrafamento é crucial para a narrativa (e que narrativa…).

Cortázar tem um outro livro interessante, escrito e fotografado a quarto mãos com Carol Dunlop, sua mulher, Os autonautas da cosmopista, sobre uma viagem (odisseia?) que empreenderam, buscando enxergar e perceber tudo aquilo que NÃO se enxerga ou se percebe quando se viaja por uma estrada.

Hum, será que me livrei mesmo dos meus fantasmas literários?

Não deveria haver uma relação direta entre o Rio e o Trânsito Caótico. Quando pensamos no Rio, além de praias, montanhas, bossa-nova, funk, Avenida Brasil e mulheres lindas, pensamos também em favelas, traficantes de drogas e escolas de samba.

Mas não pensamos em engarrafamentos de trânsito.

Pois é onde me encontro agora, pensando nisso tudo.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Adaptação

Por Tony Bellotto

Como quase todo mundo que conheço, eu prefiro os livros aos filmes baseados nos livros. Há os filmes tão bons quantos os livros, como Cidade de Deus, a versão de Fernando Meirelles para o romance de Paulo Lins. Geralmente, nesses casos, o acerto está em não tentar reproduzir o livro, mas adaptá-lo livremente ou usá-lo como viga mestra ou vaga inspiração.

Poderia citar vários outros exemplos e o primeiro que me vem à cabeça é O amigo americano, de Wim Wenders, bem-sucedida adaptação de O jogo de Ripley (Ripley’s game), de Patricia Highsmith.

Há ainda os filmes que são melhores que os livros em que foram baseados, e apesar de eu não ter lido Psicose, de Robert Bloch, sei que o filme de Hitchcock é citado sempre como um exemplo clássico de filme que supera o livro/mãe (embora a criação de um personagem como Norman Bates seja mérito suficiente para imortalizar qualquer autor).

Para quem se interessa pelo assunto, recomendo a leitura de Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s), de Truman Capote, seguida da assistência (visão mais audição) do filme de Blake Edwards baseado no livro e estrelado por Audrey Hepburn (há disponível uma excelente edição comemorativa de 50 anos, com DVD, extras e uma preciosa reprodução do roteiro de George Axelrod), culminando com a leitura de Quinta Avenida, 5 da manhã, de Sam Wasson (ótima edição da editora Zahar), não necessariamente nessa ordem.

Embora a novela seja magistral em todos os sentidos, o filme tornou-se também um clássico, e Sam Wasson nos esclarece como isso aconteceu (e a que custo), num livro divertido e coquete, uma justa homenagem à deliciosa Holly Golightly, a suprema criaçao de Truman Capote.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Cabeça Dinossauro

Por Tony Bellotto

Cabeça Dinossauro foi o disco que nós, Titãs, gravamos em 1986, depois de um período nebuloso da carreira, quando eu e Arnaldo Antunes fomos presos por porte de drogas (e que droga: heroína, em sua segunda apreensão oficial pela polícia brasileira — o delegado que nos prendeu afirmou que apenas um chinês no porto de Santos nos precedera no feito, alguns anos antes), o que ocasionou toda espécie de dissabores, além de shows cancelados, desilusão generalizada e um tremendo baixo-astral.

O disco nasceu dessa raiva, mas também de um aprimoramento estético, em que já estávamos trabalhando havia algum tempo, produzindo canções com letras diretas e objetivas — em contraposição às letras barroquentas, elipsoidais e desprovidas de sentido da MPB na época — embaladas por arranjos punk, na melhor tradição do it yourself.

Não estávamos minimamente preocupados com porra nenhuma que não fosse nossa satisfação estética, e dados como sucesso ou viabilidade comercial não nos passavam pelas cabeças. Eu acreditava aliás que o disco seria um fracasso e apostei uma garrafa de Jack Daniel’s com o Branco Mello, acreditando que Cabeça Dinossauro jamais alcançaria o status de disco de ouro (100 mil cópias vendidas).

Bem, o disco foi um sucesso arrasador e com o passar do tempo adquiriu aquela qualidade que os americanos nomeiam bigger than life.

É o que temos comprovado pelos shows comemorativos do disco que temos feito pelo Brasil. Depois de 26 anos de seu lançamento, temos lotado as casas em que tocamos, revivendo um pouco da febre e da fúria daqueles tempos.

Outro dia, trocando figurinhas (e copos de cerveja) com alguns companheiros roqueiros da geração de 80, enquanto nos gabávamos dos feitos passados de nossas bandas, não pude deixar de parafrasear Truman Capote ao comparar as medidas das respectivas pirocas literárias com Norman Mailer e Gore Vidal numa conversa de bar: “Vocês podem ser excelentes escritores, mas não inventaram um gênero literário”.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Filhos? Melhor não tê-los…

Por Tony Bellotto

Estatísticas comprovam que o medo de falar em público é o campeão absoluto dos assombros humanos, o terror número 1, por assim dizer, dos habitantes pensantes do planeta Terra. Eu devo ter herdado uma variante interessante do mal, pois apesar de me sentir à vontade num palco, com uma guitarra pendurada no ombro, frente a um milhão de pessoas (o que aconteceu em Copacabana em 2006, quando os Titãs abriram o show dos Rolling Stones), sou acometido de toda espécie de fobia quando preciso falar em público. E quanto menos gente na plateia, pior eu fico.

Lúcia Riff, minha agente literária, e a Joana Fernandes, da Companhia das Letras, sabem quantos nãos elas têm de dizer por aí quando sou convidado a dar palestras em escolas e eventos literários. Às vezes não dá para escapar, mas sempre me precavenho — peço que haja um mediador com quem eu possa conversar (ganhar tempo), e torço para que os presentes comecem logo a fazer perguntas, pois dessa forma, mesmo com taquicardia, consigo respirar um pouco enquanto formulam suas questões. Ainda assim meu coração sempre dispara e minha saliva desaparece nos momentos iniciais da “palestra”, ou, no meu entedimento da coisa, “tortura”.

(Quem quiser testemunhar in loco um guitarrista-escritor tendo um ataque de pânico em público pode ir até Guarulhos no domingo, dia 6 de maio, onde, depois de fazer um show para milhões de pessoas na Virada Cultural de São Paulo ao meio-dia, todo lépido, enfrentarei angustiado às 19h30 uma seleta plateia que aguarda ansiosa minhas divagações numa feira literária da cidade.)

Na semana passada tive de fazer duas dessas “palestras”. Eu não tinha como escapar, fui convidado a participar de uma semana literária na escola em que meus filhos estudam. João cursa o último ano do ensino médio, e Antônio, o último do ensino fundamental. Portanto foram duas palestras diferentes, em que falei para a turma de um e de outro. Se tem uma coisa que me deixa ainda mais nervoso do que falar em público, é falar para um público de adolescentes! Alguém entende o que se passa na cabeça de um adolescente? Eu lembro vagamente do que se passava na minha e posso garantir, a coisa era confusa. Mas a verdade é que, apesar da noite mal dormida na véspera, da taquicardia, tremor nas pernas e falta de saliva que invariavelmente me acometem em ocasiões assim, as conversas foram ótimas. Não sei se fui poupado por ser mais um guitarrista de rock do que um escritor (e as perguntas sobre rock foram infinitamente mais inspiradas que as sobre literatura), ou se, assim como os tempos, os adolescentes também mudaram.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Síndrome de Zuckerman

Por Tony Bellotto

Lendo aqui o “Fragmento do diário de um abstêmio”, do Joca Terron, e os comentários sobre o texto, me toco de quanto essa confusão entre autor e personagem é presente na literatura não só como uma espécie de truque, ou artifício do escritor, mas como uma força motriz da ficção. O próprio Joca confirma isso ao postar um comentário no melhor estilo “o poeta é um fingidor”, no qual tranquiliza leitores preocupados com sua saúde reafirmando que o texto é um fragmento de um romance em progresso, portanto fictício, para em seguida confirmar que aquilo tudo realmente aconteceu com ele tempos atrás, mas que agora está bem.

Admiro os livros e textos do Joca, além de considerá-lo um simpático “vizinho” de blog, mas não o conheço pessoalmente e não sei o quanto há de verdade na crônica. Mas fico feliz de saber que ele está bem (e melhor, não precisou parar de beber). A questão, entretanto, permanence como das mais interessantes da criação literária (a questão da confusão entre autor e personagem, não a questão do alcoolismo, embora esta também tenha sua relevância no ofício da escrita). Quando lemos Jack Kerouac, William Burroughs, Henry Miller ou Bukowski (o que é isso? uma gangue?) não temos a menor dúvida de que os personagens narradores de suas histórias são os próprios autores. Será que a coisa funciona assim mesmo?

Em Diário de um fescenino, de Rubem Fonseca, Rufus, o personagem narrador, escritor, fala sobre a Síndrome de Zuckerman, aquela que faz leitores acreditarem que um personagem narrador é sempre um alter-ego do escritor, e tudo o que diz se relaciona a seu universo pessoal e a situações por ele vividas. Nathan Zuckerman é um personagem de Philip Roth que enfrenta um inferno pessoal, constantemente acusado pela família, amigos e ex-mulheres por utilizar histórias reais como “material” para sua ficção, o que deixa todos constrangidos e muito indignados (para quem não conhece o personagem, sugiro a leitura de Zuckerman acorrentado). Em Operação Shylock, do mesmo Philip Roth, o personagem narrador chama-se Philip Roth, e ali o autor consegue elevar a Síndrome de Zuckerman a patamares ainda mais patológicos (Patamares Patológicos, fica a sugestão para o nome de uma banda de rock).

Lembro de minha querida sogra, que, sempre que estava lendo meus Bellinis, dizia: “Tony, já passei daquela parte em que você transa com aquela alemãzinha, e agora estou no capítulo que você leva um soco do delegado…”. “Ele, Ângela”, eu corrigia, “o Bellini, não eu”. Ela dava um sorriso, como se concordasse, mas continuava a tratar o Bellini de você quando falava comigo sobre o personagem.

Ergo aqui um brinde à memória da minha sogra, à saúde do Joca, à minha e à de todos os zuckermanianos do planeta. Cheers!

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.