Vanessa Barbara

Minha bronca com as bibliotecas

Por Vanessa Barbara

Como dei a entender na coluna anterior, não tenho um histórico amigável com bibliotecas públicas. Durante toda a infância, adolescência e parte da vida adulta frequentei obstinadamente as bibliotecas do meu bairro (Pedro Nava, Nuto Sant’anna, Narbal Fontes), as centrais (Mário de Andrade, Centro Cultural São Paulo, Centro Cultural Fiesp) e especializadas (bibliotecas da PUC e da USP), enfrentando uma porção de obstáculos.

Ainda que existam honrosas exceções e o cenário esteja lentamente melhorando, muitas bibliotecas são como túmulos, lugares escuros e ermos onde não entra luz desde 1997 e os livros vivem trancados em cofres. Os funcionários parecem prontos para dificultar as coisas, desdobrando-se em regras, fiscalizações e caras feias.

A começar pelo guarda-volumes e a proibição de entrar com bolsas, mochilas, pastas, fichários e laptops. Como a biblioteca não se responsabiliza por objetos extraviados, é preciso levar consigo o caderno, a caneta, a carteira, o celular, o porta-moedas, a manteiga de cacau e as chaves, equilibrando tudo em uma das mãos. Nenhum tipo de alimento ou bebida pode ser consumido lá dentro. De todas as restrições, a do laptop é a mais absurda.

Até pouco tempo atrás, só era permitido levar para casa dois livros por pessoa (hoje são quatro), o que me obrigava a acumular empréstimos em nome de todos os membros da família. Dois livros não eram nada para quem lia cinco por semana e tinha de fazer trabalhos de faculdade e pesquisas com uma porção de fontes. Daí as múltiplas carteirinhas, isso quando a bibliotecária era legal e deixava retirar livros usando a identidade de um familiar ou ente querido — arriscando-se a levar uma punição na corte marcial de biblioteconomia e tornando-se cúmplice do crime de falsidade ideológica.

O prazo de empréstimo é de duas semanas, com a possibilidade de uma única renovação. Há regras especiais para mestrandos, doutorandos e professores, mas é preciso apresentar comprovantes. Uma das diretrizes exclusivas para pesquisadores se refere à possibilidade de empréstimo de dez itens durante 21 dias — mas há uma cláusula que diz que não são liberados mais de cinco livros do mesmo assunto.

Uma das boas implementações recentes do Sistema Municipal de Bibliotecas em São Paulo foi o cadastro unificado, permitindo que o leitor utilize a mesma carteirinha em todas as bibliotecas da rede. (Antes não era assim: sei que, a certa altura, carregava sete ou oito carteirinhas amarelas de bibliotecas diferentes com nomes diferentes, feito uma espiã da bibliofilia internacional.)

O cartão, porém, ainda é preenchido à mão, renovado anualmente e carimbado a cada devolução. A ficha de cadastramento dos livros também é manual. A pesquisa eletrônica no acervo, disponível num computador conectado à internet, às vezes não funciona.

Além disso, os horários são restritivos: a Biblioteca Municipal Pedro Nava abre de segunda a sexta, das 9 às 18h, e aos sábados das 9 às 16h (viva!!). Contudo, “os serviços de inscrição de usuário e empréstimo iniciam-se após quinze minutos decorridos da abertura da biblioteca e encerram-se quinze minutos antes de seu fechamento”.

Em certas bibliotecas, não se recomenda flanar pelas estantes sem objetivo definido — um funcionário pode ficar te seguindo ou perguntando insistentemente: “Mas você está procurando algo em específico? Quer ajuda?”. Alguns tratam o usuário como um potencial ladrão de livros, considerando-o culpado até que prove o contrário.

(Sim, eu sei que não são todos assim e que há ótimos bibliotecários por toda parte.)

Em muitos casos, o problema se encontra na presunção de poder assumida pelos funcionários, que abandonam a ideia de prestação de serviços à população para exercer uma autoridade quase policial referendada pelo regulamento da instituição. Colocam as normas à frente das pessoas e defendem seu território como numa brincadeira de pique-bandeira.

Já tomei broncas homéricas na Biblioteca Sérgio Milliet, do Centro Cultural São Paulo (Vergueiro), uma das poucas da cidade que abre aos domingos e feriados. Uma vez fui consultar na prateleira uma sucessão de livros da mesma área, tirando-os da estante e recolocando-os no lugar, o que é naturalmente uma contravenção das mais graves. O bibliotecário me chamou a atenção em voz alta, dizendo que, uma vez retirados da estante, os livros devem ser depositados sobre as mesas ou num carrinho, ainda que você apenas puxe o título pela lombada para ver a capa. Aparentemente o leitor médio não tem capacidade de devolver o volume no mesmo lugar, gerando uma confusão de proporções épicas na catalogação dos exemplares. Não se determinou com precisão em quantos centímetros era permitido puxar o livro sem configurar uma “retirada” — por via das dúvidas, acabei abreviando a consulta, sobretudo após depositar uma pilha de oito livros na mesa e receber um olhar homicida.

Testemunhei pitos quase militares em gente que falou um pouco mais alto, ainda que o contraventor só estivesse soletrando o título do livro para um funcionário meio surdo. Algumas bibliotecas limitam a quantidade de obras que o usuário pode consultar na mesa, outras só liberam o volume desejado mediante requerimento (é o funcionário que vai pegar no acervo), e há ainda as que deixam bem claro que estão lhe fazendo um grande favor. Já ouvi um bibliotecário lamentando que havia muita demanda por livros naquele dia, que um sujeito apareceu às cinco e meia para abrir ficha (vê se pode) e que ele não via a hora de se aposentar.

Para essas pessoas, o ideal é que não houvesse leitores e as bibliotecas fossem apenas depósitos de volumes impecavelmente enfileirados, incólumes, jamais lidos.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Leitor de livraria

Por Vanessa Barbara

Reading

A megalivraria é a nova biblioteca. Muita gente almoça às pressas e deixa de escovar os dentes só para poder passar mais tempo lendo confortavelmente num pufe de livraria. Comprar o livro, nunca — a graça é ler um trecho por dia, pular o almoço, disputar com outros dois clientes o único volume em estoque e fazer anotações teóricas num caderninho.

O típico leitor de livraria é aquele que traz seu próprio marcador (ou pega emprestado no caixa do estabelecimento) e esconde os livros ainda não concluídos em lugares aleatórios, a fim de garantir seu paradeiro no dia seguinte. Para esse indivíduo, é muito difícil lidar com a realidade de que o seu livro pode ser vendido de repente, antes que ele chegue ao final, e ainda por cima para alguém que não pretende lê-lo. Ou que não vai lhe dar o devido valor. Por isso, o leitor inveterado recorre a associações mnemônicas a fim de recordar onde deixou o tomo dois de Guerra e paz: na estante de viagens, atrás do guia da Coreia (nota mental: parei na página 234). As benevolentes, de Jonathan Littell, pode ser oculto na área de estudos religiosos. Já a edição comentada de Alice no País das Maravilhas ficaria na seção de moda, ao lado de um livro sobre chapéus. Ou na de literatura brasileira, junto a um romance do Paulo Coelho. (Advertência: a associação com o Chapeleiro Maluco e o Coelho Branco é um tanto manjada e pode ser de fácil decodificação para os vendedores mais calejados.)

A livraria é mais agradável do que a biblioteca por conter uma miríade de poltronas, cadeiras e almofadões com níveis variados de comodidade — muitos leitores caem no sono e são acordados no fim do expediente por um funcionário fechando a loja. Há quem diga que encontrou a cura da insônia na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, outros preferem um lugar mais intimista como a Livraria da Vila para pegar no sono lendo contos de fadas. A Saraiva Mega Store do Shopping Center Norte é recomendada para quem deseja comentar passagens de livros com desconhecidos.

As livrarias possuem os últimos lançamentos e todas as obras têm cheiro de novas. Além disso, nas lojas não é preciso deixar a bolsa no guarda-volumes e é muito difícil levar bronca, ao contrário do que acontece nas bibliotecas. Nenhum funcionário segue o leitor perguntando incessantemente o que ele está procurando, nem há proibição expressa de vasculhar livros por conta própria, vagando pelas prateleiras e tirando volumes do lugar. Isso, como todos sabem, é severamente punido nas bibliotecas públicas, onde o que menos se aprecia é a existência de leitores.

A habilidade do leitor de livraria é a de ler sem deixar vestígios, sem machucar as páginas ou provocar dobras desagradáveis. Ele às vezes leva um laptop para fazer anotações enquanto avança e para pesquisar o significado das palavras, caso esteja com preguiça de ir à seção de dicionários. Ri em voz alta e pede silêncio se alguém está conversando nas proximidades. Quando devora um thriller policial e está nas últimas páginas — o detetive prestes a desvendar o culpado —, pode se incomodar com a interrupção de um vendedor pedindo licença para mostrar o título a um cliente interessado. “Só um segundo”, diz, correndo a página com os olhos. “Eu sabia! Desde o começo!” e, levantando-se: “Você precisa ler isto aqui. É muito bom”. Entrega o volume nas mãos do funcionário, agradecendo e dando boa tarde a todos. No dia seguinte, volta para pedir indicações de títulos policiais naquela mesma linha.

Há quem afirme ter lido nessas condições todos os sete volumes de “As crônicas de gelo e fogo”, de George R. R. Martin (o primeiro tomo está na seção de literatura infantil, perto de um conhecido clássico da Companhia das Letrinhas) e Caninos brancos, de Jack London (na estante de livros técnicos, atrás de Onze técnicas avançadas para clareamento dental). No mesmo setor se encontra O deserto dos tártaros, de Dino Buzatti, e a biografia de Tiradentes, ambos na diagonal, bem no fundo da estante.

Os banheiros desses estabelecimentos também costumam ser melhores do que os de bibliotecas, mas infelizmente não é possível levar um livro para acompanhá-lo lá dentro — há detectores na entrada.

Nas megalivrarias também há cafés, de modo que o leitor mais folgado pode apreciar um bolo de morango com suco enquanto se dedica à fruição de algo que não vai comprar. Vez ou outra há distribuição gratuita de champanhe, vinho e amendoim nos vernissages de lançamento, o que pode ser um incentivo a mais para ler a obra da noite, tirando dúvidas in loco com o autor. Ou para pedir emprestada uma das cadeiras do anfitrião (“Eu não vou incomodar, só estou aqui terminando o capítulo”), lançando assim a moda das noites de autógrafo com um autor e um leitor, numa espécie de showroom do produto.

Duas regras de etiqueta para o leitor de livraria: levar a própria garrafa térmica de casa não é recomendado, tampouco fica bem tirar os sapatos para maior conforto.

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ps 1. Leitura recomendada: “Leitor de livraria”, no Blog do Paulo Velho, que serviu de inspiração para este post.

ps 2. A autora gostaria de pedir as mais sinceras desculpas ao Pedro Herz, da Livraria Cultura, pelos eventuais transtornos causados.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Revisionismo etário

Por Vanessa Barbara

Joy of reading

Foi minha mãe quem me ensinou a ler. Não só as palavras, as sílabas e os adjuntos adnominais, que aprendi fazendo a lição de casa do meu irmão folgado (provavelmente em troca de um amendoim que ele pegou do chão), mas a lidar com os livros e a tratá-los com carinho.

Quando eu era pequena, ela abria volumes enormes de capa dura, com ilustrações de ciclopes e sereias, e lia em voz alta os mais antiquados contos de fada. Desses que continham afogamento de bebês, decepamento de membros e pássaros arrancando os olhos de princesas.

Às vezes lia o que tivesse em mãos no momento: me lembro de um volume com capa de papelão sobre arqueologia bíblica que passamos semanas desvendando. E a série de aventuras de dom Camillo, do escritor italiano Giovanni Guareschi, que ela contava com voz macia imitando gestos e entonações, enquanto descobria ela mesma a trama ao virar as páginas.

Decifrava histórias infantis, gibis e romances adultos usando o mesmo ritual: sentada na cabeceira da cama, esticava as pernas, abria o livro no colo, limpava a garganta e começava. Percorria os parágrafos com os dedos. Às vezes se detinha numa passagem, correndo rapidamente os olhos, e, por fim, repetia os gestos do personagem: “Ele limpou o ombro esquerdo disfarçadamente, depois o direito com a escovinha, então coçou a testa e tocou a barriga. Entendeu? Fez o sinal da cruz sem ninguém perceber”.

Mais tarde, contou que às vezes mudava as histórias. Preocupada com alguma passagem forte demais para uma menina altamente impressionável, a revisionista de plantão abrandava diálogos, amolecia vilões e promovia o distanciamento brechtiano das tramas mais assustadoras. “É só um moço fantasiado de monstro”, ela ponderava. Os contos de fada dos irmãos Grimm, por exemplo, ganhavam novos finais. Na história do menino teimoso, em vez de fazê-lo adoecer, morrer e sair com a mãozinha pra fora da cova — o que, convenhamos, é francamente grotesco —, a narradora inventava algo sobre um tatu-bola amigável e um final feliz. Não sei como ela fazia com Olhinho, Doisolhinhos e Trêsolhinhos, trigêmeas briguentas que realmente possuíam a quantidade de globos oculares que apregoavam, mas sei que Cachinhos Dourados devia pedir “por favor” para tomar a sopa dos ursos e o Lobo Mau revelava ter escondido a vovozinha debaixo da cama.

Conforme fui crescendo, o revisionismo protecionista perdeu a força e passei a ler por conta própria histórias sangrentas da Agatha Christie ou do Stephen King, gerando pesadelos óbvios.

Ainda assim, qualquer livro que minha mãe estivesse lendo e julgasse interessante continuava a ser contemplado com leituras de trechos, ou mesmo um resumo do enredo. Passei eu também a destacar cenas que me chamavam a atenção, apontando com o dedo e as repetindo em voz alta. Aprendi a abrir o livro no colo com reverência, virar as páginas e alisá-las como se estivesse preparando o texto para um evento de gala.

Hoje em dia, meu sobrinho de três anos pede que a avó lhe conte histórias de livros infantis, gibis e catálogos de lojas. Vê-se que ela não perdeu o jeito: continua exímia adaptadora de enredos conforme a idade e o grau de atenção da criança, resumindo, reinterpretando e trazendo para perto da realidade as tramas mais aleatórias. A movimentada aventura urbana que inventou a partir de um folheto de supermercado já é lendária entre as crianças locais. Continua imitando as vozes dos personagens e, tal qual um empresário do entretenimento, faz sondagens periódicas da reação da audiência, que pode se ressentir de uma trama sem cachorros de chapéu e ir embora, decepcionada (o que já aconteceu).

O público anda cada vez mais exigente.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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As melhores mortes literárias

Por Vanessa Barbara


Ilustração: Fido Nesti/Revista Bravo

Mês passado, em consonância com a onda recente de morbidez livresca, a Revista Bravo publicou uma lista com minhas mortes literárias preferidas, segundo critérios como: sanguinolência, surpresa, brutalidade e dó. Como bem apurou a repórter, a opinião é de especialista: minha ficha corrida de escritora conta com os homicídios de um besouro, uma lagartixa, um sapo (com requintes de crueldade) e uma esposa dedicada.

Segue a lista final, com alguns falecimentos de bônus para o leitor deste blog. Quem ainda não leu os livros citados deve pular para o próximo a fim de prevenir spoilers.

1. O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald: A morte de Jay Gatsby com um tiro — seu cadáver boiando na piscina, descrevendo círculos de sangue na água — é de partir o coração. Sobretudo na descrição dos momentos que antecedem sua morte, quando o personagem, ainda à espera de um telefonema de Daisy, carrega o colchão inflável nos ombros em direção à piscina e vislumbra uma sombra entre os arbustos. O curioso é que a morte da Myrtle não me causa tanta pena, ainda que seja grotesca e detalhadamente descrita.

2. Hamlet, de William Shakespeare: O suicídio da Ofélia. Morro de raiva do príncipe da Dinamarca por ele ter feito o que fez com a pobre moça, que não tinha nada a ver com isso. O sujeito se aproveita dela, faz juras de amor, então a rejeita publicamente e mata seu pai. Ofélia acaba ficando louca, cantando aquelas musiquinhas sem sentido e se atirando no lago porque o loiro real se achava importante demais pra contar a verdade, preferindo ele mesmo se fazer de louco raivoso para tirá-la do caminho. Eu realmente fico mal quando isso acontece, mais ainda do que no morticínio final — “Get thee to a nunnery!”. Até hoje assisto à peça esperando que, na última hora, a Ofélia se recupere e mande o loiro plantar batatas.

3. Hamlet, de William Shakespeare: Da mesma peça, a morte de Rosencrantz e Guildenstern. Eles são executados ao desembarcar na Inglaterra e alguém anuncia o fato en passant no decorrer da peça, o que é muito engraçado. Serve também a mesma morte em Rosencrantz e Guildensteirn estão mortos, de Tom Stoppard, uma tentativa (fracassada) de lhes conferir um pouco de importância. Mas nem botando os dois como protagonistas é possível disfarçar suas condições de eterno alívio cômico.

4. A metamorfose, de Franz Kafka: A morte de Gregor Samsa é a coisa mais triste do mundo. O homem-que-virou-inseto está com uma casca de maçã podre e infeccionada nas costas, dentro de um quarto fechado e escuro, e de repente decide que é preciso morrer, então simplesmente morre. Quem encontra seu cadáver é a empregada, no dia seguinte de manhã. Acho que, de todas as mortes que eu listei, é a mais triste. “Ele ainda vivenciou o início do clarear do dia lá do lado de fora da janela. Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco e último fôlego.” (Tradução de Modesto Carone)

5. Moby Dick, de Herman Melville: Depois de passar centenas de páginas perseguindo a baleia que lhe comera uma perna, o capitão Ahab consegue enfim localizar e atingir Moby Dick com um arpão. Por azar, a linha enrola em seu pescoço e ele é arrastado ao mar pelo gigantesco mamífero. O barco vai junto e todos morrem, menos o narrador e a baleia. O que é sempre um consolo.

6. Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski: Numa das mortes mais lendárias da literatura moderna, a dona da loja de penhores é assassinada com um machado pelo estudante Raskolnikov. “Então ele bateu duas vezes com toda a força, sempre com as costas do machado e nas têmporas. O sangue jorrou, como de um copo derrubado, e o corpo caiu de costas. Ele recuou, deixou-a cair e no mesmo instante abaixou-se para lhe olhar o rosto; estava morta. Tinha os olhos esbugalhados, como se quisessem saltar, e a testa e o rosto franzidos e deformados pela convulsão.” (Tradução de Paulo Bezerra.) Em seguida, ele mata a irmã da vítima com uma machadada certeira, desta vez com o lado certo da lâmina, abrindo de uma só vez toda a parte superior da testa.

7. Madame Bovary, de Gustave Flaubert: Sempre fui partidária do Charles Bovary. Tudo bem que ele é meio entediante e goiaba, mas é simples e bondoso, ao passo que Emma é fútil e deslumbrada. A morte dela é até que compreensível, mas a dele é de quebrar as pernas, nos momentos finais do livro. Depois que a esposa se mata, ele descobre sua extensa lista de adultérios, entra em depressão, cai em ruína financeira (por culpa dela) e encontra por acaso o velho amante da mulher. “Eu não lhe quero mal”, diz. “Não, já não lhe quero mal.”

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Os sobreviventes

Por Vanessa Barbara


(Michael Maslin/New Yorker)

Todo mundo tem suas fases literárias. Nos últimos tempos, passei por uma época só de histórias policiais, outra de romances longos demais, uma de livros psiquiatricamente relacionados, outra de não ficção e uma dedicada ao Ian McEwan. Até que fui cair, sabe-se lá como, na fase do luto. Mais especificamente: relatos de viúvos.

O prelúdio foi Luto e melancolia, de Sigmund Freud, e Sobre a morte e o morrer, de Elisabeth Kübler-Ross, que já citei por aqui. Depois vieram os livros autobiográficos, especialmente prolíficos na última década, com a descrição de longos casamentos que se romperam após a morte de um dos cônjuges. É a chamada “literatura do luto”.

São textos doloridos, pesados, carregados de memória e perda. Há uma beleza crua na tentativa de retratar o que significou aquele relacionamento, indo e voltando no tempo, repensando as memórias de acordo com o vazio do presente. São livros geralmente redigidos em poucos meses, no ano posterior à morte do cônjuge, verdadeiras tentativas de exercer o que Kübler-Ross descreve como uma etapa essencial ao processo de luto: contar sua história vezes sem conta, em detalhes. “É preciso desabafar. O luto deve ser testemunhado a fim de ser curado.”

O primeiro ano sozinho contém muitos pontos críticos — a escritora Joan Didion pensava com frequência no que o casal estava fazendo naquele dia no ano anterior, até que a morte completou 366 dias e ela só conseguia pensar que àquela hora, no ano anterior, o marido já estava morto. É preciso aprender, por exemplo, a voltar para uma casa silenciosa e a dormir sozinho numa cama grande. Aprender a evitar o que Joyce Carol Oates chama de “ralos emocionais” — lugares carregados de memória.

Os livros listados a seguir são tentativas públicas de compreender a perda, desafiando uma sociedade na qual se espera que os viúvos sofram em silêncio, na qual ser “forte” é a norma. É como se os autores procurassem ceder ao luto a fim de poder lidar com ele. Muitos são, a um só tempo, tristes e belos, pesados e esperançosos. (Vamos esperar que a minha próxima fase seja mais animada, talvez alguma coisa com viajantes no tempo e animais falantes.)

O ano do pensamento mágico, de Joan Didion (Nova Fronteira, 2006): Neste clássico da literatura do luto, a jornalista americana aborda o período que sucedeu à morte súbita de seu marido, o roteirista de cinema John Gregory Dunne. Ele sofreu uma parada cardíaca no apartamento do casal, enquanto esperava o jantar. Da noite para o dia, Didion se vê obrigada a lidar com a perda de seu companheiro nos últimos 40 anos enquanto se dedica a cuidar da filha única, Quintana, gravemente hospitalizada por conta de uma pneumonia.

A autora fala de suas reações irracionais ao lidar com a morte, uma espécie de desarranjo mental provocado pela dor do luto: recusou-se a doar os sapatos do marido porque pensou que, quando John “voltasse”, iria precisar deles. Usou a mesma lógica ao recusar-se a doar seus órgãos, que lhe seriam igualmente necessários. Chegou a imaginar se a morte também teria ocorrido em Los Angeles, onde o fuso horário era diferente e ainda não havia chegado a hora. Embora externamente se comportasse bem e parecesse forte, que é afinal o que se espera de uma viúva — que não demonstre sua dor —, Didion era dominada pelo pensamento de que a morte do marido era reversível. Cedendo a essas emoções, ela se lança a um relato pormenorizado dos dias que precederam e sucederam o fato, tentando expurgá-los e compreendê-los. “John estava falando, aí então não estava mais”, conta.

Ela também incorpora pesquisas médicas sobre a doença do marido e lê tudo o que pode sobre luto. “Em tempos difíceis, aprendi a ler, estudar e destrinchar as coisas. Informação é controle. Considerando-se que o luto é uma das emoções humanas mais universais, sua literatura me pareceu notavelmente esparsa.”

Algumas edições deste livro terminam com excertos de Noites azuis (Nova Fronteira, 2011), em que Didion fala da morte da filha, ocorrida um ano e meio depois.

Carta a D.: História de um amor, de André Gorz (CosacNaify, 2008, escrito em 2006): Curto relato autobiográfico do filósofo francês André Gorz sobre seu relacionamento de quase 60 anos com Dorine Keir, vítima de um erro médico que lhe provocou uma doença crônica e dolorosa. Um dos mais tristes da lista, não só por seu desfecho, mas pelo teor arrependido de Gorz, que afirma ter sido injusto com Dorine.

“Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”

Sobre Alice, de Calvin Trillin (Globo, 2007): Leve e curto, este livro de 93 páginas é uma homenagem do escritor da revista New Yorker à esposa Alice, com quem foi casado durante 36 anos e que morreu após complicações de um longo tratamento de câncer de pulmão. A esposa era tema constante de suas crônicas, e é assim que ele conduz este livro: como uma grande crônica de sua vida em comum.

Conta como ambos se conheceram numa festa de uma revista decadente, que existia “apenas para que todo mundo se casasse, projeto que exigiu festas cada vez maiores”. Lembra que Alice era sua principal e melhor leitora, a pessoa que ele queria impressionar. “Escrevi este livro para Alice. Na verdade, escrevi tudo para Alice.” “Educadora, escritora e musa” (conforme o obituário do New York Times), mãe de duas meninas, com grande sede de viver e cuidar das pessoas, era ela quem lhe explicava palavras como “heurística” e o enredo de filmes estrangeiros que acabaram de ver. Possuía uma teoria louca sobre impostos e a Lei de Fluxo de Caixa Compensatório, segundo a qual todo valor não gasto com luxos pelos quais você não pode pagar equivale a um lucro inesperado.

Nas palavras da amiga Nora Ephron, Alice passava o tempo todo cuidando dos outros — essas pessoas sob sua proteção eram “qualquer um que ela amasse, ou de quem gostasse, ou conhecesse, ou conhecesse alguém que conhecesse, ou que nunca tivesse visto antes na vida, mas tivesse ficado conhecendo depois que a pessoa achou o telefone na lista e ligou”.

O livro não é pesado e fala sobre a vida de Alice, não sobre sua morte. É um dos mais alegres desta lista.

A widow’s story, de Joyce Carol Oates (Ecco, 2011): Após um casamento de “47 anos e 25 dias”, a escritora Joyce Carol Oates perdeu o marido, o editor Raymond Smith, devido a complicações cardíacas decorrentes de uma pneumonia. Absolutamente devastada, ela decide escrever este livro de 432 páginas e 86 capítulos sobre a internação, os dias que antecederam a perda e o que veio depois.

Ela fala do instante em que instintivamente se descobre, a partir das evidências mais irrelevantes, que algo está errado. Repisa infinitas vezes esse momento, o primeiro de uma série de eventos que culminarão na maior tragédia de sua vida. Descreve seu processo de luto — demorado e aparentemente interminável — como um chão repleto de serragem áspera por onde você precisa andar. “Pense em espelhos manchados em banheiros públicos. Pense em porta-toalhas quebrados quando não há nada em que enxugar as mãos exceto toalhas usadas e encharcadas.”

Em sua solidão, ela compara os viúvos a paraplégicos observando os outros dançarem, não com inveja, mas com uma espécie de descrença. Por vezes, é autodepreciativa e diz coisas como: “Agorafobia! Fiquei pensando: isso é algo que eu também devia tentar.” Ou: “Se alguém te pergunta: Como vai?, não se deve responder: Cada vez mais suicida. E você?”

J.C.O., a escritora de mais de 57 romances e novelas, deu lugar a Joyce Smith, a viúva. Até que, um dia, enquanto limpava os armários, encontrou um par de brincos que perdera. “Perdi o significado de viver e o amor de minha vida, mas ainda posso encontrar pequenos tesouros no lixo”. Há dois anos ela secasou novamente, desta vez com um neurocientista sem nada em comum com o meio literário.

A grief observed, de C. S. Lewis (1960): É a resposta literária de C. S. Lewis à morte da esposa, Joy Davidman, que sofria de um câncer até então em remissão. Para o escritor britânico, o luto é como estar levemente bêbado. “Há uma espécie de lençol invisível entre o mundo e eu”, descreve. Ele mantém um diário nos meses seguintes à morte da mulher e descreve singelamente sua indignação religiosa e raiva de Deus, admitindo o quanto a perda abalou sua fé: justamente quando ele precisava de ajuda, sentiu a porta bater em sua cara, e um som de tranca e dupla tranca lá dentro. Porém, “aos poucos passei a sentir que a porta não estava mais fechada e aferrolhada. Será que foi minha necessidade frenética que a fechou na minha cara? Quando nada há em sua alma exceto um grito de socorro, talvez seja o exato momento em que Deus não o pode atender: você é como o homem que se afoga e que não pode ser ajudado por tanto se debater.”

Para o escritor, parte da tristeza é a própria sombra da tristeza, pois o enlutado não só sofre como não consegue parar de pensar no fato de que está sofrendo. “Não só vivo cada interminável dia em aflição, mas vivo cada dia pensando em viver cada dia em aflição. Será que estas anotações apenas agravam o processo?”, pergunta. Mas logo conclui: “Ao escrever, procuro me distanciar do ocorrido.”

Similar ao suspense ou à espera, o luto dá à vida uma sensação permanentemente provisória. É impossível ficar tranquilo. Até então, o viúvo tem pouco tempo; a partir dali, não há nada senão tempo. Um tempo quase que puro, uma sucessão vazia de eventos.

Por fim, o autor parece aceitar a perda e chega a redefinir sua fé e amor de forma positiva, argumentando que o luto extremado o mantinha distante da esposa. “Apenas nos momentos em que me sinto menos aflito é que ela surge em minha mente em sua realidade total”, conclui.

The Best Day the Worst Day: Life with Jane Kenyon, de Donald Hall (Mariner, 2006): Neste livro, o poeta Donald Hall alterna memórias de seu casamento de 23 anos a relatos da leucemia da esposa, a também poeta Jane Kenyon. Pouco fala de seu luto, concentrando-se apenas nas lembranças.

Ambos passaram décadas vivendo e trabalhando juntos, isolados numa fazenda no interior com seus gatos e cachorros. Jogavam pingue-pongue diariamente, liam em voz alta um para o outro e ouviam música. De vez em quando, viajavam e organizavam leituras conjuntas em universidades. Jane sofria de depressão crônica e transtorno bipolar — escreveu um poema sobre o assunto, “Having it out with melancholy” — e Donald lidava diligentemente com suas recaídas periódicas. Poucos anos antes da doença da esposa, ele mesmo teve um câncer de cólon e quase morreu.

Jane era dezenove anos mais jovem que o marido. Quando acabara de completar 47 anos, foi diagnosticada com uma leucemia de um tipo raro e geneticamente recorrente. No intervalo de quinze meses, passou por dolorosas sessões intensivas de quimioterapia, sofreu um transplante de medula óssea e estava se recuperando aos poucos quando a leucemia reincidiu. Não havia mais nada a fazer.

Nesse período, a mãe de Donald e a mãe de Jane faleceram (a primeira de insuficiência cardíaca, a segunda de um fulminante câncer de pulmão, poucos meses antes da filha). Após os exames confirmarem o retorno da leucemia, Jane parou de tomar remédios e morreu num intervalo de onze dias — usou esse período para planejar o próprio funeral, escrever seu obituário e revisar um derradeiro livro de poemas. Passou as últimas noites conversando com Donald sobre as coisas mais importantes da vida: as tardes de verão no lago, as partidas de pingue-pongue, as leituras de Henry James em voz alta, as excursões de carro a Connecticut enquanto ouviam audiobooks de T. S. Eliot e Geoffrey Hill, e as duas décadas escrevendo poesia juntos.

– Say her name, de Francisco Goldman (Grove Press, 2011): O livro mais bonito da lista é também o mais recente: fala sobre Aura Estrada, jovem escritora mexicana que se casou com o jornalista Francisco Goldman e faleceu poucos anos depois, após ser atingida por uma onda na praia. O livro de memórias de Goldman conta histórias divertidas, destrincha o passado da esposa, interroga seus parentes e dá uma perfeita noção da personagem, de modo que, ao final do livro, conhecemos Aura em profundidade. Como um bom jornalista, Goldman estuda sobre ondas e vento e tenta entender como o acidente pôde ocorrer.

O livro começa com um poema de Frank O’Hara: “I wouldn’t want to be faster/ or greener than now if you were with me O you/ Were the best of all my days”. Diz que a solidão do enlutado é impenetrável pois a sociedade parece incapaz de acomodar tamanha dor. Conta que não consegue mais viajar. “O mundo, não só Paris, é idiota e odioso demais para se percorrer sozinho.”

Há trechos curiosos e bastante representativos daquilo que Joan Didion descreve como o desarranjo mental do viúvo. “No assento à minha frente sentou um garoto vestido de Homem-Aranha, viajando com os pais. Eu devia me vestir assim, pensei. Talvez amanhã eu me vista assim. Por um instante, me pareceu tão plausível e até razoável que amanhã eu pudesse me vestir de Homem-Aranha que fiquei com um pouco de medo.”

Além disso, Goldman vai elucidando pequenos mistérios ao longo da narrativa, como, por exemplo, o motivo da separação dos pais de Aura. É um livro que desliza facilmente, feito um romance de ficção.

“O choque abriu uma ferida em mim e uma espécie de buraco em minha cabeça, as memórias começaram a jorrar como se fossem sangue. Ao mesmo tempo, sentia a necessidade de investigar tudo o que havia ao redor dela, para capturá-la e, ao mesmo tempo, deixá-la partir.”

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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