Vanessa Barbara

Mais sobre tesouros perdidos

Por Vanessa Barbara

Detalhe do mural no sebo Unnameable Books, em Nova York

Em Conversa fiada (1989), curta de Jean-Pierre Jeunet, o narrador afirma que adora abrir um livro meses depois das férias e encontrar areia entre as páginas. Ele faz uma demonstração da abertura de um desses volumes, com o ruído de areia grudada no miolo.

Grãos de areia, manchas de molho de tomate, páginas que tomaram chuva e marcadores pitorescos são apenas alguns tesouros de férias passadas que podemos encontrar nos livros, reconhecendo imediatamente onde os lemos, quando e em que momento da vida.

Livros são involuntárias cápsulas do tempo que conservam mensagens ao longo da história, endereçadas a quem primeiro decidir abri-los. A interessante revista Found, de Chicago, contém uma seção só para escritos achados em livros.

Semana passada saiu no jornal O Globo uma bela matéria sobre dedicatórias e coisas encontradas no interior de livros usados. No sebo Baratos da Ribeiro, no Rio, o dono guarda numa caixa os objetos descobertos nas páginas: “Cheques, receitas médicas, ingressos de cinema, flores, contas, fotos. Daria uma exposição”, diz. Ele defende que o livro usado traz uma história por vezes mais interessante do que aquela que ele conta.

Segundo um artigo no site AbeBooks.com, há um sebo no Brooklyn, em Nova York, o Unnameable Books, que mantém um painel com esses tesouros perdidos. A variedade é tamanha que a exposição já tomou a parede inteira do fundo da livraria e se espalhou pelas demais.

Espécie de Estante Virtual americana, o AbeBooks fez uma enquete entre seus livreiros perguntando quais foram os objetos mais curiosos encontrados no interior dos produtos. As respostas vão além de cédulas estrangeiras, recortes de jornal e listas de supermercado, e seguem na relação abaixo, junto com informações que encontramos em outras fontes:

– Dentro de um livro de receitas para micro-ondas, uma mulher encontrou quarenta cédulas de mil dólares. Ela comprou o livro por acaso, enquanto esperava uma carona. As notas de mil foram impressas pela última vez em 1934 e são, portanto, mais valiosas do que sua quantia nominal;

– Um cotonete usado;

– Um dente de leite;

– Quarenta trevos de quatro folhas;

– No interior de uma brochura de mistério de 1945, um guardanapo de hotel na Espanha com um nome e um número de quarto;

– Um antigo cartão telefônico da Indonésia;

– Num sebo de Ohio, um homem levou para vender uma caixa de livros que pertenciam a sua recém-falecida esposa, repletos de fotografias da família, cartas e cartões-postais. Num deles havia um pequeno anel de diamantes;

– Dois cartões de visita colados um ao outro. Quando abertos, revelaram uma panorâmica dobrável de 90 centímetros com o melhor da pornografia dos anos 70;

– Uma gota de chocolate enfiada entre a tela de encadernação e a lombada. “Fiquei imaginando como alguém conseguiu enfiar uma gota de chocolate na lombada de um livro e quanto tempo esteve por lá. A data de edição era de 1889”, afirmou o livreiro;

– Um livro de ração da Segunda Guerra Mundial (com selos sobrando);

– Uma documentação de dispensa do Exército durante a Segunda Guerra;

– Uma tesoura;

– Uma faca;

– Um revólver;

– Um cartão de visita de um investigador paranormal;

– Um postal do Havaí de 1963, preenchido mas nunca enviado, no qual um sujeito escrevia para sua esposa em Los Angeles. O leitor que o encontrou botou um selo e enviou o cartão quarenta anos depois;

– Uma carta ao Papai Noel datada de 1929, dentro de uma biografia de Napoleão Bonaparte;

– Uma carta para a Fada do Dente, implorando que ela aceitasse a oferenda de meio dente;

– Gordas porções de caspa;

– Um bilhete maldoso contando o final do livro;

– Uma certidão de casamento de 1879;

– Uma camisinha fechada;

– Uma barata morta;

– Uma tira de bacon.

* * *

“Sério? Você estava fritando bacon enquanto lia e pensou: ‘Ei, talvez o próximo a ler este livro esteja com fome, então vou deixar uma tira de bacon cru para ele’?”, escreveu uma bibliotecária americana que realmente costuma encontrar comida nos livros devolvidos à instituição. Bacon, alface e picles são os campeões de frequência. Num curto artigo, ela dá uma explicação para isso:

“Alguns estão familiarizados com o conceito de usar marcadores de página para determinar em que trecho pararam, mas existe um grupo distinto de pessoas que utiliza o que estiver mais perto para marcar a página, não importa o que seja.”

Nessa lista desastrada estão cheques em branco, cartões de crédito, passaportes válidos, carteiras de motorista e passagens de trem ainda não utilizadas.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Das coisas encontradas dentro de livros

Por Vanessa Barbara

Numa sombria tarde de verão, perdi meu Bilhete Único — esse mítico cartão magnético que nos permite girar catracas de metrô sem dificuldade e tomar quantos ônibus nos parecerem adequados, no máximo de quatro, num período de até três horas. Procurei vagamente entre bolsas, mochilas e pertences de mesa, mas o vazio existencial que me surpreendeu naquela tarde não deixava dúvidas: meu Bilhete Único havia partido. Assim como Graham Chapman e o papagaio do Monty Python, era um ex-bilhete. Cessara de existir. Bateu as botas. Foi puxar margaridas pela raiz.

Tenho um modesto, porém representativo, histórico de objetos perdidos, cuja mais recente listagem vai a seguir:

– uma toalhinha azul de rosto, num acampamento em 1993;
– uma minipasta de dente sabor hortelã, durante uma viagem rodoviária em 2001;
– uma lente de contato do olho esquerdo, na pia do banheiro, em 2009;
– um par de óculos escuros na Praia do Forte, em 2010;
– a chave de casa, que encontrei semanas depois dentro da cestinha da bicicleta.

(Como se pode ver, nada tão significativo quanto um Bilhete Único.)

Pois bem: confusa e de coração partido, dirigi-me a um posto da SPTrans, onde fui consolada por estranhos que me orientaram a pagar uma taxa de 20 reais para reaver os créditos contidos no meu antigo amigo de plástico. Assim o fiz, e dentro de uma semana ganhei novo bilhete. Dois meses depois, encontrei o fatídico cartão enfiado dentro de Freud, a biografia de Peter Gay publicada pela Companhia das Letras.

Não discutirei aqui as interpretações subconscientes da minha perda. Basta supor que o referido livro se encontrava em minha mochila quando o cartão deslizou por entre as páginas. Devolvido à estante, o volume passou dois meses ocultando semelhante tesouro, e ficaria mais tempo se não fosse casualmente consultado a respeito de qualquer assunto. Ou desempoeirado.

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Dias atrás, o leitor Roberto Bencz Jr. escreveu para informar que encontrou seu crachá da empresa perdido há semanas dentro de O albatroz azul, do João Ubaldo Ribeiro. “Livros são predadores de cartões, crachás etc. Não dá para deixar os dois no mesmo compartimento. Outro dia foi um ímã de geladeira do disk-água alemão cinco estrelas.”

No interior das minhas enciclopédias, descubro folhas secas que alguém guardou na década de 80. Dentro do Dicionário ilustrado da Língua Portuguesa, da Abril Cultural, achei duas violetas, três heras e outras plantas vetustas — estavam junto ao verbete “inhenho”. Nos outros livros, encontro recibos, listas, lembretes, endereços, horários de consultas médicas, notas fiscais, cartas e páginas soltas de outros títulos. Também resgato cédulas de cruzados novos, canhotos de cheques e comprovantes de pagamento de aulas de francês tomadas em 2004, há tanto esquecidas.

Numa descompromissada expedição ao miolo de livros antigos, encontrei o seguinte:

– Um cartão-postal (foto acima) endereçado à minha tia-avó América de Assunção Pinto, de 12 de julho de 1959. “À estimada companheira de lutas sindicais, envio [este postal] como recordação de meu curso no colégio St. John’s, esperando que a continuidade de seus trabalhos arregimente o maior número de companheiras telefonistas em torno de nosso sindicato, para melhoria e defesa das leis de proteção da mulher que trabalha.” Meu queixo caiu. Todo respeito à tia América e seu desconhecido passado militante.

– Num volume de poesias do Ferreira Gullar, o folheto promocional de um espetáculo de mímica ocorrido em 10 de abril de 1988.

– Dentro de um romance do Hemingway, uma lista de personagens de um policial da Donna Leon: Guido Brunneti, Rizzardi (médico-legista), Patta (vice-questore), Vianello, Ruffolo (Peppino) e Concetta.

– Na página 110 de As aventuras de Huckleberry Finn, um cartão do filme de basquete Blue Chips, com o Nick Nolte, que eu nunca assisti.

– Em 20 mil léguas submarinas, um recibo de Big Mac, Coca-Cola média e molho caipira consumidos no dia 7 de janeiro de 2002, na rodoviária de Resende.

– Num livro do Flaubert, uma passagem rodoviária da EMTU para Guarulhos, de 28 de dezembro de 2005 às 9h35.

– Dentro de um volume da Barsa, o canhoto: “Seção Acabamento. Chapa 300. Em caso de reclamação, pedimos devolver êste bilhete. Companhia Melhoramentos de São Paulo”.

– Retângulo de papel em branco dentro de um livro do Platão.

– Cartão-postal com a ilustração de um santo barbudo com uma espada na mão, passando por cima de uma multidão de feridos. Em Diálogos, de Platão.

– Dentro de um livro de obras-primas de contos de terror, recibo de compra do volume As forças do bem na Livraria Freitas Bastos, a 18 cruzeiros, em 11 de novembro de 1974. A obra foi ditada pelo espírito do irmão Thomé, o Apóstolo do Senhor, para o senhor Diamantino Coelho Fernandes.

– Um comprovante de envio de fax do dia 19 de julho de 2007 dentro do tomo 8 da coleção O mundo pitoresco.

– Uma antiga carta datilografada da Biblioteca de Seleções, endereçada aos padres franciscanos da Igreja Nossa Senhora da Conceição, dizendo que, “por motivos alheios à nossa vontade, não nos foi possível enviar o cupom numerado do concurso Seleções da Sorte no Natal. […] Guarde cuidadosamente esta carta, pois a posse da mesma tem, para nós, o mesmo valôr que o cupom”.

– Na p. 66 de A máquina do tempo, de H.G. Wells, um recibo de lanche consumido em 17 de abril de 2064.

(Brincadeira.)

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Vanessa Barbara e Fido Nesti autografam a graphic novel A máquina de Goldberg em São Paulo:
Sábado, 10 de novembro, das 16h às 19h30
Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura
Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Páginas viradas

Por Vanessa Barbara

Desde que saí de casa, ano passado, tive de lidar com uma redução considerável no espaço útil para a biblioteca (ver “A questão das estantes”). Confrontada com um dilema espacial e com a questão da rinite alérgica, decidi tomar uma decisão drástica e levar comigo apenas os livros que se enquadrassem em uma de três categorias:

  1. Livros que ainda não li e pretendo ler. Atenção: exige-se honestidade.
  2. Livros que ajudei a fazer, seja traduzindo, preparando, fornecendo pitacos de natureza diversa ou escrevendo aparatos editoriais.
  3. Livros impossíveis de se desfazer.

A maioria dos títulos nas categorias 2 e 3 foi friamente encaixotada e alocada na lavanderia. São seis caixas transparentes divididas por ordem alfabética de sobrenome do autor — de Abramo a Eliachar, de Fitzgerald a Hustvedt, de Joyce a Orwell, de Passos a Quino, de Ramos a Yeats.

Na estante com portas de vidro da foto acima ficaram apenas os livros que pretendo ler (ou reler) num futuro próximo. Estes permanecem à mão e à vista durante todo o dia, o que também me ajuda a manter boas perspectivas de vida e facilita o buliçoso processo de escolher o próximo livro para ler.

Quando acontece uma coisa muito ruim ou inesperada em nossas vidas — por exemplo, ser demitido de um emprego de vinte anos por comparecer repetidamente ao trabalho com cheiro de verdura cozida, ou morte de tartaruga, ou perder todo o dinheiro para um chefe da máfia —, enfim, quando somos desestruturados por algum incidente, todos deviam selecionar os livros (e pessoas) que gostariam de manter à vista. Só merecem tal honraria aqueles que trouxerem alguma boa expectativa, como os romances clássicos que a gente nunca conseguiu ler ou os lançamentos de não ficção com histórias curiosíssimas sobre caçadores de lulas. Livros que não nos façam recordar o passado e carreguem, em si, a possibilidade de gerar lembranças novas em folha.

Uma das coisas que aprendi de um ano pra cá (além de dançar o charleston) é que, com o tempo, podemos percorrer as mesmas ruas e frequentar os mesmos parques sem que isso necessariamente nos traga memórias difíceis. A cada passagem por uma esquina, vamos agregando novas sensações e preenchendo a calçada com outras experiências.

Assim também podemos, de início, ocupar os dias com livros estranhos, romances por vezes desinteressantes ou lamentáveis até que não seja mais preciso fazer esforço para prestar atenção. Um dia você apanha da sua estante de vidro um livro incrível de reportagens ou um volume de contos com as obras completas do Bruno Schulz e se vê absorto numa vida diferente, melhor ou pior, mas envolvente.

Daí para, quem sabe, conseguir ler O grande Gatsby e enxergar outras coisas no capítulo final, ou mesmo visitar Long Island sem sentir nada além de vontade de dançar o charleston com um chapéu engraçado, daí pra frente é um pulo.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Matando personagens

Por Vanessa Barbara


Instantâneo de “Murder by the book” (1971), episódio da série Columbo.

É um pouco como o “Assassino Terrivelmente Lento Com Arma Extremamente Ineficaz”, curta-metragem de Richard Gale sobre um sujeito que tenta cometer homicídio usando uma colher. “Isso vai soar ridículo, mas ele tem uma colher e dói pra burro”, conta a vítima ao telefone, enquanto o psicopata lhe aplica petelecos com o referido talher.

Mais ridículo ainda é o esquivo assassino da caneta, aquele escritor que, por tédio ou pura maldade, resolve um dia sair da cama e matar um de seus personagens. Assim de repente, entre o almoço e o cochilo da tarde, muitas vezes sem sentir remorso. Pior ainda é quando se trata de um herói, alguém que sinceramente não merecia terminar seus dias atropelado por uma horda de gnus ou atingido por um presunto em queda livre.

“Seja sádico”, recomenda Kurt Vonnegut em suas oito regras para escrever contos. “Não importa o quão doces e inocentes sejam seus protagonistas, faça acontecerem coisas horríveis com eles para que o leitor perceba do que são feitos.”

O psicopata da caneta segue à risca essa norma. Tal qual um Todo-Poderoso, não se importa em causar sofrimento às próprias criaturas, e, quando bem entende, pode eliminá-las no espaço entre um capítulo e outro, muitas vezes sem maiores explicações.

Kafka transformou um de seus personagens em artrópode e sujeitou outro a um pesadelo burocrático fatal; Flaubert induziu uma senhora ao adultério e a matou logo depois; Shakespeare causava tanto sofrimento que levava os outros ao suicídio; Bernard Cornwell começou guerras sangrentas; Stephenie Meyer tem personagens muito ruins e não mata nenhum deles, o que talvez seja pior.

Agatha Christie passava o fim de semana empenhada em arrumar formas engenhosas para eliminar inocentes, pesquisando sobre venenos que não deixam rastros e formas de se obter uma morte lenta e dolorosa; já Stephen King esperava que seus óbitos fossem apenas grotescos, traumáticos. J. K. Rowling diz ter chorado após matar um personagem central de Harry Potter e, quando seu marido perguntou por que então o fazia, ela explicou: “Não é assim que funciona. Quem escreve livros infantis deve ser um assassino implacável”.

Tenho lá minhas reservas e acredito que o escritor deva firmar um contrato de responsabilidade existencial com seus livros, tomando para si a culpa de traumatizar leitores e fazer marmanjos chorarem quando Gandalf é engolido pelo Balrog e só torna a aparecer lá pelo fim do livro, transformado num guru cinzento pouco convincente. Muitos autores deviam ser levados a julgamento a fim de justificar, perante os leitores, se a morte do personagem era realmente necessária e se não havia um jeito melhor de levá-la a cabo — tropeçar e cair nunca é uma opção honrada, assim como não se morre de morte natural nos melhores romances.

Eu mesma tenho um homicídio no currículo: a morte de um de meus personagens mais queridos, o besouro Bob, de O verão do Chibo, por problemas abdominais a esclarecer, isso sem falar numa lagartixa anônima covardemente esmagada, que despencou da árvore com seus olhinhos pidões. Em A Máquina de Goldberg, graphic novel que escrevi em parceria com o Fido Nesti (sairá em breve pela Quadrinhos na Companhia), passei noites em claro me torturando por não ter tido coragem de matar uma tartaruga.

O autor, enfim, tem total responsabilidade pelos seus atos, cenas e diálogos, de modo que, em literatura, estamos cercados de homicídios dolosos. Não consigo imaginar um escritor assassinando acidentalmente um personagem. Há sempre premeditação, frieza, uns quatro ou cinco capítulos preparatórios em que as engrenagens são postas em ação e a pobre vítima segue distraída para o matadouro. Há também preliminares emocionais, como nesses romances em que a gente sabe que alguém vai morrer só porque ganhou destaque de repente, em cenas lacrimosas com seus entes queridos e demoradas passagens ilustrativas de sua história, sua relevância e intenções neste mundo.

Um personagem morto pode continuar a viver na existência dos demais, ou, pior, pode ser ressuscitado por um autor sem escrúpulos, pela pressão financeira de um editor mesquinho ou por puxar os pés de seu criador todas as noites. Sherlock Holmes é um desses casos, e é por essas e outras que não se recomenda decapitar ninguém na literatura. Nunca se sabe quando será preciso suturar o pescoço à cabeça.

E por falar em decapitação indiscriminada e extermínio satisfeito de quase a totalidade de seu próprio elenco, algum dia vão levar a julgamento George R. R. Martin, de As crônicas de gelo e fogo. Esse vai pegar, no mínimo, prisão perpétua. Ou uma pena de morte diligentemente aplicada pelo Assassino Terrivelmente Lento Com a Arma Incrivelmente Ineficaz.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Biblioteca de lunáticos – parte 2

Por Vanessa Barbara

No longínquo mês de abril do ano corrente, enumerei no blog algumas de minhas leituras psiquiátricas preferidas. Certos leitores escreveram apontando lacunas, de modo que aí vai uma segunda parte.

1) A assustadora história da medicina, de Richard Gordon, Ediouro. Recomendado pelo leitor Fred Spada, que tem nome de automóvel, este livro é um dos mais esquisitos que já li. É confuso, mal engendrado e precisaria de um bom editor. Ainda assim, há passagens muito boas sobre a caótica evolução da medicina, que, nas palavras de Fred, parece ter sido algo ao estilo: “Doutor, substituímos o prego por uma agulha e agora a seringa parece funcionar direito”.

Gordon fala, por exemplo, de uma paciente de Freud que sofria de fadiga generalizada e do sintoma curioso de ser perseguida pelo cheiro de pudim queimado. Fala de micróbios e da axila da rainha Vitória, de anestesia e dos primórdios da vacinação, quando as pessoas inoculadas com o vírus da varíola bovina tinham medo de se transformar em vacas. “Hoje, um terço das mortes do mundo tem alguma relação com moscas”, informa.

Gordon aborda também a questão dos piolhos e da luta contra o escorbuto, de início absolutamente aleatória. “O capitão Cook recomendava geleia de cenoura e mosto de cerveja. Vinagre, para tomar ou lavar o convés, óleo de vitríolo e enterrar o paciente até o pescoço, na terra fria, todos esses métodos tinham seus defensores.”

Contra verrugas: “Toque cada verruga com uma pedra diferente, ponha as pedras numa bolsa, deixe cair a bolsa a caminho da igreja, quem encontrar vai ficar com todas as suas verrugas. Ou procure um homem que nunca viu o próprio pai e peça para tocar no seu casaco. Como profilaxia, nunca deixe seus filhos tocarem na água onde foram cozidos ovos.”

Gordon menciona a biografia de gente ilustre como Florence Nightingale, que costumava bater irritadamente as tampas abertas das privadas, e Osborne Mavor, autor de um artigo definitivamente científico sobre nosso centro anatômico, “O Umbigo”, que, segundo ele descobriu, pode ser atacado por oito doenças. Ou John Coakley Lettsom, fundador da Sociedade de Medicina de Londres e de várias outras instituições de caridade, como a Sociedade para a Libertação e Ajuda a Pessoas Presas por Pequenas Dívidas, e a Sociedade Real Humanitária para Ressuscitação dos Aparentemente Mortos.

2) Amor sem fim, de Ian McEwan, ed. Companhia das Letras. Após testemunhar um trágico acidente de balão, um escritor de artigos científicos vira alvo de uma paixão patológica. A fixação do desconhecido chega aos limites da perseguição e da loucura, transformando a vida do protagonista.

O longo capítulo inicial sobre o acidente é ritmado, tenso e muito bem construído. Mas minhas partes preferidas do livro são os dois apêndices, em que, de forma original, o autor segue narrando a história.

O melhor deles é um estudo de caso publicado na revista British Review of Psychiatry pelos drs. Robert Wenn e Antonio Camia, que obviamente não existem, sobre a síndrome de Clerambault. Em linguagem acadêmica, os nobres doutores falam sobre esse tipo de erotomania que se caracteriza pela obsessão amorosa por alguém mais velho e de maior status social, com um detalhe: o portador dessa síndrome tem absoluta certeza de ser correspondido.

McEwan aproveita o posfácio científico para recontar o caso ao leitor, fornecendo detalhes omitidos pelo narrador, e para dar uma conclusão ao romance, lançada em meio a uma porção de notas de rodapé e descrições da patologia.

Na época do lançamento do livro, inúmeros resenhistas (inclusive psiquiatras) julgaram se tratar de um artigo verdadeiro, até que McEwan veio a público declarar que o apêndice era ficcional, baseado no romance que o precedia — em vez de se passar o contrário. Ele chegou a enviar o artigo a uma revista de psiquiatria, que polidamente o recusou. “Se fosse publicado, seria delicioso ter que pedir permissão para citá-lo”, confessou o romancista numa entrevista ao The Guardian. “Para um escritor, é uma tentação poder bagunçar a fronteira entre ficção e realidade, pois isso dá à ficção uma credibilidade extra e confunde o factual. Também escrevi esse apêndice por exibicionismo linguístico — só queria provar que conseguia fazer.”

Fico aqui pensando quem é mais doido.

3) O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon, ed. Record. O menino Christopher Boone tem 15 anos e sofre de síndrome de Asperger, uma forma de autismo caracterizada pela dificuldade de interagir socialmente e de expressar emoções, bem como de aceitar mudanças. Os portadores dessa síndrome muitas vezes possuem habilidades incomuns, como memorização de mapas e sequências matemáticas.

Neste romance, indicado pelo leitor Rogério Moraes, o narrador sabe muita coisa de astronomia e pouquíssimo sobre seres humanos. Adora listas, padrões e a verdade. Odeia o marrom, a França e ser tocado. Certa madrugada, encontra o cão do vizinho morto e passa a investigar o crime.

Embora não seja um dos meus livros favoritos, há um jogo interessante com o narrador, que, afinal de contas, sofre de uma síndrome que interfere justamente no processo de comunicação. Seu pensamento é estruturado de forma bastante concreta e literal, prejudicando sua capacidade de interpretar ironias e metáforas. É assim que o livro é narrado: de forma direta, por vezes obsessiva.

Os capítulos seguem “números primos, que são úteis para escrever códigos e por aqui são considerados assunto militar, e se você encontrar um com mais de cem dígitos tem que contar para a CIA e eles te compram por 10 mil dólares. Mas não seria um jeito muito legal de ganhar a vida”.

Boone é um personagem divertido e cheio de angústia, que se lança à investigação com toda a coragem necessária para puxar assunto com os vizinhos. “Às vezes, quando estou num lugar novo e cheio de gente, há tipo um tilt de computador e eu tenho que fechar os olhos e tampar os ouvidos e grunhir, que é o meu jeito de apertar CTRL+ALT+DEL e fechar os programas e desligar o computador e reiniciá-lo, a fim de que eu possa me lembrar do que estava fazendo ali e para onde estava indo.”

4) Afluentes do rio silencioso, de John Wray, ed. Companhia das Letras. Traduzido por esta vossa humilde serva, o romance segue a mesma linha de O estranho caso do cachorro. É narrado por William Heller, jovem de 16 anos que sofre de esquizofrenia. Acometido de um delírio, ele suspende a própria medicação, foge da clínica psiquiátrica onde estava internado e empreende uma jornada pelo metrô de Nova York, com um detetive particular a seu encalço. “Sou um prisioneiro do meu próprio crânio”, ele pensa. “Refém do meu sistema límbico. Não há saída senão pelo meu nariz.”

Assim como Christopher Boone, William possui uma série de rituais que executa quando se vê ansioso ou em terreno desconhecido: repassa uma série de coisas preferidas, checando-as na ordem como se fossem contas de um terço. As primeiras oito ele recita de memória: obeliscos, tinta invisível, a mãe, snowboard, o Jardim Botânico do Brooklyn, Jacques Cousteau, Bix Beiderbecke e o metrô.

“Estou conseguindo fazer piadas de novo”, ele pensa, após ter suspendido a medicação por conta própria. “Estúpidas, mas não importa. Nunca conseguiria ter feito piadas ontem.”

5) A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, ed. José Olympio. Um esquecimento lamentável na primeira escalação, o romance de Campos de Carvalho fala sobre um sujeito que vive no que pensa ser um campo de concentração, mas que antes julgava ser um hotel de luxo, e que na verdade é um manicômio. “Não sei dizer se fica na Europa ou na Ásia ou mesmo na Polinésia.” Numa prosa fragmentada, absurda e frenética, ele tenta dar sentido às coisas, sem sucesso. O livro é brilhante e tem um dos inícios mais célebres da literatura brasileira:

“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

6) “Minha fantasma”, em Ensaio Geral, de Nuno Ramos, ed. Globo. Outra ausência imperdoável na primeira divisão desta lista. Trata-se de um curto relato do artista plástico Nuno Ramos sobre os seis meses de uma crise de depressão severa da esposa, suas idas aos médicos, os cuidados, os horários de remédios, o cansaço e a impotência. É um texto lindo sobre “um amor imenso e cansativo, que deve dizer bem alto: eu quero você mesmo assim. Ou algo ainda antes disso, já que ela é a mesma pessoa, apenas confusa, como quem circula pela casa sem encontrar a porta do próprio quarto”.

Toda vez que leio esse texto de Nuno, penso em como deve ter sido, para ela, ter alguém tão constante, tão certo, tão leal, alguém que desconfiou de um determinado médico “não pelos motivos habituais (pêlos atrás da orelha, voz melíflua, olhar excessivamente demorado, roçar de uma palma da mão na outra). Achei, apenas, que não gostava dela”.

Um médico que, segundo ele, parecia ser alguém que tocava violino, como um judeu de Chagall. “Devia ter uma coleção enorme de selos e uma mãe severa. Devia raspar um prato fundo de caldo de carne com a gema de um ovo batido todas as manhãs, pra ficar bem forte. Mas na verdade é baixo e atarracado e suas pernas não se desenvolveram tanto quanto o tórax, e o próprio tórax não se desenvolveu tanto quanto as feições elásticas do seu rosto — por isso não pode esconder certa fração de paraplegia, de paralisia infantil, certa dessemelhança entre a metade de baixo e a metade superior do tronco, como um Tratado das Tordesilhas cravado em sua cintura que torna apenas mais perverso seu sorriso forçosamente bondoso.”

Não sei por quê, mas acho essa passagem do médico particularmente tocante — há uma solidariedade muda que perpassa o texto inteiro, preenchendo inclusive as lacunas do vazio. Por vezes, o autor hesita diante de tanto sofrimento e é arrastado pela maré da tristeza dela, mas continua ao seu lado dia após dia, enquanto ela chora e chora, “chora por ser covarde, chora principalmente porque não pode parar de chorar. Não há ventos fortes nem tufões, mas uma monotonia de laguna excessivamente salgada onde os peixes não conseguem sobreviver”, conta.

“A cura não é o raio de sol depois da tempestade, nem uma lufada de ar no quarto pestilento, mas haver o quarto, e sol como o conhecemos, e vento como desde que somos pequenos. É o mundo ser redondo e o oceano ser salgado. Isso é a cura, o tédio bem-vindo. Então é isso que ela ataca e protela, voltando a alto-mar enquanto lhe acenamos da praia monótona.”

A certa altura, não estamos mais falando de depressão, mas de amor.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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