Vanessa Barbara

Literatura de pescoço: Regras básicas

Por Vanessa Barbara


Na coluna anterior, abordamos a dolorida questão da cervicalgia literária e o fato de nunca encontrarmos uma boa posição para ler na cama. Agora daremos prosseguimento ao tema com uma questão bastante controversa: o deselegante hábito de “pescoçar” o livro dos outros, favorecendo o torcicolo.

Vejam: não estamos falando aqui de acompanhar ostensivamente a leitura alheia, informando ao vizinho que ele já pode virar a página quando lhe for conveniente (e faça o favor de acelerar esse ritmo), mas de uma prática teoricamente mais discreta e inofensiva, que é descobrir o título do livro que alguém está lendo. É o meu esporte favorito no metrô, no ônibus, na rodoviária, no aeroporto e nas praças.

Sou uma ávida praticante da pescoçagem literária, mesmo quando estou num país de alfabeto cirílico ou idioma que desconheço. Recentemente, na Croácia, levei cerca de quatro minutos para desvendar o título de um romance, o sisudo “Naš čovjek na terenu”. Fiquei mais feliz ou mais sábia com essa informação? Não. Me serviu de algo? Não. Mas valeu a pena.

(Agradecemos ao locutor esportivo Cléber Machado pelo autossofismo acima.)

Inegavelmente habilidosa no ofício, não hesito em lançar mão de expedientes inescrupulosos, se preciso for. Posso derrubar objetos de propósito só para ter de me abaixar e espiar a capa; também recorro a discretos esbarrões e um suposto tique nervoso de natureza variável – pode envolver uma virada de cabeça para o sul, seguida de um piparote para a esquerda, piscando um olho de cada vez, dependendo da localização do alvo.

Quando a encadernação é padronizada e não há como distinguir o livro pela capa, não me deixo abalar. Tento a lombada. Em caso de fracasso, sento-me pimponamente ao lado da vítima e procuro distinguir um cabeçalho qualquer no topo da página, sempre fingindo uma insanidade inofensiva, porém temerária. Na ausência de autor e título, vou pescoçando os nomes dos personagens e dos lugares, com vistas a distinguir um Oliver Twist, um Kurt Wallander, uma Eccles Street ou um bom protagonista do Ítalo Calvino, com aquelas numerosas consoantes e acentos diferenciais.

Já identifiquei muitos livros pela edição, sobretudo os Tolkiens da Martins Fontes, os Milleniums da Companhia das Letras e aquela coleção Debates, da Perspectiva. A biografia do Steve Jobs não tem como errar, embora eu seja da opinião de que, se a capa traz Jobs de frente, a contracapa devia trazê-lo de costas. Fico a imaginar como seria a nuca do polêmico gênio da informática.

Se é falta de educação reparar no livro dos outros, não sei, mas, na dúvida, meto a cara nas capas sem pudor, e os descontentes que me acertem no nariz com sua estimada tradução de Moby Dick. Ainda sou capaz de, surpreendida no ato, elogiar o gosto literário do próximo ou render-me a um silêncio reprobatório, sugerindo bibliografia complementar ou indicando o tambor de reciclagem mais próximo.

Quando estou longe do alvo e não há rotas fáceis de aproximação, procuro me achegar discretamente e proceder ao reconhecimento de forma tímida, casual até. No entanto, essa polida abordagem não costuma gerar resultados tão certeiros quanto a cara de pau pura e simples.

A popularização dos e-books é uma triste realidade para os praticantes do esporte, e um alívio para quem deseja ler as memórias do George W. Bush sem sofrer bullying silencioso dos companheiros de trem. (Uma vez estava no metrô lendo Umidade, do Reinaldo Moraes, e acho que angariei um escandalizado sinal da cruz de uma velhinha à minha frente.) Ainda assim, é possível utilizar a tática da adivinhação via personagem, mas a superfície total de pescoçagem é menor e a coisa toda passa a depender mais da sorte e da acuidade visual. Eu pessoalmente não me deixo desanimar por um e-book diminuto, uma fonte tamanho 9, uma cópia encadernada, uma coleção com capa de couro e um leitor superprotetor de suas preferências. Quanto mais difícil, melhor.

Há uma página no Facebook totalmente dedicada a fotos de leitores no metrô, a Biblioteca Subterrânea de Nova York [https://www.facebook.com/UndergroundNYPL]. Cada instantâneo traz uma legenda com o título do livro e o autor. Num deles, um sujeito de gravata lê o início do romance histórico New York, de Edward Rutherfurd, de 880 páginas. Dois meses depois, é fotografado já no fim do livro. São rostos compenetrados e sérios, e é divertido relacionar a obra ao leitor, a passagem lida ao ar ausente da pessoa. Daí a necessidade de saber o que os outros leem de tão interessante, e o contorcionismo que advém dessa curiosidade maníaca.

Minhas táticas de guerrilha incluem espreguiçar-se em direção à vítima, fingir que se está distraído e perguntar as horas. É perfeitamente lícito puxar assunto sobre o tempo só pra ver se ela baixa a guarda, mas terminantemente proibido perguntar de chofre o que a pessoa está lendo. Isso implicaria ter que dar a sua opinião sobre o título e efetuar uma desagradável interação humana, o que quase nunca é positivo, já que você pretende apenas sanar a curiosidade e retornar ao seu próprio romance.

Ironicamente – ou mesmo por conta disso –, sou tímida ao expor minhas leituras ao público, fazendo de tudo para dificultar a identificação imediata. É algo cruel, admito. E não acontece só quando estou lendo porcarias, mas também por modéstia. Não fica bem ostentar um Dostoiévski na praia e um Flaubert no original num 118-C. Se é inegável a existência de leitores exibicionistas que carregam por aí suas edições comentadas de Joyce ou Pynchon debaixo do braço, com o título voltado para os transeuntes, há os que, como eu, encapam o livro ou o escondem virado pra baixo, com uma incômoda sensação de que há alguém, em algum lugar, ocupado em roubar seu valoroso segredo.

(Como esse japonês da foto.)

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
SiteFacebook

O Kama Sutra das letras: Técnicas para ler na cama

Por Vanessa Barbara

Numa coluna anterior, comentamos sobre os benefícios do feijão para a saúde de nossas leituras cotidianas, pois que serve de apoio de página enquanto estamos comendo ou lixando as unhas. Falamos do leitoril, este valoroso objeto que mantém as páginas abertas sobre uma superfície lisa e iluminada, facilitando a fruição dos romances mais volumosos.

Não falamos, porém, de como fazer para ler na cama num dia de inverno, quando só o que você quer é passar a noite ronronando debaixo de quatro mantinhas de lã, de preferência na companhia de algum clássico francês.

O elemento central de uma boa leitura na horizontal é o abajur. Não há nada mais determinante do que o estilo e a intensidade luminosa do mesmo — talvez a qualidade do livro, diriam os mais ortodoxos —, e meu sonho sempre foi ter uma modesta (porém significativa) coleção de abajures nos mais diversos formatos, quilowatts, cores, materiais. O sueco Stieg Larsson, por exemplo, é um autor de luzes fortes e vermelhas. Stendhal e Flaubert requerem uma claridade mortiça, amarelada, em tons amadeirados. Os russos a gente lê à luz de velas quando acaba a eletricidade na rua, e Edgar Allan Poe se beneficiaria de um abajur com defeito, que vai falhando e definhando conforme as páginas avançam, até que, lá pelo fim, você não o esteja mais lendo, e sim imaginando. Luz focada de ônibus é para ler aventuras, diários de viagem e expedições com piratas, cerimônias pagãs e escorbuto.

Acionado o abajur, porém, pouco nos resta senão soterrar-se debaixo do edredom e esperar sair de lá vivo.

E qual a posição ideal para ler na cama? De barriga para cima, o mundo parece perfeito até que seus braços e ombros começam a sentir o peso da gravidade. Então você vira de lado, suponhamos, o esquerdo, e prossegue sua leitura da página 77, julgando assim ter encontrado um estado de coisas assaz satisfatório. A página 78, contudo, traz uma inverossímil reviravolta na trama e uma dificuldade: ela se localiza na parte inicial do grosso livro, que você mal começou. Como equilibrar a página 78 aberta quando se está deitado sobre o flanco corporal esquerdo, sendo esta uma folha par e o lado direito do livro, essencialmente ímpar?

A solução, claro, é rolar para o outro lado, mas a satisfação só dura até avançarmos para a folha ímpar novamente. É hora de rolar de volta, e algum leitor agora pode alegar: nós somos intelectuais, não nascemos para competir na corrida do queijo, de modo que, exauridos pelo rolamento infinito, atolamos de barriga e cedemos à controversa posição de bruços. (Nota: pesquisar o que vem a ser etimologicamente um bruço.)

Ler de bruços é confortável apenas nos primeiros três parágrafos — sim, a bruçalidade é assim fugaz e não compensa, embora seja quase impossível resistir-lhe. Finda a primeira oração subordinada substantiva reduzida do infinitivo, o leitor deve escolher entre a fisioterapia e o pilates, pois que a cervicalgia virá — e virá com todas as forças, pinçando os seus nervos e abrindo terreno para a hérnia discal. Por outro lado, ler de bruços é até considerado uma posição de ioga, só que sem o livro.

Engenhocas como a que ilustra este post podem ser uma solução. O Salonpas Linimento e o Profenid têm se mostrado boas opções paliativas. Uma alternativa muito apreciada é ler com as pernas para o alto, apoiadas na cabeceira da cama ou numa parede, de modo a encaixar o livro na barriga e nas coxas, favorecendo ao mesmo tempo a circulação sanguínea e o alongamento da região dorsal, feito um pilates literário. Na foto abaixo, Paul Newman se rende à prática. Manter a posição até a página 120 com respiração abdominal alternada, descansar e repetir a operação por mais cinco capítulos.

p.s.: Segundo o Dicionário Etimológico Silveira Bueno, bruço — “Tovar explica a expressão por um cruzamento árabe-basco: bus (ar.), beijo; buruz (basco), cabeça. O mais difícil é explicar como é que o árabe se foi cruzar com o basco e como este entrou para o português. Além do que, na loc. “De bruço” não há, nem por milagre, a ideia de beijo, a não ser um beijo dado na terra… Melhor é dizer que até o momento ainda não se conhece o verdadeiro étimo dessa palavra”.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
SiteFacebook

A ala dos escritores

Por Vanessa Barbara

Julio Cortázar comprova a tese

“Hoje cedo tirei uma vírgula. À tarde, coloquei-a de volta.”
(Oscar Wilde)

Em 1994, o psiquiatra Felix Post publicou um artigo no British Journal of Psychiatry chamado “Creativity and psychopathology: A study of 291 world-famous men” [Criatividade e psicopatologia: Um estudo de 291 personalidades]. Analisando a biografia de grandes cientistas, filósofos, estadistas, pintores e músicos, buscou determinar a prevalência de distúrbios mentais nesses indivíduos, que supostamente aliariam genialidade e loucura. Ao contrário do esperado, eles até que eram normais.

Um terço dos cientistas não apresentava nenhum indício psicopatológico relevante, enquanto políticos e compositores tinham coeficientes de loucura igualmente baixíssimos. Um único grupo se destacava: o dos escritores. Espantosos 88% possuíam traços de psicopatologia acentuada ou severa, e 72% sofriam de depressão profunda. Em relação à população geral, os índices eram também elevados.

A ligação entre os escritores e o destempero foi estabelecida em inúmeros estudos, como o de Nancy Andreasen (1987), segundo o qual escritores têm o triplo de probabilidade de desenvolver transtornos de humor e quatro vezes mais chances de se tornar alcoólatras, e Kay Jameson (1989), que registrou taxas de suicídio seis vezes maiores na categoria. O próprio Felix Post deu prosseguimento à sua investigação e concluiu que poetas são escandalosamente mais propensos ao transtorno bipolar — por outro lado, são mais sociáveis e menos introspectivos que seus colegas romancistas e dramaturgos. Estes, sim, têm avassaladora tendência à depressão grave, ao vício e à disfunção afetiva.

Segundo o estudo, 56% dos escritores tiveram uma infância infeliz e 26% sofreram de tuberculose. O histórico familiar de afecções psiquiátricas também era anormalmente elevado. A expectativa de vida foi de 65 anos, sete a menos do que os cientistas e políticos, mas três a mais do que os compositores. Dos cinquenta escribas analisados, apenas Guy de Maupassant foi considerado normal. Entre os mais transtornados, destacaram-se Hemingway, Joyce, Fitzgerald e Tolstói, que encontraram páreo apenas em artistas como Picasso e Van Gogh. Representados por monstros sagrados da política como Gandhi, Lênin e Bismarck, os estadistas ganharam na categoria “ansiedade”, mas na depressão severa os escritores novamente deram um banho.

Em quase todas as áreas, os cientistas são os mais estáveis — sobretudo nos relacionamentos conjugais. Há poucos inegavelmente malucos como Mendel e Bohr. Quando o assunto é dependência de drogas e alcoolismo, os escritores mais uma vez levantam o caneco — com o perdão do trocadilho.

Os números são mais ou menos díspares; a validade das pesquisas, relativa. Ainda assim, a premissa faz sentido — supõe-se que o centro da questão esteja no processo da escrita, naturalmente introspectivo e angustiante, e no aprofundamento exaustivo de situações e personagens. Nas palavras de Ernest Hemingway, o bom escritor é basicamente solitário e precisa encarar a eternidade (ou a falta dela) dia após dia, o que só alimenta a angústia.

A outra hipótese é inversa: os deprimidos é que optariam pela carreira de escritores, por vocação e temperamento. “Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e no fundo de seus motivos há um mistério”, define George Orwell. “Escrever um livro é uma batalha longa e exaustiva, como lutar contra uma doença grave. Só se empreende uma tarefa dessas movido por algum demônio que não se pode vencer ou compreender.”

Em todo caso, é como ter caligrafia ruim e prestar vestibular para medicina — se você já tem uma porção de esquisitices, o melhor a fazer é tirar proveito delas. Do que se conclui que não é preciso ter problemas psiquiátricos para ser um bom escritor — mas ajuda.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
SiteFacebook

Biblioteca de lunáticos

Por Vanessa Barbara

Foto de Phineas P. Gage

“E se amanhã eu acordar e não for mais eu mesmo,
mas um besouro vira-bosta?” (Andrew Solomon)

Muitas vezes, ler sobre desequilíbrios, insânias e extravagâncias pode ser uma grande fonte de alívio para quem, como eu, tem medo de um dia acordar besouro. É terapêutico saber que há casos piores que o nosso, como o de Oliver Sanderson, que há mais de trinta anos pensa que é uma laranja, ou Phineas P. Gage, um operário de ferrovias que, após uma explosão, teve o crânio trespassado por uma barra de ferro de 6 kg. O comprido artefato entrou pela bochecha esquerda do rapaz, projetou seu globo ocular para fora, perfurou o lobo frontal e saiu pelo topo da cabeça. Ao dar entrada no hospital, caminhando, ele comentou ao médico: “Doutor, isso aqui vai dar um trabalhão”.

Além de catártica, esse tipo de leitura pode estabelecer uma conexão com outros mundos (autismo, esquizofrenia, depressão), do qual podemos sair a qualquer momento simplesmente desligando o abajur.

A seguir, uma lista das minhas leituras psiquiátricas preferidas (elaborada após o pedido de um Top 5 para o blog Meia Palavra). Lacunas imperdoáveis podem ser atribuídas a um lapso de memória e não devem ser consideradas sintomas. Para a infelicidade dos que sofrem de TOC, a lista não segue nenhuma ordem.

1) O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, ed. Objetiva. Melhor estudo sobre depressão já publicado. Com um estilo literário apurado, o jornalista expõe seu vínculo pessoal com a doença e faz uma investigação de sua incidência, manifestação, sintomas e tratamentos. É um mundo cinzento onde chove o tempo todo e até as estruturas mais fortes podem ser tomadas pela ferrugem. “Viver com depressão é como tentar manter o equilíbrio enquanto dança com um bode”, define.

O repórter da revista The New Yorker explica que a depressão começa do insípido, enevoa os dias num tom sépia e enfraquece ações ordinárias até que suas formas claras sejam obscurecidas pelo esforço que exigem, nos deixando cansados, entediados e obcecados em nós mesmos. Há uma bela passagem sobre a dificuldade que ele tem para se levantar da cama e ir tomar banho, antecipando cada passo e por fim desistindo da tarefa: “No mundo inteiro as pessoas tomam banho. Por que eu não podia ser uma delas?”.

Seu relato oscila magistralmente entre o registro jornalístico e o pessoal. A pesquisa durou cinco anos e é bem precisa em suas metáforas e definições: na depressão, o ar parece espesso e resistente, como que cheio de massa de pão. Tudo o que foi rápido é agora lento. A depressão, enfim, é a ausência de sentido vital de propósito e o embotamento de sensações — felicidade, tristeza, senso de humor e capacidade de amar.

A superação da doença é às vezes descrita com a simplicidade de quem decide sair para comprar um par de meias. Para alguns dos personagens deste livro, a salvação foi “fazer coisas com fios”, descascar pepinos, aprender sapateado e forçar-se a seguir em frente. “Pessoas que atravessaram uma depressão e estão estabilizadas frequentemente têm uma aguda consciência da alegria da existência cotidiana. Mostram-se capazes de uma espécie de êxtase imediato e de uma intensa apreciação por tudo que é bom em suas vidas. […] Podem desenvolver uma profundidade moral que é um troféu no fundo de sua caixa de tristezas”, diz.

2) Um antropólogo em Marte: Sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks, ed. Companhia das Letras. O renomado neurologista e escritor descreve alguns casos curiosos que encontrou durante a prática clínica: um pintor que enxerga tudo em preto e branco, um cirurgião com síndrome de Tourette, um massagista cego que recupera a visão.

Autor de onze livros, Sacks descreve em detalhes o histórico de vida dos pacientes. Seu estilo literário aproxima-se das chamadas “anedotas clínicas” do século XIX, com especial influência do neuropsicólogo A. R. Luria, frequentemente citado em seus artigos.

Um dos pontos altos da obra é a constatação de que as deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal na vida das pessoas, revelando poderes latentes que talvez nunca fossem vistos na ausência desses males. Em Um antropólogo em Marte, o tema central é justamente o potencial criativo das doenças. Se, por um lado, os distúrbios de desenvolvimento destroem caminhos preciosos no cérebro, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar alternativas, levando-o a um inesperado crescimento ou evolução.

O próprio Sacks é portador de algumas afecções esquisitas: tem prosopagnosia congênita, que é a incapacidade de identificar rostos — inclusive o dele mesmo. Há dois anos, perdeu a visão estereoscópica (tridimensional) devido a um tumor maligno na retina, e não enxerga mais em profundidade. Em O olhar da mente, ele conta sua dificuldade de subir escadas, atravessar a rua e caminhar sem tropeçar ou trombar nos outros.

Outros grandes livros de Sacks são: Tempo de despertar (que deu origem ao filme), Alucinações musicais e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu.

3) O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, ed. Companhia das Letras. Escrito por um dos maiores jornalistas da New Yorker, é o perfil de um mendigo excêntrico que pretende escrever a história oral do nosso tempo, um livro doze vezes maior do que a Bíblia. Gould era conhecido por falar com gaivotas e despejar na comida frascos inteiros de ketchup. Caótica e ambiciosa, sua obra possuía longos capítulos ensaísticos que tratavam de temas como a influência do tomate na vida da sociedade contemporânea, além de trechos narrativos, fartamente carregados de digressões, nos quais Gould reproduzia conversas ouvidas ao acaso.

“Trata-se, talvez, da obra inédita mais longa que existe: a História Oral e as notas ocupam 270 cadernos de linguagem, desses que as crianças usam na escola, todos rasgados, imundos, manchados de café, gordura e cerveja. Gould usa caneta-tinteiro e enche os dois lados de cada folha, sem deixar margem alguma, tem péssima caligrafia, e centenas de milhares de palavras são legíveis só para ele mesmo. Nenhum editor se interessou pelo trabalho.”

4) “O alienista”, de Machado de Assis, in: Papéis Avulsos, ed. Penguin-Companhia das Letras. Conto clássico sobre um médico que decide enveredar pelo campo da psiquiatria, abre um sanatório e se dedica ao estudo da loucura. “De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados de espírito.” Com o passar das páginas, sua definição de loucura se torna ligeiramente mais abrangente.

“Não imaginava a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuléio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! Um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!” Esse era provavelmente um genuíno Louco de Palestra.

Entre os meus preferidos estão um rapaz que se supunha estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, “e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se”. Outro era um fazendeiro de Minas cuja mania era distribuir boiadas a toda gente: dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, e não acabava mais. “Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse”. Também destaco o licenciado Garcia, que não falava nada pois acreditava que, no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, “todas as estrelas se desapegariam do céu e abrasariam a terra”.

Continue lendo »

Contusões com papel

Por Vanessa Barbara

Excetuando-se provavelmente a topada de mindinho na quina, temida até por Genghis Khan e pelos grandes hunos da história, não há dor que se compare a um corte com folha de papel. Você está manuseando a correspondência, acaba se distraindo com um besouro e catapimba: um corte fino no dedo, que te faz urrar e emitir palavras de baixíssima estirpe em público.

De acordo com estatísticas aleatórias encontradas na internet, mais de 50% dos assistentes administrativos sofrem um corte desse tipo por mês, e quase metade deles sofre múltiplos cortes no mesmo período. “É importante lembrar que mesmo um machucado pequeno pode tornar-se fatal em caso de infecção. Mesmo um corte com folha de papel pode resultar numa amputação”, afirma um site americano de acidentes de trabalho, decerto pensando em lucrativos processos trabalhistas. Os danos morais, dizem, são irreparáveis.

Apesar da importância insofismável do tema, não foram encontradas estatísticas confiáveis sobre os acidentes com papel cortante em editoras, e nem o índice de funcionários que grampeiam os próprios dedos ou se veem soterrados em pilhas de originais para corrigir. Sabe-se, porém, que o urro emitido por quem corta o dedo com papel (o chamado paper cut) pode atingir até 98 decibéis, similar ao de quem é atingido por um piano (112 decibéis), quem prende o dedo na porta (99 dB), quem morde a língua (77 dB), quem masca a afta (84 dB), quem bate o cotovelo na parede (72 dB), quem quebra a unha (63 dB) ou é subitamente contrariado em seus planos malignos de dominação do universo (http://nooooooooooooooo.com).

Mas por que cortar o dedo com uma folha de papel dói tanto, ainda que mal sangre e seja imperceptível? Há inúmeras teorias:

Teoria nº 1: Rugosidade maligna

Um corte provocado por papel não só rasga a carne como também a dilacera, por conta da superfície áspera e rugosa desse material. É essa a principal diferença entre uma incisão provocada por um instrumento afiado de cutelaria e por uma folha de papel: esta última ocorre de forma irregular. É só pensar numa faca com o fio cego, que demora mais para cortar um bife e o faz com pouca precisão, “mascando” a superfície atingida. Além disso, o papel deixa pra trás pequenas partículas fibrosas que não são limpas pelo sangue, já que este não flui tão livremente como nos ferimentos por lâminas.

Teoria nº 2: Infecções perversas

Intimamente ligada à primeira teoria, esta se relaciona aos produtos químicos utilizados na fabricação do papel. Quando o material penetra a pele, deixa no local parte de suas fibras quimicamente tratadas, estimulando os receptores da dor. Alguns dizem que, por ser poroso, o papel é um pródigo hospedeiro de bactérias. Como o ferimento é geralmente pequeno e superficial, a pele se fecha sem demora, aprisionando os fragmentos e bactérias em seu interior. O resultado é uma dor de cortar em fatias.

Teoria nº 3: Resmas mortais

Há os que sustentam que as incisões por papel são mais comuns de ocorrer quando manuseamos blocos ou resmas que mantém as folhas unidas e compactadas. Assim, quando uma única folha desliza do conjunto, expõe alguns milímetros de sua aresta e torna-se robusta o suficiente para rasgar a carne.

Teoria nº 4: Ferimento escancarado

Em franca contradição com a teoria número 2, esta afirma que o sangramento comedido dificulta a coagulação e a cicatrização da ferida. Assim, as fibras nervosas ficam mais tempo expostas ao ar e à sujeira, prolongando a dor.

Teoria nº 5: Nociceptores do mal

As vítimas do talho são geralmente acometidas na polpa dos dedos, onde há alta concentração de nociceptores, fibras nervosas que enviam sinais de tato e dor ao cérebro. Diz-se que esses receptores são particularmente sensíveis a estímulos leves. Além disso, por ser pouco profundo, o corte com papel só afeta as camadas externas da pele, precisamente onde se localizam os nociceptores que enviam os sinais agudos de dor. É por isso que às vezes a dor do corte é pior do que se fosse mais profunda — é muito mais aguda e ardida.

As lacerações leves apenas irritam as terminações nervosas, em vez de destruí-las. Isso significa (infelizmente) que os nervos continuam funcionando e enviando suas mensagens excruciantes ao cérebro. A boa notícia: se a dor for insuportável, sempre se pode tentar golpear o dedo com um martelo para destruir as terminações nervosas. A má notícia é que, quando os nervos forem reparados, vai doer bem mais.

* * * * *

Embora algumas dessas teorias façam sentido, nenhuma delas é amplamente aceita como causa inequívoca do suplício desse tipo de laceração. Deve haver alguma hipótese alternativa que acuse a natureza perniciosa do papel, sobretudo quando preenchido por má literatura.

Funcionários de gráfica afirmam que as folhas mais cortantes seriam da gramatura 75 a 120 g/m², principalmente do tipo AP. No meio gráfico de Belo Horizonte, há uma lenda corrente sobre um sujeito que morreu quando uma folha do estoque (que era no andar de cima) voou e cortou a jugular do infeliz.

Não se sabe se a história é verídica, mas os Caçadores de Mitos, do Discovery Channel, já colocaram à prova o mito do atirador mortal de cartas de baralho. (O vídeo sem legendas pode ser visto aqui: http://dsc.discovery.com/videos/mythbusters-killer-deck-minimyth.html) Diz a lenda que uma carta de baralho comum pode matar uma pessoa caso seja arremessada com força suficiente. Para testá-la, Jamie e Adam construíram uma máquina atiradora de cartas a 249 km/h, que causou apenas um corte modesto com pouco sangue. O mito foi descartado.

Em todo caso, convém não ignorar a amputação e morte possivelmente advindas de um prosaico paper cut; dizem os especialistas que a conduta mais indicada é manter a calma, desinfetar a ferida e cobri-la. (Alguns mencionam Super Bonder, mas eu recomendaria um band-aid).

E por falar nisso, convém ter cuidado ao abrir a embalagem do curativo. São abundantes os casos de paper cut na caixa do band-aid e nos cartões de “Estimo as melhoras” enviados pelos amigos.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
SiteFacebook