Vanessa Barbara

Não, não e não

Por Vanessa Barbara

Um dos maiores críticos literários do século, Edmund Wilson nunca primou pela delicadeza. Não hesitava em criticar duramente seus próprios amigos, entre eles Vladimir Nabokov, autor de uma controversa tradução de Eugene Oneguin, de Pushkin. Wilson acusou Nabokov por “erros graves de inglês”, “um estilo desnecessariamente canhestro”, “uma linguagem pobre e deselegante”, expressões vulgares, imodéstia, transliteração imprecisa, falta de bom senso, um apêndice tedioso e interminável, um entendimento pobre de prosódia russa e falhas sérias de interpretação.

No campo do mau humor, porém, sua obra mais conhecida é um bilhete intitulado “Edmund Wilson lamenta”, enviado como resposta a pedidos de participação em palestras, festivais, entrevistas.

Diz o bilhete:

“Edmund Wilson lamenta, mas para ele é impossível:

– Ler originais,
– Escrever artigos ou livros sob encomenda,
– Escrever prefácios ou introduções,
– Dar declarações para fins publicitários,
– Desempenhar qualquer tipo de trabalho editorial,
– Ser juiz de concursos literários,
– Dar entrevistas,
– Ministrar cursos,
– Organizar conferências,
– Dar palestras ou fazer discursos,
– Aparecer na TV,
– Participar de congressos literários,
– Responder questionários,
– Tomar parte em simpósios ou “mesas” de qualquer espécie,
– Doar manuscritos para leilão,
– Doar cópias de seus livros para bibliotecas,
– Autografar livros para estranhos,
– Permitir que seu nome seja usado em cabeçalhos,
– Fornecer informações pessoais a seu respeito,
– Dar opiniões sobre literatura ou outros assuntos.

(Também não aceito convites para fazer leituras públicas, a menos que me ofereçam um bom dinheiro. E.W.)”

À parte a ranhetice e a antipatia, é preciso aplaudir o sr. Wilson. Se fosse contemporâneo, passaria a maior parte do tempo perdido em turnês de divulgação, participando de festivais literários, integrando mesas de debate sobre blogs e literatura, sendo afável em bares, respondendo se dá pra viver de quadrinhos no Brasil, filmando participações em programas de TV e dando entrevistas para estudantes que lhe perguntariam em que ano nasceu. Não teria tempo de escrever, pois gastaria toda a energia em falar sobre o assunto.

Há escritores que gostam de dar aulas e proferir palestras. Outros gostam de viajar para participar de festivais e conhecer colegas de profissão. Alguns acabam até mudando de ofício, ou conciliando a escrita com outras atividades mais sociáveis. Fato é que não dá pra dizer “sim” a tudo o que aparece, sob pena de virarmos pés de tomate e não conseguirmos tempo para escrever.

Já recebi convites para participar do programa do Ronnie Von e de congressos no Amapá. Já me sondaram para apresentar um programa na MTV e virar repórter de um jornal diário. Me pediram para traduzir um livro técnico e participar de bancas examinadoras de graduação. Por mais que a gente queira ajudar, é impossível agradar a todos — de modo que acabo aceitando só o que eu consigo fazer. E o que não me dói em demasia.

Meu bilhete de recusa personalizado atualmente está neste pé:

“Vanessa lamenta, mas para ela é impossível:

– Atender o telefone,
– Participar de congressos,
– Aparecer na tevê,
– Ministrar cursos,
– Tirar fotos fingindo ler ou conversar,
– Comparecer a congraçamentos sociais com mais de sete pessoas,
– Fazer parte de bancas examinadoras,
– Escrever livros sob encomenda,
– Ser afável indiscriminadamente,
– Trabalhar de graça quando o contratante pode pagar,
– Responder questionários com mais de seis itens,
– Responder questionários “pra amanhã”,
– Analisar originais,
– Discursar em jantares (o jantar em si é bem aceito).

(Consulte-nos sobre a disponibilidade de escalar uma atriz contratada para atuar em meu lugar, se necessário. V.B.)”

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Leituras radicais

Por Vanessa Barbara

Durante muito tempo, minha única frustração na vida foi não poder levar os livros comigo para o chuveiro, grudando-os com ventosas à parede do box e tentando virar a página com os dentes. Naquela época, não existiam livros infantis emborrachados e nem audiobooks (até hoje, a Bíblia narrada pelo Cid Moreira me desperta uma curiosidade sem fim).

Fato é que interromper um romance nunca é agradável, e por isso há quem tenha o desastroso hábito de ler pendurado nas alças dos ônibus, ou mesmo enquanto anda — antes isso do que perder o ponto de descer, dizem. Eu mesma já fui vista plantada em plena calçada, nas últimas páginas de O Senhor dos Anéis, dando um passo e parando, outro passo e parando, e só não me sentei no meio-fio porque podiam me prender por perturbação da ordem pública. Há os que leem atravessando a rua e, quando a calçada está excessivamente cheia, fazem uma parada estratégica no canto de um prédio para terminar um capítulo.

Já li em cima do telhado, principalmente volumes de suspense e terror, sob a ameaça constante de quebrar uma telha e cair. Outra vez, instalei-me no beiral externo da praça Buenos Aires, ou seja, na rua, em busca dos últimos raios de sol daquela tarde, e li Elizabeth Costello. Ganhei uma moeda.

Os locais mais visados para a prática da leitura são a cama (abajur opcional), a poltrona, o banheiro, a mesa da cozinha, a praia e a sala de espera dos médicos. Alguns leem durante refeições solitárias, no cabeleireiro, no aeroporto, nos trens e nos parques. Há quem devore um volume inteiro enquanto espera um amigo atrasado, mesmo que de pé e procurando um facho de claridade em meio à penumbra.

Cresci numa família de gente que gosta de comer lendo (ou de ler comendo, uma das principais causas de obesidade em intelectuais), o que, se não preza pela sociabilidade em termos de interação familiar, ao menos pode render assuntos dos mais variados, sobretudo quando alguém acha algo engraçado e decide ler em voz alta. Meu sobrinho, do alto de seus 20 meses de idade, já demonstra um nítido comichão literário no decurso das refeições, quando costuma pedir para analisar os folhetos promocionais de supermercado e os cardápios de pizzarias.

Semana passada, o estudante paraense Diego Uchôa postou no Facebook esta foto de um gari lendo um livro dependurado no caminhão de lixo. Mais de 7 mil pessoas compartilharam a imagem, e, embora a maioria se limitasse a enaltecer a força de vontade essencial para vencer na vida, não é bem isso o que me vem à mente. Afinal, qual será o título da obra? Também me pego a pensar nesse braço esquerdo astutamente preso ao suporte do caminhão (ele deve ter prática no desporto radical) e na disponibilidade quase absoluta das duas mãos para o manejo do livro — como qualquer bom leitor também irá reparar, admirado.

É gente que aproveita qualquer brecha no cronograma para ler mais um trecho de um romance policial, nem que, para isso, tenha que o fazer dirigindo, com o livro sobre o volante. Ou enquanto pratica a equitação.

Pesquisando por aí, encontrei relatos de gente que lê enquanto passeia de bicicleta ou toca órgão na igreja — esta última, aliás, é uma ocorrência comum, já que os músicos são obrigados a escutar várias vezes o mesmo sermão nas missas e correm o risco de cochilar bem em cima do instrumento. Devo confessar que já levei um livro de bolso para ler num show de rock, enquanto a banda de abertura tocava, e se não me engano era um Dostoiévski (mas também podia ser um gibi do Cebolinha).

Nesses termos, ninguém supera a minha mãe, que leu um romance inteiro nas arquibancadas de um estádio de futebol. Foi num Juventus vs. Joinville, na rua Javari, pela Taça São Paulo de Futebol Junior de 1986. Os gols foram de Camus (contra), Duras e Dumas (de barriga).

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Cheirando livros

Por Vanessa Barbara


(Rachael Morrison em foto de Michael Schmelling)

Em 2010, a norte-americana Rachael Morrison arrumou um emprego como bibliotecária-assistente do MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York. Tomada por um irrefreável ímpeto artístico, resolveu aproveitar seu horário de almoço para dedicar-se à performance “Smelling the Books” (Cheirando os livros), que consistia em cheirar todos os volumes da biblioteca.

A peripécia teve início com o primeiro livro da primeira prateleira, conforme a classificação oficial: o AC5.S4, Sermons by artists, e irá terminar com o número ZN3.R45, Bibliography of the history of art. Há 300 mil volumes ao todo e, até o presente momento, ela só cafungou 300. “É uma ideia corajosa”, declarou David Senior, bibliógrafo do MoMA, “pois alguns dos nossos livros cheiram muito mal.”

Rachael tem o cuidado de discriminar cada fragrância num caderno de registros, anotando o número, o título da obra e uma descrição de seu olor. O objetivo dessa exploração farejadora é suscitar uma discussão sobre o futuro da mídia impressa e a relação do olfato com a memória.

Em suas anotações, o livro Collected papers on museum preparation and installation, de 1927, foi imortalizado com uma só frase: “cheiro de sovaco”. Outro volume, de 1967, American folk art in the collection of the Newark Museum, possui “um cheiro nojento de cocô de cachorro”. The civic value of museums evoca o odor de fumaça de cigarro e de chá, e An experiment in museum instruction tem cheiro de chuva de verão e papel velho. Outros aromas catalogados são o de “abraçar a vovó com sua blusa de lã”, o de cola, urina, talco, sótão, fogueira, parte de baixo do sofá, móveis de madeira, cabelo, esmalte, fritura, cera de chão, protetor solar, meia suja e “nenhum”.

Procurada pela reportagem deste blog, Rachael diz que ainda não chegou a conclusões definitivas, mas que, curiosamente, entre os cheiros mais populares estariam o de flores, sovaco, barro e tomilho.

Diz-se que os livros mais antigos têm um peculiar aroma de baunilha devido a um polímero orgânico presente na madeira, a lignina – similar à vanilina. De acordo com o manual Perfumes: um guia de A a Z, de Luca Turin e Tania Sanchez (inédito no Brasil), a lignina é uma substância presente nas árvores, que serve para unir as fibras da celulose à parede vegetal e aumentar sua rigidez, impermeabilidade e resistência. Altamente volátil, o composto seria exalado pelo papel com o passar do tempo e, por ser muito ácido, também o acabaria amarelando e acelerando sua decomposição.

Essa hipótese se aplicaria somente aos papéis provenientes de pastas de madeira mecânica (“groundwood”), processo que emitiria fragrâncias de vanilina, anisol e benzaldeído. Por outro lado, os compostos resinosos derivados de terpeno (mais impermeáveis à tinta) resultariam em fedores mais canforados, gordurentos e amadeirados. Um cheiro de cogumelos estaria associado a álcoois alifáticos bem fortes, e não estou inventando. Os cientistas também consideram que a presença de 2-etil-hexanol pode gerar emulsões levemente florais e que a combinação de etilbenzeno e tolueno dá em aromas mais adocicados.

Do que se conclui, portanto, que o cheiro dos livros se deve aos compostos voláteis emitidos pelos diferentes materiais de que são fabricados, e que não existe um cheiro específico de “livro velho”. Mais de cem compostos diferentes já foram identificados no papel, entre ácidos, aldeídos, álcoois, cetonas, alcano e terpenos. Ainda assim, na busca de uma unanimidade, pesquisadores da Universidade de Londres publicaram um artigo na revista Analytical Chemistry na qual definem o cheiro de livro velho como sendo “uma combinação de notas campestres com um buquê de ácidos e um toque de baunilha sobre uma base de bolor”.

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Segundo enquete no site da Folha de S. Paulo, 81% dos brasileiros gostam de cheirar livros. O hábito é compartilhado até pela presidenta Dilma Rousseff, que, em entrevista à apresentadora Ana Maria Braga, declarou que não basta ler – “tem de pegar o livro, dar uma cheiradinha… Aquele cheiro da página nova”.

O aroma dos livros recém-impressos é de ordem bastante diversa daquela dos antigos e abaunilhados – tem mais a ver com a tinta e a cola do que com o papel. Diante de um exemplar recém-saído da gráfica e trazido pra casa, a primeira coisa que meu pai faz tradicionalmente é abrir o volume, afastar os óculos de leitura e dar uma boa fungada. É esse seu primeiro passo para julgar a qualidade de uma determinada obra – quanto mais fresca, mais promissora. Meu pai é um defensor das vanguardas.

Gordurento ou abaunilhado, empoeirado ou levemente tóxico, há que se valorizar o chorume olfativo dos livros, mas sem protestar contra a ameaça inodora dos e-books. Para combatê-la, é fácil: basta adquirir uma lata de “Cheiro de Livro Novo”, um spray que custa 29 dólares e é compatível com todos os leitores no mercado (menos o Zune). Embora obviamente não exista, o produto vem em sabores variados, como “Mofo Clássico”, “Cheiro de Gato” e “Bacon Crocante”.

Para quem prefere algo mais leve, é possível adquirir uma vela perfumada com o cheiro do New York Times, desenvolvida pelo artista plástico Tobias Wong e vendida por 65 dólares. A vela tem toques de “madeira de guaiaco, cedro e almíscar”, trazendo à memória o aroma “empoeirado e aveludado” do jornal impresso.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Insalubridade literária

Por Vanessa Barbara

Chega o momento em que é preciso sentar e dizer grandes verdades, e aqui vai uma delas: antes de trabalhar como preparadora de originais para a Companhia das Letras, nos longínquos idos de 2004, fui revisora de um site de fofocas de celebridades.

É dessas coisas que fazemos por necessidade — o salário era bom, eu não tinha outra alternativa, queria juntar dinheiro para viajar e, acima de tudo, podia trabalhar em casa e tirar cochilos durante o expediente. Também me era permitido lavar o cabelo na pia enquanto revisava uma notícia qualquer sobre uma atriz que tirou meleca do nariz em horário nobre.

Tudo isso me serviu para fortalecer o espírito diante das adversidades, além de ser um bom exercício de transcendência da concretude existencial — como fazem os prisioneiros de guerra que inventam um outro mundo para poder suportar o verdadeiro. O estômago e a boa-fé literária necessários para lidar com uma notícia absolutamente sem interesse, corrigindo toneladas de erros gramaticais e reescrevendo frases inteiras sem concordância em poucos minutos, “antes que o Gugu carregue a notícia para ler no ar”, tudo isso moldou o meu caráter e me preparou para o glamoroso mundo editorial.

São de minha lavra, é claro, manchetes como “Nicole Kidman é salva por garçom astuto”, “Covinha de Ricky Martin faz sucesso na Alemanha”, “Peças íntimas de Michael Jackson são usadas pela polícia” e “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez”.

Sobre a polêmica manchete “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional”, confesso que devo ter enriquecido a narrativa com uma declaração do próprio assim traduzida: “Meus dedões, acho-os desproporcionais”. Na entrevista, o cantor revela toda a sua insegurança podal a uma apresentadora cada vez mais constrangida, numa cena que infelizmente só se passou na minha cabeça. Na sequência, Iglesias questiona a proporção áurea do corpo humano, conforme concepção difundida pelos gregos, indagando à plateia se os seus pés deveriam ter mesmo um terço do tamanho do antebraço menos dois.

Outras notícias não passavam daquilo a que se propunham nos títulos, como “Léo Áquilla faz alongamento nos cabelos”, e, portanto, eu apelava para os advérbios, mesóclises, sujeitos ocultos e adjuntos adnominais, na tênue esperança de que o leitor pudesse ao menos sair dali com a vaga impressão de ter lido alguma coisa escrita pelo Olavo Bilac.

Mas não aguentei muitos meses, pois precisaria de um bônus adicional de insalubridade, redução das horas semanais de labuta e férias trimestrais em praias desertas para poder resetar o cérebro depois de tamanha exposição ao maligno. No campo das sequelas de trabalho, além da chamada Lesão por Tortura Repetitiva, sofro até hoje de estresse pós-traumático de Páscoa, que foi quando as celebridades de todas as novelas, peças globais e reality shows deram entrevistas dizendo com quem iam passar o feriado, quantos chocolates iriam deglutir e o número exato de coelhinhos alvos que pretendiam oferecer para a imolação em um sacrifício pagão patrocinado pelo site.

Também me lembro de acompanhar toda a primeira infância da princesa Sasha, o surto filantrópico dos assessores de imprensa da Karina Bacchi e de acordar todos os dias com uma “pérola de otimismo” para revisar — pensando, evidentemente, em como são felizes os que não nasceram.

Pouco antes de pedir demissão por esgotamento mental, fiz questão de redigir minha própria notícia de despedida com base num release qualquer. Ficou assim:

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Moscas gigantes roem celebridades em coquetel de lançamento

Na última sexta-feira, dia 19, personalidades globais reuniram-se para abrilhantar o coquetel de lançamento do longa-metragem Desta vez não será ridículo, estrelado por grandes artistas do cinema tupiniquim. Estiveram presentes os novos-ricos Fifi Guimarães, Otavinho “Dudu” Mascarenhas, Carol Ann Figueiredo e Posêidon (novo nome de Patti Vasconcellos, segundo aconselhamento do numerologista/quiroprata da família).

Na festa, famosos e emergentes divertiram-se a valer na maior piscina de bolinhas da América Latina e garantiram que, desta vez, não será ridículo. “Não será ridículo”, declarou Fifi, ofuscando os fotógrafos com seu mais recente branqueamento dental. O destaque do evento ficou para a pequena Apnéia, filha de Regininha Ula-Ula e Otavinho “Dudu” Mascarenhas (ou Juju Marcondes, ou ambos). A adocicada criança dançou ao som do hit “Intestino grosso” e lançou uma torta-merengue de limão na testa do autor da novela E eu com isso, para delírio dos fãs. Outro momento de comoção e espiritualidade ocorreu quando a modelo-atriz-jornalista-e-escritora Tata Lombardi engoliu uma bolinha e teve de ser socorrida às pressas pelo galã Neco Astolf III, que interpreta um paramédico na novela das oito.

Quando o final da festa já se aproximava e o sr. Palhares, da manutenção, começava a empilhar cadeiras e varrer o pé das celebridades, os atores tiveram uma grande ideia — decidiram se abraçar e cantar, em uníssono, o hino da Guiné-Bissau. Os jornalistas se alvoroçaram e choraram copiosamente, acotovelando-se com afeto. Na saída, todos ganharam lembrancinhas de marzipã confeccionadas pela estilista-top-produtora-atriz-e-acompanhante-de-idosos Alicinha Gomide, que vestia um modelito superdecotado nas cores verde, verde-musgo e verde-calção.

Só então as celebridades foram brutalmente atacadas por um enxame de moscas mutantes, pegajosas e autolimpantes — que só queriam a garantia de que não fosse, mais uma vez, ridículo.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Gatsby, o livro mais triste do mundo

Por Vanessa Barbara

[Leia A cartografia de O grande Gatsby, com um mapa da área onde se passa a história, e Gatsby no cinema, sobre as adaptações do livro.]

[Atenção: este texto contém spoilers.]

Comecei a traduzir O grande Gatsby em janeiro e, ao final da empreitada, quatro meses depois, havia um cadáver num colchão inflável, descrevendo círculos na piscina. Meu casamento chegara ao fim e, como Nick Carraway, eu estava de volta ao Oeste para limpar a sujeira que os outros deixaram pra trás — no funeral, apareceu apenas um homem com os Olhos de Coruja, e choveu bastante.

Foram cinco meses de perplexidade e angústia, ainda mais porque eu não lembrava o que acontecia no final e ia seguindo, página a página, pensando “isso não vai dar certo”, e, ainda assim, virando a folha. Mesmo que a tragédia tenha sido suficientemente anunciada, eu insistia em decifrá-la, detendo-me em parágrafos misteriosos como os do final do capítulo 2 e procurando obter maior clareza, ainda que doesse.

O grande Gatsby fala de um novo-rico que compra uma mansão à beira da baía, em West Egg, e passa a promover festas extravagantes para reconquistar um grande amor do passado, Daisy, casada com um sujeito hipócrita e arrogante chamado Tom Buchanan. O narrador é Nick Carraway, primo de Daisy, que também mora do lado pobre da baía (East Egg é onde vivem os ricos). Tom mantém um apartamento em Nova York onde costuma se encontrar com a amante, sem o menor pudor, e durante aquele fatídico verão Daisy acaba engatando um romance com Gatsby.

Há duas cenas que ilustram à perfeição o que Gatsby significou pra mim nesses quatro meses: de um lado, o incidente com a roda do automóvel, no final do capítulo 3, e de outro, o último encontro entre o narrador e Tom Buchanan, no fim do livro.

O incidente da roda fecha magistralmente a descrição de uma festa no jardim da mansão de Jay Gatsby, onde se passava a noite toda dançando, brigando e se embebedando. Quase ninguém era efetivamente convidado, poucos conheciam o anfitrião e havia uma cantora alta e ruiva, integrante de um famoso coro, que “bebera grandes quantidades de champanhe e se convencera inoportunamente, no decorrer da canção, de que tudo era muito triste — de modo que não estava só cantando, mas também chorando”. Quando alguém lhe faz uma piada, ela lança as mãos ao céu, afunda na cadeira e cai num sono etílico.

Ao final da festa, o narrador deixa a mansão e vê um carro caído numa vala, provavelmente saído da garagem há não menos de dois minutos. Completamente embriagado, o motorista sai dos escombros e pergunta o que houve.

“Meia dúzia de dedos apontaram em direção à roda amputada. Ele a encarou por um instante e então olhou para cima, como se suspeitasse que tivesse caído do céu.

[…] Então, tomando um longo fôlego e endireitando os ombros, ele comentou:

— Será que alguém aí sabe informar onde tem um posto de gasolina?

Pelo menos uma dúzia de homens, alguns quase tão bêbados quanto ele, lhe explicaram que roda e automóvel não mais se encontravam unidos por um elo físico.

— Para trás — ele sugeriu, depois de uma pausa. — Vamos dar marcha a ré.

— Mas falta uma roda!

Ele hesitou.

— Não custa tentar.”

Os trechos sobre a festa são impagáveis e me fazem lembrar uma piada do cineasta Woody Allen: “Francis Scott e Zelda Fitzgerald voltaram pra casa, após uma tresloucada festa de réveillon. Era abril.”

São passagens engraçadas e ao mesmo tempo melancólicas, que trazem à tona personagens como Klipspringer, tão assíduo das festas que era conhecido como “o hóspede” — duvidava-se que tivesse outra residência — e que, no final, ressurge apenas para pedir seus tênis de volta. As noites ofuscantes e barulhentas no jardim de Gatsby prenunciam a frieza que estava por vir.

Toda a dissimulação e desprezo tem seu ápice na cena mais sufocante do livro, dentro de um quarto no Plaza Hotel, quando Tom resolve humilhar Gatsby e passar a limpo a traição da esposa. Brutalmente, manda-os voltar no mesmo carro.

Na volta, Daisy atropela a amante de Tom e é Gatsby quem assume a culpa. Tudo termina em sangue e tragédia, menos para os Buchanan, que se mudam para outro lugar e seguem suas vidas como se nada tivesse acontecido.

O que nos leva àquela que, ao meu ver, é a principal cena do livro: Nick está andando pela Quinta Avenida, meses após o incidente, e encontra Tom. Hesita em cumprimentá-lo (“você sabe o que penso de você”).

Nesse trecho, muitos críticos falam da moralidade oscilante do narrador, que, no fim das contas, acaba apertando a mão de Tom, de certo modo compactuando com toda a sujeira e indiferença que vira até então: um marido negligente que trai publicamente a esposa, uma esposa avoada que sai impune de um homicídio culposo, uma vítima desiludida boiando num colchão inflável. A certa altura, Nick admite que Gatsby “vale mais do que todos eles juntos”, embora seja tarde demais para dizê-lo, e a despeito de o próprio Gatsby não ser uma pessoa tão admirável quanto o narrador faz pensar.

Ninguém sai impune desse romance duro e sem concessões — talvez apenas o Homem de Olhos de Coruja, que, bêbado há mais de uma semana, tem um insight sobre Gatsby, comparando-o a uma biblioteca de encadernações verdadeiras, mas que nunca foram lidas.

Lembrando o dia em que a filha nasceu, Daisy confidencia ao primo: “Não fazia nem uma hora que ela tinha nascido e Tom estava sabe Deus onde. Acordei do éter com um sentimento de completo abandono e perguntei à enfermeira se era menino ou menina. Ela me disse que era menina, e então eu virei a cabeça e chorei. ‘Que bom que é uma menina. […] Espero que ela seja uma grande tonta: é o melhor que uma garota pode ser neste mundo, uma belíssima tonta’”.

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Daisy e Tom pertencem a uma “irmandade secreta muito distinta” a quem tudo é permitido, e a quem basta fingir que nada aconteceu para que de fato nada tenha ocorrido. O romance inteiro é calcado em “acidentes”: o atropelamento fatal, os motoristas imprudentes, o namoro de Daisy com alguém de classe inferior, o esbarrão no trem entre Tom e a amante, que leva ao prolongado adultério. É como se os erros e descuidos das pessoas pudessem ser tomados como acidentes, como negligências inconsequentes sem qualquer implicação mais séria. “É como se Nick [o narrador] tivesse que se defrontar com um universo inteiro de casualidade. Desimportante. Insignificante”, diz Tony Tanner, na introdução desta edição. “Num mundo dominado pelos Buchanan, a pura contingência reina absoluta, ameaçadora e grotesca.”

O próprio narrador pondera:

“Eu nunca seria capaz de perdoá-lo ou de gostar dele, mas vi que seus atos eram, a seus olhos, inteiramente justificáveis. Tudo decorrera de forma descuidada e confusa. Eles eram todos descuidados e confusos. Eram descuidados, Tom e Daisy — esmagavam coisas e criaturas e depois se protegiam por trás da riqueza ou de sua vasta falta de consideração, ou o que quer que os mantivesse juntos, e deixavam os outros limparem a bagunça que eles haviam feito…”

Na madrugada após o atropelamento, Nick espia pela cortina da cozinha e vê o casal conversando — não exatamente felizes, mas não de todo tristes. “Havia um clima inequívoco de intimidade natural naquela cena, e qualquer um poderia jurar que estavam conspirando.”

E estavam. Depois do almoço, os Buchanan já tinham partido sem avisar ninguém, e, antes do fim do ano, Tom caminhava pela rua com naturalidade, parando para olhar a vitrine de uma joalheria — talvez em busca de um presente para a nova amante. “O que vocês queriam? O que esperavam?”, diria o Homem de Olhos de Coruja, com sua sabedoria bêbada.

Para que o caso pudesse permanecer o mais simples possível, ninguém tomou a responsabilidade para si, apressando-se em atribuir o crime a um homem “louco de tristeza”. E ficou por isso mesmo. A indiferença é tamanha que, quando Tom percebe a hesitação de Nick em cumprimentá-lo, reage de forma indignada: “Você está louco, Nick. […] Não sei qual o seu problema”.

“Apertei a mão de Tom; me pareceu tolo não fazê-lo, pois tive a súbita impressão de que estava lidando com uma criança. Então ele entrou na joalheria para comprar um colar de pérolas — ou talvez apenas um par de abotoaduras —, livre para sempre da minha sensibilidade provinciana.”

Até o último instante, Gatsby esperava o telefonema de Daisy. E é assim que, ao final do romance, temos um cadáver boiando à deriva num colchão inflável, e uma tradutora que abraçou o livro por acidente — justo este livro — e até hoje não sabe ao certo se o automóvel que a atropelou era verde-claro ou amarelo.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.