Da casa

Ferreira Gullar conta como escreveu “Poema sujo”

Publicado originalmente em 1976, Poema sujo transformou a paisagem da poesia brasileira com sua torrente arrebatadora de versos, expressão máxima de uma subjetividade convulsa pela atmosfera sufocante da ditadura. Neste vídeo, Ferreira Gullar conta como criou o poema, escrito enquanto estava exilado na Argentina.

“Sentia-me dentro de um cerco que se fechava. Decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre.”

Escrever sem passar recibo

Por Maria Clara Drummond

10330868556_184b9caec1

Perguntar o que existe de biográfico num romance é um pouco bobo, afinal, toda ficção tende a ser, ao menos em última medida, uma autobiografia. A pessoa escreve sobre o que sabe, pelo que viveu, leu e sentiu.

Não raro, a gênese de uma criação se encontra num trauma, e às vezes esse trauma é criado a partir de um relacionamento fracassado (amoroso, familiar, afetivo). Neste caso, existem algumas questões a serem consideradas. É ético expor outra pessoa, à sua revelia e sem direito de resposta proporcional, em um romance? E também: quando estamos imbuídos de um sentimento de mágoa, com a visão obnubilada pelo rancor, estamos nas condições literárias ideais para analisar de maneira precisa essas vivências?

No livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, Marco Polo diz que não fala sobre sua cidade natal, Veneza, porque limitar a paisagem de sua infância a palavras seria “cancelar as margens da memória”. Com experiências traumáticas as palavras servem como filtro purificador. Mas a escrita não pode se resumir a catarse com intuitos terapêuticos. Inclusive, acho que não é eficaz o desabafo sem que haja uma preocupação em moldá-lo a uma forma em que ele adquira sentido fora da experiência pessoal. A forma ajuda a ressignificar o sofrimento e transportá-lo para o campo do universal. Aí ele transfere para o leitor, que passa a enxergar sentido em algo inicialmente tão subjetivo.

Digito uma frase num romance e logo vêm dois impulsos distintos: avaliar se está literariamente interessante ou se é apenas para satisfazer instintos de vingança. Nesses momentos, lembro de um documentário produzido pela BBC sobre Sophie Calle, a grande mestre da VigançArt. Repetir como um mantra: “Obras aparentemente íntimas, porém frias e objetivas”. Sou capaz de atingir algo ao menos similar na linguagem do romance? Mais importante: é isso que busco em meu trabalho?

Outro problema é que, ao pincelar o antagonista da vida real com as características ruins que só hoje atribui a ele, é provável que o resultado final denuncie mais os defeitos do próprio autor\narrador que do “vilão”.  Na lindíssima frase de Anaïs Nin: “Não vemos as coisas como são; vemos as coisas como somos”.

“Hoje eu o vejo como um estranho”. Essa frase é comum em rompimentos com pessoas muito íntimas, e carrega nela uma atmosfera que lembra o enredo de O médico e o monstro. O antes e o depois são duas narrativas opostas que convivem na mesma pessoa. Quem se confiou a vida inteira torna-se, da noite para o dia, alguém com toques de perversidade. Como não se perguntar onde estavam essas características cruéis durante os anos de convivência?

Logo após uma discussão com uma amiga, mostrei ao meu analista as cartas que ela me enviou ao longo de mais de dez anos, com declarações de admiração, amor e amizade, criadas em linguagem wannabe Clarice Lispector. Ele sugeriu aproveitá-las no romance que estou escrevendo. Seria um respiro cômico ao livro — ele deu muitas risadas quando mostrei algumas durante a sessão, como a última que recebi, que era um artigo de Luis Felipe Pondé acompanhado da frase: “Para uma terça chuvosa, palavras que fazem a alma sorrir”.

Não à toa, uma das suas palavras de ordem foi: “Esquece as cartas que te escrevi!”. O tom melodramático deu ares de rivalidade anti-feminista anos oitenta, gabando-se de suas conquistas numa performance de ostentação que entendi como um “orgasmo da vaidade”. A vaidade é uma autoestima feita de ar, um falso empoderamento, que precisa de constante confirmação externa de suas qualidades. A rivalidade, então, é o mecanismo perfeito para essa confirmação externa, mesmo que efêmera ou ilusória.

Reflito sobre essas questões ao tentar escrever um romance sobre o tsunami psíquico que durou um ano e meio de minha vida, contrapondo a extensa troca por escrito, as memórias, as análises posteriores. Catarse, perdão, distanciamento emocional; a dor como agente criador e de transformação e não de aprisionamento. A tentativa de usar uma matéria prima crua a serviço de um projeto literário, e não trair esse propósito na tentação de passar um recado barato. Releio estes conselhos que dou a mim mesma até introjetados por completo, o perdão ou o foda-se; o que vier primeiro.

* * * * *

Maria Clara Drummond nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, e é jornalista. Em 2013 publicou seu romance de estreia, A festa é minha e eu choro se quiser (Guarda-Chuva) e em 2015 lançou A realidade devia ser proibida pela Companhia das Letras .

Carta a Mia Couto

Por Julián Fuks

miajulian

Foto: Fabio Uehara

No dia 28 de setembro, Mia Couto esteve no Brasil para lançar Sombras da água, segundo livro da trilogia As Areias do Imperador. Comemorando também os 30 anos da Companhia das Letras, o autor participou de um encontro em São Paulo que reuniu o escritor Julián Fuks e as cantoras Fabiana Cozza e Lenna Bahule. Entre leituras de trechos do livro e música, Mia Couto e Julián Fuks conversaram sobre as obras do autor moçambicano e também sobre sua parceria no Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, um projeto em que artistas de renome orientam novos nomes da literatura, música, cinema, teatro e outras áreas. Nesse encontro, Julián leu uma carta ao seu mentor, que você pode conferir agora aqui no blog.

* * *

Estimado Mia,

Tudo poderia começar com um olá. Com um amplo meneio da mão eu fingiria estar abrindo as portas de todo um país, lhe daria cálidas boas-vindas, o acolheria com carinho como se entre milhares estivéssemos em família. Tudo poderia começar com um olá, mas não começa. Você ensina que tudo começa sempre com um adeus, e eu entendo que posso prescindir das formalidades, que as palavras têm que fugir desses agrados óbvios demais — e se fazer mais diretas, mais precisas, mais essenciais.

Escrever pode ser tão vital, você diz, que deixemos de sentir toda dor. Escrever é o gesto que se tece no vazio das mãos, que preenche de vazio o vazio, e que ainda assim nos assombra ao criar algo real, ao gestar algo maior. Na sombra das mãos sobre a folha branca parece que algumas palavras se antecipam. É pelas sombras das mãos que lhe digo quanto me alcança a dor através dos seus livros, quanto a dor se faz canoa que transpõe distâncias, que atravessa o largo rio que nos divide.

O meu ceticismo você já conhece, minha desconfiança de todo ímpeto ficcional, meu apego insistente ao mundo tangível. Preciso confessar, porém, que enquanto lia o seu livro me desertavam as precárias certezas, tremia o chão que nunca chegara a ser firme. A dor de Germano eu não sei se existiu, Imani talvez não seja mais que o sangue esquecido de uma mulher negra, o sangue convertido em tinta, e no entanto quão presentes se fizeram esses dois em meu mundo, quanto ainda agora me tangenciam.

Ninguém é uma pessoa se não for toda a humanidade, você diz, ou disse algum velho sábio de Nkokolani. Leio essa frase e me livro de todos os meus receios, me dispo dos meus pudores, me permito afirmar que uma verdade imensa se estampa aí. Imani é toda a humanidade, Germano é toda a humanidade, e é por eles que algo em mim se renova, é com eles que eu me faço mais humano. Têm esses seres, tão distantes no tempo e no espaço, um incrível poder evocatório: seus corpos são feitos de outro barro, outro é o século em que pairam suas vozes, mas quanto não guardam da nossa terra, dos nossos corpos. Não há sombra que não oculte outra sombra, você diz, e eu pergunto, já intuindo a resposta, se seremos nós as sombras ocultas em seus personagens, se eles existem para nos devolver a nossa humanidade.

Alguma vez você me contou, e isso eu não esqueceria, do seu primeiro encontro com Samora, o grande líder da independência moçambicana. Você era ainda muito jovem, imberbe, é provável, em seus olhos ainda não transbordavam tantas águas, e talvez por isso você não tenha sabido lhe oferecer as devidas respostas. Quem se lembra de alguma canção de infância?, perguntou Samora para silêncio geral. Quem se lembra de alguma história de infância?, insistiu para a sua estupefação. Pobre é quem não tem histórias — você disse que Samora arrematou –, o país que não tem histórias está condenado à morte.

Eu ouço essa história e me indago se Samora sabia, se intuía quem era o jovem que tinha diante de si. Depois percebo que isso não importa, que basta que você mesmo o soubesse, ou, menos ainda, basta que tenha se incumbido de recontar as muitas histórias de um povo tão rico, as muitas trajetórias a conformar uma única: a história de Moçambique. Depois me ponho ainda mais circunspeto e me pergunto quem um dia contará a história do meu país, desta ampla família que o recebe, quem percorrerá com as sombras das mãos as nossas cicatrizes. Não me refiro à história de qualquer tempo: hoje me permito indagar como será a narrativa deste presente que tanto nos inquieta, deste tempo de tantos golpes e ardis que nos afligem.

Mas isso já não lhe cabe responder, bem sei. A você talvez caiba perguntar se deve o escritor se ocupar do presente, e se é isso o que se alcança ao minuciar as infinitas dores de um tempo pretérito. É assim que podemos chegar a nos compreender, reescrevendo as muitas histórias ocultas debaixo da história oficial? Aqueles mortos cujas vozes você não deixou enterrar, aqueles mortos somos nós?

Tudo poderia terminar com uma palavra de admiração, apenas. Mas nada nunca termina: as palavras são muito imperfeitas; mesmo quando feitas para o adeus, só sabem ser um começo.

Julián

* * *

Veja o vídeo completo do encontro com Mia Couto em São Paulo.

* * * * *

Julián Fuks nasceu em São Paulo, em 1981. É autor de A resistência. Foi eleito pela revista Granta como um dos vinte melhores escritores brasileiros.

Tudo é narrativa: (Per)formar histórias

Por Tércia Montenegro

6216116044_bda5c35332_b

Tércia Montenegro, autora de Turismo para cegos, semifinalista do Prêmio Oceanos, escreve uma série de textos sobre outros meios narrativos, como a fotografia e a arte. Leia também o texto anterior, O lugar dos bichos.

* * *

Numa época em que as fronteiras artísticas se fazem tênues, o trabalho de Paulo Montserrat surge como um dos melhores exemplos da necessidade de categorias flexíveis para absorver uma obra. Este cearense, atualmente vivendo em residência criativa no estado de Minas Gerais, circula entre experimentos que envolvem performance, intervenção urbana, fotografia e instalações — mas o eixo de tudo é a capacidade de inspirar relatos. Nesse sentido, Montserrat considera-se um escritor conceitual, que articula ideias muito mais do que palavras.

São várias as tentativas de autodefinição deste artista, aliás. Desde que largou um burocrático emprego num banco, aos 28 anos de idade, tomou a decisão de “jamais abandonar a inquietude”. Com tendências nômades e nem um pouco interessado em visibilidade (praticamente não se conhece o seu rosto e ele não frequenta qualquer rede de socialização virtual), Montserrat afirma, na única entrevista que concedeu, meses atrás, que o seu esforço é criativo, não comercial. Ele não está interessado em vender a própria imagem, falar publicamente de si, de suas rotinas ou opiniões. O tumulto do autoconhecimento envolve somente o próprio indivíduo; o que se entrega a uma plateia é a construção ficcional.

Diante disso, convém desconfiar de suas afirmações, como quando, por exemplo, ele assume que se tornou “um atleta espiritual” e o seu grande anseio é continuar, em termos místicos, a experiência geodésica de Buckminster Fuller. Para alcançar o ponto em que poderia se caracterizar como um “surfista sufista”, Montserrat circula por inúmeros interesses: a arte é uma espécie de condensação para tudo.

Sua visibilidade começou em 2011 com o projeto “Alívio cômico” — um início de carreira que provocou reflexões, protestos e constrangimentos. Materializada através de falsos anúncios publicados num importante jornal cearense, a proposta investigava as reações do público. Conforme os leitores reagissem, telefonando para os números de celular adquiridos para esta finalidade, Montserrat fazia um “levantamento da perspicácia”, observando quantas pessoas compreenderam o ludíbrio, em oposição àquelas que acreditaram nos pseudo-anúncios. Claro que estabelecer a distinção não era fácil, sobretudo porque os textos do projeto circularam misturados aos outros, reais, na múltipla seção dos classificados. Não havia nada que os distinguisse, nenhuma letra diferente ou moldura especial. Somente a informação seria capaz de despertar a suspeita de que aquilo fosse mesmo um “alívio cômico”, em meio a avisos sobre vendas, aluguéis e profissões.

Assim, por exemplo, na seção dedicada aos profissionais, encontravam-se coisas do tipo: “PROCURA-SE ENGENHEIRO. Centro de Estudos Espaciais contrata engenheiro de crateras lunares. Deve ser poliglota e telepata”. E houve quem se candidatasse… Outro anúncio era de uma suposta desempregada oferecendo seus talentos: “Ventríloqua de peixes, com grande experiência em circo e festinhas infantis. Também realiza dublagens e faz cover da Amy Winehouse”. Várias ligações telefônicas comprovaram o desejo do mercado. Em compensação, o anúncio da massagista que se dizia “especialista em genitálias e joelhos, com larga experiência em mutilados de guerra” recebeu apenas a ligação de um estrangeiro (com forte sotaque), que perguntava se a tal moça por acaso não tinha nascido no Vietnã.

Montserrat concluiu que os anúncios de teor mórbido quase não atingem o efeito de humor, ao passo que os exóticos ou simplesmente bizarros têm alta adesão. Senão, como explicar o recorde de 32 chamadas em um único dia, para responder ao anúncio erótico de uma suposta russa que prometia: “Faço sexo oral enquanto recito Maiakósvki na língua de sinais”? Esta marca quase empatou com um anúncio de procura para “ufólogo profissional ou amador, com pelo menos três relatos comprovados de contato sideral. Abdução imediata”. Vinte e nove pessoas telefonaram, dispostas a viajar para bem longe deste nosso planeta cruel. Ganharam, ao menos, uma pausa para o espanto e a risada.

O projeto “Alívio cômico” inspirava-se — sempre conforme a entrevista mencionada — nos microrrelatos embrionários de Cortázar, um “fabular sem historiar que permite uma fuga por estados narrativos anteriores à clausura dos gêneros textuais”. Assim, seu vínculo se estabelecia com o absurdo e o aleatório, o fabuloso e o fantasmático. Este foi caminho novamente adotado em 2013, quando Montserrat concebeu a série “Mensagens do além”, realizada durante uma estada em São Paulo.

Espalhando bilhetes como pistas falsas, o artista se propôs a “injetar uma dose de ficção e verdade na existência alheia” — embora jamais se possa constatar em que medida, pois o anonimato dos destinatários foi uma premissa do projeto. Num percurso por livrarias, Paulo enfiou dentro de livros esotéricos papeizinhos contendo a frase “A cabra comeu a cobra: às vezes os fracos vencem”. Em paradas de ônibus, esqueceu envelopes com as frases: “O seu atual relacionamento não lhe convém” ou “Você precisa fazer a mudança que há tanto tempo planejou”.

Cada uma dessas performances mostra a potencialidade narrativa por trás de um simples gesto. No final de 2015, influenciado pela proposta de Miranda July, Montserrat experimentou um novo ciclo de anúncios. Mas, ao contrário da escritora, que seguiu o curso do acaso ao contatar os anunciantes de um jornal e coletar suas histórias para o livro O escolhido foi você, o cearense voltou à postura de ele mesmo criar situações extravagantes — esperando apenas, do público, uma reação bem-humorada. Na série “Procura-se”, realizada na capital mineira, foram afixadas em locais públicos fotos de pseudo-desaparecidos com o pedido desesperado de informações. O detalhe é que todas as imagens mostravam rostos de escritores famosos sob nomes falsos; houve certo tratamento na qualidade do papel, para instilar um disfarce mínimo nas fisionomias — entretanto, segundo Montserrat, cada autor estava “profundamente reconhecível”.

Devido ao alto grau de familiaridade dos rostos — conhecidos desde os livros escolares por muita gente –, ou talvez ainda por causa de um parentesco que carimbe os indivíduos com feições parecidas naquela região do país, Montserrat recolheu o impressionante resultado de 142 contatos feitos, dando conta de pessoas que identificaram Guimarães Rosa e Fernando Sabino em vizinhos, parentes distantes ou transeuntes com os quais costumavam topar num cruzamento da avenida Afonso Pena. Adélia Prado foi reconhecida como uma antiga professora por 8 pessoas, e mais três asseguraram que ela podia ser encontrada num supermercado da rua da Bahia, fazendo compras sempre aos sábados pela manhã. Paulo Mendes Campos, numa foto de juventude, foi apontado como um segurança da boate Madeireira, como um comerciante de pão de queijo na rua dos Andradas ou como o funcionário de uma corretora de imóveis.

Para os próximos anos, Montserrat promete mais incursões, (per)formando narrativas pelo país. Fiquemos atentos!

* * * * *

Tércia Montenegro é escritora e fotógrafa, autora do romance Turismo para cegos (Companhia das Letras, 2015).

Coincidência é luz

Por João Anzanello Carrascoza

3367124171_28a4be0f29_b

Já se disse que a vida é sonho ou que vivemos num estado de semi-vigília. Somos seres escuros, sim, de matéria opaca; mas por vezes um fio de luz nos atravessa a consciência: percebemos, não sem espanto, que não estamos sós, fazemos parte de uma rede de dores, sobre a qual numa corda, suspensa às alturas, nossa alegria se equilibra.

Essa luz que, de súbito, se acende — e logo se apaga — pode surgir de várias maneiras. O resultado da fricção entre uma cena impossível e o seu real acontecimento contra todas as probabilidades matemáticas é uma delas: “coincidência” é o nome que lhe damos.

Muitas são as coincidências de superfície, comuns no dia a dia, como os encontros imprevistos, mas há também coincidências subterrâneas, poderosas, capazes de sacudir nossa desatenção, como se estivéssemos na vida às avessas, na condição de forro, quando na verdade somos o lado externo da roupa.

Foram essas luzes, surpreendentes, que me levaram a escrever o Diário das coincidências. Agora que a obra nasceu, senti o desejo de partilhar neste espaço um pouco do mistério que me perpassou ao longo de suas páginas. No livro, eu agrupo relatos de coincidências subterrâneas que se deram comigo, e, quando estava por terminá-lo, o editor Marcelo Ferroni sugeriu que o expandíssemos, buscando a contribuição do público.

Fizemos então um site, convidamos as pessoas a enviarem suas histórias de coincidências e nos comprometemos a selecionar e reescrever as mais expressivas, fazendo sua transfusão para o corpo e o espírito da obra.

Escolhemos seis histórias das dezenas que nos foram enviadas — e quando pensei que integrá-las ao “diário” seria como mover malabares, luzes inesperadas me guiaram à escrita. Um exemplo: sempre sonhei em escrever um texto inspirado na pergunta do poeta Coleridge, evocada por Borges no Livro dos sonhos: “Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão?” Pois a história enviada por Amanda Alves de Souza me deu essa flor, para coincidir com meu sonho. Claro, tenho de evitar spoilers. Quem ler o livro, melhor entenderá.

O mesmo se deu com as demais histórias — além de narrar coincidências subterrâneas, traziam em seu bojo, invisíveis, germes de outras que inexplicavelmente só brotaram quando comecei a recontá-las.

No momento em que me pus a escrever este texto, mais uma coincidência ocorreu, esta de natureza literária, e de superfície, mas a ponto de me dar as palavras exatas para atingir o limite destes quatro mil caracteres: caiu-me na mão, sem querer (sem querer?), o conto Uns braços, de Machado de Assis. Nele, Inácio, um rapaz, “descobre” os lindos braços de dona Severina, esposa de seu patrão, e por ela se apaixona. A mulher, aos poucos e às furtivas, também se interessa pelo jovem. Um dia, adormecido na rede, Inácio sonha que dona Severina vem até ele e o beija. No conto, de fato, ela assim o fez. Pela vida afora, Inácio iria dizer a si mesmo que, apesar de parecer tão real, aquele episódio não passara de um sonho… Jamais desconfiou que estava enganado.

A realidade me envolveu em muitas histórias como esta de Machado de Assis. Não sei se, narrando-as no Diário das coincidências, fui mais fundo no estado de semi-sonolência em que vivemos ou se acordei. Quem sabe você, leitor, com a sua luz, possa me dizer.

* * *

diario_das_coincidenciasDIÁRIO DAS COINCIDÊNCIAS
Sinopse: Todo mundo tem uma coincidência para contar. Seja uma pequena troca de olhares entre desconhecidos que se reconhecem de passagem ou um nome que teima em aparecer no seu caminho. Este livro é permeado por esses tipos de coincidências. As histórias, vividas por um personagem que, por vezes, confunde-se com o próprio autor, vão sendo contadas em meio a pequenos momentos carregados de significado. Com delicadeza e maestria, Diário das coincidências tece uma trama de pequenas histórias, em que o leitor, ao puxar um fio, vai descobrindo conexões e desvendando a beleza do dia a dia. Este breve diário expõe a leveza do destino e concede uma chave de leitura para o inexplicável cotidiano.

 

* * * * *

João Anzanello Carrascoza nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Cravinhos, em 1962. Mudou-se para a capital, onde estudou publicidade e propaganda, e começou a publicar seus primeiros escritos em jornais e revistas. Lançou em 2016 o livro Diário das coincidências pela Alfaguara.