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Companhia apresenta: Meu querido Vlado, de Paulo Markun

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No dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, de 38 anos, foi encontrado morto numa cela do DOI-Codi, após ter sido preso e torturado. Os militares disseram que ele havia se suicidado, mas a sociedade não aceitou a farsa e realizou um grande protesto na catedral da Sé. O episódio se transformou em um marco da luta contra a ditadura militar. O jornalista Paulo Markun, que trabalhava com Vlado na TV Cultura e, a exemplo dele, militava no clandestino Partido Comunista, também fora preso com sua então mulher, Dilea Frate, no DOI-Codi, onde ambos foram torturados. Transcorridos quarenta anos da morte do colega, Markun lança pela Editora Objetiva uma versão revista e ampliada de seu Meu querido Vlado: A história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração. No livro, ele reconstitui a trajetória pessoal e profissional do jornalista a partir de sua própria história.

Conversamos com Markun sobre a nova edição do livro e sobre a importância de recontar este momento da história que chocou o país. Meu querido Vlado será lançado hoje, dia 20 de outubro, em São Paulo, a partir das 18h30 no Teatro Tuca.

Qual a importância de revisitar a história de Vladimir Herzog nos dias de hoje? A primeira edição do livro foi lançada em 2005, nos trinta anos da morte de Vlado. E agora é lançada uma nova edição, nos quarenta anos da morte. O que mudou nesses dez anos?

Mudou, principalmente, o público. As novas gerações têm enorme curiosidade sobre o nosso passado, mas pouca informação, apesar de tudo. Considero que relembrar o caso Herzog e sua repercussão na luta contra a ditadura é um serviço que deve ser prestado. Vivemos numa democracia, mas ainda tem gente que não sabe a diferença essencial e elementar entre esse sistema político e uma ditadura.

Em que medida a Comissão da Verdade contribuiu para a elucidação do caso de Vlado e de outros mortos e desaparecidos na ditadura militar? Que avanços foram conquistados nesses dez anos? O que ainda falta para suprir as lacunas desse período histórico?

A Comissão da Verdade trombou com a dura realidade de forças que apagaram parte do passado. Muitas iniciativas destinadas a trazer à luz o que aconteceu durante a ditadura fracassaram. A Comissão conseguiu provar que havia uma cadeia de comando, apontou centros de tortura, mas não avançou muito mais do que isso. Infelizmente, aqueles que guardaram pedaços dessa história, por terem dela participado ou para garantir seu futuro, nada ou muito pouco cooperaram. No caso da morte de Herzog nada mais há a esclarecer sobre o fato de que ele foi assassinado sob tortura, depois de ter se apresentado num sábado de outubro de 1975, para prestar depoimento, no DOI-Codi do II Exército. Mas quem o assassinou e como o fez não sabemos com exatidão, embora os indícios sejam muito fortes na direção de um determinado torturador.

Um dos personagens do livro é José Maria Marin, então deputado estadual pelo partido do governo, a Arena. Ele fez intensa campanha contra Vladimir Herzog, que acabou preso, torturado e assassinado pela repressão. Hoje o mesmo Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, está preso na Suíça, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro, fraude, conspiração e extorsão. Como foi a atuação dele no período?

Marin era um político de segunda linha naquela época. Servia aos militares da linha dura como um sabujo, ao lado de outros deputados e alguns jornalistas — o mais notório foi o colunista Cláudio Marques. Eles promoveram uma intensa campanha que pretendia levar os “comunistas da TV Cultura” para a cadeia, enlamear a imagem do secretário da Cultura, José Mindlin, do governador Paulo Egydio Martins e do próprio general Ernesto Geisel, então presidente da República. Não era uma ação ingênua, idealista ou descoordenada, ela obedecia a um plano claro. A morte do Vlado e a reação da sociedade bagunçaram esse coreto. Infelizmente, o preço foi alto.

Companhia apresenta: A vida dos elfos, de Muriel Barbery

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Maria e Clara são jovens órfãs ligadas por dons secretos. A chegada de Maria traz prosperidade à granja francesa onde é criada, enquanto Clara, crescida em uma aldeia do sul da Itália, é enviada a Roma para desenvolver sua veia musical prodigiosa. Cada uma à sua maneira, elas se comunicam com um mundo misterioso, que garante profundidade e beleza à vida humana, mas, ao mesmo tempo, oferece uma ameaça grave contra a nossa espécie. Só Maria e Clara poderão combatê-la.

A vida dos elfos é o novo romance de Muriel Barbery, autora do best-seller A elegância do ouriçoNeste romance de atmosfera inesquecível, primeiro de dois volumes, a autora se aventura pela fantasia para fazer um elogio do encantamento, da poesia e da natureza. Com lançamento marcado para outubro deste ano pela Companhia das Letras, o livro é uma trama fantástica que flerta com os universos de Harry Potter e Nárnia.

Para você conhecer mais sobre o novo livro de Muriel Barbery, publicamos a seguir uma entrevista com a autora realizada durante o lançamento do romance na França (tradução de Rosa Freire d’Aguiar).

A vida dos elfos se inicia com dois contos, as histórias de Maria e de Clara. Pode-se ler o romance como um conto ou como uma parábola?

Além desses dois contos inaugurais, não creio que o próprio romance seja um conto, embora pegue certos elementos desse gênero, mas também do universo do maravilhoso, e de uma certa literatura da terra. Também não penso que seja uma parábola. No fundo, não sei o que é este texto, caberá ao leitor decidir.

Da mesma maneira, os elfos não parecem os elfos dos contos… 

Por muito tempo eu não soube se eles seriam reais ou apenas do mundo dos sonhos, e, aliás, no fim não há uma decisão clara nesse sentido. Mas eles assumiram a forma que o romance lhes dava naturalmente, a de seres conectados com a natureza e com a parte animal dos vivos, daí suas formas estranhas.

O romance é cruzado pelo tema da harmonia, sobretudo da harmonia com a natureza…

Um dos gatilhos do romance é uma frase de O livro do chá, de Kakuzô Okakura, no qual, em 1906, ele fala saudoso da China antiga, que ofereceu à arte japonesa seus mais belos artefatos. Mas ele lamenta que o mundo chinês tenha se tornado “moderno, o que equivale a dizer velho e desencantado”. Acho fascinante, de uma concisão e de uma limpidez extremas, essa caracterização do mundo moderno, apartado de seus encantamentos, e por isso mesmo de suas ilusões poéticas. E é esse mesmo encantamento, seja ele poético ou natural, o ponto de partida e o guia do romance.

Uma outra frase, ou melhor, um divisa — “Manterei sempre” — parece igualmente importante…

Sempre fiquei intrigada com essa divisa — que em sua origem era a dos Príncipes de Orange —, em razão de sua forma enigmática, quase gramaticalmente incorreta já que esperaríamos um complemento, um objeto direto. No romance, o mundo élfico, em especial, é aquele em que se tenta manter juntos os poderes da natureza e da arte. Mas neste primeiro volume da obra a divisa fica voluntariamente enigmática.

O mundo élfico será, portanto, o mundo das artes por oposição ao mundo técnico, encarnado pelo inquietante Governador?

Na verdade, a mesma linha de falha, o mesmo desencantamento e a mesma ameaça pesam sobre o mundo humano e o mundo élfico.

As flores e os jardins também ocupam um lugar privilegiado…

Sim, o espinheiro, a violeta e sobretudo as pequenas írises que encontramos no Japão, essas iris japonica que são, desde que as conheço, minha flor preferida. Outro detonador do texto de A vida dos elfos foi uma conversa com um amigo a respeito dos jardins japoneses e da concepção francesa da beleza natural. Eu dizia a ele que os jardins japoneses são élficos, ao passo que a estética francesa da natureza é humana, e um pedaço do romance nasceu no dia dessa conversa. Mas também tenho, e acho que é profundamente compatível, gosto pelos tratados e pelas enciclopédias de plantas medicinais, pelos tempos em que os homens procuravam na natureza o princípio e a temporalidade das curas e faziam as plantas e as flores falarem uma linguagem simbólica que também tem enorme poder poético.

Nesse romance você inaugura uma língua muito particular, rica e simples ao mesmo tempo… 

Essa língua veio naturalmente, à medida que eu escrevia o conto original, e foi ela que transportou o relato. Ela se tornou imediatamente atemporal, embora bastante arcaizante, de modo que não seja possível situar a época e o estilo literários, e a mesma coisa vale para a história que é contada no romance.

Essa escrita impõe também um ritmo de leitura muito particular…

Acho que se não se adere a essa escrita, não é possível entrar no relato. Escrever pela primeira vez na terceira pessoa liberou um espaço da língua e um viveiro de possibilidades narrativas inéditas. Foi uma tremenda batalha, eu retrabalhei muito o texto e várias vezes a experiência foi difícil, complicada e frustrante, mas a vivi in fine com grande júbilo.

Companhia apresenta: Mônica é daltônica?

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Em agosto, chega às livrarias o primeiro livro de um novo projeto da Companhia das Letrinhas: a publicação de histórias clássicas da Turma da Mônica, todas roteirizadas e ilustradas pelo Mauricio de Sousa nas décadas de sessenta e setenta, mas que foram muito premiadas e até hoje são lembradas. O Cascão, o Cebolinha, a Magali, a Mônica, entre outros personagens, ganharão nova roupagem nos traços de grandes ilustradores da literatura infantil. No primeiro livro, Mônica é daltônica?, a tarefa de transformar a HQ em livro ilustrado ficou nas mãos de Odilon Moraes, que conversou com a gente sobre os desafios de fazer uma releitura da dona da rua.

Também conversamos com Mauricio de Sousa sobre a importância de Mônica é daltônica? na sua trajetória. Ela foi a primeira história publicada na revista Mônica, em 1970.

Em Mônica é daltônica?, é o Zé Luís — e não o Cebolinha, acredite se quiser — que inaugura a tradição dos planos mirabolantes para tentar acabar com as temidas coelhadas da dona da rua. Será que a Mônica enxerga as cores de um jeito diferente e escondeu isso de todo mundo? O livro chega às livrarias no dia 21 de agosto e está em pré-venda.

[Saraiva] [Livraria Cultura] [Livraria Martins Fontes] [Livraria da Folha] [Cia. dos Livros] [Livraria da Travessa] [Amazon]

Companhia apresenta: A capital da vertigem

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O jornalista Roberto Pompeu de Toledo levou quatro anos para reconstituir em A capital da solidão a história de São Paulo das origens a 1900. Agora, após três anos de trabalho, ele lança A capital da vertigem, que conta a trajetória da cidade do início do século XX até 1954, quando ela completou quatrocentos anos, já na condição de maior metrópole do Brasil.

Neste panorama abrangente de São Paulo, aparecem personagens como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Di Cavalcanti, Washington Luís, Cacilda Becker, Prestes Maia, Antônio Prado, Francisco Matarazzo, Getúlio Vargas e Jânio Quadros. Da Semana de Arte Moderna de 1922 à gripe espanhola, da Revolução de 1924 à chegada do futebol, nada escapa ao olhar minucioso e revelador de Pompeu. Para você conhecer mais sobre o livro que chega agora em maio nas livrarias, o editor da Objetiva Mauro Ventura fez cinco perguntas para Roberto Pompeu de Toledo. Leia a seguir.

Por que a São Paulo deste período foi batizada por você de a capital da vertigem?

Ao crescimento vertiginoso e às ambições vertiginosas, somavam-se as ideias vertiginosas na cabeça dos intelectuais e artistas modernistas que moldaram a cultura do período. É pouco? Então vai mais uma razão: a acelerada verticalização, que a destacava entre as cidades brasileiras como candidata a uma Nova York ou Chicago do sul, provocava vertigem no sentido próprio, o da sensação ao mesmo tempo inebriante e amedrontadora de galgar às alturas. Continua pouco? Então vai outra ainda: a empreitada desafiadora e algo delirante como construir o Monumento às Bandeiras (de Victor Brecheret), que, ao longo de décadas, somou a religiosa aplicação do artista ao rude empenho de extrair, transportar e moldar toneladas de pedra. Para mim, essa obra representa o estado de espírito da São Paulo do período tanto quanto os arcos de triunfo, que na Europa celebraram desde as glórias dos imperadores em Roma até as vitórias de Napoleão Bonaparte na França. Só numa capital da vertigem, que São Paulo foi só naquele período e depois nunca mais, se gastaria tanto trabalho, tempo e dinheiro numa obra sem utilidade prática. Imaginava-se (ingenuamente, hoje se sabe) que não havia limites ao progresso e que um futuro igual ao do mundo desenvolvido estava ao alcance da mão.

O que fez São Paulo deixar a condição de vila do início do século XX, quando começa o livro, para se tornar a maior cidade do país, quando se encerra a obra?

Na verdade, a arrancada começa nos capítulos finais do livro anterior, com o cultivo em larga escala, no interior paulista, do café, matéria-prima para a bebida que se tornara a mais apreciada nos centros mais avançados do mundo. São Paulo, que além de capital da província (depois estado) estava estrategicamente colocada entre a região produtora e o porto de exportação, em Santos, beneficiou-se dessa riqueza súbita para, de forma igualmente súbita, passar de modorrenta vila do interior a dinâmico centro de negócios e de serviços e, no passo seguinte, a centro industrial.

O que mais o surpreendeu nesse mergulho na São Paulo da primeira metade do século XX? Foram muitas as descobertas?

As maiores descobertas, como sempre, estão nos detalhes — um livro como Madame Pommery —, de Hilácio Tácito, que trata da vida nos bordéis, ou melhor, “pensões de moças”, no início do século XX (e como havia pensões de moças!), ou os textos de um cronista social dos anos 1940. São preciosas colaborações à colagem que pretendi fazer sobre a vida na cidade. Pesquisei muito nas coleções dos jornais, hoje disponíveis online. Daí surgem relatos muito vivos, como é próprio dos relatos feitos ao calor da hora — mais vivos do que aparecem nos livros de história —, de eventos como o surto de gripe espanhola em 1918 e a Revolução de 1924.

Apesar do grande volume de informações, este panorama monumental da história de São Paulo de 1900 a 1954 é narrado de forma fluente. Como você fez para fugir ao academicismo?

Acho que a primeira condição para fugir do academicismo é não ser acadêmico — e eu não sou. Não sou um historiador — não tenho formação para tal. Considero-me um narrador da história. Como escritor e como jornalista, narrar direito, de forma precisa, mas atraente ao leitor, sempre foi para mim preocupação central.

Apesar de ser um livro sobre a história de São Paulo, ele não atrai o interesse só dos paulistas em geral e dos paulistanos em particular. Ele interessa a qualquer tipo de leitor, tantos são os personagens e as situações de alcance nacional. Você procurou desde o início buscar um público amplo?

Para um jornalista, mirar num público amplo é uma obrigação. Não tive esse objetivo nem antes nem depois de iniciar o trabalho. O objetivo é permanente. O fato de o livro poder interessar a um público maior que o paulista e paulistano não é mérito meu, mas da história de São Paulo, que corre sempre em paralelo muito estreito com a história do Brasil.

Companhia apresenta: Alex através do espelho

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Alex Bellos quer mostrar que a matemática não é um bicho de sete cabeças. Em Alex no país dos números, livro lançado em 2011, Bellos viajou para diferentes países e culturas para apresentar pessoas que têm uma relação diferente com os números, não necessariamente aquela que vivenciamos na escola. Ele investigou as fascinantes propriedades do jogo de Sudoku com seus inventores; visitou a escola japonesa em que professores e alunos fazem cálculos extraordinários imaginando o funcionamento de um ábaco; tentou prever os acasos da fortuna em um cassino de Nevada.

Agora o autor volta a usar sua familiaridade com a matemática em seu novo livro, Alex através do espelho, que será lançado pela Companhia das Letras no final de abril. Neste livro, Bellos atravessa o globo em busca de histórias e pessoas que mostram como a matemática pôde transformar o mundo. Ao longo das aventuras de Bellos, vemos os conceitos que antes nos pareciam complexos ganharem explicações simples e surpreendentes. Todos os que já temeram algum dia as ciências exatas encontrarão aqui uma brilhante defesa de como os números podem ser divertidos.

Para falar um pouco mais sobre o novo livro, fizemos uma entrevista rápida com Alex Bellos. Confira a seguir.

Alex através do espelho é um livro que mostra como os números se refletem em nosso cotidiano. De que forma eles estão presentes e como podem nos ajudar a compreender o mundo?

Com este livro eu quis mostrar vários aspectos dos números e como eles refletem a vida. Para começar, eu quis mostrar como os números nos influenciam de modos culturais, emocionais e psicológicos que nem sempre são óbvios. Mas também como os números — e a matemática de modo mais geral — são a melhor linguagem que temos para entender como o mundo funciona. Em Alex através do espelho eu explico como os triângulos mudaram o mundo, demonstro como padrões descobertos pelos gregos foram utilizados séculos mais tarde para explicar como os planetas se movem e como simples regras matemáticas podem produzir um extraordinário comportamento complexo.

Há vários números que vão além do seu simples significado: o 7, por exemplo, aparece como número da magia, o 13 é do azar, o 8 é da sorte… Seu livro explica como surgiram essas superstições?

Interessa-me saber como as propriedades aritméticas de números nos influenciam. É curioso, por exemplo, que o 7 seja o número mais místico ao longo de muitas épocas e em muitos continentes. A razão para isso vem de o 7 ter propriedades aritméticas especiais. Por ter tais propriedades é que se apresenta mais especial de várias outras maneiras.

E a numerologia: existe um fundamento por trás das premonições através dos números? 

Não creio em numerologia. Busco, em vez disso, entender a psicologia e a ciência de se atribuir a determinados números significados culturais especiais.

Há muitas pessoas que sentem grande dificuldade em entender a matemática e até em realizar operações básicas. Por que você acha que existe essa resistência à matemática? Seu livro busca aproximar mais os leitores desse mundo dos números?

A matemática se esforça para ser um assunto “massa” porque pode ser muito difícil. Não raro, é mal ensinada e se você não consegue entender, você se sente estúpido. Eu quero provar que a matemática é na verdade algo fascinante e divertido que pode ser apreciado por todos, e, para isso, minha técnica é contar histórias. Quero informar, mas também divertir.

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