Da casa

Viagem em busca de Ana C. — 4º e último dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

3º Dia

* * *

Estou em casa, Ana, cheguei do Rio. Retornei da busca. Trouxe você comigo, mas confesso estar deprimida. De leve. Sai cedíssimo do albergue para a rodoviária. Acordei antes das cinco. Sabe aquele medo básico de perder a hora? Peguei o ônibus às 8h na rodoviária. A viagem até foi boa. Consegui vir metade do caminho sozinha com os dois bancos só para mim. Dormi umas 5h das 6h de viagem. O que também contribuiu para essa sensação de mudança brusca de paisagem. Como se eu tivesse atravessado uma porta: Rio de Janeiro — São Paulo. É de deprimir qualquer um. São Paulo é mais massacrante, nos levamos muito a sério e não temos a beleza da cidade a nosso favor.

Cheguei na rodoviária, peguei o metrô e, olha, foi um baita de um perrengue que não vem ao caso.

Estou em casa, o Jorge comigo. Fui buscá-lo na avó. Estamos na sala, ele recortando figuras do jornal.

Tive um sábado carioca delicioso com paradas para ler você, lá na Argumento li todinho o A teus pés, lembra? Hoje, no ônibus, li umas 50 páginas do Autobiografia de Alice. Estou adorando, te contei? É fascinante o ponto de vista, a distorção entre o que se lê e o que acontece, o texto e suas camadas de sentido. Muito bom, Ana, excelente recomendação.

Acabo de ver na minha estante um livro da Katherine Mansfield. Uma edição luxuosa, não sei se tem o “Bliss”, seria maravilhoso se tivesse e a tradução fosse a sua, mas não olhei ainda. Vou tentar ler rápido o livro da Gertrude, ele pede essa velocidade, acho. Agora, Ana, me dá licença que vou tentar voltar aqui pra minha realidade. Tem uma boa reportagem na Ilustríssima hoje, da Francesca Angiolillo, amiga do Armando. Ele me falou dela. O olho da matéria cita você:

Na esteira da reedição de Leminski, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão, encontro literário de Paraty recebe ex-integrante do coletivo carioca que fazia teatro e música e ‘dizia poesia’ nos anos 1970. Autores, estudiosos e editores analisam como a geração que nasceu à margem do mercado editorial é agora assimilada por ele.

Vou tentar assimilar a vida por aqui, Ana, teu nome lá no jornal e diz que estamos todos a teus pés. Vou ler.

Um grande beijo, Mariana

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Tudo é narrativa: Quando mostrar é dizer

Por Tércia Montenegro

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Fotos de Duane Michals.

A grande sedução da arte — seja ela qual for — está em seu potencial de contar uma história. É possível narrar de várias maneiras: usando gestos, movimentos, imagens, melodias, cores… além de palavras, claro. Estas últimas, no entanto, já são constantes (e indispensáveis) para os leitores deste blog e para mim mesma. Eis porque agora proponho, neste espaço, pensar em outros meios narrativos. Veremos como diferentes estratégias se apresentam, acompanhando as circunstâncias de cada linguagem.

Comecemos pela fotografia. Pelo caso de Duane Michals. É um exemplo bem simples e evidente, embora nem por isso pouco interessante. Este autor, nascido em 1932, na Pensilvânia, traz alguns dos seus melhores temas numa coletânea das edições Photo Poche. A obsessão pelo duplo e o trabalho com espelhos, reflexos ou silhuetas fantasmagóricas agem a serviço da criação de suas histórias.

Vários fotógrafos antes — como os clássicos Robert Capa e Cartier-Bresson — tinham ficado célebres pela capacidade de sugerir enredos. Mas Duane Michals vai além, sequencializando imagens, ou seja, dando a elas dinamismo, ação — tramas narrativas com início, meio e fim. No livro que citamos, há vários exemplos disso. Uma experiência poética como “O sonho da jovem” instaura, num conjunto de cinco fotos, o relato sobre uma moça nua dormindo num sofá, a sonhar com um homem (mostrado quase em transparência, a lhe tocar o seio). Ela acorda com a impressão física do toque, o que é indicado por sua própria mão, num espanto, sobre o tal seio. O sonho — ou a fantasmagoria — torna-se um elemento que atravessa várias das sequências de Michals, com diversos efeitos.

Em “O espantalho”, o receio de uma garotinha, de que um monstro pudesse se esconder sob o paletó no cabide, materializa-se. E, quando vemos a criatura feita de roupas “ganhar pernas” e raptar a criança, o resultado é um riso ingênuo. Um sorriso, pelo contrário, muito malicioso, aparece ao final de “Tome um e veja o Fujiyama” — sequência cheia de bom humor sobre os desvarios eróticos provocados por um alucinógeno: o Fujiyama nada mais é do que um monte provocado pela ereção depois de um sonho delirante…

Há bastante comicidade nestes relatos fotográficos, graças ao uso de variadas técnicas. Michals não surpreende o instante, ele o cria. Nessa teatralização, ele se lança ao que o ser humano pode representar (no duplo sentido do termo). Ele contrata modelos, age como um verdadeiro diretor de imagem — e sabe usar táticas de mise en abîme ou surrealismo para deixar o espectador intrigado, em obras como “As coisas são bizarras” e “A luva”. Nesta, por exemplo, encontramos a narrativa surreal sobre uma luva que engole a mão de quem a utiliza e ganha vontade própria.

Para além da piscadela de olho humorística, o que Michals nos fornece é um belo posicionamento ficcional. Embora a atmosfera de alguns de seus trabalhos possa remeter às tradicionais fotonovelas, é a transgressão no trato com a imagem e o enredo o que mais parece interessá-lo. Em sua proposta, o compromisso com a realidade (aspecto pelo qual a fotografia ainda hoje se vê avaliada por uma parte da crítica e do público) não é, nem de longe, um dos primeiros objetivos. A preferência pelos temas oníricos ou transcendentais valida esta afirmação e, se precisamos de ainda outro argumento nesse sentido, vejamos o caso de “A viagem do espírito depois da morte”.

No princípio da sequência, o tom hiperbólico da encenação de uma queda de escada vitima um homem — e lembra a nós, leitores deste texto visual, que esta é uma história encarnada por atores; é como um teatro em poses. O nosso voyeurismo aqui não contempla o real, mas escapa do empírico e, conforme o ponto de referência que Michals escolhe para nós, pode acompanhar a luz diminuindo sobre o corpo inerte do homem ao pé dos degraus. As fotos, aos poucos, mostram um círculo luminoso que cresce. O homem morto, transformado em espírito, frequenta, nu e sob um foco borrado, as pessoas que o conheceram, os objetos que possuiu. Finalmente, banhado em luminosidade, sua viagem chega ao limite e ele se dissolve. As duas últimas fotos, num ciclo de vinte e cinco, mostram um bebê cada vez mais nítido, sugerindo o renascimento do espírito.

Somente através da ficção um fotógrafo poderia, aliás, trabalhar com assuntos metafísicos sem executar fotografia espírita propriamente dita. E a inventividade de Michals necessita de um fio sequencial: um recurso narrativo, em suma. Mesmo quando às vezes não existe uma ação dos personagens, o seu tema se desenrola através de uma série. Estou pensando em “A condição humana” — um famoso ciclo. Em seis fotos, vemos um homem comum numa estação de metrô qualquer, em meio a outras pessoas. A mesma cena progride, sem movimentos, apenas sendo trabalhada em hiperexposição, numa gradação cada vez mais clara, até que as figuras se dissolvam, transformadas em luz completa, galáxia. Se já existiu alguma série fotográfica com grande peso filosófico, foi essa.

Mesmo dentro do gênero retrato, Michals elabora seu veio metafísico, reforçando o caráter misterioso dos rostos que escolhe clicar. René Magritte e Andy Warhol foram dois personagens retratados dessa maneira — sob o estímulo de duplicidades, sobreposições, transparências. E, se recordarmos com Susan Sontag que existem usos narrativos específicos para a fotografia fixa — como no álbum de família —, então aqui estes artistas igualmente integraram histórias, com um estilo direcionado para jogos performáticos, ambíguos (como a obra de Magritte e Warhol, inclusive).

Duane Michals também experimentou o uso da palavra sobre a fotografia. A partir de 1974, suas provas fotográficas começaram a ser enriquecidas por textos manuscritos. Tal elemento tornou-se um registro extra de autoralidade – conforme ressaltava Foucault, ao citar declaração do próprio Michals: “A vista dessas palavras sobre uma página me agrada. É como uma pista que eu deixei atrás de mim, traços que provam que eu passei por lá”. Mas não seria isso, enfim, toda narrativa — uma forma de dizer “eu estive lá”? Estive dentro dessa história; mesmo que eu a tenha inventado.

Michals, que em certa reportagem já se definiu como um contista, sabe que linguagens, suportes ou gêneros textuais não são limites. São trampolins para quem deseja experiências com as múltiplas artes de narrar.

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Tércia Montenegro é escritora e fotógrafa, autora do romance Turismo para cegos(Companhia das Letras, 2015).

Para bem pensar a utopia dos trópicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Se “prefácios são inúteis”, como afirma Eduardo Giannetti em Trópicos utópicos, o que dizer de uma resenha como esta? O mais recente livro do autor de Auto-engano; O valor do amanhã; A ilusão da alma; Vícios privados, benefícios públicos; Felicidade, entre outros, é um desafio e tanto para quem se propõe a comentá-lo. Afinal, o filósofo e economista volta não só a temas que são recorrentes no conjunto de sua extensa e importante bibliografia, como faz escolhas muito ousadas no conteúdo, na abrangência, e, sobretudo, na forma e na estrutura do texto. Diante disso, o melhor é escrever “junto” ou “com” Giannetti — portanto, não estranhem as aspas.

Mas comecemos pelo começo; algum começo. Em primeiro lugar, Trópicos utópicos mais se parece com uma obra de vida inteira dedicada às ideias, à filosofia, à economia e a pensar o Brasil e tentar sentir-se brasileiro. De certo modo, o autor segue a veia dos grandes intérpretes do Brasil, que a cada geração, como bem mostrou Roberto Schwarz em Nacional por subtração, criam novas formas de se olhar e reconhecer (ou se estranhar). Foi assim com o grupo romântico palaciano que cercava Pedro II — que elegeu um indígena idealizado como modelo da nacionalidade —, foi também dessa maneira com a geração realista de 1870, que negou as interpretações anteriores e viu na mestiçagem existente no país um sinal de degeneração racial e falência nacional. Não foi diferente com os modernistas dos anos 1920 e 30, que inverteram os termos da equação e descobriram um país divinamente mestiço: nos costumes, nas ideias, nas cores, nos cheiros, no dia a dia. Como um modelo só existe na contraposição que estabelece com os anteriores, nos anos 1970, com o advento da linguagem dos direitos civis, vimos que “mistura” não é sinônimo de “igualdade”, pois carrega muita “diferença”. O país podia apresentar padrões culturais “misturados”, mas na educação, na saúde, na criminalidade, nas taxas de nascimento e de morte era profunda e perversamente “diferente”.

O fato é que países de passado colonial estão sempre “atrás” da sua identidade. Não só atrás, mas na “frente” também, como bem mostra Giannetti. Vão projetando para si novos desenhos, novas pinturas na parede e fotografias 3 por 4. E o retrato de Giannetti se parece com uma versão contemporânea, muito contemporânea, dessa nossa história que vai acumulando excelentes ensaístas, os quais, vez por outra, encontram um bom espelho em que possamos nos mirar.

Já que anunciei lá no começo um “primeiro lugar”, gostaria de arriscar um “segundo”: vale a pena explorar o trocadilho presente no título desse livro. Nos idos de 1955, Claude Lévi-Strauss publicou Tristes trópicos, uma obra tão magistral quanto nostálgica e irônica acerca desse país com sede de novidade e que carrega progresso e decadência lado a lado. O título do novo livro de Giannetti há de brincar com esse, do etnólogo francês, que confessa seu desencanto com as viagens, a morte do exotismo e o fim da jornada rumo ao “outro”. No caso de Trópicos utópicos, entretanto, há menos desalento, digamos assim. No final do livro, o filósofo brasileiro encontra um país mestiço, “genética e culturalmente fusionado”, e cujo “traço” é aquele que “melhor nos define”.

Mas há outros paralelos entre esses dois livros. Tanto um quanto o outro são inclassificáveis enquanto gêneros literários. A obra de Lévi-Strauss ganhou todo tipo de definição: livro de viagem, de etnologia, de memória e até de ficção. Em Trópicos utópicos a tarefa é igualmente complicada. Dividido em 124 seções — que numa quase homenagem ao Manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, dele guarda alguma semelhança pelo uso de aforismos, distintos em Giannetti por sua autossuficiência argumentativa —, o livro se organiza, ainda, em quatro partes diferentes, porém integradas. Se nas três primeiras o autor trata de temas já extensamente abordados em sua obra — ciência, tecnologia e crescimento econômico —, bem como das consequências e dos problemas que advém do verdadeiro fascínio que temos por esses assuntos; na quarta entramos no terreno brasileiro e na escorregadia questão da identidade nacional.

Claro está que todas essas seções e partes dialogam entre si, numa arquitetura muito bem construída e sustentada por uma escrita primorosa. É por isso que esse livro nos convida a desistir da resenha e a confessar sua impossibilidade. Algo do tipo, “esse livro escapa a qualquer definição”. Mas, teimosa que sou, vou arriscar algumas.

Trópicos utópicos pode ser lido de forma preguiçosa (mas gostosa). Ele parece aqueles antigos livros de provérbios, frases e ditos, em que se podia encontrar uma sentença para cada ocasião. Por exemplo: “Anatomia do impasse. A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença”. Ou então: “Valor e preço. Qual a diferença entre um cínico e um sentimental? Oscar Wilde responde: o cínico é aquele que sabe o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada; o sentimental vê um absurdo valor em tudo, mas não sabe o preço de nada”. E ainda: “Os dois caminhos da felicidade — nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade”.

Mas ficar coletando frases deslocadas é exercício fácil, que com certeza não dá conta do edifício montado por Giannetti. Na verdade, penso que é preciso tomar a sério a noção de trópicos e utópicos. Erudito, o autor vai nos levando pela mão aonde quer. No fundo, trata-se de pensar o Brasil dentro de uma orquestração maior, na qual o país se inclui e se destaca. Trata-se também de entender que “a realidade objetiva não é toda a realidade” (grifos de Eduardo Giannetti), “uma vez que a vida dos povos, não menos que a dos indivíduos, é vivida em larga medida na imaginação”.  O autor não abandona, portanto — ao contrário: sublinha —, a noção de que sonho e desejo fertilizam o real, e não apenas o oposto.

Aí está a suprema utopia do título: destacar e perceber certa “alma” do brasileiro; “a utopia brasileira no concerto das nações”. Giannetti localiza, ainda, uma “teimosa vocação de felicidade” nos brasileiros, mesmo que em meio à “precariedade da vida material”. E é nessas brechas que ele se detém, com grande sensibilidade e identificação, quando vai terminando o livro. Para o filósofo, mesmo com o nosso passado colonial e com as populações indígenas e, sobretudo, africanas sendo submetidas a violentos processos de subjugação, por aqui teria perseverado um maior “clima de permissividade”, diferentemente do que ocorreu no hemisfério norte. Nos trópicos teria vingado um “clima temperado”, em que “não obstante a opressão”, a “revolta”, persistiu a “vitalidade e a alegria de viver dos africanos”. Por isso é que a “África salva o Brasil”.

Não é preciso concordar com tudo para reconhecer o imenso valor e coragem de um livro como esse. Mais ainda, é comovente ler a “alma” de Giannetti. Ele parece estar tão  mergulhado em sua obra que, em determinados momentos, quase que conseguimos ouvir o autor contar uma boa história: a sua história neste país, a nossa história na dele.

Segundo o filósofo somos “miméticos e proféticos”. Nenhuma das posições em separado, mas as duas coisas ao mesmo tempo. “Tupi and not tupi”. Mas Giannetti não se imagina, ele próprio, profético. “O que é bom para nós”, escreve, “não se pretende bom para toda gente, mas é o nosso bem”. Enfim, o filósofo procura e encontra “um Brasil digno de sonho”, pensado com “afeto”. Com nossos vícios e virtudes; nossos acertos e desacertos; nossos egoísmos e nossas generosidades. Um país do e; não do ou.

Pensar quem somos e o que nos define é tema que entra e sai da nossa pauta desde que o Brasil ainda não era nem ao menos Brazil. Foi Cabral pisar nessas terras, e a desavença em torno do nome começou. Para alguns, a Igreja, seríamos Terra de Santa Cruz, por conta do lenho sagrado e da primeira missa. Para outros, os comerciantes, seríamos Brasil por causa da primeira riqueza que por aqui se encontrou. Na falta de ouro, exportou-se o pau-brasil, essa madeira boa para fazer móveis, e de cujo veio corria uma tinta vermelha. E assim as dúvidas sobre a nossa identidade já começaram nos primórdios do século XVI: uma terra santa ou um lugar vermelho-sangue, da brasa do inferno?

Naquele contexto, vingou a segunda opção. Mas quem sabe Giannetti nos anime a pensar numa terceira via, ou melhor, nas duas juntas. Ou melhor ainda, a pensar que os brasileiros sempre buscaram driblar isso tudo, inventando formas próprias de felicidade. Afinal, como cantava a marchinha: “Quem foi que descobriu o Brasil, foi seu Cabral, foi seu Cabral, no dia 21 de abril, dois meses depois do Carnaval”.

Esse povo festeiro, que mistura costumes, que pratica uma “compreensão amável e lúdica” da vida… é disso e muito mais que trata o novo livro de Giannetti, e com muita poesia. Como certa vez definiu o antropólogo Clifford Geertz: “Cada povo inventa sua própria forma de sentir e de ser feliz”. A nossa felicidade estaria, de certa forma, conectada aos trópicos e a uma certa utopia coletivamente partilhada.

Por essas e por outras, Trópicos utópicos chega em excelente momento. Num contexto em que andamos cabisbaixos, desacreditando de nós mesmos — do nosso passado, do nosso presente e também do nosso projeto de futuro, distante e imediato — Eduardo Gianetti nos dá, de presente, uma boa utopia em que acreditar. Nem cópias nem tão somente originais, o Brasil e os brasileiros teriam “uma perspectiva”, como diz o subtítulo do livro, a oferecer diante da “crise civilizatória” que, bem sabemos, se não é privilégio nosso, tem causado ultimamente muito desconforto e sofrimento.

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Eduardo Giannetti autografa Trópicos utópicos em São Paulo no dia 27 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073).

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

 

O que é que ele tem

Por Olivia Byington

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Ilustração: Olivia Byington

Sempre que eu contava alguma coisa relacionada à história do João, meu marido Daniel me dizia: “Você precisa escrever isso. Seu relato é importante para outras pessoas que percorreram esse caminho”.

Eu não fazia ideia de como começar, o que contar primeiro. Tudo o que eu ensaiava escrever me parecia enfraquecido, sem alma. Foi assistindo a uma entrevista da Tatiana Salem Levy que encontrei o caminho. No lançamento de um dos seus livros, ela revelou seu processo criativo, contou que escrevia fora de ordem e, em algum momento, organizava a cronologia e alinhava a narrativa. Foi o estalo do Vieira.

O primeiro relato que me veio foi a cirurgia em Nova York, que João sofreu aos seis meses, com um pós-operatório difícil no New York University Hospital. Aquelas lembranças foram puxando outras e o livro foi tomando forma. Ainda assim, eu tinha dúvidas se conseguiria chegar ao fim. Sofria de uma resistência psicológica avassaladora e qualquer pretexto para não continuar o trabalho era agarrado por mim com entusiasmo. A ambiguidade de querer contar essa importante história junto ao sofrimento que ela me trazia me paralisava a escrita. O texto foi saindo com a reflexão sobre isso tudo, a ajuda de muitos queridos amigos e a entrada dos editores.

Em seu livro de memórias Meu último suspiro, Luis Buñuel conta que durante muito tempo narrou à sua maneira a lembrança do dia do casamento de seu amigo Paul Nizan, na igreja de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, no qual Jean-Paul Sartre era o padrinho. Um belo dia, ele se deu conta de que o amigo, pertencente a uma família de agnósticos e marxista convicto, jamais teria se casado na igreja. Concluiu que a situação era impensável e que provavelmente ele mesmo tinha inventado o cenário da história. Sua conclusão é que “a memória é perpetuamente invadida pela imaginação e pelo devaneio”.

Pensando em Buñuel, flagrei alguns registros fantasiosos no que escrevia e fui atrás da empoeirada agenda do ano de nascimento do João, 1981, assim como dos cadernos de anotações, os resultados de exames, os relatórios médicos para me aproximar ao máximo de sua história. Eu, covardemente, sempre evitei me aproximar daquilo como se fosse material nuclear. Foi preciso que eu desenterrasse esses registros para a reelaboração de vários episódios e mesmo a viravolta de muitos afetos que estavam mal guardados dentro de mim.

João já mudou de século, já evoluiu muito além de todos os melhores prognósticos de quando veio ao mundo. Escrever essas memórias me fez reexaminar minuciosamente a sua trajetória. Foram surgindo lembranças reais, dolorosas, meus erros e tropeços. Mas junto veio a minha juventude, a infância dos meninos, a felicidade vivida em tantos momentos valiosos.

Hoje estou mais forte e mais segura com a minha própria biografia. Fiz as pazes com um monte de assuntos, um balanço do que deixei de fazer na minha carreira e do que eu plantei nas nossas vidas. Mais uma vez, através do João, cheguei a um lugar inesperado. Com o livro pronto, tenho o orgulho de dizer que foi ele quem me auferiu esse novo status, tão longe da construção da minha história quanto respeitado e admirado por mim, o de escritora.

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9788547000110O QUE É QUE ELE TEM
Sinopse: Março de 1981. Durante o parto de seu filho, Olivia, então com 22 anos, percebeu que havia algo diferente. Até ali, havia enfrentado os anseios naturais de qualquer mãe de primeira viagem, mas não estava preparada para a mudança radical em seus planos — e em sua vida. Assim começa a história de João, que nasceu com a rara síndrome de Apert. Menino valente, saiu da maternidade diretamente para o centro cirúrgico, começando ali uma longa caminhada repleta de incertezas, obstáculos, mas também de muitas vitórias. Este é o sincero e corajoso relato de Olivia Byington — hoje mãe de quatro filhos — sobre sua relação com a maternidade, com suas próprias aspirações e medos. O que é que ele tem é uma história de amor. Não qualquer amor, mas o mais difícil e raro: o amor pela diferença.

Evento de lançamento
Rio de Janeiro — Terça-feira, 21 de junho, às 19h — Livraria Argumento — Rua Dias Ferreira, 417

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Olivia Byington iniciou a sua carreira como cantora e compositora no final da década de 1970. Gravou seu primeiro disco em 1978 e, desde então, conquistou uma sólida carreira musical, realizando inúmeros shows no Brasil e no exterior. Em junho de 2016 lança pela Objetiva o livro O que é que ele tem.

 

Viagem em busca de Ana C. — 3º dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

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26-07-2014

Hoje é sábado te escrevo do Leblon, de dentro do café da Livraria Argumento. Você frequentava livrarias, eu sei. Vi os marcadores guardados no seu acervo. Lembro-me de ter visto uns três marcadores, dois eram de livrarias. Uma delas em Buenos Aires, na Corrientes. Coleciono marcadores de livro.

Estou aqui olhando para o seu índice onomástico ao final de A teus pés. Gertrude Stein, Katherine Mansfield. Quem sabe aproveito sua recomendação e compro algum livro delas, são mulheres que ainda não li.

Tem um verso seu, no primeiro poema de A teus pés, que diz assim:

É domingo de manhã (não é útil às três da tarde).

Aqui, agora, é sábado, Ana, já te disse. E são duas da tarde.

Vim te buscar e, acredita Ana, que, sem querer, escolhi um albergue que fica na Rua Toneleros. Não foi de propósito, juro. Hoje é dia de passear — quinta e sexta fiquei concentrada nos seus papéis, lá no Instituto. Hoje sai do albergue e passei em frente ao 261 da Toneleros. O Armando me contou, Ana, que você dizia a ele não saber se o seu prédio, quer dizer, o dos seus pais, se pronunciaria Edifício “Líbera” ou “Libera”. Realmente não vi o acento, mas acho mais charmoso Líbera, não? Olhei pra cima quando cheguei em frente ao prédio. Você se jogou do sétimo.

Estou tomando chá no café Severino, dentro da Argumento, e você me diz:

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.

É o “Sete chaves”, lembra dele? Você é muito mentirosa, Ana, muito fingida e dissimulada. Sou um pouco assim também.

Continuo andando com o meu lindo guarda-chuva. E graças a você ainda não o perdi. Continue me protegendo e protegendo meu guarda-chuva, Ana?

Elisabeth Bishop é outra da sua lista.

Reli todo o A teus pés aqui no café. O Armando me disse que quando saiu a segunda edição você não estava nem aí, ele ficou feliz por você, pelo sucesso imediato que o livro alcançou, imagina como era raro uma edição esgotar assim. Mas você não estava bem. A angústia te consumia. Um livro é como um filho. Você o abandonou. O Armando se entristeceu.

Dei uma caneta bic pro Armando, na verdade uma mini-bic. Foi assim, ele foi fazer uma dedicatória pra mim, no último livro dele, que eu trazia comigo e chama-se Dever. Eu ofereci essa caneta aqui, com a qual estou escrevendo agora, uma lamy tinteiro, mas ele foi escrever e não se sentiu confortável. Então tirei outra caneta da minha bolsa, a tal da mini-bic preta. Ele ficou tão feliz, disse gostar especialmente de bic e que não tem dessas no Rio. Pior é que se bobear eu comprei essa em Paris. É porque adoro canetas e Paris, Ana.

Saí da livraria, mas trouxe a Gertrude Stein comigo. Você acredita que não tinha nenhum livro, nenhuma edição da Katherine Mansfield? Juro, mas prometo que vou dar um jeito de ler a sua tradução anotada do “Bliss”. Li em um dos seus papéis, lá do acervo, que a sua tese foi muito elogiada e levou aquele título de distinção, uma coisa assim. O Armando falou algo de você que foi muito importante ter ouvido. Você teve muito sucesso durante sua vida. Desde criança você se destacou na escola, na faculdade, no mestrado também, e ainda em outra língua. E você tinha muitas amigas e amigos e foi namoradeira. Tudo de bom! Sucesso é o que todo mundo quer. Outro dia meu filho me perguntou o que significava sucesso e tive dificuldade para explicar, como será que você definiria o sucesso? Eu tentei explicar do meu jeito, tentei pela via do reconhecimento, mas não sei se ficou muito abstrato, se não expliquei direito, sei lá. Percebi então que não gostaria que ele almejasse o sucesso. É algo difícil de obter, para poucos, acho, e quase sempre leva à frustração. Não com você. Você teve êxito, você conseguiu.

É difícil encontrar pessoas tão generosas como o Armando, por exemplo. Cada um está concentrado em seu próprio umbigo. Ele, sem me conhecer, me chamou pra casa dele, jantamos juntos, ele a Cris e eu. Foi ótimo, comemos salada, suflê e frango. De sobremesa, manga e doce de maçã cozida.

Não contei onde estou. Ainda no Leblon, mas agora no Jobi, um bar antigo do Rio, talvez você conheça. Eu gosto de beber, Ana, amo. Sou do tipo boêmia que vai de bar em bar. Sou boa de copo. É claro que fico bêbada de vez em quando, quer dizer, passo do ponto, acontece, mas não tenho, vamos dizer, não me importo tanto com a minha lucidez, quer dizer, tem horas que gosto de não estar perfeitamente no controle das minhas funções, se é que você me entende. É muita pressão, Ana. Viver não é relaxante. E já me conheço suficientemente para saber que sou uma pessoa tensa. Todo mundo diz que não parece mas sou. Como uma pessoa tensa, encontro mecanismos para me aliviar. Por enquanto tudo bem.

Estou sozinha aqui no bar, quer dizer, trouxe você e a Gertrude. Adoro ficar sozinha. É algo raro hoje em dia. Sim, sou deprimida, como todo mundo hoje em dia é (um pouco). Não teria coragem de me jogar. Falei pro Armando que sou uma pessoa corajosa, me vanglorio de ter ouvido isso do meu psiquiatra. Me dou o direito de repetir, mas você era mais corajosa do que eu, Ana, pulou dessa para melhor. Você faz falta, Ana, mesmo pra mim que não te conheci em vida. Apenas pela literatura posso te conhecer agora. É o que ficou e estou na aventura de te resgatar.

Quanto mais leio você, mais sinto sua falta. Não é assim com o Bolaño, ou com o Tchékhov, dois escritores que admiro demais. Eles também estão mortos, mas não sinto a falta presencial deles, não é engraçado? A sua falta é diferente, você se retirou de nós. Não vou descambar pra melancolia, você pra mim é vida, solar, óculos escuros, bicicleta, praia, pulsão, intensidade. O Armando disse que você acordava cedo. E sem ter te conhecido, aposto que você era uma pessoa divertida. Não o tempo todo, senão seria chata. Entendo que você não tenha suportado, é difícil mesmo, quem vai dizer o contrário? Talvez seja pior ainda para quem tem sucesso. Mas que você faz falta, faz…

Sou pisciana, sabe, aliás lá na sua papelada eu vi o seu mapa astral. Você acreditava nessas coisas? Não acredito não, em nada disso, sou agnóstica, mas acho divertido.

Vi uma mulher fumando um cigarro agora, peguei ela bem no momento de soltar as baforadas. Foi uma sequência engraçada do olhar dela, a fumaça, os trejeitos com a boca. Poesia, Ana, posso chamar assim? Se bem que não sei nem porque te pergunto. Você me parece tão livre, ou melhor, você é livre, Ana. E é o que quero pra mim também.

Hoje, aqui, estando à sua procura, tendo encontrado a sua poesia, sua prosa, me sinto livre, mas acho que a liberdade é como a felicidade. Completamente circunstancial. No Rio me sinto livre, em Paris também. Em São Paulo, onde vivo, trabalho e estudo, não. Mas eu tento, Ana, e tento não me frustrar com isso o tempo todo. Precisamos nos proteger dos serrotes, ó, tá aqui meu guarda-chuva.

Você gosta de confundir e brincar, explico. Uma das minhas ideias para o meu dia hoje era caminhar bastante, fui de Copacabana até o Leblon. Segundo, queria ir numa livraria e comprar algum livro de algum dos autores do seu índice onomástico. Combinei comigo mesma que escolheria um que não tivesse lido ainda, de preferência uma escritora. A edição de bolso que comprei da Gerturde por R$19,90 foi A autobiografia de Alice B. Toklas. Claro que já tinha ouvido falar dela e do livro. Não foi você, definitivamente, quem me convenceu, mas você deu um baita empurrãozão, afinal, muito do que lemos vai da circunstância também. Sei que comecei a ler aqui no Jobi, esse bar barulhento e apertado, só que o livro, mais do que tudo, me desconcertou. Nunca tinha parado pra pensar que, sendo uma “autobiografia” ele nunca poderia ter sido escrito por outra pessoa, que é o caso deste embuste! E já está dado no título. Entrei de cabeça no texto e me vi, deliciosamente, na cilada da Gertrude, mas pra mim, quem me pregou a peça foi você.

Já entendi que essa é sua brincadeira favorita, Ana, você adora uma invencionice, mistura vida e literatura o tempo todo. É o que pretendo pra minha vida também, mas de pretensão estamos cheias.

Saí do Jobi, vim pro Pavão Azul, o mesmo de ontem, eu teimo em chamá-lo de jacaré, um bar da Vila Madalena em São Paulo, mas que não frequento. Aqui me sinto em casa, no Jacaré não.

Reencontrei o Moreira hoje, Ana, meu garçom de ontem, a quem me afeiçoei. Não preciso saber nada do Moreira pra afirmar que ele é casado e safado, tudo ao mesmo tempo. Não é bonito mas ganha a mulherada com outros truques. Aposto que você era bem apaixonante e apaixonada. Qual seria o equivalente a “mulherengo” para quem é mulher? Eu me encaixaria também, gosto de sexo, quanto menos vinculado ao amor, melhor, por isso me separei. Você era cheia de segredos,  nem vem.

Uma pergunta, você gosta de prata? Será que quando você morava na Toneleros já existia essa loja, a Panna Joias? É passando o 261, loja grande, acho que tem ali, em Copa, na rua dos seus pais, e também em Ipanema, se não me engano. E é tudo de prata 925. Teve uma época que inventei o seguinte, sempre que viajasse, não importa o lugar, desde que correspondesse à ideia de viagem, eu teria como missão comprar um anel. Tipo recordação afetiva. Até hoje quando uso os anéis que comprei em Amsterdã, sempre alguém me pergunta, pegam na minha mão pra examinar, e querem saber de onde vem. Parei de usar os da minha viagem ao Egito. Comprei vários em Luxor e eles estão guardados, mas entrei nessa de só usar prata e eles não são de prata, acho que não, é outro material, ainda descubro.

Acho que não sou de ouro, pérola, muito menos de diamante. Sou de prata. E você, que joia seria?

Somos bem diferentes, mas é bom. Gosto bastante das diferenças, do desigual, do gauche. Gosto da incompreensão e de você, Ana, da incompletude, do vazio da noite e da escuridão.

Não te contei ainda do Pavão Azul, esse bar onde estou. Olhei pra minha direita e na parede vi um quadro. Sabe quando os donos enquadram uma matéria elogiosa sobre o lugar? Então, é exatamente isso que vou ler pra você:

<Título da matéria>: “Ela é o cara

<Olho>: “Mulheres assumem o comando de botecos redutos tradicionalmente masculinos

<Matéria>: “ O pavão azul é um exemplo. Vera Afonso assumiu o balcão quando se separou. Com o pai do fiho Serginho ela chamou a irmã Bete para dar uma força na empreitada. O resultado foi um fenômeno: na mão das duas, o bar virou referência na cidade ganhou cotação máximo no guia ‘Rio Botequim’ e se tornou tricampeão do prêmio ‘Rio Show de Gastronomia’.”

Situação engraçada, vou te contar. Sentei aqui no bar, estou sozinha. Uma mesa e duas cadeiras, uma com a minha bunda, outra com a minha bolsa. Estou sozinha, Ana, mas nem triste nem deprimida, te falo quando me sentir assim, pode ser? Vim te buscar, lembra? Só posso estar feliz pois, nessa altura, sabemos eu e você que eu te encontrei. E vou poder te levar comigo. Então retomo, repito, estou feliz, por estar aqui.

Fui o banheiro e voltei e você não sabe o que me aconteceu. Na vida, tudo acontece tão rápido, não é. Foi assim, estava tentando te contar que sentei nessa mesa e, bem de frente, mas do outro lado da calçada, de pé, tem um cara me paquerando. Eu estou dando bola, quer dizer, olho de vez em quando, porque ele me pareceu interessante. E afinal, Ana, quem é que hoje em dia sai sozinho para um lugar qualquer? Pouca gente, compreende?

Usei o “compreende” do Armando, ele fala muito compreende no final das frases. É bonito, sonoro, eu gosto. Encontrei esse mesmo “compreende” em um dos seus papéis, mas foi só uma vez. Tudo era Armando, o Armando era o tal? Nananina, Ana, o Armando é o tal. Ele cuida de você até hoje, com muita dedicação.

Pra encerrar, acho que vou ter que dizer com todas as letras pra você e pra ele, o Carlos, que depois de conversarmos um pouco descobri que ele não tem nada a ver comigo. Eu poderia dizer, amigo, vai, vai lá fazer algo que você acredite ser produtivo (ele usou esse termo na conversa). Vai lá. Comigo é só perdição, amor!

Vou fechar esse caderno, acabar aqui, com essa última linha… O problema sabe qual é? Se eu parar de escrever esse tal Carlos pode se achar no direito de ir e vir novamente. E, por mim, ele poderia ser ejetado do bar, mas não que eu queira ser agressiva, é jeito de falar, Ana.

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.