Da casa

Duas ou três coisas sobre Jonathan Franzen

Por Martha Batalha

Jonathan Franzen, DeLand, Fla. Nov. 22, 2010.

Franzen escreveu três grandes romances — As correções, Liberdade e Pureza. As correções é sobre a desintegração de uma família americana, a partir da doença do patriarca. Liberdade é sobre os altos e baixos de um casamento. Pureza, que sai agora no Brasil, é sobre uma jovem criada por mãe solteira, que busca a identidade do pai (e sobre muitas outras coisas — integridade, privacidade, traição). Tramas à parte, os três livros são, na verdade, sobre a mesma coisa: as dificuldades de relacionamento, as influências do meio, as mudanças que os anos trazem. As metamorfoses do amor e os erros inevitáveis de cada pessoa.

O autor escreveu outros dois romances, The 27th City e Tremor (o primeiro ainda não foi publicado no Brasil). São seus trabalhos de estreia, esteticamente perfeitos e sucessos de crítica. Mas falta algo — falta molho, falta Franzen. Ele só se tornou Franzen com As correções. Neste livro os parágrafos continuam impecáveis, mas há um jogo de cintura e um senso de humor que não vêm apenas do domínio da escrita, mas do fato de ele estar se expondo no livro, e se divertindo durante o processo. Tem muito amor em As correções. O livro foi escrito enquanto Franzen via a desintegração da própria família. O pai apagava aos poucos, vítima de Alzheimer.

Tremor e The 27th City não são irresistíveis como os últimos romances de Franzen, mas ajudam a entender o processo de formação de um escritor. O estilo de Franzen chega aos poucos — aparece em nuances de The 27th City, está mais presente em Tremor e se consolida com As Correções.

A má notícia: Ele escreveu um famoso ensaio para a revista Harper´s chamado “Why Bother” [Para que se preocupar?], que deixa qualquer escritor preocupado. Convence o leitor de que a literatura está acabando, que a cultura de massa, a necessidade constante de estímulo e o tempo fragmentado impedem a produção e a leitura de grandes romances. E isso foi antes da contaminação do mundo por Google e Facebook.

A boa notícia: O ensaio foi publicado depois de Franzen escrever os dois primeiros romances (aqueles que foram sucesso apenas de crítica). Ele ainda não tinha formado uma conexão com seus leitores, não tinha entendido que literatura é também exposição pessoal, que era preciso “abandonar o senso de responsabilidade e aprender a escrever por diversão, e para entreter”.

Seu livro de ensaios Como ficar sozinho é uma declaração de amor aos livros e à leitura. É bom voltar a ele de tempos em tempos — principalmente quando esta nossa cultura fragmentada — tema recorrente no livro — nos corta as horas fundamentais de silêncio dedicadas a um livro (qualquer livro, e apenas um livro). Como ficar sozinho confirma o que nós, leitores, sempre soubemos. Que a leitura é o segredo para nunca estar sozinho. Qualquer pessoa que lê (muitos livros, durante muitas horas) cria um mundo à parte, formado apenas pelo leitor e os autores.

Três iniciativas de Franzen que todo o escritor gostaria de ter feito e / ou deveria fazer:

  • Depois de se formar ele alugou um apartamento com a mulher, comprou quilos de arroz e de frango e se desligou do mundo. Escrevia oito horas por dia, lia cinco horas por noite.
  • Num momento de crise de escrita (forçando a barra para produzir um roteiro que sabia não ser bom), ele deixou seu estúdio na Filadélfia, pegou dinheiro emprestado e sublocou um loft em Nova York. No loft também não conseguiu escrever. Mas deu-se o direito de ler oito horas por dia, sem interrupções.
  • Franzen escreve de um quarto semiescuro, com protetores de ouvido e num computador sem conexão com a internet.

Em outro ensaio do livro Como ficar sozinho ele divide os escritores em dois grupos, Status e Contrato. No grupo de Status ficam os escritores que acreditam apenas no valor estético da obra. O livro se basta como obra de arte, independente de ter ou não leitores. No grupo de Contrato ficam os escritores que acreditam na conexão entre o livro e os leitores. Segundo ele, a ficção deve ser feita levando em conta estes leitores, já que o principal objetivo da literatura é formar uma comunidade entre escritores e leitores para combater a solidão. Leitura é prazer, e conectividade.

O autor empacou no meio de Liberdade. Achava que o livro era para ser uma coisa e estava se tornando outra, passou cinco anos tentando replicar no romance o modelo de As correções. Tinha também uma culpa imensa, por estar trancado em um quartinho fazendo ficção, com tanta coisa errada acontecendo no mundo. Decidiu abandonar o manuscrito e escrever uma reportagem para a New Yorker sobre questões ambientais na China. O artigo saiu, e não obteve o retorno de público ou a mudança do mundo desejados. Entendeu ali que era melhor ficar trancado em seu quartinho fazendo ficção. Era o que sabia fazer de melhor. Depois de mais quatro anos publicou Liberdade, um livro com uma trama forte o suficiente para fazer o leitor se afundar no texto, sem se importar com as distrações do mundo.

Pureza é como Liberdade, e As correções. Um livro típico do modelo Contrato, capaz de gerar uma forte conexão entre autor e leitor. Franzen construiu uma comunidade sólida, com leitores dispostos a doar muitas horas de seus dias em troca das quinhentas (ou setecentas) páginas de seus romances. Talvez o Franzen daquele ensaio da Harper [Para que se preocupar?] tenha razão. Talvez a literatura esteja se esvaindo do mundo. Talvez exista cada vez menos espaço para a leitura, porque os livros e a leitura são anticapitalistas em si — demandam tempo e solidão, em vez de estímulos e consumo. Mas, se for verdade, Franzen é um excelente jogador neste time de escritores perdedores: seus romances são grandes armas de resistência.

* * * * *

Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Viagem em busca de Ana C. — 2º dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi JaffeLeia a primeira parte já publicada.

* * *

Ana, hoje passei na sua rua, não na dos seus pais. Na casa da Gávea: Rua das Acácias, 141 casa 2, “Residenciais Leonor”. Tirei uma foto, achei tão bonito o lugar, a fachada azul e branca, mas a foto saiu bem tremida, ninguém vai enxergar claramente, de tão ruim que ficou. Tem uma ladeirona seguindo reto da calçada da sua casa, fizeram até uma escada, bem íngreme. Quantas vezes você subiu aqueles degraus, me pergunto. Não me animei em contar, muito menos em subir.

Mas não é de você que quero falar, muito menos da escada íngreme que sobe da Rua das Acácias até acabar e começar a montanha. Estou escrevendo sobre a sua obra. É por causa dela que estou aqui. Vim atrás de você, porque quero me apropriar da sua escrita. Colá-la em mim. Acho que você não tinha tatuagens, tinha? Eu tenho uma espiral no pé, chama-se koru e representa uma planta, uma espécie de samambaia comum na região onde vivem os povos Maoris, a Polinésia. Como é bonito esse nome: Polinésia. Quero te contar o sentido do koru no meu pé, significa algo como recomeço. E não quero explicar mais nada, pode ser?

Não escrevo tão bem quanto você. Tenho quarenta e dois anos, mas acho que nunca usei um vocabulário rebuscado como o seu, quer dizer, você demonstrava, exibia uma linguagem sofisticada, de quem se letrou muito cedo. Quem sabe, com algum esforço aos quarenta e dois eu consiga usar o mesmo vocabulário que você aos quinze!

Hoje comprei um guarda-chuva, Ana, é lindo. Verde água com serrotes desenhados como se caíssem do céu. O guarda-chuva me protege das serras. Você tinha e perdia seus guarda-chuvas, ou simplesmente escolhia não tê-los? Estou enrolando pra falar da sua obra e é de propósito.

Na verdade, é por que essa é a melhor parte desse meu trabalho em torno de você, quer dizer, aquilo que eu penso e sinto, quando leio você. Sabe quando ficamos guardando o que é bom para o final?

Pra você não ficar brava, vou dizer os dois poemas de que mais gosto e que acho os mais cheios de sentimento e entranha, resultado da combinação de cada uma das palavras:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

e

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.

 

Posso acrescentar um terceiro?

 

Samba-canção

Tantos poemas que perdi.

Tantos que ouvi, de graça,

pelo telefone — taí,

eu fiz tudo pra você gostar,

fui mulher vulgar,

meia-bruxa, meia-fera,

risinho modernista

arranhado na garganta,

malandra, bicha,

bem viada, vândala,

talvez maquiavélica,

e um dia emburrei-me,

vali-me de mesuras

(era uma estratégia),

fiz comércio, avara,

embora um pouco burra,

porque inteligente me punha

logo rubra, ou ao contrário, cara

pálida que desconhece

o próprio cor-de-rosa,

e tantas fiz, talvez

querendo a glória, a outra

cena à luz de spots,

talvez apenas teu carinho,

Mas tantas, tantas fiz…

 

Ana, descobri o que você faz, finge a intimidade pela linguagem, mistura autobiografia, biografias alheias, correspondências para destinatários que não existem, como sua tia Nydia, ou como aquela amiga de infância, Gina, para quem você escreve uma carta e, ao que tudo parece, a tal Regina nunca existiu e é de quem você morre de saudade:

 

Gina,

Será que eu ainda tenho o direito de chamar você assim? Não sei por quê, de repente as recordações do passado começaram a borbulhar dentro de mim. Revi as nossas aventuras no colégio, as tuas idas lá em casa, quando brincávamos com bonecas de papel, simulando mil romances entre o Peter e a Joan; as minhas idas na tua casa, nossas brincadeiras, nossos votos de sempre, permanecermos crianças, Pedro do Rio, o Marcelino e seu rato, morto, a ameixeira Anne Shirley, o Viantarema, o Pentágono, tudo, tudo.

 

Tudo se mistura e resulta em ficção. Quando leio sua poesia, ou a prosa divertida e livre de tudo, ali tenho a certeza de que o processo era o mesmo, não importava o registro formal. Releio:

 

Senhor A

Hoje estou de bata, dando bênção com os olhos

Todo milionésimo de segundos sentidos.

Missionário da cozinha.

Minha mulher foi viajar.

Recebo em casa; velha cúmplice esquenta os pratos,

Sou homem rico,

Também choro.

Fumo com o marido no sofá de couro.

Meus olhos doam a este meu casal

De condenados o calor que posso,

O calor de um negócio travado a altas horas,

Garganta ardendo, Colubiasol a mão, ou então um tanto de chá

Um. Não escondo o uísque.

Também não temo mais meu pânico em flor, regado Regiamente.

Na sala ao lado não há mulheres

Falando de Miguelângelo.

Volto ao meu cachimo.

Não recebo em febre torpedos de perguntas,

Mas sim pedidos de adesão.

Devo impor justiça com um gesto da outra mão:

Alimentá-los. Um e outro jogam verde.

Sou mouco, um bispo,

Double-face de cara lisa,

Connoisseur de vícios.

Sirvo uma dobrada fumegante.

 

O que seria dar benção com os olhos. Poderia ser algo como assentir com o olhar. Noto a profundidade, a falta de conexão aparente, a interrupção. A diversidade toda na mistura de gêneros.

Ana, não me deixe esquecer meu guarda-chuva por aí. Já te falei que ele é lindo? Não é só a cor e os mini-serrotes, não. É o objeto em si. Ele segue um estilo bem clássico com grande cabo de madeira e a ponta também. Será o mais lindo e atual objeto eleito por mim para o dia de hoje. Lembrei-me de um poema teu, mas não consegui localizá-lo agora. É um que você fala da vida dos objetos, sabe qual é?

Costumo dizer ao meu filho, Jorge, que as miniaturas têm vida, ele tem cinco anos. É uma ideia que conforta e ajuda a não me sentir só. O Jorge fixou essa ideia e sempre pergunta: “mãe, isso aqui é uma miniatura?” Pena que eu não consiga reproduzir a entonação quando ele faz essa pergunta, Ana, é a entonação de quem pergunta mais de uma vez por dia, pela simples verificação, sabe? Para ele sou eu quem avalio o que tem ou não tem vida. Será que isso não é um tipo de poesia também? É um jogo entre vida e palavra, uma brincadeira. Quem sabe um dia isso o acabe ajudando a não se sentir tão sozinho?

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Clarior: Ruffato e a auréola das cartas

Por Pedro Meira Monteiro

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O interior das casas humildes, o que guarda?

Terminei de ler, muito tocado, De mim já nem se lembra, de Luiz Ruffato. Romance epistolar sobre a perda do irmão mais velho, há nele uma delicadeza que provém da elegância e da essencialidade das coisas simples.

O leitor de classe média afasta de si, nervoso pela proximidade, aquele universo de paredes mal caiadas, de apetrechos de inox guardados para ocasião especial, da toalhinha plástica que cobre a mesa, dos retratos pobres que mal lembram o retratado.

“Pudor” é palavra-chave, que se lê quando o narrador entra, reverente, na casa familiar agora abandonada: “aprumado no mármore da mesinha-de-centro, um solitário exibe uma rosa-de-plástico; sobre o guarda-louça, três porta-retratos alardeiam os netos; inúteis, o sofá e as poltronas descansam, a televisão repousa — um filó de poeira lubrina tudo.”

As cartas são do irmão, José Célio, enviadas de São Paulo para a mãe, que é confidente, conselheira, tutora e guardiã de valores intocáveis. Estendendo-se de 1971 a 1978, no tom limpo e direto do filho apenas letrado que se justifica perante a mãe, a correspondência deixa ver a corrente de vida que de repente atravessa as entranhas da grande cidade. É um pouco a história do Brasil urbano que se estampa ali, singela, evocando os milhares de Josés Célios que se equilibram entre a tradição e a metrópole. O tom às vezes moralista, nunca agressivo, mas firme, é contrastado pelas descobertas do amor e pela paixão da política, que parecem querer formar um único par, impossível, ardorosamente buscado pelo jovem operário. No entanto, a pulsão de vida que o toma não chega jamais a desatar o fio que o prende à família em Cataguases, aos seus pequenos e grandes dramas vividos à distância, tudo envolto no inexprimível desejo de voltar, contrabalançado pela certeza de que já não se pertence a nenhum dos dois lugares: exilado, aqui e lá.

A moldura que o narrador — o “Luizinho”, que sabemos ser Ruffato — carinhosamente põe sobre as cartas é fina, discreta e perfeita: poética sem ser exagerada, sincera sem sombra de arrebatamento, feita com esmero e sem qualquer preciosismo. O quadro me faz pensar nos móveis das casas simples, nos lares humildes que o olhar curioso invade, entre fascinado e pudico. Lá dentro, cada objeto está no seu lugar, como que esperando o momento infinitamente próximo em que tudo, paradoxalmente, continuará sendo o mesmo, mas agora pleno de sentido, perfeito o círculo das coisas.

Em A comunidade que vem, Giorgio Agamben discorre sobre a auréola, que foi um grande tema para a teologia medieval. Tomás tem um tratado em que enfrenta a questão: se os santos são beatíficos, se eles têm em si todos os bens necessários à perfeita operação da natureza humana, então nada de essencial poderia ser-lhes acrescentado. Mas se assim é, por que algo mais deve se juntar a eles? O que é a auréola que os cinge?

A resposta: a auréola nada acrescenta, nem é necessária à beatitude, tampouco a altera, mas a torna simplesmente mais esplendente (clarior, segundo a expressão tomista). A auréola, aprendemos com o filósofo italiano, é “esse suplemento que se acrescenta à perfeição — algo como um vibrar do que é perfeito, apenas um irisar-se dos seus limites”.

Como as asas dos anjos, eu diria.

Como aquilo que se revela amiúde nos contos de João Anzanello Carrascoza.

Como a moldura das cartas do irmão perdido para sempre, em Luiz Ruffato.

Como se algo pudesse, digamos assim, esplender discretamente.

Pedro Meira Monteiro é doutor em teoria literária pela Unicamp e professor de literatura brasileira da Universidade de Princeton. Editou a correspondência de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda e recentemente traduziu e organizou A memória rota — Ensaios de cultura e política de Arcadio Díaz-Quiñones, publicados pela Companhia das Letras.

O melhor da literatura brasileira

Por Martha Batalha

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Lendo outro dia o fundamental Os cem melhores contos brasileiros do século, eu encontrei uma frase que ficou comigo por muito tempo. Não é daquelas que nascem para epígrafe, como essa da Elsie Lessa:

“Qual o hormônio, e destilado por que glândula, que dá a uma mulher o gosto de engomar, tão alvamente, a sua toalha bordada para a bandeja do café?”

Ou daquelas que merecem ser sublinhadas, como a definição de genialidade brasileira de Alcântara Machado:

“Olhem a mania nacional de classificar palavreado de literatura. Tem adjetivos sonoros? É literatura. Os períodos rolam bonito? Literatura. O final é pomposo? Literatura, nem se discute.”

A frase que me conquistou é muito mais simples. Tem apenas quatro palavras, que são:

“O padeiro está nu.”

O padeiro está nu, diz a vizinha para o homem nu, ao encontrá-lo no corredor do prédio tentando cobrir o corpo com uma bisnaga. Depois disso a vizinha grita, chama a polícia, outros vizinhos aparecem, o homem nu esmurra a porta de casa e a esposa finalmente abre.

A cena está no breve conto “O homem nu”, de Fernando Sabino. Li a história pela primeira vez quando tinha 11, 12 anos, naquela coleção que marcou uma geração, a “Para Gostar de Ler” (se não me engano, a capa tinha um menino colocando um filhote de tartaruga para nadar na pia). Nos anos seguintes eu me esqueci do conto, mas jamais me esqueci da sensação de ler o conto, que foi boa.

Trinta anos depois eu reli, sem a ingenuidade da primeira vez — às vezes eu invejo aquela menina que lia sem a carga de conhecimento que tenho hoje. A menina que lia só por prazer, e se surpreendia por tão pouco. O fato é que, na segunda leitura, eu vi muito mais do que um conto engraçado.

Vi um conto que reflete o que eu mais gosto na literatura brasileira. É breve (os escritores brasileiros não são de escrever calhamaços), é leve e despretensioso. É pouco mais que uma piada, é um conto com jeito de crônica.

É também um conto sem excesso de palavras. Que diz o que tem que dizer no lugar e na hora certos — e por isso meu amor à frase “o padeiro está nu”.

Quando essa frase aparece o leitor abre um sorriso, e esta escritora, sabendo que o leitor abrirá um sorriso, deseja escrever frases assim. É a minha busca diária. A frase perfeita, no parágrafo perfeito, na história perfeita. A frase simples.

É muito, muito complicado escrever simples. Dá um trabalho danado. E o Brasil conseguiu, neste sentido, criar algumas gerações de estrelas. João do Rio, Machado de Assis, Luiz Edmundo (que merece urgentemente uma reedição). Vinicius de Moraes e Antônio Maria, elogiado num perfil de Vinicius como “um dos primeiros a liberar a língua do seu engravatamento vernacular”. Rubem Braga, que resume numa crônica o motivo de muitas outras: o que ele quer mesmo é escrever uma história muito engraçada, para fazer rir a moça doente, a cozinheira e o casal mal-humorado. Fernando Sabino, que deseja fazer uma última crônica tão pura quanto o sorriso de um pai humilde, celebrando o aniversário da filha com três velinhas sobre um pedaço de bolo de padaria. Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto (que dizia que Paulo Mendes Campos, outro fera, penteava o cabelo com ventilador). E nem dá para citar todos, certamente deixaria alguém de fora, embora seja bom terminar com alguns contemporâneos: Verissimo, que uma vez se definiu como um dinossauro político, e que eu defino como um dinossauro das crônicas — o homem é imenso, e sabe tudo, há muito tempo. Ruy Castro, que quando escreve é como se só tivesse entre ele e o leitor uma mesinha de botequim — como você consegue, Ruy, como? Cora Rónai e Zuenir, Tati Bernardi e Antonio Prata. É muita gente boa.

É interessante escrever sobre estes autores de onde moro, na Califórnia. O preço da mudança de país é sentir no peito saudades constantes. Esta saudade aparece na minha escrita, e na minha estante. Eles estão aqui comigo, todos estes que citei, e muitos outros. Eles me contam do Brasil, me ensinam sobre parágrafos e me deixam tranquila. Preenchem as prateleiras acima dos livros sobre técnicas de escrita, o que diz muito sobre sua função. Porque, quando penso na frase perfeita, não são os livros teóricos que me vêm à mente. Mas o jeito de escrever dos meus mestres brasileiros.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

 

Sobre silêncios

Por Beatriz Accioly Lins, Bernardo Fonseca Machado e Michele Escoura

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Imagem: Gilberto Viciedo

Entre 2014 e 2015, bancadas políticas se organizaram nas casas legislativas do país para excluir “gênero” e “orientação sexual” dos planos nacionais, estaduais e municipais de educação, silenciando discussões que estavam em curso e dificultando debates sobre desigualdade e violência no ambiente escolar.

No início de maio de 2016, ao tomar posse do governo, Michel Temer extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, cujo resultado é a redução de espaços institucionais para debate a respeito dos direitos e das demandas das mulheres.

Ainda em maio de 2016, houve o estupro coletivo de duas jovens, uma no Rio de Janeiro e outra no Piauí. No Rio, foram trinta e três homens que violentaram a adolescente; o vídeo “vazou” (foi compartilhado sem consentimento na internet, o que já constitui crime), ela estava inconsciente e nua. Os comentários que circularam pela internet desconfiavam da versão da vítima e a condenavam. A desconfiança e o julgamento fazem parte do que se tem chamado de “cultura do estupro”. O livro Transforming a Rape Culture (1991) define a cultura do estupro como “crenças que encorajam a agressão sexual masculina e auxiliam a violência contra as mulheres”. A renomada feminista negra, bell hooks, declara: “Nós vivemos em uma cultura que condena e celebra o estupro”. Ao mesmo tempo que a sociedade condena o estupro como um ato violento, investe no corpo feminino como vulnerável, disponível para o sexo e consumível (mesmo que à força). Sobre esse assunto, a Secretaria de Políticas para as Mulheres divulgou, em 2014, a pesquisa “Violência contra a mulher: o jovem está ligado?”, que perguntava a jovens de 16 a 24 anos qual era a sua percepção sobre violência. Do total, 96% das entrevistadas/os reconhecem que há machismo no Brasil, 78% das mulheres foram assediadas em locais públicos e 59% dos homens receberam fotos ou vídeos de mulheres desconhecidas nuas.

O que esses episódios possuem em comum com o ambiente escolar? Ano a ano, nas escolas do Brasil, meninas e meninos entram na puberdade. Dizemos que os meninos “esticam” e as meninas “ganham corpo”. Elas aprendem desde cedo que é delas a responsabilidade sobre como o seu corpo é tratado no espaço público. Por isso ouvem: “não sente de pernas abertas”. E o que elas fazem quando “ganham corpo”? Algumas usam roupas mais largas e amarram o moletom na cintura com o objetivo de se esconder, outras testam maquiagens e experimentam suas formas de expressão. No entanto, independentemente de suas escolhas, essas meninas irão ouvir comentários feitos por seus colegas: “fiu-fiu” nos corredores, insinuações e toques sem consentimento. O estudo acima citado revela como 68% das jovens ouviram uma cantada que considerou desrespeitosa, 44% foram assediadas em festas e 30% foram beijadas à força.

O que as escolas costumam fazer quando essas agressões ocorrem em ambiente escolar? Calam. O emudecimento não reconhece a dor e perpetua a agressão. A “cultura do estupro” é aquela que silencia a agressão sexual sofrida por essas jovens. Curiosamente quando uma criança relata um caso de abuso sexual, ninguém duvida: se ela diz, é verdade. Quando o mesmo ocorre com uma mulher, a reação é desconfiar e julgar. O que isso indica? Atribuímos autoridade diferente às pessoas e negamos a algumas delas a capacidade de denúncia.

Os episódios acima evidenciam esforços feitos para silenciar os espaços que discutem a questão de gênero e revelam o momento bastante delicado do país. Calar o debate gera dor e elimina a capacidade humana de se manifestar.

O livro Diferentes, não desiguais: A questão de gênero na escola faz parte do esforço de denunciar, em alto e bom som, as tentativas de omissão desse problema. Nele, levantamos discussões sobre o surgimento do conceito de “gênero”, a trajetória do movimento das mulheres e do movimento LGBT, os marcos legais de garantia de direitos e os processos culturais de transformação da diferença em desigualdade, sempre tomando como pano de fundo a defesa ao direito humano à educação de qualidade.

Diferentes, não desiguais será lançado neste sábado, dia 4 de junho, às 15h na Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1731), em São Paulo.

Diferentes, não desiguais - Vila-menor

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Beatriz Accioly Lins é doutoranda em antropologia na USP e pesquisadora do Núcleo de Estudos Sociais da Diferença (Numas).

Bernardo Fonseca Machado é doutorando em antropologia social na USP e pesquisador dos núcleos de estudos Etnohistória e Numas.

Michele Escoura é doutoranda em ciências sociais na Unicamp e pesquisadora do Numas e do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, na Unicamp.

Beatriz, Bernardo e Michele são autores do livro Diferentes, não desiguais, publicado pelo selo Reviravolta.