Da casa

De braço dado com Lygia

Por Mariana Mendes

Lygia Fagundes Telles (Foto por Adriana Vichi)

Trabalho na Companhia das Letras há uns bons anos, na área de divulgação para professores, um departamento que cria estratégias para comunicar aos docentes os lançamentos e as ações da editora. Uma das minhas tarefas é fazer contato com os autores a pedido de alguma escola, universidade ou secretaria de educação. Em geral, os convites envolvem uma apresentação do autor sobre sua vida e seu trabalho, considerações sobre a profissão de escritor. Os estudantes demonstram ser leitores aplicados e, preparados para o encontro, discutem e questionam a obra.

Quando comecei a fazer este trabalho, muitas vezes me sentia tímida e insegura no momento de telefonar ou encontrar o autor pessoalmente. Sendo leitora voraz desde menina, sempre encarei os autores como personagens principais, e veio daí o meu receio ao ter que passar a mão no telefone e falar com essas figuras. Era natural que eu me preocupasse com o meu jeito de falar, de me apresentar. Ai de mim cometer um erro de português!

Felizmente a experiência ocupou o lugar da insegurança. Hoje falo com os autores com frequência. Esse trabalho cresceu bastante, principalmente com relação aos livros infantojuvenis, cada vez mais adotados. Quando ligo para um autor, aproveito para saber sobre seus novos projetos, pergunto com o que ele está envolvido naquele momento.

Tudo parecia normal, sem novos segredos, até que noutro dia, ao acompanhar a escritora Lygia Fagundes Telles à feira do colégio Miguel de Cervantes, tive uma revelação.

Recepcionei a Lygia assim que o motorista estacionou no colégio. Fiquei o tempo todo ao seu lado, me mostrava solícita para ajudá-la com o que precisasse. Desde pegar algo em sua bolsa, a caneta para autografar ou o batom, até ficar quieta ouvindo suas histórias deliciosas. Em tudo que é dela, dos objetos à fala, vê-se o estilo elegante, clássico e sóbrio. Por mais discreta que seja, é possível notar a vaidade. Tanto no gesto de se olhar no espelho portátil, quanto ao se precaver trazendo consigo uma pasta com algumas fotos, além de outros tipos de registros.

Na conversa no salão do auditório, com os colegas Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna, na palestra dirigida aos alunos do Ensino Médio que leram os seus contos, Lygia está sempre colada com as histórias que viveu ou inventou, e ainda existem aquelas em que mistura fato e ficção. Estar próxima de Lygia é se envolver com um mundo vivido e fantasioso.

Ao me despedir, enquanto íamos em direção ao carro que a levaria para casa, ela me corrigiu, “Mariana, sou eu que lhe dou o braço”, e trocamos as posições: eu fiquei com o braço suspenso para que ela se apoiasse, e não o contrário, como eu havia feito sem me dar conta. Depois de se acomodar no carro, nos despedimos carinhosamente.

Naquele sábado, ao voltar para casa, me senti orgulhosa e feliz. Me dei conta de que, apesar da experiência e dos anos acumulados, ainda sou a mesma menina que, tocada pela sensação da infância, continua acreditando no mundo mágico que envolve o livro e seus protagonistas.

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Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.

O mundo não está mais tão simples, né?

Por Fabio Uehara

Quando o carteiro trazia cartas. Na época em que lembrar do nome daquela música era um suplício, e a solução dependia daquele amigo que tinha dinheiro para comprar todos os discos e não te gravava uma fita cassete sequer. Se pintasse a dúvida “qual o nome do pintor das Niféias?” ou “como é mesmo o nome da capital da Iugoslávia?” você não tinha outra opção senão consultar a Barsa ou a Mirador. Se eu falasse que encontrei um amigo da escola, as pessoas logo imaginariam que eu esbarrei com ele na videolocadora ou na fila do orelhão.

Hoje essas situações não são mais que lembranças para muita gente. Dos objetos afetados pelas mudanças tecnológicas o livro é o que talvez interesse mais aos leitores deste blog. Então é sobre as mutações dele que eu vou falar. O livro se tornou independente do papel, um arquivo que roda em um software de um determinado hardware. Você pode lê-lo no celular, no computador, no tocador de música, no leitor de livros digitais Kindle, COOL-ER e iPad.

É muito fácil ter os seus livros em um pedaço de plástico. Carregar uma biblioteca ali, no formato de uma lousa mágica, com a tela cinza, onde as letras vão surgindo ao toque de um botão e se desenham quase como um mimeógrafo digital na sua frente. Em alguns casos o livro pode ser ditado para você. Mais alguns cliques e um dicionário também está lá, para que a solução chegue tão logo apareça a dúvida sobre o significado de uma palavra, junto com informações que a princípio não te interessavam, como a etimologia e os antônimos.

Qualquer livro já digitalizado pode estar ao seu alcance em segundos, basta seu cartão de crédito ter o limite necessário. Além dos e-readers, existem os tablets: pequenas maravilhas de vidro e plástico capazes de reproduzir tudo aquilo que antes precisava de uma TV, um videocassete, um videogame, um terminal de videotexto, um fax e, claro, de espaço físico no caso do armazenamento de livros e pilhas de revistas. Ou seja, para ser portátil, só com um caminhão da Granero. E, apesar da praticidade desses meios, não podemos dizer que o livro em papel é ou será um objeto em extinção. O objetivo desse post não é discutir o futuro do livro, e sim mostrar a variedade de meios pelos quais podemos lê-lo, suas vantagens e desvantagens:

  • E-readers (Sony Readers, COOL-ER, Kindle): tela ótima para leitura, diagramação dos livros simplificada (poucas fontes e ilustrações pobres), “apenas” para leitura. Ótimos para uma leitura rápida, aquisição prática de arquivos.
  • Tablets (iPad, Slater, e outros tantos a caminho): tela ótima para imagens e vídeos. Uso muito fácil. Possibilidade dos livros terem interação, áudio e vídeo. A tela emite luz, não dá para ler no escuro (parece que tem uma lanterna na sua cara), nem muito no claro (imagina ver TV na sala, ao meio-dia, com um baita sol batendo na janela sem cortinas). Esqueça a idéia de usar o iPad à beira de uma piscina em um dia ensolarado. Mas também, quem seria louco de deixar o iPad tão perto da água?
  • O livro de papel: não precisa de bateria nem conexão com internet. Dá pra ler  no sol, na penumbra ― minha mulher não reclama mais do abajur e sim do iPad! Se você for ler algo que exija mais que um terço dos seus neurônios, ler no papel é bem melhor.

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Fabio Uehara é designer, fã de gadgets e produtor gráfico da Companhia das Letras, onde coordena o departamento de arte dos selos Companhia das Letras, Cia. das Letras e Companhia de Bolso.