A primeira vez

A primeira vez em Nova York

Por Alexandre Vidal Porto

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Nesta semana, Alexandre Vidal Porto, autor de Sérgio Y. vai à América, conta como foi a primeira vez em que esteve em Nova York.

* * *

Meu irmão caçula tinha morrido um dia antes do meu aniversário de 15 anos. Não me lembro de ter sofrido muito. Mas meus pais acharam que eu precisava de uma compensação.

Numa manhã de sábado, no final do mês de junho, eles voltaram de uma ida ao shopping com folhetos e prospectos turísticos nas mãos. Soube, então, que passaria 14 dias na Flórida, entre montanhas-russas, baleias orcas e personagens de Walt Disney.

Em minhas fantasias, eu queria visitar a Escandinávia ou a Capadócia. Foi frustrante ver meus pais acharem que passear na Disney estaria de acordo com minha maturidade e meus interesses.

Mas os pais infantilizam os filhos. E, mais importante, o roteiro que eles escolheram era o mais barato da agência. Meu ressentimento durou minutos. Abracei a viagem com entusiasmo. Era a primeira vez que eu sairia do Brasil.

Eu embarcaria para Miami no dia 3 de julho. Meus pais haviam decidido tudo em cima da hora. Foi tudo feito às pressas.

Combinou-se que, no dia da viagem, um representante da agência nos encontraria no aeroporto com o bilhete aéreo e meu passaporte visado para os Estados Unidos.

Assim foi feito. Na data e hora designadas, encontramo-nos. Ele me passou o bilhete e o passaporte. Disse-me, na frente dos meus pais: “você vai embarcar no voo XYZ da PanAm, para Miami”.  Havia outro garoto, um ano mais jovem que eu, na mesma situação. Chamava-se Rogério. Despedimo-nos de nossas famílias e seguimos juntos para o embarque.

O avião era um Jumbo 747. Eu havia viajado em Caravelles e Boeings 727. Nunca tinha visto nada tão grande. Torcemos para que nossos assentos fossem no andar de cima do avião, mas não tivemos essa sorte.

Mas tivemos outra.

Sentamos lado a lado nas poltronas centrais.  Eu prestava atenção a tudo. Ali dentro, tudo parecia melhor.  Não sei se toda a excitação que eu experimentava me terá deixado dormir direito, mas, na manhã seguinte, um pouco antes da aterrissagem, o chefe de cabine anunciou pelos alto-falantes que, em minutos, pousaríamos no “Aeroporto John F. Kennedy, em Nova York“.

Nova York não fazia sentido. Por um momento, pensei que poderíamos ter dormido e esquecido de descer em Miami. Também cogitei a hipótese remota de que NY fosse apenas uma escala no voo para nosso destino final.

Chamei a aeromoça, e ela me confirmou que o destino final do voo era NY.

“Mas nós vamos para Miami. O roteiro de nossa viagem não incluía Nova York”, disse-lhe com autoridade adolescente.

Ela pediu para ver nossos bilhetes. De acordo com as passagens aéreas, estávamos no voo correto. Vínhamos mesmo para Nova York. O agente de viagem em São Paulo havia cometido um engano.

Aquela parada em Nova York nunca havia sido cogitada. Não sabia o que fazer.  Senti medo.

Éramos menores desacompanhados. A aeromoça parecia preocupada. Enquanto respondia suas perguntas, por cima de minha blusa, apalpei o dinheiro que trazia contra o abdômen, numa barrigueira.

Quando pousamos, fomos levados para a dianteira do avião e desembarcamos antes dos demais. Uma agente nos esperava na porta do avião e nos conduziu até um balcão da companhia aérea, ainda antes da imigração. Lá, outro agente, contratado pela agência turística brasileira, nos esperava com mais 3 ou 4 passageiros na mesma situação.

A agência, de fato, havia cometido um engano. Seríamos redirecionados para Miami no final da tarde. Até lá, faríamos um city tour por Nova York, nos disseram. Subitamente, a viagem ganhara um upgrade.

Lembro-me pouco dessa viagem, mas, dos 14 dias, as memórias mais vívidas que tenho são das poucas horas que passei em Nova York. Eu me lembro do dia de sol, do cachorro quente que comi na frente da ONU, da Estátua da Liberdade vista ao longe e de edifícios tão, tão altos, que pareciam não ter fim.

A visão desses arranha-céus numa viagem inesperada me deu um sentido de possibilidade que, até hoje, décadas depois, eu carrego comigo.

Armando, narrador do meu livro Sergio Y vai à América, fala disso:

“Eu andava pelas avenidas da cidade olhando para o alto, virando a cabeça, sem conseguir ver o topo dos edifícios, acreditando que as minhas possibilidades no mundo, assim como os prédios de Nova York, chegavam ao infinito, nunca tinham fim. Era este sentimento renovado que, ao longo dos anos, eu buscava em meus passeios a esmo pelo quarteirões de Manhattan. “

E eu, Alexandre, também.

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Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo, em 1965. Diplomata e mestre em direito pela Universidade Harvard, é autor de Matias na cidade (2005) e Sergio Y. vai à América (2014).

Em tradução (artes)

Por Caetano Galindo

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Cy Twombly, “Untitled”, 1968/1971

Na coluna deste mês, Caetano Galindo escreve para a série de textos A primeira vez

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Eu tenho cabeça de músico. As minhas “primeiras vezes” mais encantadoras vieram de música. Asyla ao vivo na sala São Paulo. Os Toy Dolls ao vivo no AeroAnta. Raphael Rabello no Teatro Guaíra. O “adagio” do primeiro Concerto de Brandemburgo no primeiro vinil que eu comprei.

Mas se o espírito geral dessa coluna é falar de tradução, vou ficar com outra arte. Eu, camaradinha cuja sensibilidade visual é míope na mesma medida das faculdades oftálmicas. Mas mesmo os ogros têm seus momentos, e eu, nessa última década-e-quase-meia com a Sandra, fui a mais museus e aprendi mais sobre artes plásticas do que em toda a minha vidinha prévia.

Dessa trajetória, eu tiro alguns nomes. Bernini. Turner. Twombly.

Bernini eu vi pouco ao vivo. Turner, bastantinho. E a exposição Turner and the Sea, em Greenwich (fomos juntos, mas no dia seguinte eu encarei a viagenzinha de novo, sozinho, pra ficar sem mais ninguém diante das marinhas que ele pintou no fim da vida, bem na hora de abrir a exposição) é uma “primeira vez” pra ninguém botar defeito.

Agora o Twombly…

Eu tinha visto uns quadros dele. Lembro especificamente de um, que a bem da verdade é meio que a única coisa de que eu lembro bem de toda a Bienal de São Paulo de 1996, pra onde eu me mandei de busão pra tentar ser um cabra civilizado.

Mas, em tempos pré-Google & -Wikipédia (sim, jovem leitora, jovem leitor…), e se você ainda fatora aquele ogrismo pré-confessado, não pude ir atrás de mais nada. Só guardei a imagem da tela, que parecia uma lousa verde de escola rabiscada de giz, e esse nome meio difícil de esquecer.

Catorze anos depois, já com a Sandra, em Munique, a gente tirou um dia pra ir ver o museu Brandhorst.

Eu fui meio assim…

Arte contemporânea às vezes me deixa meio desinteressado. Mas fui. Diga-se de passagem, só o prédio do museu já vale o ingresso.

Vimos o térreo, vimos o subsolo e tal. Coisas boas. Nomes sólidos. Tudo muito interessante. Mas aí a gente subiu pro último andar, que é todo dedicado a Twombly.

Eu não tenho como te descrever o que aconteceu comigo nessa hora. Na verdade, ainda acontece. Está me deixando de queixola trêmula aqui, agora, enquanto escrevo. Enquanto lembro.

Tudo ali em cima é sublime.

Esculturas, telas isoladas. Mas aí você entra numa sala retangular imensa que tem basicamente rosas. Aquelas rosas inimitáveis que só ele sabia pintar, no limite do figurativismo infantil e barato e do abstracionismo mais “conceitual”. O efeito daquela sala já é uma pancada.

E além de tudo ele rabisca uns textos nas telas, e um deles é o all shall be well, and all shall be well, and all manner of thing shall be well que o velho T.S. Eliot copiou de Juliana de Norwich, uma mística inglesa da virada do século XV, e que de alguma maneira sempre faz vibrar o meu coraçãozinho mirrado.

Acabasse ali, aquela visita já ia ficar marcada aqui na vida das retinas fatigadas deste que vos tecla.

Mas a sala mais recolhida, no extremo daquele andar, como que o último canto do museu, foi originalmente projetada, inteira, pra receber um conjunto de obras. Há ali duas esculturas, também, mas a longa parede branca daquela sala em formato de meia-lua, toda a curva que te encara encantadora no momento em que você pisa ali dentro, é dedicada a um ciclo de 12 telas pintadas para “narrar” a batalha naval de Lepanto, em 1571, entre a “Liga Santa” e o Império Otomano. A batalha onde Miguel de Cervantes acabou ferido.

É isso que eu não sei contar. É isso que eu não sei se consigo tentar dizer.

O efeito daquilo.

O branco total daquele arco, que espelha os arcos negros que iconizam os barcos envolvidos na batalha, o lindo azul do mar, o sol e o sangue. A cada tela mais sangue. Mais violência. E no entanto o conjunto todo transmite um esplendor, uma leveza…

Ver aquilo ali, no que hoje é pra mim talvez o meu lugar preferido no mundo (ainda não voltei… ainda não voltei…), foi a coisa mais próxima de uma experiência religiosa que um fato não-musical gerou em mim. O choque de morte e arte, de beleza e fim, de encanto e pasmo. Awe, como dizem os ingleses.

A estranha sensação de que do meio daquilo tudo saía a notícia de que de fato tudo ficará bem, e tudo ficará bem, e toda sorte de coisas ficará bem.

Não sei se foram escamas. Mas alguma coisa me caiu dos olhos naquele caminho que me levou até Lepanto.

Tente ir ver.

Não acredite em mim.

Eu não consigo te dizer. Nem aqui nem aqui.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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A primeira aula

Por José Luiz Passos

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Em sua coluna deste mês, José Luiz Passos escreve sobres sua primeira aula de literatura brasileira no exterior.

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Quando minha filha tinha sete anos, na primeira semana de aulas da segunda série, num teste em sala, ela desenhou um balão com palavras ligadas por setas e escreveu em inglês a seguinte frase: “As casas das formigas ficam, em geral, perto de árvores, para que elas possam usar a casca delas para construir uma casa muito forte, com quartos fortes que não podem ser destruídos por nenhum dos inimigos que queiram incomodar as valentes e fortes formigas, que constroem casas escondidas, com coisas seguras que elas encontram nos diferentes lugares para onde viajam, quando não estão tão ocupadas e têm mais tempo para descansar do trabalho, assim como as férias de verão que nós, os humanos, gostamos de ter após um longo ano na escola, onde aprendemos todo dia coisas novas para mostrar aos nossos pais.”

Essa longa frase me ajuda a pensar no vazio que colore uma primeira aula de literatura brasileira no exterior. Num apanhado da poesia brasileira moderna para alunos americanos — situação em que me encontro neste semestre — não há como contar com um corpo de referências comum aos alunos. As disciplinas são abertas à graduação e à pós; os alunos vêm de vários cursos e departamentos. Em sala é preciso especificar as coisas uma por uma, e contar as histórias desde o começo, de maneira acessível a qualquer interessado. Por isso, quando volto a pensar na frase da minha filha, noto com maravilha a conexão realizada entre a astúcia de uma construção forte e discreta — uma casa invisível — e a distância percorrida pelas formigas, em busca de algo diferente, ao mesmo tempo novo e seguro, que a criança de sete anos equipara às viagens de férias, no verão, rumo ao distante país dos seus pais.

O desafio de uma primeira aula no exterior é parecido a esse sentimento. O ensino da matéria brasileira fora do Brasil não será, jamais, mera transposição de métodos, programas e conteúdo brasileiro. É, ao contrário, um modo de pensar essa matéria a partir da distância — real e simbólica — entre a experiência que se quer contar e a função que essa experiência terá longe do lugar em que ocorreu. Nos Estados Unidos, o professor de literatura estrangeira — ele próprio estrangeiro ou não — existe como ponte para algo que não está necessariamente ali, que não pode ser entendido por contiguidade nem testemunhado no caminho de casa. Sua lição é algo que apenas se torna visível quando mediado pelo aprendizado de outra língua, pelo ofício da tradução ou, em última instância, pela própria viagem.

Com isso quero dizer, simplesmente, que minha dependência com relação a canais de comunicação material — as linhas aéreas e os correios, por exemplo — é traço constitutivo do ofício que exerço, tal e qual as formigas que buscam “coisas seguras”, safe things, fora de casa, para construir as suas casas. Nos últimos dez anos intensificou-se a presença de professores brasileiros atuando em universidades norte-americanas. A lista hoje é numerosa; quando cheguei à Califórnia, há exatos vinte anos, era bem menor. O vazio da primeira aula, aquele causado pela distância material e simbólica do professor, é o limite de um intervalo comum ao magistério cuja tópica e os profissionais vêm de longe e vão longe, em busca do que precisam levar para a sala de aula. Para esses, o ensino é a prática de uma perspectiva em trânsito.

Visto de fora, a grandeza dessa primeira aula está precisamente no instante em que os alunos se dão conta de tal esforço; do fato de que estão lidando com valores e bens culturais que vêm de longe, demoram a chegar, custam a ser repostos, pedem o esforço de outra língua e a mediação levada a cabo por um profissional no cruzamento de fronteiras. Essa prática, que define parte de nossa inserção no mercado intelectual internacional, me lembra a figura de um tropeiro, cujos cestos, matulas, cangalhas e alforjes, recompostos de trens a cada rota, são arrastados através de campo extenso, para serem trocados lá adiante com quem precise ou, simplesmente, queira aquilo que vem de outro lugar.

Por mais que se busque entender as dinâmicas de produção, tradução, circulação, catalogação e canonização das nossas obras clássicas e contemporâneas, em congressos, teses e sites, resta ainda, mais humilde e menor, a lógica das formigas; resta a pergunta do tropeiro: qual é o livro que você levaria numa viagem longa, por companhia — livro que fosse passado adiante no encontro com alguém tão diferente de você e tão alheio ao seu ponto de partida que, talvez, sequer tal livro tenha para esse estranho o sentido de uma companhia? Qual é a história que vale a pena ser espalhada como quem espalha feijões, sem contar que eles necessariamente venham a se desdobrar naquelas plantas majestosas que nos levam às nuvens? O vazio da primeira aula é um ensaio na resposta a essas perguntas. E nelas cabe um futuro em que a literatura brasileira pertença, cada vez mais, a um número maior de brasileiros e também, igualmente, em outras línguas, àqueles que sequer puseram os pés no Brasil.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

A primeira vez que traí um personagem

Por Mauricio Lyrio

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. No post de hoje, Mauricio Lyrio, autor de Memória da pedra, fala sobre sua primeira experiência cara-a-cara com o leitor em um clube de leitura.

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Com o primeiro livro publicado, podem vir outras iniciações, e foi assim que participei pela primeira vez e como autor de uma sessão de um clube de leitura.

A Companhia das Letras tinha lançado, em 2013, um romance meu, Memória da pedra, e algum tempo depois me convidou para participar de um clube de leitura em Brasília. Os integrantes leriam o romance ao longo do mês e, no dia marcado, eu conversaria com eles sobre o livro.

No palco do auditório da livraria, sobre as cadeiras dispostas em círculo, a atmosfera era de simpatia e gratidão, pela suposta generosidade do autor de se materializar num clube acostumado a discutir autores que não podiam estar presentes, por pertencerem a outro continente ou mesmo a outro século.

Ao longo das primeiras interações tudo transcorreu de maneira suave, como deve ser: discussões sobre o processo de escrita, a origem dos personagens e situações, as ideias por trás, a razão para esta ou aquela solução da história.

Já estávamos no terço final quando uma senhora até então calada levantou o braço para falar. Tinha uma voz muito segura, quase o tom de uma tutora, o que contrastava com os olhos pregados no livro aberto em seu colo. Fez alguns elogios protocolares e logo foi ao ponto que parecia lhe interessar: por que diabos eu tinha feito aquilo com o Romário no final?

No romance, Romário é um menino de rua que passa a morar com um casal de classe média alta do Rio de Janeiro. Ao cabo, faz algo grave supondo ser um gesto de retribuição e solidariedade.

Expliquei que uma solução mais solar para o personagem faria do livro um romance social edificante, o que jamais tinha sido minha intenção.

Balançando a cabeça de um lado a outro, os olhos nunca dispostos ao contato, a senhora disse que o final era cruel. Romário não merecia aquilo. Por sua trajetória, pelos afetos desenvolvidos.

Ponderei que não havia crueldade. Afinal no horizonte das páginas em branco do romance, em seu futuro oculto, o personagem continuava vivo. Não morreu nem sofreu qualquer dano físico.

Não morreu, mas fez algo horrível, ela retrucou. Perguntou o que eu tinha contra o rapaz.

Respondi que lhe tinha dado uma vida, ficcional ao menos. Não era uma prova de afeto. Mas tampouco era um indício de perseguição.

Não sei se ela disse que eu não tinha o direito de dar a alguém uma vida se era para desdobrá-la daquela maneira. Talvez tenha dito, ou imaginei depois. A frase passou a integrar a memória daquele diálogo.

Saí do clube de leitura ao mesmo tempo contente e intrigado. Contente por ter despertado numa leitora certa paixão sobre o comportamento de um ser que não existia para além das páginas do romance. Ela argumentava como se uma vida estivesse em jogo.

Intrigado, no entanto, por aquela curiosa disputa de apropriação dos rumos de um personagem. Em que momento o personagem acompanhado por um leitor ganha uma segunda vida ao refletir os sentimentos, valores e expectativas deste novo “autor”? Ou em que medida um personagem requer um desenvolvimento particular, numa direção específica, movido de maneira consistente por uma suposta essência, que se manifesta e reforça a cada ato e pensamento seu? Coerência psicológica vale mais do que a concepção estética do que deve ser uma obra de ficção? Talvez minha interlocutora estivesse correta ao sugerir que eu havia traído os desejos de libertação e curso autônomo do personagem, ao amarrá-lo à minha visão do que deveria ou não deveria ser aquele romance.

Veio à mente a resposta de Vladimir Nabokov quando lhe perguntaram o que achava da tese de E. M. Foster, hoje um tanto gasta, de que, no ato de se escrever um livro, os personagens podem ganhar vida própria, se apoderar da trama e ditar seu curso.

Com a mordacidade usual, Nabokov alegou que até simpatizava com os personagens do inglês em seu desejo de fuga dos lugares onde Foster os metia, mas no caso dele a história era diferente. Meus personagens são “galley slaves” (galeotes  escravos remadores de galé), dizia o russo.

Talvez eu não tivesse por que discordar.

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Mauricio Lyrio nasceu no Rio de Janeiro. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York. Seu primeiro romance, Memória da pedra, recebeu menção honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2010 e foi 2º lugar no Prêmio José de Alencar 2014, da União Brasileira de Escritores.

Falsa partida

Por Juan Pablo Villalobos

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Na coluna de Juan Pablo Villalobos deste mês, o escritor fala de sua primeira oficina literária.

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Éramos seis, um número perfeito para uma oficina literária. Cinco mais um. Ou seja, cinco opinando e um lendo. Um número ímpar de juízes é condição imprescindível para qualquer tribunal. Eu poderia mencionar os nomes reais de meus colegas de oficina, mas não sei se eles gostariam do jeito como vou retratá-los, reconhecendo minha tendência como narrador para a caricatura e o sarcasmo (eu me conheço).

Éramos cinco homens e uma mulher. Peço desculpas para os defensores da igualdade de gênero, mas tenho o imperativo de ser fiel à verdade. Ao que eu acredito ser a verdade. Às minhas lembranças, quero dizer. Fazendo uso de uma licença poética, digamos que meus colegas se chamavam Darkson, Liberalino, Grilo, Valdisnei e Confúcia. E havia eu, claro. Tínhamos entre 20 anos (Confúcia, que além de ser a única mulher do grupo era a mais nova) e 35 (Liberalino, que era copy numa agência de publicidade). Eu tinha 22 anos, o que quer dizer, se a matemática não falha, que isso aconteceu há quase 20 anos, em 1996, em Guadalajara, no México.

Quem tinha organizado a oficina era Darkson, amigo meu, de Liberalino e de Valdisnei. Eu havia convidado Grilo, um colega da faculdade, e Confúcia, a melhor amiga de minha namorada daquela época. Darkson era fã de Henry Miller; Liberalino, de Juan Rulfo; Grilo, como eu, de Jorge Ibargüengoitia; Valdisnei, de Paul Auster; e Confúcia lia poesia (gostava de Rilke). Para começar, não tínhamos muitas afinidades literárias. Mas estávamos empolgados. Muito empolgados. Todos queriam ser escritores. Pior ainda: todos tinham certeza que iam virar escritores. Quem sabe por quê. E, especialmente, para quê.

Eu escrevia desde os 14 anos. Contos, poemas, músicas para a banda de rock dos meus amigos da cidadezinha onde morei até a adolescência. Mas nunca tinha participado de uma oficina literária. De fato, minha “produção literária” tinha tido, até então, uns leitores sem nenhuma noção, interesse ou intenção crítica. A primeira vez que divulguei uma de minhas obras literárias foi quando, depois do jantar de Natal, li um conto para minha mãe e minha avó enquanto elas lavavam a louça. No conto, uma criança se suicidava. Era um conto de Natal, lógico. Quando terminei de ler, minha mãe e minha avó só assentiram, achando, tenho certeza, que eu precisava de um psiquiatra e não de um crítico literário. As vítimas de meus poemas, quer dizer, minhas leitoras, eram (quem mais?) minhas namoradas da adolescência. Para mostrar meu amor, eu acabava crucificado em meus poemas (minha cidadezinha é muito católica). Elas suspiravam. Não sei se por amor, tédio ou susto. Quanto à banda de rock, era mais simples: eu traduzia (mal) as músicas do The Cure e as arrumava para que rimassem. Os caras da banda, que se chamava Mentes Invertidas, ficavam sempre felizes (não sabiam inglês).

Então, para mim, a ideia da oficina literária era ao mesmo tempo fascinante e assustadora. Eu sabia que para melhorar a escrita eu precisava de ajuda, mas não sabia se estava pronto para escutar  e aceitar  outros aspirantes a escritores enunciando os defeitos dos meus textos. Por isso, me preparei cuidadosamente e decidi levar à primeira sessão da oficina aquele que considerava meu melhor (e único) conto. Quer dizer, o único verdadeiramente terminado. O único “redondo”. Se chamava “Salida en falso” (“Falsa partida”). Se chama, de fato. Li agora de novo, ele está guardado entre meus arquivos no seguinte endereço: Mis Documentos/j.p./Cuentos/Primer volumen. Que pretensioso, pelamordedeus! “Primeiro volume”. Como se eu já tivesse minhas “Obras completas”.

O conto tem uma frase boa, uma ideia boa, que eu poderia escrever hoje (talvez a plagie): “Por alguma razão incompreensível, as pessoas chegam à conclusão que quando você ganha você é feliz, que você nasceu para isso, que esse é o caminho que você deve seguir”. O conto é sobre um menino traumatizado pelo bullying na escola. O menino é selecionado para fazer atletismo e resulta que é muito bom correndo. Muito bom mesmo: um campeão. Mas nem assim ele consegue superar seu trauma, porque ele não percorre um caminho que leva ao sucesso, como as pessoas estruturadas que estabelecem objetivos na vida. Ele foge para o sucesso (ainda gosto dessa ideia). Uma confissão: esse conto tinha um pano de fundo autobiográfico, pois eu sofri bullying entre os 6 e os 8 anos, apesar de naquela época o conceito de bullying não existir  a gente chamava simplesmente de “ir pra escola”.

E agora, ou seja, naquela noite de 1996 (íamos começar às 20h, no apartamento de Darkson), eu tinha medo de sofrer um novo tipo de bullying, o pior de todos os bullyings conhecidos: o bullying literário. Tinha medo, especialmente, de Darkson e Liberalino. Eu sabia que Grilo e Confúcia seriam condescendentes. Valdisnei era, para mim, uma incógnita. Mas Darkson lia Kerouac e Bukowski, além de Henry Miller, bebia tequila do gargalo e podia ser despiedoso. Liberalino tinha 35 anos, 35 anos!, mais de 10 anos a mais de experiência de leitura e escrita!

No começo da sessão pedi, quase tremendo, para ser o último a ler. Ninguém se opôs, lógico: todos, exceto Confúcia, queriam ser os primeiros. Confúcia não queria ser nem a primeira nem a última. Falou que não tinha trazido nada para ler por enquanto. Falou a mesma coisa em todas as sessões da oficina, tornando-se assim a participante mais enigmática. A única coisa que ela fazia, às vezes, era nos contar alguma imagem para um poema, alguma cenografia para uma peça de teatro (era atriz), algum diálogo para um roteiro de cinema (estudava cinema). Era, de fato, a melhor de todos, a que tinha as melhores ideias: a escritora que não escrevia, quase uma artista conceitual.

Darkson foi o primeiro a ler, intercalando parágrafos com goles de tequila, imitando Bukowski (isso eu só fiquei sabendo mais tarde, ao assistir umas leituras de Bukowski no YouTube). Ninguém entendeu o que ele lia. Era meio incompreensível por estar mal escrito e meio incompreensível por ser misterioso. Como eu não sabia o que dizer, minha única sugestão foi trocar um ponto de lugar. Ele achou que isso era uma afronta pessoal e ficamos discutindo a sintaxe desse parágrafo por mais de vinte minutos. Achei que, pelo visto, o que eu tinha que fazer era beber mais cerveja, e mais rápido.

Grilo leu um conto que havia trabalhado em outra oficina literária: um conto triste em que imaginava o futuro medíocre de um colega da faculdade que a gente realmente odiava. Juan Carlos Onetti já escreveu esse conto mil vezes. E mil vezes melhor. Isso foi, de fato, o que Liberalino falou. Darkson reclamou que a prosa de Grilo era transparente, como se entender o que você leu fosse um defeito gravíssimo. Valdisnei apoiou Darkson, mas a interpretação dele era que a prosa de Grilo precisava de mais “intensidade poética”. Confúcia falou que gostava do conto. Eu também, exceto por um ponto e vírgula que sugeri trocar por um ponto. Grilo falou: “ok”.

Depois veio o desastre: as cinquenta páginas do fragmento de romance de Valdisnei. Um triângulo amoroso com intensidade poética demais, lido no tom monocórdico, persistente e teimoso de Valdisnei. Demorou mais de uma hora, que o resto de nós dedicou, além de escutar, a visitar a geladeira para pegar mais e mais cerveja. Quando terminou, todo mundo, exceto Valdisnei, estava bêbado. Daí Darkson, acostumado a manter a lucidez em estados etílicos, salvou a noite: falou que já era muito tarde e que seria melhor deixar os comentários do romance de Valdisnei para a próxima sessão. Liberalino disse, condescendente, como irmão mais velho, que era verdade e que, aliás, ia adiar a leitura dele para a próxima sessão também, para que pudéssemos dedicar tempo à minha leitura. Era isso, chegava minha vez.

Cof, cof. (Um gole de cerveja).

Li as 1971 palavras do conto (revisei o documento agora). Terminei. Todo mundo ficou em silêncio, mas era um silêncio confortável, que eu gostava. Eu gostava, na verdade, de olhar os rostos dos cinco. Um pouco surpresos. Um pouco eufóricos. Quase felizes. Cacete, falou Liberalino. Muito bom, falou Darkson. Arrasou, falou Grilo. Muito bom mesmo, falou Valdisnei. Parabéns, Pablito, falou Confúcia (ela me chamava de Pablito). Na verdade o conto não era tão bom (já falei que talvez só tivesse uma frase boa, uma ideia boa). Na verdade a gente estava muito bêbados. Na verdade a gente queria era parar com essa porra de oficina e começar a festa. Mas essa foi a primeira vez que eu senti que era escritor.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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