A primeira vez

Aquele maldito telex

Por Sérgio Rodrigues

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor de O drible, conta sobre sua primeira experiência como correspondente internacional.

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Minha primeira vez como correspondente internacional popstar — ou pelo menos íntimo dos popstars, algo que deveria dar no mesmo segundo certo ponto de vista – foi um tremendo fiasco devido ao boicote provocado por um cruzamento de tecnologia das cavernas e descuido demasiado humano. Isso parece bem apropriado porque, percebo agora, já começa me obrigando a desfazer com demasiado cuidado humano a armadilha tecnológica das cavernas que ameaça boicotar minha história de “primeira vez”. Quem aí sabe o que é telex?

Em 1987, todos os jornalistas eram íntimos daquele aparelho de transmissão e recepção telegráfica de texto que fora criado meio século antes, mas ainda não dava sinais de cansaço — ou assim pensávamos. A verdade é que sua aposentadoria, provocada pela transmissão eletrônica de arquivos, já vinha dobrando a esquina. Mas em princípios de 1987 ainda era apenas por telex que chegavam barulhentamente às redações brasileiras, cuspidos dia e noite em formulários contínuos, os chamados despachos das agências internacionais de notícias. Era também por ele que os correspondentes enviavam seus textos.

Estávamos em princípios de maio, o que me situava no exato meio do caminho entre meus 20 e 30 anos. Por acaso, esse lugar era também o do auge da euforia por me ver desembarcando como correspondente do Jornal do Brasil em Londres — onde acabaria ficando por dois anos. Naquele momento, porém, o futuro que me interessava era bem mais imediato: mal chegado e ainda sem desfazer as malas, eu tinha que correr para meu primeiro compromisso na cidade, o de entrevistar uma banda de rock chamada Echo and the Bunnymen, que tomaria um voo naquela mesma noite para, em sua primeira visita ao Brasil, tocar no Canecão.

Sim, eu sei: à medida que avanço vai ficando claro que a armadilha no caminho deste texto não é só a defasagem tecnológica. Mal expliquei ao leitor com menos de quarenta anos o que é telex e já sou forçado a ampliar o glossário de termos de época para esclarecer que Jornal do Brasil era um jornalão carioca de grande prestígio e projeção nacional; que os quatro rapazes do Echo and the Bunnymen, Ian McCulloch à frente, formavam uma banda trendy de bastante sucesso na época; e que o Canecão era uma famosa casa de shows do Rio de Janeiro. Terei esquecido alguma coisa? O que mais se perdeu na poeira da história desde então?

(Pior: fará algum sentido um causo de primeira vez cheio de referências que já não têm vez, cuja última vez vai desbotando na memória? Taí uma pergunta que será prudente ignorar, sob pena de aborto textual imediato. Em frente.)

Bom, correu bem a entrevista com os Bunnymen, de quem eu era razoavelmente fã por conta de um LP chamado Ocean rain, lançado poucos anos antes e de incontáveis milhas rodadas em minha vitrola (eu sei, eu sei, mas chega de glossário). Pouco me lembro da entrevista além do interesse declarado por McCulloch de tomar pints e mais pints de caipirinha quando chegasse ao Brasil — um projeto temerário do qual tentei demovê-lo — e de minha satisfação autoral ao encontrar o adjetivo “transado” como tradução de trendy. Sei, de todo modo, que foi um papo simpático, ao fim do qual saí correndo da gravadora com minha Olivetti Lettera 22 a tiracolo direto para a sede da agência Associated Press, onde, conforme combinado previamente, filaria uma mesa para escrever e um telex para fazer o texto chegar ao Jornal do Brasil a tempo de estampar a capa do Caderno B do dia seguinte, nas bancas no momento em que o sol estivesse nascendo e os roqueiros ingleses desembarcando no Galeão.

Foi um desastre. Transmitido por telex em duas partes (eu despachei a primeira metade antes, entregando-a ao digitador da AP assim que a tirei da máquina, pois achei que desse modo ganharia tempo), o texto nunca mais virou um só. A abertura foi parar nas mãos do editor errado, que distraidamente a engavetou. A segunda metade chegou às mãos certas, mas era inútil. Tentaram me ligar na AP para que eu retransmitisse a primeira parte. Eu já estava em algum lugar do metrô, flutuando no alívio da missão cumprida, a caminho de casa – onde, recém-chegado, ainda não tivera tempo de instalar um telefone. Celular? Não havia, pois é. Como eram imensas as distâncias, e como tinha algo de heroico o trabalho de encurtá-las — quando se conseguia fazer isso.

Pelo menos o show do Echo and the Bunnymen no Canecão foi excelente, dizem. Há quem jure que chegou às raias do lendário. Se Ian McCulloch se afogou em pints de caipirinha não sei, mas eu fiz algo parecido com o mais famoso destilado local porque era assim que lidávamos naquele tempo com as frustrações da vida, meninos, eu vi.

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Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. Entre outros livros, é autor do romance O drible (Companhia das Letras), vencedor do Grande Prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) em 2014 e lançado em sete países. É mineiro e vive no Rio.

Escrever enquanto dinossauro

Por Luisa Geisler

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, no lugar de sua coluna mensal no blog, Luisa Geisler escreve sobre a primeira vez em que “foi” um dinossauro.

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Tenho um irmão. Naquela tarde de verão gaúcho, eu estava na fase da infância entre o ódio e a mais pura admiração por ele. Aquela fase em que ter quatro anos a mais parece não só uma geração inteira como um oceano de sabedoria apenas comparável ao dos adultos. E também a fase em que dizer “vou te matar” partia verdadeiramente de um desejo visceral de consertar minha existência por meio de fratricídio.

Eu não gostava de crianças. Odiava a maioria das outras crianças da minha faixa etária. Eu me achava muito madura para a minha idade. Isso em algum lugar entre seis e nove anos de idade. As crianças da escola não sabiam de nada, sabe por quê? Porque meu irmão tinha me dito que o Ensino Fundamental era moleza, e difícil mesmo era o Ensino Médio. Pouco importava que meu irmão tinha ouvido isso de um outro garoto, e nenhum de nós entendia bem a diferença entre Ensino Fundamental e Médio.

Ao mesmo tempo, porque nunca fui tão psicopata quanto quando era criança, eu tinha planos de matá-lo durante o sono. Meu irmão me batia, brigava melhor, era mais forte, riscava meus livros de colorir, roubava bonecas, comia os restos de McLanche Feliz que eu colocava na geladeira, não me emprestava os quadrinhos do Homem-Aranha que a mãe assinava para ele e me ameaçava com a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Eu nunca tinha visto a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu tinha medo de que fosse sentir medo da Cuca. Claramente, esse medo do medo é a característica mais neurótica que tenho, e só me tornei escritora — não pelos quadrinhos, não pelas histórias antes de dormir, não pela Feira do Livro de Porto Alegre — por essa neurose precoce. Logo, sempre que se citava a Cuca, eu desligava a televisão para não precisar vê-la.

E meu irmão ligava de volta.

E só a mente infantil compreende o quão aterrorizante é a possibilidade de ver a Cuca na televisão.

Acho que era final de semana. Então: calor, irmão, pura admiração, puro ódio. Ah, e um VHS de Jurassic Park. Se eu tinha medo da Cuca, pensem em quanto medo eu tinha de dinossauros. Por algum motivo, meu irmão não tinha o direito de ver a televisão (na minha opinião), e eu me recusava a sair da sala. Ele sabia que se colocasse o filme dos dinossauros e eu estivesse na sala, eu iria começar a chorar do medo do medo, meus pais iriam achar que ele estava me provocando e ele ficaria de castigo. Eu era a menina, eu era menor. Logo, ele sabia que eu tinha que sair por livre e espontânea vontade ou não haveria paz.

E eu sabia disso também.

Logo, não saí da sala. Não me lembro por quê, mas era uma causa justa. Fiquei no sofá, esperneei e ameacei chorar enquanto ele rebobinava e iniciava a fita. Tanto reclamei que:

— Tu não quer ver o filme? — meu irmão disse. E tacou um pano (?) do sofá na minha cara. — Pronto. Não vai ver o filme.

Segui na sala, ameaçando que conseguia ver o filme entre partes do pano. Mas meu irmão se absolvera de culpa. O medo do medo tomou conta de mim, mas travei quando um dos funcionários do parque foi puxado para dentro da gaiola na cena inicial. E vi um olho de dinossauro. Shoot her. Fazia muito calor sob o meu pano. Depois ainda, minha frase favorita de todas: clever girl (especialmente porque entendi sem as legendas). E tudo isso levou a um segundo de duas horas e dois minutos que cresceu a ponto de eu cogitar ter “velociraptors” no título do Livro Novo em que estou trabalhando hoje.

Dias (?) depois, meu irmão sugeriu brincarmos de dinossauro. Basicamente a gente iria pisar bem forte no jardim. Tivemos uma discussão porque é claro que sim. Ele queria ser o tiranossauro. Eu queria também. Meu favorito era a clever girl, mas o tiranossauro era maior, e eu não queria reforçar os sistemas de poder e opressão causados por tamanho, que já existiam na vida não pré-histórica (para referência, meu irmão hoje tem quase dois metros e eu, 1,79m e 50mm). Discutíamos.

Meu irmão, então, sentou e começou a me contar de um dinossauro. Que era tipo o tiranossauro, só que maior e mais forte. E mais colorido. Tinha muito de velociraptor misturado. Ele tinha visto nos livros de dinossauro. Ele ia mostrar depois. E ele ia me deixar ser esse dinossauro, porque ele era generoso assim.

Eu me levantei. Eu sorria. E, pela primeira de muitas vezes, eu fui um dinossauro.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

O mágico ator

Por Raphael Montes

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, no lugar de sua coluna mensal no blog, Raphael Montes escreve sobre a primeira vez que leu um livro.

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Eu tinha dez anos e queria ser mágico. Estudava no Colégio de São Bento e vivia de um lado pro outro com um maço de cartas nas mãos, mandando alguém escolher uma carta ou pensar em um número para que eu adivinhasse, buscando alguém para me dar uma moeda ou outro objeto pequeno que eu faria sumir diante de seus olhos. A mágica era minha paixão.

Na turma, todos viam desenhos animados, jogavam videogame em casa e futebol na hora do recreio. Eu ficava praticando mágicas. Sempre. Comprava novos truques em um quiosque que havia no shopping Rio Sul, via e revia um show do David Copperfield que passara na Globo com apresentação da Ana Furtado que eu tinha gravado num VHS. A prática leva à excelência, eu sabia. Mas nunca cheguei a ser realmente bom naquilo. Eu era determinado, mas meu público era um só e já ia ficando impaciente após ver o mesmo truque pela vigésima vez. Hoje penso que a mágica me encantava por sua capacidade de surpreender e de iludir diante dos olhos. Ilusão e surpresa: duas sensações que sempre me fascinaram.

Por um tempo, desisti da mágica e resolvi ser ator. Eu gostava de me sentir na pele de outro — pensar e agir como outra pessoa. Por esse motivo também, adorava brincar com bonecos de luta: a cada boneco, eu criava todo um passado para ele, um motivo para que tivesse chegado até ali (algo bem mais interessante do que simplesmente “mamãe foi na loja e comprou”) e fazia com que ele lutasse com todos os bonecos que eu já tinha para que pudesse entrar na gangue. O lado divertido é que, como eu não via desenhos animados, eu escolhia os bonecos pela aparência apenas — não conhecia nada da história deles e podia inventar à vontade. Mais tarde, descobri o nome de alguns. Para vocês terem uma noção, Hagrid e Professor Xavier eram inimigos mortais, ambos maus, contra o bondoso Darth Vader (na minha imaginação, aquele sujeito de máscara preta tinha perdido a família, mas no fundo era um cara legal).

Como gostava de imaginar outras vidas e outras pessoas, atuar me parecia um caminho natural. Fiz um curso de teatro na Barra da Tijuca e cheguei a me apresentar em um ou dois espetáculos infantis, o suficiente para perceber que eu não tinha o menor talento para aquilo.

Então, em uma noite chuvosa, eu estava em uma colônia de férias em Pentagna, perto do município de Valença, com minha tia-avó Iacy quando ela me entregou um exemplar de Um estudo em vermelho. Eu nunca havia lido um livro que não fosse daqueles obrigatórios na escola — meus pais não têm costume de ler e, por isso, consumir literatura não era algo “natural” lá em casa. Fiz cara feia, não queria ficar lendo, mas minha tia-avó insistiu e, afinal, por que não? Estava chovendo!

Deitado na cama, comecei a ler. Quando percebi, estava mergulhado naquele universo, investigando crimes com Sherlock Holmes, tenso pelo que viria nas páginas seguintes e ansioso para chegar ao final. Naquela madrugada mesmo, terminei o livro. Eu estava em êxtase, como só ficamos quando nos deparamos com uma revelação, com todo um mundo novo e cheio de possibilidades. Ainda naquelas férias, li A volta de Sherlock Holmes e dois infanto-juvenis de Sidney Sheldon: O fantasma da meia-noite e A perseguição. Ainda naquelas férias, resolvi que seria escritor.

Fiz meus primeiros contos e, logo depois, um romance policial nunca publicado. Daí, comecei Suicidas, meu primeiro livro publicado. E depois Dias perfeitos, O Vilarejo e sabe Deus o que mais vem por aí. No fundo, continuo a ser o moleque que, naquela madrugada chuvosa, descobriu que ilusão, surpresa, fantasia e encenação podem conviver em um mesmo lugar: nos livros. Mágica e atuação na mente do escritor. Quer experiência melhor?

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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A primeira vez que falei Esperanto

Por Socorro Acioli

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Durante dezembro e janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Socorro Acioli, autora de A cabeça do santo A bailarina fantasma, é a convidada de hoje e conta aos leitores como aprendeu a falar Esperanto.

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Logo que começamos a namorar, meu marido matriculou-se em um curso de Esperanto. Estava empolgadíssimo. Nossos primeiros dias de amor eram preenchidos por longos momentos de explicações sobre a ideia de uma língua internacional. Ele me contava que o criador do Esperanto, o Dr. Zamenhof, inventou um sistema linguístico congregando elementos de vários idiomas, uma fascinante gramática sem exceções, fácil de aprender.

Não demorou para que ele encontrasse um grupo de esperantistas ainda mais empolgados. É a língua da paz e da união dos povos, eles diziam. Planejavam um congresso regional, outro nacional e um grande evento internacional. A esperança de um mundo sem guerras estava na implementação do Esperanto como língua de comunicação intercultural — diziam eles, com veias saltadas no pescoço, na testa, braços para o alto, gesticulando com fervor.

De estudante, meu marido virou professor de Esperanto, e o envolvimento com o projeto esperantista aumentava descontroladamente. A coisa ficava cada dia mais séria. Eu não conseguia acompanhar tamanho entusiasmo e meu marido percebia, é claro, minha participação apática nos eventos da estrela verde.

Mas ele foi esperto quando me disse, um dia, que estava interessado em ir ao Congresso Internacional de Esperanto, em Tel Aviv, mas que só iríamos se eu aprendesse o idioma até lá. Aí sim, ele falou minha língua. Até porque a organização do evento oferecia uma excursão antes do congresso que passava por Jerusalém e eu tinha loucura para conhecer aquele lugar.

Foram alguns meses de empenho para aprender Esperanto até chegarmos ao hotel em Tel Aviv e encontrarmos o grupo da nossa excursão. Eram senhores e senhoras da África do Sul, da Espanha, da Inglaterra, dos Estados Unidos, da França, da Itália e do Japão e, dentre eles, o mais jovem deveria ter cerca de setenta e cinco anos. Todos falando somente Esperanto — menos eu, que até então estava muda.

Na véspera da visita ao Lago Tiberíades, o guia convocou uma reunião para decidirmos se encurtaríamos o passeio para almoçar em um restaurante arrumadinho ou se aproveitaríamos um pouco mais, porém comendo um falafel em um restaurante caseiro no meio da estrada.

Quando dei por mim, eu estava  explicando que seria muito melhor comer o falafel, é óbvio, a coisa mais deliciosa do Oriente Médio, aquele pão maravilhoso cheio de salada e bolinhos de grão de bico. Uma das coisas que eu mais queria provar na viagem era o tal falafel, não poderia perder a oportunidade. Argumentei gesticulando, dilatando as veias do pescoço e falando Esperanto. Nem eu acreditei, segundos depois. Parecia possuída pelo fervor da estrela verde. Meu marido marejou, orgulhosíssimo. Em nome de um falafel, eu finalmente honrava a língua do Dr. Zamenhof.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lançou a nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.

We accept you, one of us

Por Maria Clara Drummond

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O primeiro beijo, o primeiro livro, a primeira festa, a primeira viagem ou ainda a primeira vez que você se sentiu parte de alguma coisa. A partir de hoje, o blog recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem relatos sobre a primeira vez em que algo importante aconteceu em suas vidas. O primeiro texto é de Maria Clara Drummond, autora de A realidade devia ser proibida, que conta sobre a primeira vez em que vivenciou o sentimento de pertencimento.

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Disseram-me outro dia que a literatura é o lugar do loser, pois bem, então estou em casa. Fora um período excepcionalmente sociável na primeira infância  lembro-me de ser uma criança alegre  todo resto da minha trajetória de vida foi marcada por um profundo sentimento de ser estrangeira a qualquer ambiente social que eu pudesse ser incluída. Desde a adolescência, na mais absoluta solidão, até a juventude, quando tentei me enquadrar nos mais diversos esquemas: de brincão e cabelo alisado trocando beijos com surfistas na Baronetti, me esforçando para parecer menos patricinha aos olhos dos indies cheios de referências da Casa da Matriz, ou à procura de alguma conversa inteligente nos salões do Fasano. A cada fase, buscava um grupo de amigos diferente, tentando me moldar às regras de aceitação vigente, emulando seus códigos, e por mais que tenha feito amigos que me são queridos até hoje, é muito difícil ser feliz quando é preciso um esforço sobrenatural para ser acolhida.

Em 2012, fui convidada para a festa de aniversário da minha amiga Bettina. Estávamos há alguns meses sem nos ver por conta da minha recente mudança para São Paulo, e por isso não conhecia nenhum dos seus amigos presentes. Em dado momento, me vi no pátio interno da casa, onde os convidados sentavam-se em torno de uma grande mesa redonda. À essa altura, eu já ensaiava algumas das características sociais que tenho hoje, como a aparente extroversão, o gestual  expansivo, a verborragia, a fala alguns decibéis acima do normal, o timing para contar algumas histórias como num palco imaginário. E disse: essa semana entrevistei Heloísa Buarque de Hollanda, a mulher que deu a festa que mudou o Brasil!

Todos olharam para mim ao mesmo tempo. Alguns soltaram uma gargalhada expressiva, e em seguida ocorreu um breve silêncio. Um dos meninos que se sentava no canto oposto da mesa, a partir do meu posicionamento no jardim, disse: continua o que você está dizendo. Achei interessante. Então continuei, muito animada, contando sobre a festa narrada no primeiro capítulo de 1968: o ano que não terminou, do Zuenir Ventura. Um dos convidados percebeu que a festa iria dar em merda quando ele pediu ao barman duas doses de whisky e recebeu, em vez de dois copos, duas garrafas de whisky! Percebendo uma receptividade até então inédita na minha vida, prossegui: o Elio Gaspari disse que, depois do réveillon da Helô, o Rio de Janeiro nunca mais foi o mesmo!

É difícil explicitar porque esse momento foi diferente dos anteriores. Talvez tenham se identificado por eles próprios frequentarem uma certa cena noturna que apreciaria o tipo de causação que eu descrevia, mas creditar somente a isso seria bobo e simplista. Acho que a estranheza inerente à minha personalidade que outrora me afastava dos demais para eles fosse bem-vinda. De repente, ser inadequado socialmente passou a ser legal, e essa percepção foi muito libertadora para mim. ­­Finalmente pude ser espontânea sem olhares recriminatórios. É bem provável que eu ainda seja bem mais inadequada que os demais, mas ao menos eu passei a me aceitar como tal, e até mesmo gostar desse meu modo meio sem-noção de me comportar na vida. Muitos que estavam presentes nesse dia se tornaram parte do meu círculo mais íntimo. Desde então, a cada dia que passa faço mais amigos, e em muitos momentos chego até a me sentir amada, o que é sempre uma vitória. Por isso considero o aniversário da Bettina como um divisor de águas. E esta foi a minha primeira sensação de pertencimento.

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Maria Clara Drummond nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, e é jornalista. Em 2013 publicou seu romance de estreia, A festa é minha e eu choro se quiser (Guarda-Chuva) e em 2015 lança A realidade devia ser proibida pela Companhia das Letras .

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