Palavra do autor

Tudo é narrativa: O lugar dos bichos

Por Tércia Montenegro

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Foto de Tiago Santana de O chão de Graciliano.

Tércia Montenegro, autora de Turismo para cegos, escreve uma série de textos sobre outros meios narrativos, como a fotografia e a arte. Leia também o texto anterior, A luz e o mistério.

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Nas narrativas clássicas — incluindo-se aí as religiosas — o animal sempre ocupou um lugar secundário, tendo a sua existência sob risco constante. O antropocentrismo que orienta nossas práticas moldou um olhar de superioridade em direção às demais espécies, e os relatos de sacrifícios jamais tiveram a intenção de provocar horror pela matança de bichos; ao contrário, passavam a mensagem de justeza, de uma busca de “equilíbrio” na ordem dos fatos: algumas vidas animais a menos serviam para aplacar a ira dos deuses, ou para expiar os pecados humanos.

Lembro que, na infância, a leitura do Antigo Testamento me pareceu uma sequência de crimes impunes e abomináveis para com ovelhas, cordeiros e outras criaturas do tipo. E o absurdo era que, na mesma idade, eu recebia toda uma literatura voltada para a idealização de porquinhos, galináceos, formigas, ursos ou sapos. Não demorou para que eu compreendesse que o mundo rosado, construído pela ficção infantil, nada mais era que um artifício de fantasia que — em grande parte — tinha o propósito de distrair ou ensinar preceitos de moralidade ou comportamento. A estratégia do antropomorfismo revelava que também esses autores (por melhores que fossem suas intenções) rendiam-se ao impulso de medir toda experiência pelo critério da humanidade.

Adolescente, tornei-me leitora de obras realistas ou regionais, sem encontrar alívio no tratamento dessa questão. Os animais vinham retratados como brutos, irracionais, incapazes de sentir ou até mesmo sofrer. Em vários relatos, eram mencionados somente como um alimento em fase ainda não degustável. Mesmo um caso de exceção, como o da famosa cachorra Baleia, confirma a regra geral. A riqueza psicológica que lhe é concedida tem o peso de um contraste que ressalta os estreitos limites em que as pessoas de Vidas secas circulam.

Ermelinda Ferreira, num artigo que discute a metáfora animal como representação do outro na literatura, bem resumiu a tendência dominante: a maioria dos autores brasileiros tomou a decisão de desconsiderar os animais em termos ontológicos. Graciliano Ramos, por exemplo, em diversas passagens célebres de São Bernardo, de Infância e do já citado Vidas secas, valeu-se da metáfora animal somente para demonstrar a baixa escala alcançada pelo humano.

Artistas contemporâneos talvez estejam mais dispostos a rever essa atitude — quando não por motivação ideológica precisa, por simples opção estética. Para ficarmos com o espaço sertanejo, basta o exame de algumas fotografias de Tiago Santana, que inclusive batizou um de seus livros como O chão de Graciliano (2006). Em diálogo com o cenário do escritor, o volume reúne imagens realizadas em viagens ao sertão de Alagoas e Pernambuco. A partir do próprio título evocador de telurismo, o fotógrafo (re)constrói signos agrestes e propõe um trânsito entre linguagens artísticas — interesse que se renova em sua recente publicação, O céu de Luiz (2014), dedicada a uma série de imagens inspiradas na obra de Luiz Gonzaga.

N’O chão de Graciliano parece haver uma aproximação de técnicas entre as duas artes de grafar, seja com o verbo ou com a luz. Já se ressaltou, em analogia fisiológica, que Graciliano Ramos executa uma “composição por decomposição”. Tal aspecto é reprisado na fotografia de Tiago Santana, que também decompõe, mutila ou desfoca o indivíduo. Os cortes dos enquadramentos, os ângulos escolhidos, a própria escolha do preto e branco — tudo revela a intencionalidade de uma grande força sintética: exatamente como podemos classificar, pela precisão linguística, o projeto literário de Graciliano Ramos.

Mas, ao contrário do romancista, o fotógrafo não parece considerar que a figura do animal traga um sinal de inferioridade. Se o autor, num trecho de Memórias do cárcere, escreve: “Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos, famintos, humildes, quase bichos” (1954, p.112), podemos afirmar que essa gradação qualitativa — com o bicho ocupando o último nível — não ilustra o trabalho de Tiago Santana, onde vemos os animais elevados à individualidade, com vários indícios de valores positivos atrelados a eles.

Em diversas imagens do artista cearense, temos estratégias de composição que dispõem a figura humana em relação presencial com os bichos, e estes surgem em realce ou com maior nitidez — em detrimento da pessoa, que costuma surgir com o rosto encoberto ou desfocado, ou ainda com menor peso visual devido a tratamentos de luz, contraste ou textura. Em certos arranjos, a fotografia constrói verdadeiros corpos híbridos: figuras se criam a partir de uma complementaridade física. O cão, o cavalo, o jumento e a cabra aparecem articulados ao cotidiano sertanejo de tal forma que o animal existe sobretudo por um componente afetivo de convivência.

Logicamente, o espaço é também uma simbolização, uma construção subjetiva. Graciliano Ramos e Tiago Santana construíram temas sertanejos a partir de escolhas que, nos dois autores, indicam uma preferência pela apresentação do cenário como propício à interdependência entre homem e bicho. Entretanto, se na obra literária esse aspecto colabora para uma “historiografia da angústia”, no corpus fotográfico de Santana parece antes haver uma ponderação sobre a existência e a relação das outras espécies com o ser humano, sem que este assuma um local de superioridade.

Firma-se a mensagem — infrequente, embora tão óbvia — de respeito pelos animais a partir da constatação de que eles são distintos de nós. É um equívoco considerá-los, por suas características específicas, inferiores às pessoas, ou, conforme o movimento oposto, idealizados enquanto seres de um tipo ingênuo. Qualquer base comparatista se destrói, ao pensarmos que, mudando-se a essência, muda-se a maneira de estar no mundo, e os critérios têm de ser particulares para cada caso. O que vale para um, deixa de se aplicar no lugar alheio.

Esse exercício de reflexão talvez nos faça mais justos diante das criaturas que nos rodeiam. Cada uma delas, humana ou não, encontra-se mergulhada na própria narrativa vital. O respeito à trajetória e ao espaço do outro, antes de ser um ato de cidadania ou caridade, é simplesmente a noção de que somos todos limitados por alguma circunstância — e a finitude comum talvez seja a principal.

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Tércia Montenegro é escritora e fotógrafa, autora do romance Turismo para cegos (Companhia das Letras, 2015).

Notas avulsas sobre O amor dos homens avulsos

Por Victor Heringer

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1. Olá, meu nome é Victor Heringer, nasci no Rio de Janeiro em 1988, cidade para a qual retorno, madaleno arrependido, mais ou menos de dois em dois anos. Tenho 1,86 de altura, peso uns 85kg, não fico bronzeado, só muito vermelho, mas gosto do mar e da praia. Entre a esquerda e a direita, costumo acreditar mais no abismo, embora seja escravo da utopia. Sou macumbeiro, vascaíno e, quando tenho que dizer uma profissão para anotarem nos formulários, digo que sou professor de português.

Nada disso, porém, importa. O escritor não é ninguém, não pode ser ninguém, mas tem que ser tudo: os homens e mulheres, os vis e os ingênuos, as pedras, os bichos de luz, as geladeiras velhas, os azulejos de botequim, as piores e as melhores intenções, os senadores da República, os que esfaqueiam pelas costas e o asfalto quente dos subúrbios cariocas.

2. Ao escrever O amor dos homens avulsos, meu romance mais recente, no qual se fabula o primeiro amor entre dois meninos, pedi aos leitores que me enviassem os nomes de seus primeiros amores. Essa lista é o coração do romance, o ♥ estético e o ♥ ético do livro. É um cardiograma que está em sintonia com o meu e estará, assim espero, com o do leitor.

3. Todos os amores são cópias esbatidas e degradadas do primeiro amor? Ou o primeiro amor é a abertura feliz para todos os outros?

4. A saída deste livro é a ternura. A ternura, mais calma que o amor e mais amável que a mera simpatia ou tolerância, é uma forma de compreender e interferir no mundo tão boa quanto qualquer outra. Ternura também é resistência.

“Amai-vos uns aos outros”, amar a todos, franciscanamente, talvez seja pedir demais. Afinal, como escreveu Freud no seu mal-estar, “um amor que não escolhe parece perder parte do seu valor. Além disso, nem todos os humanos são dignos de amor”. Mas todos são dignos de ternura.

Sede ternos!

5. O romance é público, pertence ao leitor. A minha orientação sexual, isto é, a do escritor Victor Heringer, não lhes interessa senão como fofoca. Aí, nada pode prosperar, como canta Caetano.

6. O romance é a forma experimental por excelência. Daí que nos pareça natural misturar e proliferar linguagens: imagem, texto, som, interação etc. E os leitores, hoje seres digitais, transalfabetizados, finalmente estão preparados para decodificar poéticas esquisitas. Este é o tempo perfeito para escrever. Machado de Assis, Hélio Oiticica, Bispo do Rosário e Valêncio Xavier.

(Quando não foi o tempo perfeito?)

7. Escrevo porque não consigo fazer outra coisa e, a esta altura, nem quero. Escrever me concede identidade e realidade. Se não fosse ficcionista, o mundo real não seria real para mim. Escrever funda mundos no mundo. Como utopia — e, portanto, meio boba —, esta é uma das minhas saídas para o fim deste mundo como o conhecemos: fundar mundos num mundo que já vai dando tchau. Falo daquele fim do mundo cujo símbolo é o urso polar se equilibrando num naco de gelo. O real.

8. A questão climática está ali, sempre de esguelha, em tudo o que escrevo. Nós é que escolhemos ignorá-la. É difícil como os grandes traumas, mas este é também um livro sobre grandes traumas.

9. O Rio de Janeiro está ali, sempre de chofre. Meu amor mais duradouro e mais complicado. Ali estão também todos os nossos amores difíceis, carne, osso e sol. Este também é um livro sobre amores difíceis.

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O AMOR DOS HOMENS 13967_gAVULSOS
Sinopse: 
No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970. Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida. Essa história, aparentemente banal, e desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade.

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Victor Heringer nasceu no Rio de Janeiro, em 1988. Prosador, poeta e ensaísta, tem uma coluna na revista Pessoa e publicou Glória (Premio Jabuti 2013), O escritor Victor HeringerAutomatógrafo, entre outros. Em agosto, lançou pela Companhia das Letras O amor dos homens avulsos.

A conta d’água está chegando

Por Maura Campanili

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A relação com as águas para quem nasce em São Paulo é uma questão complexa. Com nossos rios enterrados ou transformados em canais poluídos, falta ao paulistano uma referência próxima para além de um produto que sai das torneiras. Cresci achando que Tietê e Pinheiros eram clubes, e Pacaembu e Anhangabaú lugares de passagem. Parece estranho, mas em toda a minha vida escolar nunca ouvi dizer que água era um problema. Falta d’água na cidade — desde então já coisa comum –, era apenas um problema de infraestrutura, que seria resolvido com o progresso do país.

Talvez seja por isso que, quando comecei a trabalhar como repórter, tenha ficado muito impactada ao descobrir coisas que ainda hoje parecem não ser totalmente claras para os moradores da metrópole: São Paulo não tem água suficiente para sua população. A maior parte da água que consumimos vem de fora (por isso passamos os últimos dois anos preocupados com a chuva em Minas Gerais) e a que temos continuamos a poluir. Nossos principais rios foram retificados, canalizados e afastados da população por meio de grandes avenidas (o pobre Tamanduateí foi literalmente coberto por uma delas). Por isso, não há nada de surpreendente nas enchentes na cidade — os rios simplesmente ocupam a área que sempre ocuparam. Não dá para navegar nesses rios porque parecem um caldeirão de bruxa: a mistura podre que chamamos de “água do rio” explode em bolhas de fermentação.

Desde 1991, quando foi lançada a campanha pela despoluição do rio Tietê pela Rádio Eldorado e pela SOS Mata Atlântica, que promoveu um abaixo-assinado com 1,2 milhão de assinaturas — feito inédito para a época –, o governo teve que se mexer: em âmbito federal, foi encaminhado ao Congresso Nacional o primeiro projeto de lei que tratava da Política Nacional de Recursos Hídricos. Em São Paulo, foi criado o Sistema Estadual de Recursos Hídricos e teve início o Projeto Tietê, com recursos do BID e coordenado pela Sabesp, para a despoluição do rio. Desde então, muitos milhões foram gastos, com resultados altamente discutíveis, já que vemos muito pouco de resultados práticos. Por que as coisas não dão certo e onde essa situação vai nos levar em uma realidade  que ainda precisa considerar os efeitos das mudanças climáticas?

Questionamentos como esse fazem parte da abordagem do livro O século da escassez — Uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios, que escrevi com Marussia Whately, coordenadora da Aliança pela Água e companheira de longa data de discussões e trabalhos relacionados ao tema. Partimos da reflexão de Charles Fishman, autor da obra The Big Thrist, para quem o século XX será conhecido como o século dourado da água (com a revolução verde, exploração de aquíferos, produção de alimentos em áreas desérticas, transposição de rios, construção de represas, despejo de poluentes nos rios e solos, desmatamento das cabeceiras e margens de rios), e o atual será o “da grande sede”, ou seja, aquele no qual vamos ter que pagar a conta.

Acreditamos que não cabe falar em crise da água, pois crise é algo passageiro e os problemas relacionados à água são tão perenes quanto esperamos que sejam os recursos hídricos dos quais tanto dependemos. Para isso, precisamos lembrar que a distribuição da água é desigual no Brasil e no mundo, seja por falta de chuva, excesso de população ou poluição. Vários autores mostram que o sucesso das civilizações está diretamente relacionado com o uso que fizeram da água. Atualmente, vários dos conflitos que temos no mundo têm, em maior ou menor grau, algo a ver com disputas por água. O mesmo vale para as grandes tragédias climáticas, traduzidas em secas e enchentes. As vítimas são, na maior parte das vezes, os mais pobres. Para superar um desafio desse tamanho, é necessário criar uma nova cultura de cuidado com a água, ou seja, pactos, compromissos, mudanças de comportamento e de políticas, que só vão acontecer com a participação de cada um de nós.

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Sinopse: Um dos indícios de que o Brasil não se deu conta da complexidade do tema é o jargão “crise da água”. Por definição, as crises são períodos de exceção dentro da normalidade. O que vemos, no entanto, é um cenário de difícil reversão. Boa parte dos rios estão poluídos; a indústria, a agricultura e as hidrelétricas consomem grandes quantidades de água e a distribuição irregular no território pode acentuar conflitos políticos e comerciais à medida que a água se tornar um bem cada vez mais raro. O século da escassez apresenta os principais conceitos sobre o tema, mostra dados estatísticos com foco no território brasileiro e aponta caminhos possíveis para evitar o colapso no abastecimento. Mais do que o seu uso consciente, o que está em jogo é o modo de vida do homem moderno e a busca por alternativas que revertam o caráter predatório desse recurso essencial para a nossa sobrevivência.

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Maura Campanili é jornalista e atua há mais de vinte anos na área socioambiental como repórter, editora, coordenadora de comunicação e escritora. Trabalhou, entre outros, na Agência Estado, SOS Mata Atlântica e Instituto Socioambiental. Desde 2004, está á frente do Nuca – Núcleo de Conteúdos Ambientais.

O poeta e o mundo

Por Wislawa Szymborska

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Foto: Sipa/ Newscom/ Fotoarena

Chega às livrarias no dia 2 de setembro Um amor feliz, uma nova coletânea de poemas de Wislawa Szymborska, traduzidos e selecionados por Regina Przybycien e que falam dos amores e da vida cotidiana, uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro livro de Szymborska lançado no Brasil em 2011, Poemas. Em 2016, comemoramos também os 20 anos do seu prêmio Nobel de Literatura. Na entrega do prêmio que aconteceu no dia 7 de dezembro de 1996, seu discurso versou sobre o que é a poesia e o poeta. É este discurso que apresentamos aqui no blog para quem já conhece a obra da poeta e para quem ainda vai se encantar com a sua leitura. Leia a seguir (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

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Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bem, agora ela já ficou para trás. Embora algo me diga que as frases por vir — a terceira, a sexta, a décima e assim sucessivamente, até a última linha — serão tão difíceis quanto, já que é suposto que eu tenha que falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto, quase nada, na verdade. E sempre que isso aconteceu, eu tinha a ligeira impressão de que não sabia do que falava. Por isso, meu discurso será bem curto. Toda imperfeição é mais fácil de tolerar se servida em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são sempre céticos e desconfiados, até mesmo, ou talvez especialmente, sobre si próprios. Eles só admitem ser poetas de modo relutante, como se estivessem um pouco envergonhados por o ser. Nesta nossa época ruidosa, porém, é bem mais fácil admitir seus defeitos, principalmente se numa roupagem interessante, que reconhecer os próprios méritos, visto estes estarem profundamente ocultos, tanto que nem nós mesmo acreditamos neles… Ao preencher formulários ou ao conversar com estranhos, isto é, quando não conseguem evitar de dizer no que trabalham, os poetas preferem utilizar o genérico “escritor”, ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer trabalho que tenham além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um misto de incredulidade e pânico ao descobrirem que estão frente a um poeta. Imagino que os filósofos se deparem com reações similares. Se bem que talvez estejam em uma situação melhor, dado que na maior parte do tempo podem dourar sua vocação com algum tipo de galardão acadêmico. Professor de filosofia — isso sim soa bem mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia, porque isso implicaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que requer estudo especializado, avaliações frequentes, artigos teóricos acompanhados de bibliografia e notas de rodapé e, por fim, diplomas cerimoniosamente concedidos. O que, por sua vez, significaria que não basta preencher páginas mesmo com poemas dos mais requintados para se tornar um poeta. O elemento crucial seria alguma folha de papel trazendo um selo oficial qualquer. Lembremos que o orgulho da poesia russa, que viria ele mesmo a ser premiado com um Nobel, Joseph Brodsky, foi certa vez sentenciado a um exílio em seu próprio país com base exatamente nessas convenções. Chamaram-no de “parasita” por ele não dispor de um documento oficial que lhe assegurasse o direito de ser poeta…

Muitos anos atrás, tive a honra e o prazer de conhecer Brodsky pessoalmente. E notei que, de todos os poetas que eu já havia conhecido, ele era o único que gostava de se apresentar como um. Ele pronunciava a palavra sem constrangimento algum.

Na verdade, era exatamente o oposto, ele a pronunciava com liberdade desafiadora. Julguei que era assim por ele se lembrar sempre das humilhações brutais que havia sofrido em sua juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é roubada tão prontamente, os poetas aspiram, claro, ser publicados, lidos e compreendidos, mas não se esforçam muito, se é que se esforçam, para se situarem acima do rebanho e do cotidiano esmagador. E no entanto, não faz muito tempo, nas primeiras décadas do século passado, os poetas buscavam chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Embora fosse tudo meramente para consumo do público. Porque sempre chega o momento em que os poetas têm que cerrar as portas atrás de si, despir-se dos seus mantos, ornamentos e outras parafernálias poéticas para confrontar — silenciosamente, aguardando pacientemente seus verdadeiros eus — a ainda branca folha de papel. Porque é isso, no final, que conta de verdade.

Não é por acaso que se produzem aos montes biografias filmadas de grandes cientistas e artistas. Os diretores mais ambiciosos buscam reproduzir de modo convincente o processo criativo que levou a descobertas científicas importantes ou ao surgimento de uma obra-prima. E é possível descrever alguns tipos de trabalho científico com relativo sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, maquinário elaborado, trazidos à vida; esse tipo de cenário pode manter o interesse do público por algum tempo. E aqueles momentos de incerteza — será que o experimento, repetido pela milésima vez com algum tipo de variação microscópica, vai finalmente alcançar o resultado desejado? — podem ser bem dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, na medida em que buscam recriar cada passo da evolução de um quadro célebre, da primeira linha do esboço até a pincelada final. A música preenche todos os espaços em filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que ecoa nos ouvidos do músico finalmente emergem como um trabalho maduro em forma sinfônica. Claro que tudo isso é bem ingênuo e não explica o estranho estado mental conhecido popularmente como inspiração, mas pelo menos há ali algo para olhar e ouvir.

Poetas, no entanto, são os piores. O trabalho deles, indiscutivelmente, não tem como ser fotogênico. Alguém sentado a uma mesa ou deitado em um sofá, olhando imóvel para o teto ou uma parede. Vez ou outra essa pessoa escreve sete linhas apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois outra hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Eu falei de inspiração. Os poetas contemporâneos dão respostas evasivas quando perguntados sobre o que é isso, e se existe de fato. Não é que nunca tenham experimentado a graça desse impulso interior. É que não é fácil explicar a alguém algo que você próprio não entende.

Quando me perguntam sobre o assunto, eu também tergiverso. Mas respondo o seguinte: inspiração não é privilégio exclusivo de poetas ou artistas em geral. Existe, existiu e sempre vai existir certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é composto de todos os que escolheram atender à sua vocação e fazer seu trabalho com amor e imaginação. E ele pode incluir médicos, professores, jardineiros — e eu poderia enumerar aqui centenas de outras profissões. O trabalho dessas pessoas se torna uma aventura contínua enquanto elas conseguirem continuar a descobrir novos desafios nele. Dificuldades e contratempos não sufocam sua curiosidade. Um enxame de novos questionamentos surge para cada novo problema que elas resolvem. Seja o que for a inspiração, o certo é que ela surge de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maior parte dos habitantes da Terra trabalha para viver. E trabalha porque têm que trabalhar. Eles não escolheram um ou outro trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas é que escolheram por eles. Trabalhos sem amor, trabalhos tediosos, trabalhos valorizados somente porque outros não conseguem sequer aquilo, por menos apreciados e tediosos — essa é uma das mais dolorosas misérias da condição humana. E não há nenhum sinal de que os séculos por vir produzirão qualquer mudança para melhor, até onde se pode vislumbrar.

E é por isso que, embora eu possa negar aos poetas seu monopólio sobre a inspiração, ainda assim eu os situo no seleto grupo dos prediletos da Fortuna.

A esta altura, porém, algumas dúvidas podem ser levantadas pelo meu público. Todo tipo de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que buscam o poder fazendo uso de alguns poucos bordões gritados a plenos pulmões também gostam do seu trabalho, e também desempenham seus afazeres com inventivo fervor. Sim, claro, mas eles “sabem”. Eles sabem, e seja lá o que saibam, é o que lhes basta para o agora e para todo o sempre. Eles não querem descobrir mais nada sobre nada mais, dado que isso pode diminuir a força de seus argumentos. E qualquer conhecimento que não levante novas questões morre rapidamente, porque não sucede em manter a temperatura necessária para preservar a vida. Nos mais extremos dos casos, aqueles bem conhecidos da história antiga e moderna, esse tipo de conhecimento se constitui de fato em uma ameaça letal à sociedade.

E é por isso que eu prezo tanto aquela pequena expressão, “não sei”. Ela é curta, mas tem asas enormes. Ela amplia nossas vidas para incluir nela nossos espaços interiores, mas também os exteriores, em que está suspensa a nossa pequena Terra. Se Isaac Newton não tivesse jamais dito para si um “não sei”, as maçãs em seu pequeno pomar poderiam ter caído ao solo como granizo, e na melhor das hipóteses ele teria parado para apanhar algumas delas e devorá-las com prazer. Se minha compatriota Marie Sklodowska-Curie jamais tivesse dito para si própria seu “não sei”, por certo ela acabaria lecionando química em alguma escola privada para moças de boas famílias, e terminaria seus dias desempenhando essa, de todo modo, perfeitamente respeitável profissão. Mas ela continuou dizendo “não sei” e estas palavras a levaram, não apenas uma, mas duas vezes, a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e questionadores são de quando em quando premiados com o Nobel.

Os poetas, se autênticos, também devem seguir repetindo “não sei”. Cada poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas tão logo a linha final seja deitada à página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que essa resposta particular era puro disfarce, que seria totalmente inadequado trajar. Assim, os poetas seguem tentando, e cedo ou tarde os resultados consecutivos de seu desagrado consigo mesmos são organizados em uma pasta gigante por historiadores literários, passando a ser chamados sua “obra”…

Amiúde sonho com situações que não podem, de modo algum, se tornar realidade. Imagino audaciosamente, por exemplo, que me é dada a oportunidade de conversar com o Eclesiastes, o autor daquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Eu me curvaria profundamente diante dele, porque ele é, acima de tudo, um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Feito isto, eu tomaria sua mão. “‘Não há nada de novo sob o sol’, foi isso o que escrevestes, Eclesiastes. Mas vós mesmo nascestes novo sob o sol. E o poema que criastes também é novo sob o sol, considerando que aqueles que viveram antes de vós não puderam ler esse poema. E esse cipreste sob o qual estais sentado não esteve ali crescendo desde a aurora dos tempos. Ele veio a ser graças a um outro cipreste semelhante a esse vosso, mas não exatamente o mesmo. E, Eclesiastes, eu também gostaria de vos perguntar em que coisa nova sob o sol estais trabalhando agora? Um acréscimo de última hora aos pensamentos que já expressou? Ou talvez estejais tentado a contraditar alguns deles agora? Em uma obra anterior, mencionastes o êxtase — então, e daí se ele for fugaz? Talvez vosso novo-poema-sob-o-sol seja sobre o êxtase? Já fizestes anotações sobre ele, e rascunhos? Eu duvido que irás escrever ‘Eu já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar.’ Não há poeta no mundo que possa dizer isto, ao menos um grande poeta como vós.”

O mundo — não importa o que pensemos quando aterrorizados pela sua vastidão e nossa própria impotência, ou amargurados pela sua indiferença ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e, talvez, mesmo das plantas, porque como podemos estar tão certos que as plantas não sintam dor; pensemos o que possamos pensar de suas extensões, atingidas pelos raios das estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, alguns deles já mortos?, ainda mortos?, não sabemos; o que quer que possamos pensar desse imensurável teatro para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cuja validade é comicamente curta, limitada como o é por duas datas arbitrárias; não importa o que possamos pensar sobre este mundo — é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que embute uma armadilha lógica. Somos assombrados, afinal, por coisas que se desviam de alguma norma bem conhecida e universalmente aceita, de uma obviedade com a qual crescemos acostumados. O ponto agora é: esse mundo óbvio não existe. Nosso assombro existe por si só e não é baseado em comparação com outra coisa.

Claro, no discurso cotidiano, em que não paramos para considerar toda palavra dita, todos fazemos uso de frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o curso normal dos eventos”… Mas na linguagem da poesia, em que toda palavra tem seu peso, nada é corriqueiro ou normal. Nem uma simples pedra e nem uma simples nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite que a ele se segue. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de qualquer pessoa nesse mundo.

Ao que parece, os poetas sempre terão um trabalho duro à frente.

Fonte: Nobel Prize.

Papéis coloridos

Por Socorro Acioli

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Meu primeiro emprego foi como vendedora de uma pequena livraria em Fortaleza, aos dezenove anos, e eu poderia contar inúmeras histórias que me aconteceram nesse período. Da mulher que me pedia para escrever dedicatórias de um fictício amante apaixonado ao rapaz que ia diariamente me pedir que lhe contasse das minhas leituras e que acabou casando comigo. Da presença de Rachel de Queiroz no lançamento do seu livro de memórias Tantos anos às performances do poeta pernambucano Miró, que lotava a livraria em todos os seus eventos.

Nos meus primeiros dias de trabalho, eu praticamente só vendia dois livros: O mundo de Sofia e O Xangô de Baker Street. Eles vinham da Companhia das Letras, uma editora que eu não conhecia ainda, mas que me conquistou de cara e me ajudou muito no começo.

Primeiro, porque a venda inacreditável dos livros mencionados acima melhorou consideravelmente a minha comissão. Segundo porque eu não tinha tempo de ler tudo e precisava de informações para indicar as novidades para os clientes. Então a Companhia mandava resenhas dos livros em papéis coloridos, vários tons de todas as cores. Eu guardava um por um no colecionador de plástico que eu levei de casa. Até que não coube mais nada e eu tive a ideia de encadernar e deixar na mesa de leitura da livraria.

Foi um sucesso. Alguns clientes sentavam para ler o Caderno de Resenhas da Companhia das Letras. Escolhiam os livros e faziam encomendas. Eu morria de ciúmes. Se alguém sentasse à mesa e ignorasse meu precioso caderno de resenhas, eu pedia licença e o retirava de lá, com medo de alguma avaria.

Quando a livraria fechou, o caderno foi doado à artista plástica Alba Alves, maior fã da Companhia que passou por ali. Lemos na mesma época o Momentos do livro no Brasil e conversávamos sobre o papel da editora na história do livro. Ela mereceu herdar o volume.

Deixei o trabalho para voltar à faculdade de jornalismo. Quase no final do curso, o escritor Lira Neto, então editor da Fundação Demócrito Rocha, convidou-me para escrever um dos ensaios biográficos da saudosa coleção Terra Bárbara. Uma semana antes, eu estive com Frei Betto, que lamentava a falta de uma biografia sobre o frade cearense Frei Tito de Alencar.  Aceitei o desafio e publiquei o livro Frei Tito em 2001.

Depois do Frei Tito, segui a carreira de escritora e alimentei secretamente, pouco a pouco, o desejo de publicar pela Companhia das Letras.

Enfim, chegou a minha vez. Levado pelas mãos da minha agente Lúcia Riff, em 2014, meu romance A cabeça do Santo foi publicado pela Companhia. A capa amarela escolhida pela designer Elisa Von Randow me fez lembrar dos papéis coloridos que eu guardava como tesouro aos dezenove anos, trabalhando na livraria.

É pela lembrança tão nítida desses dias que cometo o pecado da pieguice na hora de falar da minha relação com a Companhia das Letras. Tenho dois livros na casa, mais dois por vir em breve e vários planos para o futuro. Minhas editoras são minhas amigas, bem como todos os que cuidam de várias etapas de edição e divulgação dos meus livros.

Não passo por São Paulo sem visitar a casa e tenho um orgulho imenso de ser parte da comemoração dos trinta anos da Companhia das Letras, de maneiras diferentes, desde 1994. Toda pieguice será perdoada. É tudo sonho e narrativa.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lançou a nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.