Palavra do autor

Para compreender o silêncio e a insubmissão

Por Andrei Netto


Foto tirada pelo autor.

Eram 18h10 de terça-feira, 17 de março de 2011, quando recebi em um de meus endereços eletrônicos um primeiro contato. Um amigo de longa data, executivo de uma editora brasileira, havia lido um texto escrito por mim e publicado na edição do domingo anterior em O Estado de S.Paulo, do qual sou correspondente em Paris. Tratava-se de um breve relato sobre o sequestro e os oito dias de prisão que eu havia enfrentado até a sexta-feira anterior, em um porão dos aparatos de segurança da Líbia de Muamar Kadafi.

O email de meu amigo usava o título de meu próprio texto no jornal e dizia: “Vamos fazer um livro pequeno, ‘No Calabouço de Kadafi’”. Era uma proposta de algo rápido, que girasse em torno de minha prisão. Demorei quatro dias para responder a mensagem, contrariando sua urgência. “Não considero essa cobertura encerrada, nem mesmo da minha parte, e ainda estou pensando em algo mais completo”, eu expliquei. “Acho que um eventual livro, se eu vier a escrevê-lo, pode evoluir em outra direção.”

O produto desse raciocínio e do trabalho de uma equipe brilhante chega às livrarias em 29 de novembro. Trata-se de O silêncio contra Muamar Kadafi, livro a respeito da revolução que encerrou com violência extrema e explícita os 42 anos de protagonismo do ditador que no passado aterrorizava o Ocidente. Nele está concentrado um ano e meio de impressões forjadas em um sem-número de entrevistas — nunca fiz a conta —, realizadas em cinco viagens ao país entre 2009 e 2012, três das quais durante a revolução. Também estão depoimentos que colhi em outros dez países: França, Bélgica, Itália, Brasil, Estados Unidos, Tunísia, Egito, Catar, Turquia e Jordânia.

Ao longo da redação laboriosa de O silêncio…, muito me perguntei por que me dar tanto trabalho se eu poderia ter publicado um livro simples sobre minha prisão já em 2011. Nesses momentos de dúvida, a resposta que me assaltava era: porque ela está muito longe de ser o mais importante.

A revolução líbia é, a meu ver, uma oportunidade para descrever as razões pelas quais o mundo muçulmano vem sendo sacudido pela Primavera Árabe. O silêncio… tenta reconstituir um tanto da opressão à qual grande parte da opinião pública do país estava sujeita, um cenário que explica — claro, em parte — como décadas de silêncio se voltaram contra o ditador, gerando a explosão de ira que resultou no levante de 17 de fevereiro e em uma guerra com a implicação direta, e controversa, da comunidade internacional.

Limitar uma revolução crua e sangrenta a um depoimento pessoal, ou a poucos depoimentos pessoais, seria, a meu ver, uma prova de oportunismo. Meus editores aderiram a esse raciocínio desde o primeiro momento. Meu “desaparecimento” no interior da Líbia kadafista está lá, é claro, porque faz parte da minha visão da revolução. Mas meu testemunho entra nesse contexto. Ele pretende ajudar a ilustrar o modus operandi de um regime autoritário marcado pela violência extrema e pela crueldade. É um exemplo, duro, sim, que tentei narrar sem vitimismos, ainda que pleno de medo, insegurança, angústia, desesperança, depressão e dor.

Nele há também uma certeza: a de que a minha dor não foi — e não é — comparável à de gerações de líbios que, insubmissos, desafiaram a morte em nome da liberdade e do ideal de democracia ao longo do já histórico ano de 2011.

[O silêncio contra Muamar Kadafi chega às livrarias dia 27 de novembro.]

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Andrei Netto nasceu em 1976, em Ijuí, Rio Grande do Sul. É jornalista e doutor em sociologia pela Sorbonne. Com passagens pelos diários Gazeta Mercantil e Zero Hora, é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Paris.

Como ser mulher: entrevista com Caitlin Moran

Em Como ser mulher: um divertido manifesto feminino, Caitlin Moran usa suas próprias experiências para falar com humor sobre temas comuns a toda mulher moderna: da adolescência à maternidade, de relacionamentos a modelos de comportamento.

O jornalista João Lourenço teve a oportunidade de conversar com a autora, leia a entrevista abaixo:

1 – Coco Chanel disse que uma mulher sem amor é uma mulher perdida. Você concorda?
Jamais! Você sempre pode se masturbar. Se vivesse no mundo de hoje, ela iria encontrar alternativas bem mais divertidas e prazerosas do que um homem. Eu tive sorte por conhecer meu marido na adolescência. Conheci a pessoa certa, isso me deu mais tempo e energia para me focar em outras áreas da minha vida. Falo isso por conta das minhas amigas solteiras, vejo como é cansativo essa busca incessante pelo senhor perfeito. Eu não acho que os homens se preocupam tanto com isso, por que não podemos fazer o mesmo? Claro que é ótimo ter alguém ao seu lado para compartilhar alegrias e tristezas, mas isso não deve ser uma regra. Uma mulher não pode se sentir menos realizada por não ser mãe e não ter ao lado o marido dos sonhos. Somos consumidas pelo pensamento de precisar de tal sapato, tal bolsa, tal corte de cabelo para ser feliz. Não vejo isso como uma necessidade, não precisamos dessas coisas. Necessidade é diferente de desejo. Você pode desejar algo, mas isso não significa que precisa daquilo para ser feliz. O mesmo deve ser aplicado aos homens. No fim, vamos morrer sozinhas. Coco Chanel morreu triste e sozinha, não é mesmo? Infelizmente, ainda vivemos em um tempo onde grande parte das mulheres coloca o amor na frente de suas vidas. Prefiro ter uma vida do que um amor.

2 – Você geralmente é associada com a nova fase de libertação das mulheres. Qual é seu conceito de liberdade?
Liberdade não tem muito a ver com coisas gloriosas. A maior libertação vai acontecer quando não formos julgadas logo na primeira falha. Uma hora ou outra, todo mundo acaba falhando. O melhor exemplo pode ser encontrado no ambiente de trabalho. Se você vem de uma minoria — seja gay, negro ou mulher — todos os olhares estarão em cima de você, é como se todos esperassem pelo pior. Mesmo com tantas mulheres no poder, a pressão ainda é muito maior em cima de nós, nossas chances ainda são menores do que as dos homens. Meu ideal de liberdade é viver em um mundo onde somos julgadas pelo erro em si e não pelo simples fato de ser uma mulher.

3 – Como seria o modelo de mulher ideal do século 21?
Seria como a minha filha de 11 anos. Ela é muito confiante, feliz e adora ler. Esses dias, ela chegou em mim e disse que sentia pena pela cantora Rihanna. Fiquei intrigada, pois ela adora música pop. Ela disse que gosta da Rihanna, mas que seria legal se ela não precisasse se apresentar semi-nua. “Um cardigã e uma calça cairiam bem nela, mamãe.”

4 – Você ainda tem dúvidas sobre ‘como ser uma mulher’?
Claro, todo tempo. Eu nunca fui para a faculdade, larguei a escola aos 11 anos, não tive a chance e o interesse de ler grandes livros sobre feminismo. Durante a sessão de fotos para o material de divulgação dos meus livros, eu não aceito ajuda de cabeleireiro e maquiador. Faço tudo do meu jeito. Fico feliz por conseguir mostrar que podemos, sim, ter acne, pele ruim. Eu tento desvendar esses assuntos através das minhas experiências. Ser mulher não é nada glamouroso.

5 – Sua vida seria mais fácil se você fosse um homem?
De forma alguma, eu sinto pena dos homens, pois eu posso ter um orgasmo múltiplo, algo que eles nunca vão poder experimentar. Chega até ser um pouco injusto. Eles ficam com quase todo o trabalho, mas na hora “H” somos nós que desfrutamos da melhor parte.

6 – Qual seu problema com a depilação à brasileira?
Fiquei preocupada quando soube que o livro iria sair no Brasil. Não sabia se era uma atividade comum entre vocês ou se tratava de uma técnica que foi exportada para cá. Eu não quero banir a depilação, seja ela brasileira ou não. Quem quiser se depilar, vá em frente. O que me deixa incomodada é a ideia de que para ser considerada uma mulher “normal” você precisa estar lisa como uma bundinha de neném. Já conheci mulheres que deixavam de sair por conta de alguns pelos. Nenhuma mulher deveria precisar gastar muito do seu tempo e dinheiro para se sentir natural. Veja os homens: eles não precisam passar por uma experiência cara, dolorida e cansativa para se sentirem mais sensuais. Sei que pode soar estranho, mas não me depilo por achar que não combina comigo, não sei explicar, me sinto exposta, estranha, mais gorda.

7 – Como é envelhecer na era digital?
De maneira geral, estamos envelhecendo melhor do que a geração anterior, com mais sabedoria, eu diria. Quando eu era adolescente, lembro de ler entrevistas com mulheres de 30 anos que só sabiam reclamar sobre as dificuldades relacionadas ao envelhecimento. Tinha medo que o mesmo fosse acontecer comigo, que meu corpo ficaria totalmente estranho e pior do que já era. Eu fui uma adolescente gorda, não tinha roupas de grife, nem nada do tipo. Eu mesma dava um jeito de costurar uns trapos, fazia meu cabelo e maquiagem. Tudo melhorou. Sou grata por envelhecer em uma era digital, mais democrática; mas ainda há muito para ser mudado. Nós, mulheres, precisamos fazer e dizer o que bem entendemos. A internet, por exemplo, ajudou muito nesse aspecto.

8 – Muitos autores defendem que o excesso de tecnologia pode transformar o mundo em um lugar pior, mais frio. Como você se sente em relação a isso?
Pelo contrário, acredito que a internet aproxima as pessoas. Eu vivo conectada. Gasto boa parte do meu dia trocando mensagens e experiências com os leitores do mundo inteiro. Eu também utilizo a rede para benefício da minha vida social. Como sou mãe de duas crianças, não tenho como sair todos os dias para relaxar e conhecer pessoas novas. Antes das redes sociais, eu ficava em casa o dia inteiro entediada, sem ter para onde fugir. Agora, posso ter uma vida social, é como se eu saísse sem  ter que deixar a minha casa. Enquanto cuido das crianças, vou ao Twitter, faço uma piada, troco confidências com leitores. Há 20 anos atrás, isso não seria possível. Sinto que com a internet eu posso produzir mais, sem contar que é ótimo quando estou viajando sozinha. É uma distração necessária. Essa conexão digital facilita no processo de expressão emocional de todos nós, principalmente se você faz parte de uma minoria. Estudos comprovam que pessoas com acesso a internet desenvolvem um raciocínio mais lógico.

9 – Sua vida mudou muito desde o lançamento de seu último livro?
Eu queria que as mulheres se identificassem com a minha estranheza, mas não imaginava que o livro, Como ser mulher, seria um grande sucesso. A maior mudança é que agora, quando estou em um pub, mulheres de todas as idades me abordam para compartilhar suas frustrações sexuais e amorosas. Ouço relatos incríveis, gosto disso. É revigorante perceber que em uma sociedade tão dispersa ainda existe essa aproximação entre autor e leitor. Ah, também não posso deixar de mencionar que não tenho mais problema com aviões. Como sou gordinha, eu lutava contra as poltronas apertadas da classe econômica. Hoje, tenho minha cama e champanhe à vontade na primeira classe. Uma grande mudança, vai.

10 – Quais seus planos para o futuro?
Estou trabalhando em uma série sitcom com a minha irmã. Terminamos de escrever o roteiro, agora está em fase de produção. O enredo gira em torno de três adolescentes pobres, que não pensam em ser sexy o tempo inteiro. É frustrante ligar a TV e deparar-se com a mesma mulher independente, magra, sempre correndo atrás de um homem inacessível e que frequenta festas badaladas com o melhor amigo gay. Essa não é bem a realidade que conheço. Quero provar que as mulheres não podem ser divididas dessa forma tão rasa. Eu era gorda, queria trabalhar com política, passava a maior parte do meu tempo lendo. Não tinha nada de extraordinário.

Ping Pong

Um dia perfeito?
Trabalhar até as 18h e depois sentar no sofá com as minhas crianças para assistir um seriado qualquer.

Maior medo?
Enlouquecer! Já tem muita loucura na minha família, não gostaria de seguir esse caminho.

Característica que mais deplora em si mesmo?
Não conseguir fingir que estou interessada em algo que está me entediando.

Característica que mais deplora nos outros?
Pessoas sem senso de humor.

O que você mais odeia sobre a sua aparência?
De verdade? Nada! Demorou, mas finalmente aprendi a gostar de cada imperfeição do meu corpo. Adoro minha barriga flácida.

Qual é o seu bem mais precioso?
Além das minhas crianças, meu Macbook e uma ótima conexão de internet — minha vida inteira está lá: filmes, fotos, músicas.

Onde você gostaria de viver?
Em Londres, na casa que eu comprei com muito esforço.

Qual é a qualidade que você mais aprecia em um homem?
A habilidade de entrar no quarto, após um ótimo sexo, carregando uma bandeja de doces. Preciso de mais? Sexo e chocolate, a combinação perfeita.

Quais são os seus heróis na vida real?
Meu marido, que me ensinou que a única coisa que importa na vida é ser educada.

E os da ficção?
Scarlett O’ Hara, Jane Eyre, Anna Green Gables.

Escritores favoritos?
Truman Capote, Dorothy Parker e Charles Dickens.

Qual talento você gostaria de ter?
Gostaria de tocar Jazz no piano.

Um sonho?
Dividir um baseado com a Madonna ou Kate Bush.

Qual é o seu lema?
Sempre saia de casa sabendo que você vai encontrar o seu pior inimigo. Esteja preparada para qualquer tipo de batalha.