Palavra do autor

Tudo é narrativa: Quando mostrar é dizer

Por Tércia Montenegro

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Fotos de Duane Michals.

A grande sedução da arte — seja ela qual for — está em seu potencial de contar uma história. É possível narrar de várias maneiras: usando gestos, movimentos, imagens, melodias, cores… além de palavras, claro. Estas últimas, no entanto, já são constantes (e indispensáveis) para os leitores deste blog e para mim mesma. Eis porque agora proponho, neste espaço, pensar em outros meios narrativos. Veremos como diferentes estratégias se apresentam, acompanhando as circunstâncias de cada linguagem.

Comecemos pela fotografia. Pelo caso de Duane Michals. É um exemplo bem simples e evidente, embora nem por isso pouco interessante. Este autor, nascido em 1932, na Pensilvânia, traz alguns dos seus melhores temas numa coletânea das edições Photo Poche. A obsessão pelo duplo e o trabalho com espelhos, reflexos ou silhuetas fantasmagóricas agem a serviço da criação de suas histórias.

Vários fotógrafos antes — como os clássicos Robert Capa e Cartier-Bresson — tinham ficado célebres pela capacidade de sugerir enredos. Mas Duane Michals vai além, sequencializando imagens, ou seja, dando a elas dinamismo, ação — tramas narrativas com início, meio e fim. No livro que citamos, há vários exemplos disso. Uma experiência poética como “O sonho da jovem” instaura, num conjunto de cinco fotos, o relato sobre uma moça nua dormindo num sofá, a sonhar com um homem (mostrado quase em transparência, a lhe tocar o seio). Ela acorda com a impressão física do toque, o que é indicado por sua própria mão, num espanto, sobre o tal seio. O sonho — ou a fantasmagoria — torna-se um elemento que atravessa várias das sequências de Michals, com diversos efeitos.

Em “O espantalho”, o receio de uma garotinha, de que um monstro pudesse se esconder sob o paletó no cabide, materializa-se. E, quando vemos a criatura feita de roupas “ganhar pernas” e raptar a criança, o resultado é um riso ingênuo. Um sorriso, pelo contrário, muito malicioso, aparece ao final de “Tome um e veja o Fujiyama” — sequência cheia de bom humor sobre os desvarios eróticos provocados por um alucinógeno: o Fujiyama nada mais é do que um monte provocado pela ereção depois de um sonho delirante…

Há bastante comicidade nestes relatos fotográficos, graças ao uso de variadas técnicas. Michals não surpreende o instante, ele o cria. Nessa teatralização, ele se lança ao que o ser humano pode representar (no duplo sentido do termo). Ele contrata modelos, age como um verdadeiro diretor de imagem — e sabe usar táticas de mise en abîme ou surrealismo para deixar o espectador intrigado, em obras como “As coisas são bizarras” e “A luva”. Nesta, por exemplo, encontramos a narrativa surreal sobre uma luva que engole a mão de quem a utiliza e ganha vontade própria.

Para além da piscadela de olho humorística, o que Michals nos fornece é um belo posicionamento ficcional. Embora a atmosfera de alguns de seus trabalhos possa remeter às tradicionais fotonovelas, é a transgressão no trato com a imagem e o enredo o que mais parece interessá-lo. Em sua proposta, o compromisso com a realidade (aspecto pelo qual a fotografia ainda hoje se vê avaliada por uma parte da crítica e do público) não é, nem de longe, um dos primeiros objetivos. A preferência pelos temas oníricos ou transcendentais valida esta afirmação e, se precisamos de ainda outro argumento nesse sentido, vejamos o caso de “A viagem do espírito depois da morte”.

No princípio da sequência, o tom hiperbólico da encenação de uma queda de escada vitima um homem — e lembra a nós, leitores deste texto visual, que esta é uma história encarnada por atores; é como um teatro em poses. O nosso voyeurismo aqui não contempla o real, mas escapa do empírico e, conforme o ponto de referência que Michals escolhe para nós, pode acompanhar a luz diminuindo sobre o corpo inerte do homem ao pé dos degraus. As fotos, aos poucos, mostram um círculo luminoso que cresce. O homem morto, transformado em espírito, frequenta, nu e sob um foco borrado, as pessoas que o conheceram, os objetos que possuiu. Finalmente, banhado em luminosidade, sua viagem chega ao limite e ele se dissolve. As duas últimas fotos, num ciclo de vinte e cinco, mostram um bebê cada vez mais nítido, sugerindo o renascimento do espírito.

Somente através da ficção um fotógrafo poderia, aliás, trabalhar com assuntos metafísicos sem executar fotografia espírita propriamente dita. E a inventividade de Michals necessita de um fio sequencial: um recurso narrativo, em suma. Mesmo quando às vezes não existe uma ação dos personagens, o seu tema se desenrola através de uma série. Estou pensando em “A condição humana” — um famoso ciclo. Em seis fotos, vemos um homem comum numa estação de metrô qualquer, em meio a outras pessoas. A mesma cena progride, sem movimentos, apenas sendo trabalhada em hiperexposição, numa gradação cada vez mais clara, até que as figuras se dissolvam, transformadas em luz completa, galáxia. Se já existiu alguma série fotográfica com grande peso filosófico, foi essa.

Mesmo dentro do gênero retrato, Michals elabora seu veio metafísico, reforçando o caráter misterioso dos rostos que escolhe clicar. René Magritte e Andy Warhol foram dois personagens retratados dessa maneira — sob o estímulo de duplicidades, sobreposições, transparências. E, se recordarmos com Susan Sontag que existem usos narrativos específicos para a fotografia fixa — como no álbum de família —, então aqui estes artistas igualmente integraram histórias, com um estilo direcionado para jogos performáticos, ambíguos (como a obra de Magritte e Warhol, inclusive).

Duane Michals também experimentou o uso da palavra sobre a fotografia. A partir de 1974, suas provas fotográficas começaram a ser enriquecidas por textos manuscritos. Tal elemento tornou-se um registro extra de autoralidade – conforme ressaltava Foucault, ao citar declaração do próprio Michals: “A vista dessas palavras sobre uma página me agrada. É como uma pista que eu deixei atrás de mim, traços que provam que eu passei por lá”. Mas não seria isso, enfim, toda narrativa — uma forma de dizer “eu estive lá”? Estive dentro dessa história; mesmo que eu a tenha inventado.

Michals, que em certa reportagem já se definiu como um contista, sabe que linguagens, suportes ou gêneros textuais não são limites. São trampolins para quem deseja experiências com as múltiplas artes de narrar.

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Tércia Montenegro é escritora e fotógrafa, autora do romance Turismo para cegos(Companhia das Letras, 2015).

Para bem pensar a utopia dos trópicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Se “prefácios são inúteis”, como afirma Eduardo Giannetti em Trópicos utópicos, o que dizer de uma resenha como esta? O mais recente livro do autor de Auto-engano; O valor do amanhã; A ilusão da alma; Vícios privados, benefícios públicos; Felicidade, entre outros, é um desafio e tanto para quem se propõe a comentá-lo. Afinal, o filósofo e economista volta não só a temas que são recorrentes no conjunto de sua extensa e importante bibliografia, como faz escolhas muito ousadas no conteúdo, na abrangência, e, sobretudo, na forma e na estrutura do texto. Diante disso, o melhor é escrever “junto” ou “com” Giannetti — portanto, não estranhem as aspas.

Mas comecemos pelo começo; algum começo. Em primeiro lugar, Trópicos utópicos mais se parece com uma obra de vida inteira dedicada às ideias, à filosofia, à economia e a pensar o Brasil e tentar sentir-se brasileiro. De certo modo, o autor segue a veia dos grandes intérpretes do Brasil, que a cada geração, como bem mostrou Roberto Schwarz em Nacional por subtração, criam novas formas de se olhar e reconhecer (ou se estranhar). Foi assim com o grupo romântico palaciano que cercava Pedro II — que elegeu um indígena idealizado como modelo da nacionalidade —, foi também dessa maneira com a geração realista de 1870, que negou as interpretações anteriores e viu na mestiçagem existente no país um sinal de degeneração racial e falência nacional. Não foi diferente com os modernistas dos anos 1920 e 30, que inverteram os termos da equação e descobriram um país divinamente mestiço: nos costumes, nas ideias, nas cores, nos cheiros, no dia a dia. Como um modelo só existe na contraposição que estabelece com os anteriores, nos anos 1970, com o advento da linguagem dos direitos civis, vimos que “mistura” não é sinônimo de “igualdade”, pois carrega muita “diferença”. O país podia apresentar padrões culturais “misturados”, mas na educação, na saúde, na criminalidade, nas taxas de nascimento e de morte era profunda e perversamente “diferente”.

O fato é que países de passado colonial estão sempre “atrás” da sua identidade. Não só atrás, mas na “frente” também, como bem mostra Giannetti. Vão projetando para si novos desenhos, novas pinturas na parede e fotografias 3 por 4. E o retrato de Giannetti se parece com uma versão contemporânea, muito contemporânea, dessa nossa história que vai acumulando excelentes ensaístas, os quais, vez por outra, encontram um bom espelho em que possamos nos mirar.

Já que anunciei lá no começo um “primeiro lugar”, gostaria de arriscar um “segundo”: vale a pena explorar o trocadilho presente no título desse livro. Nos idos de 1955, Claude Lévi-Strauss publicou Tristes trópicos, uma obra tão magistral quanto nostálgica e irônica acerca desse país com sede de novidade e que carrega progresso e decadência lado a lado. O título do novo livro de Giannetti há de brincar com esse, do etnólogo francês, que confessa seu desencanto com as viagens, a morte do exotismo e o fim da jornada rumo ao “outro”. No caso de Trópicos utópicos, entretanto, há menos desalento, digamos assim. No final do livro, o filósofo brasileiro encontra um país mestiço, “genética e culturalmente fusionado”, e cujo “traço” é aquele que “melhor nos define”.

Mas há outros paralelos entre esses dois livros. Tanto um quanto o outro são inclassificáveis enquanto gêneros literários. A obra de Lévi-Strauss ganhou todo tipo de definição: livro de viagem, de etnologia, de memória e até de ficção. Em Trópicos utópicos a tarefa é igualmente complicada. Dividido em 124 seções — que numa quase homenagem ao Manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, dele guarda alguma semelhança pelo uso de aforismos, distintos em Giannetti por sua autossuficiência argumentativa —, o livro se organiza, ainda, em quatro partes diferentes, porém integradas. Se nas três primeiras o autor trata de temas já extensamente abordados em sua obra — ciência, tecnologia e crescimento econômico —, bem como das consequências e dos problemas que advém do verdadeiro fascínio que temos por esses assuntos; na quarta entramos no terreno brasileiro e na escorregadia questão da identidade nacional.

Claro está que todas essas seções e partes dialogam entre si, numa arquitetura muito bem construída e sustentada por uma escrita primorosa. É por isso que esse livro nos convida a desistir da resenha e a confessar sua impossibilidade. Algo do tipo, “esse livro escapa a qualquer definição”. Mas, teimosa que sou, vou arriscar algumas.

Trópicos utópicos pode ser lido de forma preguiçosa (mas gostosa). Ele parece aqueles antigos livros de provérbios, frases e ditos, em que se podia encontrar uma sentença para cada ocasião. Por exemplo: “Anatomia do impasse. A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença”. Ou então: “Valor e preço. Qual a diferença entre um cínico e um sentimental? Oscar Wilde responde: o cínico é aquele que sabe o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada; o sentimental vê um absurdo valor em tudo, mas não sabe o preço de nada”. E ainda: “Os dois caminhos da felicidade — nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade”.

Mas ficar coletando frases deslocadas é exercício fácil, que com certeza não dá conta do edifício montado por Giannetti. Na verdade, penso que é preciso tomar a sério a noção de trópicos e utópicos. Erudito, o autor vai nos levando pela mão aonde quer. No fundo, trata-se de pensar o Brasil dentro de uma orquestração maior, na qual o país se inclui e se destaca. Trata-se também de entender que “a realidade objetiva não é toda a realidade” (grifos de Eduardo Giannetti), “uma vez que a vida dos povos, não menos que a dos indivíduos, é vivida em larga medida na imaginação”.  O autor não abandona, portanto — ao contrário: sublinha —, a noção de que sonho e desejo fertilizam o real, e não apenas o oposto.

Aí está a suprema utopia do título: destacar e perceber certa “alma” do brasileiro; “a utopia brasileira no concerto das nações”. Giannetti localiza, ainda, uma “teimosa vocação de felicidade” nos brasileiros, mesmo que em meio à “precariedade da vida material”. E é nessas brechas que ele se detém, com grande sensibilidade e identificação, quando vai terminando o livro. Para o filósofo, mesmo com o nosso passado colonial e com as populações indígenas e, sobretudo, africanas sendo submetidas a violentos processos de subjugação, por aqui teria perseverado um maior “clima de permissividade”, diferentemente do que ocorreu no hemisfério norte. Nos trópicos teria vingado um “clima temperado”, em que “não obstante a opressão”, a “revolta”, persistiu a “vitalidade e a alegria de viver dos africanos”. Por isso é que a “África salva o Brasil”.

Não é preciso concordar com tudo para reconhecer o imenso valor e coragem de um livro como esse. Mais ainda, é comovente ler a “alma” de Giannetti. Ele parece estar tão  mergulhado em sua obra que, em determinados momentos, quase que conseguimos ouvir o autor contar uma boa história: a sua história neste país, a nossa história na dele.

Segundo o filósofo somos “miméticos e proféticos”. Nenhuma das posições em separado, mas as duas coisas ao mesmo tempo. “Tupi and not tupi”. Mas Giannetti não se imagina, ele próprio, profético. “O que é bom para nós”, escreve, “não se pretende bom para toda gente, mas é o nosso bem”. Enfim, o filósofo procura e encontra “um Brasil digno de sonho”, pensado com “afeto”. Com nossos vícios e virtudes; nossos acertos e desacertos; nossos egoísmos e nossas generosidades. Um país do e; não do ou.

Pensar quem somos e o que nos define é tema que entra e sai da nossa pauta desde que o Brasil ainda não era nem ao menos Brazil. Foi Cabral pisar nessas terras, e a desavença em torno do nome começou. Para alguns, a Igreja, seríamos Terra de Santa Cruz, por conta do lenho sagrado e da primeira missa. Para outros, os comerciantes, seríamos Brasil por causa da primeira riqueza que por aqui se encontrou. Na falta de ouro, exportou-se o pau-brasil, essa madeira boa para fazer móveis, e de cujo veio corria uma tinta vermelha. E assim as dúvidas sobre a nossa identidade já começaram nos primórdios do século XVI: uma terra santa ou um lugar vermelho-sangue, da brasa do inferno?

Naquele contexto, vingou a segunda opção. Mas quem sabe Giannetti nos anime a pensar numa terceira via, ou melhor, nas duas juntas. Ou melhor ainda, a pensar que os brasileiros sempre buscaram driblar isso tudo, inventando formas próprias de felicidade. Afinal, como cantava a marchinha: “Quem foi que descobriu o Brasil, foi seu Cabral, foi seu Cabral, no dia 21 de abril, dois meses depois do Carnaval”.

Esse povo festeiro, que mistura costumes, que pratica uma “compreensão amável e lúdica” da vida… é disso e muito mais que trata o novo livro de Giannetti, e com muita poesia. Como certa vez definiu o antropólogo Clifford Geertz: “Cada povo inventa sua própria forma de sentir e de ser feliz”. A nossa felicidade estaria, de certa forma, conectada aos trópicos e a uma certa utopia coletivamente partilhada.

Por essas e por outras, Trópicos utópicos chega em excelente momento. Num contexto em que andamos cabisbaixos, desacreditando de nós mesmos — do nosso passado, do nosso presente e também do nosso projeto de futuro, distante e imediato — Eduardo Gianetti nos dá, de presente, uma boa utopia em que acreditar. Nem cópias nem tão somente originais, o Brasil e os brasileiros teriam “uma perspectiva”, como diz o subtítulo do livro, a oferecer diante da “crise civilizatória” que, bem sabemos, se não é privilégio nosso, tem causado ultimamente muito desconforto e sofrimento.

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Eduardo Giannetti autografa Trópicos utópicos em São Paulo no dia 27 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073).

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

 

O que é que ele tem

Por Olivia Byington

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Ilustração: Olivia Byington

Sempre que eu contava alguma coisa relacionada à história do João, meu marido Daniel me dizia: “Você precisa escrever isso. Seu relato é importante para outras pessoas que percorreram esse caminho”.

Eu não fazia ideia de como começar, o que contar primeiro. Tudo o que eu ensaiava escrever me parecia enfraquecido, sem alma. Foi assistindo a uma entrevista da Tatiana Salem Levy que encontrei o caminho. No lançamento de um dos seus livros, ela revelou seu processo criativo, contou que escrevia fora de ordem e, em algum momento, organizava a cronologia e alinhava a narrativa. Foi o estalo do Vieira.

O primeiro relato que me veio foi a cirurgia em Nova York, que João sofreu aos seis meses, com um pós-operatório difícil no New York University Hospital. Aquelas lembranças foram puxando outras e o livro foi tomando forma. Ainda assim, eu tinha dúvidas se conseguiria chegar ao fim. Sofria de uma resistência psicológica avassaladora e qualquer pretexto para não continuar o trabalho era agarrado por mim com entusiasmo. A ambiguidade de querer contar essa importante história junto ao sofrimento que ela me trazia me paralisava a escrita. O texto foi saindo com a reflexão sobre isso tudo, a ajuda de muitos queridos amigos e a entrada dos editores.

Em seu livro de memórias Meu último suspiro, Luis Buñuel conta que durante muito tempo narrou à sua maneira a lembrança do dia do casamento de seu amigo Paul Nizan, na igreja de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, no qual Jean-Paul Sartre era o padrinho. Um belo dia, ele se deu conta de que o amigo, pertencente a uma família de agnósticos e marxista convicto, jamais teria se casado na igreja. Concluiu que a situação era impensável e que provavelmente ele mesmo tinha inventado o cenário da história. Sua conclusão é que “a memória é perpetuamente invadida pela imaginação e pelo devaneio”.

Pensando em Buñuel, flagrei alguns registros fantasiosos no que escrevia e fui atrás da empoeirada agenda do ano de nascimento do João, 1981, assim como dos cadernos de anotações, os resultados de exames, os relatórios médicos para me aproximar ao máximo de sua história. Eu, covardemente, sempre evitei me aproximar daquilo como se fosse material nuclear. Foi preciso que eu desenterrasse esses registros para a reelaboração de vários episódios e mesmo a viravolta de muitos afetos que estavam mal guardados dentro de mim.

João já mudou de século, já evoluiu muito além de todos os melhores prognósticos de quando veio ao mundo. Escrever essas memórias me fez reexaminar minuciosamente a sua trajetória. Foram surgindo lembranças reais, dolorosas, meus erros e tropeços. Mas junto veio a minha juventude, a infância dos meninos, a felicidade vivida em tantos momentos valiosos.

Hoje estou mais forte e mais segura com a minha própria biografia. Fiz as pazes com um monte de assuntos, um balanço do que deixei de fazer na minha carreira e do que eu plantei nas nossas vidas. Mais uma vez, através do João, cheguei a um lugar inesperado. Com o livro pronto, tenho o orgulho de dizer que foi ele quem me auferiu esse novo status, tão longe da construção da minha história quanto respeitado e admirado por mim, o de escritora.

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9788547000110O QUE É QUE ELE TEM
Sinopse: Março de 1981. Durante o parto de seu filho, Olivia, então com 22 anos, percebeu que havia algo diferente. Até ali, havia enfrentado os anseios naturais de qualquer mãe de primeira viagem, mas não estava preparada para a mudança radical em seus planos — e em sua vida. Assim começa a história de João, que nasceu com a rara síndrome de Apert. Menino valente, saiu da maternidade diretamente para o centro cirúrgico, começando ali uma longa caminhada repleta de incertezas, obstáculos, mas também de muitas vitórias. Este é o sincero e corajoso relato de Olivia Byington — hoje mãe de quatro filhos — sobre sua relação com a maternidade, com suas próprias aspirações e medos. O que é que ele tem é uma história de amor. Não qualquer amor, mas o mais difícil e raro: o amor pela diferença.

Evento de lançamento
Rio de Janeiro — Terça-feira, 21 de junho, às 19h — Livraria Argumento — Rua Dias Ferreira, 417

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Olivia Byington iniciou a sua carreira como cantora e compositora no final da década de 1970. Gravou seu primeiro disco em 1978 e, desde então, conquistou uma sólida carreira musical, realizando inúmeros shows no Brasil e no exterior. Em junho de 2016 lança pela Objetiva o livro O que é que ele tem.

 

Duas ou três coisas sobre Jonathan Franzen

Por Martha Batalha

Jonathan Franzen, DeLand, Fla. Nov. 22, 2010.

Franzen escreveu três grandes romances — As correções, Liberdade e Pureza. As correções é sobre a desintegração de uma família americana, a partir da doença do patriarca. Liberdade é sobre os altos e baixos de um casamento. Pureza, que sai agora no Brasil, é sobre uma jovem criada por mãe solteira, que busca a identidade do pai (e sobre muitas outras coisas — integridade, privacidade, traição). Tramas à parte, os três livros são, na verdade, sobre a mesma coisa: as dificuldades de relacionamento, as influências do meio, as mudanças que os anos trazem. As metamorfoses do amor e os erros inevitáveis de cada pessoa.

O autor escreveu outros dois romances, The 27th City e Tremor (o primeiro ainda não foi publicado no Brasil). São seus trabalhos de estreia, esteticamente perfeitos e sucessos de crítica. Mas falta algo — falta molho, falta Franzen. Ele só se tornou Franzen com As correções. Neste livro os parágrafos continuam impecáveis, mas há um jogo de cintura e um senso de humor que não vêm apenas do domínio da escrita, mas do fato de ele estar se expondo no livro, e se divertindo durante o processo. Tem muito amor em As correções. O livro foi escrito enquanto Franzen via a desintegração da própria família. O pai apagava aos poucos, vítima de Alzheimer.

Tremor e The 27th City não são irresistíveis como os últimos romances de Franzen, mas ajudam a entender o processo de formação de um escritor. O estilo de Franzen chega aos poucos — aparece em nuances de The 27th City, está mais presente em Tremor e se consolida com As Correções.

A má notícia: Ele escreveu um famoso ensaio para a revista Harper´s chamado “Why Bother” [Para que se preocupar?], que deixa qualquer escritor preocupado. Convence o leitor de que a literatura está acabando, que a cultura de massa, a necessidade constante de estímulo e o tempo fragmentado impedem a produção e a leitura de grandes romances. E isso foi antes da contaminação do mundo por Google e Facebook.

A boa notícia: O ensaio foi publicado depois de Franzen escrever os dois primeiros romances (aqueles que foram sucesso apenas de crítica). Ele ainda não tinha formado uma conexão com seus leitores, não tinha entendido que literatura é também exposição pessoal, que era preciso “abandonar o senso de responsabilidade e aprender a escrever por diversão, e para entreter”.

Seu livro de ensaios Como ficar sozinho é uma declaração de amor aos livros e à leitura. É bom voltar a ele de tempos em tempos — principalmente quando esta nossa cultura fragmentada — tema recorrente no livro — nos corta as horas fundamentais de silêncio dedicadas a um livro (qualquer livro, e apenas um livro). Como ficar sozinho confirma o que nós, leitores, sempre soubemos. Que a leitura é o segredo para nunca estar sozinho. Qualquer pessoa que lê (muitos livros, durante muitas horas) cria um mundo à parte, formado apenas pelo leitor e os autores.

Três iniciativas de Franzen que todo o escritor gostaria de ter feito e / ou deveria fazer:

  • Depois de se formar ele alugou um apartamento com a mulher, comprou quilos de arroz e de frango e se desligou do mundo. Escrevia oito horas por dia, lia cinco horas por noite.
  • Num momento de crise de escrita (forçando a barra para produzir um roteiro que sabia não ser bom), ele deixou seu estúdio na Filadélfia, pegou dinheiro emprestado e sublocou um loft em Nova York. No loft também não conseguiu escrever. Mas deu-se o direito de ler oito horas por dia, sem interrupções.
  • Franzen escreve de um quarto semiescuro, com protetores de ouvido e num computador sem conexão com a internet.

Em outro ensaio do livro Como ficar sozinho ele divide os escritores em dois grupos, Status e Contrato. No grupo de Status ficam os escritores que acreditam apenas no valor estético da obra. O livro se basta como obra de arte, independente de ter ou não leitores. No grupo de Contrato ficam os escritores que acreditam na conexão entre o livro e os leitores. Segundo ele, a ficção deve ser feita levando em conta estes leitores, já que o principal objetivo da literatura é formar uma comunidade entre escritores e leitores para combater a solidão. Leitura é prazer, e conectividade.

O autor empacou no meio de Liberdade. Achava que o livro era para ser uma coisa e estava se tornando outra, passou cinco anos tentando replicar no romance o modelo de As correções. Tinha também uma culpa imensa, por estar trancado em um quartinho fazendo ficção, com tanta coisa errada acontecendo no mundo. Decidiu abandonar o manuscrito e escrever uma reportagem para a New Yorker sobre questões ambientais na China. O artigo saiu, e não obteve o retorno de público ou a mudança do mundo desejados. Entendeu ali que era melhor ficar trancado em seu quartinho fazendo ficção. Era o que sabia fazer de melhor. Depois de mais quatro anos publicou Liberdade, um livro com uma trama forte o suficiente para fazer o leitor se afundar no texto, sem se importar com as distrações do mundo.

Pureza é como Liberdade, e As correções. Um livro típico do modelo Contrato, capaz de gerar uma forte conexão entre autor e leitor. Franzen construiu uma comunidade sólida, com leitores dispostos a doar muitas horas de seus dias em troca das quinhentas (ou setecentas) páginas de seus romances. Talvez o Franzen daquele ensaio da Harper [Para que se preocupar?] tenha razão. Talvez a literatura esteja se esvaindo do mundo. Talvez exista cada vez menos espaço para a leitura, porque os livros e a leitura são anticapitalistas em si — demandam tempo e solidão, em vez de estímulos e consumo. Mas, se for verdade, Franzen é um excelente jogador neste time de escritores perdedores: seus romances são grandes armas de resistência.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Clarior: Ruffato e a auréola das cartas

Por Pedro Meira Monteiro

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O interior das casas humildes, o que guarda?

Terminei de ler, muito tocado, De mim já nem se lembra, de Luiz Ruffato. Romance epistolar sobre a perda do irmão mais velho, há nele uma delicadeza que provém da elegância e da essencialidade das coisas simples.

O leitor de classe média afasta de si, nervoso pela proximidade, aquele universo de paredes mal caiadas, de apetrechos de inox guardados para ocasião especial, da toalhinha plástica que cobre a mesa, dos retratos pobres que mal lembram o retratado.

“Pudor” é palavra-chave, que se lê quando o narrador entra, reverente, na casa familiar agora abandonada: “aprumado no mármore da mesinha-de-centro, um solitário exibe uma rosa-de-plástico; sobre o guarda-louça, três porta-retratos alardeiam os netos; inúteis, o sofá e as poltronas descansam, a televisão repousa — um filó de poeira lubrina tudo.”

As cartas são do irmão, José Célio, enviadas de São Paulo para a mãe, que é confidente, conselheira, tutora e guardiã de valores intocáveis. Estendendo-se de 1971 a 1978, no tom limpo e direto do filho apenas letrado que se justifica perante a mãe, a correspondência deixa ver a corrente de vida que de repente atravessa as entranhas da grande cidade. É um pouco a história do Brasil urbano que se estampa ali, singela, evocando os milhares de Josés Célios que se equilibram entre a tradição e a metrópole. O tom às vezes moralista, nunca agressivo, mas firme, é contrastado pelas descobertas do amor e pela paixão da política, que parecem querer formar um único par, impossível, ardorosamente buscado pelo jovem operário. No entanto, a pulsão de vida que o toma não chega jamais a desatar o fio que o prende à família em Cataguases, aos seus pequenos e grandes dramas vividos à distância, tudo envolto no inexprimível desejo de voltar, contrabalançado pela certeza de que já não se pertence a nenhum dos dois lugares: exilado, aqui e lá.

A moldura que o narrador — o “Luizinho”, que sabemos ser Ruffato — carinhosamente põe sobre as cartas é fina, discreta e perfeita: poética sem ser exagerada, sincera sem sombra de arrebatamento, feita com esmero e sem qualquer preciosismo. O quadro me faz pensar nos móveis das casas simples, nos lares humildes que o olhar curioso invade, entre fascinado e pudico. Lá dentro, cada objeto está no seu lugar, como que esperando o momento infinitamente próximo em que tudo, paradoxalmente, continuará sendo o mesmo, mas agora pleno de sentido, perfeito o círculo das coisas.

Em A comunidade que vem, Giorgio Agamben discorre sobre a auréola, que foi um grande tema para a teologia medieval. Tomás tem um tratado em que enfrenta a questão: se os santos são beatíficos, se eles têm em si todos os bens necessários à perfeita operação da natureza humana, então nada de essencial poderia ser-lhes acrescentado. Mas se assim é, por que algo mais deve se juntar a eles? O que é a auréola que os cinge?

A resposta: a auréola nada acrescenta, nem é necessária à beatitude, tampouco a altera, mas a torna simplesmente mais esplendente (clarior, segundo a expressão tomista). A auréola, aprendemos com o filósofo italiano, é “esse suplemento que se acrescenta à perfeição — algo como um vibrar do que é perfeito, apenas um irisar-se dos seus limites”.

Como as asas dos anjos, eu diria.

Como aquilo que se revela amiúde nos contos de João Anzanello Carrascoza.

Como a moldura das cartas do irmão perdido para sempre, em Luiz Ruffato.

Como se algo pudesse, digamos assim, esplender discretamente.

Pedro Meira Monteiro é doutor em teoria literária pela Unicamp e professor de literatura brasileira da Universidade de Princeton. Editou a correspondência de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda e recentemente traduziu e organizou A memória rota — Ensaios de cultura e política de Arcadio Díaz-Quiñones, publicados pela Companhia das Letras.