Palavra do autor

O melhor da literatura brasileira

Por Martha Batalha

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Lendo outro dia o fundamental Os cem melhores contos brasileiros do século, eu encontrei uma frase que ficou comigo por muito tempo. Não é daquelas que nascem para epígrafe, como essa da Elsie Lessa:

“Qual o hormônio, e destilado por que glândula, que dá a uma mulher o gosto de engomar, tão alvamente, a sua toalha bordada para a bandeja do café?”

Ou daquelas que merecem ser sublinhadas, como a definição de genialidade brasileira de Alcântara Machado:

“Olhem a mania nacional de classificar palavreado de literatura. Tem adjetivos sonoros? É literatura. Os períodos rolam bonito? Literatura. O final é pomposo? Literatura, nem se discute.”

A frase que me conquistou é muito mais simples. Tem apenas quatro palavras, que são:

“O padeiro está nu.”

O padeiro está nu, diz a vizinha para o homem nu, ao encontrá-lo no corredor do prédio tentando cobrir o corpo com uma bisnaga. Depois disso a vizinha grita, chama a polícia, outros vizinhos aparecem, o homem nu esmurra a porta de casa e a esposa finalmente abre.

A cena está no breve conto “O homem nu”, de Fernando Sabino. Li a história pela primeira vez quando tinha 11, 12 anos, naquela coleção que marcou uma geração, a “Para Gostar de Ler” (se não me engano, a capa tinha um menino colocando um filhote de tartaruga para nadar na pia). Nos anos seguintes eu me esqueci do conto, mas jamais me esqueci da sensação de ler o conto, que foi boa.

Trinta anos depois eu reli, sem a ingenuidade da primeira vez — às vezes eu invejo aquela menina que lia sem a carga de conhecimento que tenho hoje. A menina que lia só por prazer, e se surpreendia por tão pouco. O fato é que, na segunda leitura, eu vi muito mais do que um conto engraçado.

Vi um conto que reflete o que eu mais gosto na literatura brasileira. É breve (os escritores brasileiros não são de escrever calhamaços), é leve e despretensioso. É pouco mais que uma piada, é um conto com jeito de crônica.

É também um conto sem excesso de palavras. Que diz o que tem que dizer no lugar e na hora certos — e por isso meu amor à frase “o padeiro está nu”.

Quando essa frase aparece o leitor abre um sorriso, e esta escritora, sabendo que o leitor abrirá um sorriso, deseja escrever frases assim. É a minha busca diária. A frase perfeita, no parágrafo perfeito, na história perfeita. A frase simples.

É muito, muito complicado escrever simples. Dá um trabalho danado. E o Brasil conseguiu, neste sentido, criar algumas gerações de estrelas. João do Rio, Machado de Assis, Luiz Edmundo (que merece urgentemente uma reedição). Vinicius de Moraes e Antônio Maria, elogiado num perfil de Vinicius como “um dos primeiros a liberar a língua do seu engravatamento vernacular”. Rubem Braga, que resume numa crônica o motivo de muitas outras: o que ele quer mesmo é escrever uma história muito engraçada, para fazer rir a moça doente, a cozinheira e o casal mal-humorado. Fernando Sabino, que deseja fazer uma última crônica tão pura quanto o sorriso de um pai humilde, celebrando o aniversário da filha com três velinhas sobre um pedaço de bolo de padaria. Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto (que dizia que Paulo Mendes Campos, outro fera, penteava o cabelo com ventilador). E nem dá para citar todos, certamente deixaria alguém de fora, embora seja bom terminar com alguns contemporâneos: Verissimo, que uma vez se definiu como um dinossauro político, e que eu defino como um dinossauro das crônicas — o homem é imenso, e sabe tudo, há muito tempo. Ruy Castro, que quando escreve é como se só tivesse entre ele e o leitor uma mesinha de botequim — como você consegue, Ruy, como? Cora Rónai e Zuenir, Tati Bernardi e Antonio Prata. É muita gente boa.

É interessante escrever sobre estes autores de onde moro, na Califórnia. O preço da mudança de país é sentir no peito saudades constantes. Esta saudade aparece na minha escrita, e na minha estante. Eles estão aqui comigo, todos estes que citei, e muitos outros. Eles me contam do Brasil, me ensinam sobre parágrafos e me deixam tranquila. Preenchem as prateleiras acima dos livros sobre técnicas de escrita, o que diz muito sobre sua função. Porque, quando penso na frase perfeita, não são os livros teóricos que me vêm à mente. Mas o jeito de escrever dos meus mestres brasileiros.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

 

Sobre silêncios

Por Beatriz Accioly Lins, Bernardo Fonseca Machado e Michele Escoura

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Imagem: Gilberto Viciedo

Entre 2014 e 2015, bancadas políticas se organizaram nas casas legislativas do país para excluir “gênero” e “orientação sexual” dos planos nacionais, estaduais e municipais de educação, silenciando discussões que estavam em curso e dificultando debates sobre desigualdade e violência no ambiente escolar.

No início de maio de 2016, ao tomar posse do governo, Michel Temer extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, cujo resultado é a redução de espaços institucionais para debate a respeito dos direitos e das demandas das mulheres.

Ainda em maio de 2016, houve o estupro coletivo de duas jovens, uma no Rio de Janeiro e outra no Piauí. No Rio, foram trinta e três homens que violentaram a adolescente; o vídeo “vazou” (foi compartilhado sem consentimento na internet, o que já constitui crime), ela estava inconsciente e nua. Os comentários que circularam pela internet desconfiavam da versão da vítima e a condenavam. A desconfiança e o julgamento fazem parte do que se tem chamado de “cultura do estupro”. O livro Transforming a Rape Culture (1991) define a cultura do estupro como “crenças que encorajam a agressão sexual masculina e auxiliam a violência contra as mulheres”. A renomada feminista negra, bell hooks, declara: “Nós vivemos em uma cultura que condena e celebra o estupro”. Ao mesmo tempo que a sociedade condena o estupro como um ato violento, investe no corpo feminino como vulnerável, disponível para o sexo e consumível (mesmo que à força). Sobre esse assunto, a Secretaria de Políticas para as Mulheres divulgou, em 2014, a pesquisa “Violência contra a mulher: o jovem está ligado?”, que perguntava a jovens de 16 a 24 anos qual era a sua percepção sobre violência. Do total, 96% das entrevistadas/os reconhecem que há machismo no Brasil, 78% das mulheres foram assediadas em locais públicos e 59% dos homens receberam fotos ou vídeos de mulheres desconhecidas nuas.

O que esses episódios possuem em comum com o ambiente escolar? Ano a ano, nas escolas do Brasil, meninas e meninos entram na puberdade. Dizemos que os meninos “esticam” e as meninas “ganham corpo”. Elas aprendem desde cedo que é delas a responsabilidade sobre como o seu corpo é tratado no espaço público. Por isso ouvem: “não sente de pernas abertas”. E o que elas fazem quando “ganham corpo”? Algumas usam roupas mais largas e amarram o moletom na cintura com o objetivo de se esconder, outras testam maquiagens e experimentam suas formas de expressão. No entanto, independentemente de suas escolhas, essas meninas irão ouvir comentários feitos por seus colegas: “fiu-fiu” nos corredores, insinuações e toques sem consentimento. O estudo acima citado revela como 68% das jovens ouviram uma cantada que considerou desrespeitosa, 44% foram assediadas em festas e 30% foram beijadas à força.

O que as escolas costumam fazer quando essas agressões ocorrem em ambiente escolar? Calam. O emudecimento não reconhece a dor e perpetua a agressão. A “cultura do estupro” é aquela que silencia a agressão sexual sofrida por essas jovens. Curiosamente quando uma criança relata um caso de abuso sexual, ninguém duvida: se ela diz, é verdade. Quando o mesmo ocorre com uma mulher, a reação é desconfiar e julgar. O que isso indica? Atribuímos autoridade diferente às pessoas e negamos a algumas delas a capacidade de denúncia.

Os episódios acima evidenciam esforços feitos para silenciar os espaços que discutem a questão de gênero e revelam o momento bastante delicado do país. Calar o debate gera dor e elimina a capacidade humana de se manifestar.

O livro Diferentes, não desiguais: A questão de gênero na escola faz parte do esforço de denunciar, em alto e bom som, as tentativas de omissão desse problema. Nele, levantamos discussões sobre o surgimento do conceito de “gênero”, a trajetória do movimento das mulheres e do movimento LGBT, os marcos legais de garantia de direitos e os processos culturais de transformação da diferença em desigualdade, sempre tomando como pano de fundo a defesa ao direito humano à educação de qualidade.

Diferentes, não desiguais será lançado neste sábado, dia 4 de junho, às 15h na Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1731), em São Paulo.

Diferentes, não desiguais - Vila-menor

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Beatriz Accioly Lins é doutoranda em antropologia na USP e pesquisadora do Núcleo de Estudos Sociais da Diferença (Numas).

Bernardo Fonseca Machado é doutorando em antropologia social na USP e pesquisador dos núcleos de estudos Etnohistória e Numas.

Michele Escoura é doutoranda em ciências sociais na Unicamp e pesquisadora do Numas e do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, na Unicamp.

Beatriz, Bernardo e Michele são autores do livro Diferentes, não desiguais, publicado pelo selo Reviravolta.

Sobre Boris Schnaiderman

Por Cecília Rosas

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A escadaria de O encouraçado Potemkin. 

No fim do ano passado, revisei uma tradução antiga de Boris Schnaiderman para a republicação. Eu comentava com colegas que era impressionante, aos 98 anos, a vontade que ele tinha de corrigir, se debruçar sobre questões de tradução e discutir a melhor solução para um trabalho que já estava excelente. Em uma conversa pelo telefone, com o processo de edição já avançado, começamos a fazer alguns comentários sobre o livro. Ele estava maravilhado por relembrar o grande autor que é Ivan Búnin e fez algumas observações sobre a obra. Lembro de desligar o telefone e pensar que escutá-lo falar de literatura russa era de fato impressionante, mas principalmente: era empolgante.

O que ele não se lembrava era que eu, apesar de nunca ter sido sua aluna, há uns anos tinha batido na porta dele com a minha primeira tradução literária. Nessas horas a gente via o que fazia dele um grande professor. Sem se encastelar na posição de pioneiro e fundador, tratava alunos e colegas com uma generosidade enorme. Se dispôs a ler trechos, fazer comentários, atento e gentil. Há muitos professores consagrados que não receberiam com tanta delicadeza uma aluna iniciante.

E é um fato que Boris Schnaiderman foi pioneiro nos estudos russos no Brasil. Em 1963, inaugurou a cadeira de Literatura e Cultura Russa da USP, e foi com seu esforço pessoal que o curso atravessou os anos da ditadura. Além disso, tem uma história de vida impressionante. Schnaiderman esteve presente em alguns marcos históricos: assistiu às filmagens da cena da escadaria de O encouraçado Potemkin em Odessa, onde passou a infância, lutou na Segunda Guerra Mundial — experiência que registrou depois em dois livros, Guerra em Surdina e Caderno italiano —, foi preso em sala de aula na USP durante a ditadura militar. Mas, como tudo isso já está fartamente narrado, vou contar algo de suas reflexões de tradutor.

Em um texto de homenagem ao poeta Haroldo de Campos, ele rememorava: “Nosso trabalho tinha às vezes muito de júbilo, de epifania. Lembro-me agora da alegria com que Haroldo me telefonou para me comunicar o final que tinha conseguido para a tradução da ‘Carta a Tatiana Iácovleva’ de Maiakóvski”. Era mesmo alegria o que a gente percebia na produção de Boris, mas o que eu acho curioso é que nunca tinha um tom triunfal. Vi mais de uma vez ele repetir em palestras que traduções envelhecem e que nenhuma solução é definitiva. Ficou na memória um dos exemplos que dava: na tradução do livro de Maiakóvski, feita a seis mãos por ele e os irmãos Campos, aparecem dois versos famosos do poeta:

Come ananás, mastiga perdiz
Teu dia está prestes, burguês

Boris pontuava que hoje em dia quase ninguém entendia a referência a Luis Carlos Prestes incluída ali por Augusto de Campos. E isso provavelmente é verdade (confesso que até aquela hora eu também não tinha percebido). Mas, mesmo que a solução tenha datado, ainda me parece um excelente exemplo de como o tradutor mantém o original em diálogo com seu tempo e contexto.

Não tenho dúvida de que o interesse recente que temos visto pela literatura russa deve muito à forma aberta com que ele se dispunha a tocar novos projetos, indicar autores, lançar debates, e tudo isso vai fazer uma falta enorme.

Nos nossos tempos de produtividade e utilidade prática, dedicar-se à literatura, seja lecionando, traduzindo ou escrevendo, tem algo de insensato. Boris Schnaiderman fez todas essas coisas, muito bem, e a paixão com que ele se entregou a essas tarefas encontrou resposta em alunos, leitores e professores. Sorte nossa.

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Cecília Rosas é mestre e doutoranda em Literatura Russa pela USP. Traduziu os volumes Noites egípcias e outros contos (Hedra, 2010), O conto maravilhoso do tsar Saltan (Cosac Naify, 2013), ambos de Púchkin, e A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, lançamento em junho), além de traduzir e organizar o volume O ladrão honesto e outros contos, de Dostoiévski (Hedra, 2013). Também participou como tradutora da Nova antologia do conto russo (1792-1998) e da Antologia do pensamento crítico russo (1802-1901), organizadas por Bruno Gomide para a Editora 34.

A maldição de Mercúcio

Por José Francisco Botelho

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Minha iniciação ao universo shakespeariano ocorreu em um rancho profundo em Hulha Negra, no interior do Rio Grande do Sul, em certo entardecer de outono; enquanto a ventania fazia estremecer as venezianas verdes do quarto, Macbeth murmurava em uma charneca escocesa: Dia tão belo e tão feio eu nunca vi. À medida que a leitura avançava e o sol decaía, fui invadido por um misto de estranheza e entusiasmo, que apenas anos mais tarde pude elaborar, nomear e descrever: a sensação de que as criaturas vivas nas páginas eram metafisicamente mais reais que eu, meu quarto, o crepúsculo outonal e o vento que desgrenhava os campos lá fora. O tempo passou, mas o sortilégio não se dissolveu; pelo contrário, expandiu-se. Ainda hoje, basta abrir um tomo de Shakespeare e ler algumas linhas para sentir que minha própria existência mergulha em um torpor fantasmagórico, enquanto as sucessões de prosa e verso redirecionam o fluxo da realidade: as imaginações do poeta são tão poderosas que fazem com que eu me sinta vago, abstrato, inverossímil. É meramente natural, portanto, que os personagens do Bardo também nos pareçam mais reais que seu inventor. “Fala-se sobre o grande coração de Beethoven, mas quem poderia falar sobre o grande coração de Shakespeare?”, protestou Wittgenstein em uma página de diário, em 1950. De fato, pouco ou nada sabemos sobre o coração de Shakespeare; e esse nada é o bastante. Conhecemos Macbeth, Hamlet, Otelo, mas o homem que os criou permanece uma imagem apenas vagamente acessível; a ausência do Criador na Criação é o que lhe garante, por contraste, uma eterna presença entre nós. Eis aí um paradoxo que nenhum amante da literatura desejará resolver.

Antes de criar o Rei da Escócia, o Príncipe da Dinamarca e o Mouro de Veneza, Shakespeare havia inventado Mercúcio. O mais fascinante dos coadjuvantes surgiu nas páginas de Romeu e Julieta, peça escrita por volta de 1595 (e recentemente traduzida por mim). A história, todos a conhecem — afinal de contas, essa foi e continua sendo a mais popular de todas as peças do Bardo. Em algum momento no outono da Idade Média, os clãs de Capuleto e de Montéquio se digladiam pelas ruas da “bela Verona”, enquanto dois jovens e desditosos amantes tentam eludir o conflito familiar e as manhas do destino — inutilmente, é claro, pois esta história tem um desfecho necessariamente catastrófico. Melhor amigo de Romeu, Mercúcio é o responsável pela toada cômica que embala boa parte dessa tragédia. Seu humor é cínico, carnudo, hormonal; e às vezes sombrio, ominoso, onírico. Às elucubrações maneiristas de Romeu e aos sublimes, quase terríveis discursos eróticos de Julieta, Mercúcio contrapõe algumas das mais convincentes tiradas antirromânticas da literatura. Quando vê seu dileto amigo afundado nos suplícios de Eros, Mercúcio trata de curá-lo com saraivadas de trocadilhos e obscenidades, para então disparar: Ora, ora! Vais me dizer agora que esta ronda de escárnios não é melhor do que andar choramingando por amor? … Pois esse amor babão é como um grande palerma que corre para cima e para baixo, com a língua de fora — um rei dos bobos tentando tolamente enfiar o cetro em algum buraco.

Mas Mercúcio não seria Mercúcio se Shakespeare não houvesse lhe dado uma morte memorável. Embora não seja Montéquio nem Capuleto, ele acaba envolvido na luta entre as duas famílias — e recebe um golpe fatal pelas mãos de Teobaldo, inimigo de Romeu. Apalpando a ferida, Mercúcio percebe que vai morrer pela briga dos outros; e, compreendendo que seu destino era ser coadjuvante em drama alheio, lança estas que talvez sejam as mais veementes palavras finais da literatura: Malditas sejam vossas duas casas! A maldição há de cumprir-se: até o fim da peça, ambas as famílias serão dizimadas por sua própria intransigência.

A praga de Mercúcio representa uma epifania recorrente na acidentada história da prudência humana: o momento em que, no calor de um conflito ou no estrépito de uma discussão, advém um súbito clarão de ceticismo, revelando que todos os lados estão igualmente errados, ou que são identicamente daninhos. À alma solitária e raivosamente lúcida, resta apenas praguejar contra Montéquios e Capuletos. “Malditas sejam vossas duas casas!” — quantas vezes, em nossa vida, não nos seria útil recorrer à maldição de Mercúcio? É pena que, no mais das vezes, esse píncaro de clarividência só se alcance quando já é tarde demais: lançada a imprecação imortal, o grande coração de Mercúcio logo se calou, para sempre, em alguma rua anônima da bela Verona.

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Para a Penguin-Companhia, traduziu Contos da Cantuária (2013) e Drácula (2014). Sua tradução de Romeu e Julieta será lançada em setembro. É autor da coletânea de contos A árvore que falava aramaico (Zouk, 2011).

Mulheres

Por Martha Batalha

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Foram duas semanas de extremos, com o perfil da bela e recatada Marcela Temer, e da voluptuosa e luxuriante miss Bumbum. E ainda teve Erundina gritando “É golpe”, depois de Cunha manobrar uma eleição na Câmara contra os direitos das mulheres. O deputado Flavinho do PSB dizendo que mulher “de verdade” não quer poder, quer é ser amada. O cancelamento de uma palestra sobre direitos das mulheres no colégio Salesiano, em Niterói, porque grupos religiosos associaram o tema à pauta de esquerda.

Nos meses anteriores teve Câmara aprovando projeto que dificulta o aborto legal. E a mulherada indo pra rua, com muita raiva do autor da proposta, Eduardo Cunha (ele, de novo, como sempre). Enquanto isso, editoras do mundo inteiro negociavam a publicação dos livros esgotados ou não traduzidos de Svetlana Aleksiévitch, como o que traz depoimentos de mulheres russas no front da Segunda Guerra. A desconhecida Elena Ferrante, com sua escrita universal, lançava best-sellers que contêm o ponto de vista feminino (uma literatura sobre mulheres, e não para mulheres). E Chimamanda Ngozi Adichie vendia centenas de milhares de exemplares de seu preciso e precioso manifesto feminista (onde diz, simplesmente, que feminismo é tratar os outros com respeito).

Que época para ser mulher, escrever, e tentar entender o Brasil e o mundo. É o que penso o tempo todo, foi o que pensei ontem, depois de terminar a releitura de 1968, o ano que não terminou, de Zuenir Ventura. Olha, Zuenir, a gente está com um 1968 por mês, quero ver quem será o gênio capaz de escrever 2016, o ano que englobou uma década.

No meio de tanta coisa eu me pergunto qual a missão do escritor (eu sei, missão é uma coisa meio 1960, mas acho mesmo que o escritor tem um papel a cumprir, principalmente em tempos conturbados como este). E acredito que este papel, esta missão, seja desconstruir estereótipos.

Marcela Temer, por exemplo. No fundo não importa se ela é bela, recatada e do lar. Que goste de cores claras, saias na altura do joelho e cabelos com luzes fininhas. Para mim ela poderia passar o resto de seus dias fazendo bolinhos de chuva para o filho Michelzinho, que eu não ligaria. O importante, no caso, é que uma reportagem escrita por uma mulher escolhe os termos “bela”, “recatada” e “do lar” como principal forma de definir — e elogiar — outra mulher. Não é Marcela que está errada, mas as escolhas da jornalista, e o espaço dado na imprensa para esse tipo de perfil.

Ou Milena Santos, a miss Bumbum e primeira-dama do turismo brasileiro. Esta nem precisa ser definida por jornalistas, porque se tornou um estereótipo de si mesma. Abandonada pela mãe, cresceu numa favela e usou o corpo como moeda de troca. E o corpo como moeda não é, neste caso, um problema em si. O problema é que Milena deve ter crescido tão influenciada por estereótipos (das novelas, das músicas, das revistas femininas), e acreditado tanto nas imagens pré-fabricadas, que se tornou, ela própria, uma imagem pré-fabricada.

Marcela Temer e Milena Santos me fizeram refletir sobre meu primeiro romance. Sem perceber (e acredito profundamente no subconsciente na hora da escrita) eu fiz das duas protagonistas, Eurídice e Guida, lutadoras contra estereótipos. Eurídice é tida como bela, recatada e do lar. Guida é vista como deslumbrante, efusiva e da rua. Durante toda a trama elas tentam se desfazer destes estereótipos. Isso em 1940.

Estamos em 2016, e as questões continuam as mesmas. A mudança da mulher na sociedade — e da percepção da mulher na sociedade — passa primeiro pela mudança da construção da imagem desta mulher. E isso é com a gente — escritores, editores, designers, roteiristas, músicos, pintores, desenhistas, jornalistas.

Outro dia li um quadrinho de uma desenhista de Brasília, a Lovelove6. Em poucas linhas ela deu um recado fundamental para quem faz arte hoje no Brasil:

“Autores costumam considerar suas tramas apenas quando a mulher tem função sexual no roteiro, ou quando o foco da sua representação é estereotipado — a mãe, a filha, a esposa, a mulher, a prostituta.” No caso da protagonista, a mulher é “jovem, branca, magra, atraente e heterossexual, de traços finos e cabelos lisos”.

Para Lovelove6 (e para mim), não tem que ser assim. E esta é a parte mais linda:

“Sério, caras, as mulheres não precisam despertar o seu tesão e vocês não têm que querer comer todas. Na maior parte das vezes as mulheres estão por aí, existindo de boa, como as pessoas fazem. Se virando, trabalhando, querendo ter pensamentos complexos e profundos, querendo vencer e crescer, como você.”

É isso, companheiros artistas. A marquinha de catapora no queixo de uma mulher não tem que ser sexy. Pode ser a lembrança de uma noite de muita febre na infância, em que foi gostoso dormir na cama dos pais. A gente usa minissaia não para despertar instintos, mas porque aqui faz quarenta graus. Mulher também faz os cálculos para ver quando vai se aposentar, sonha com aquela casinha de campo, já pensou em estudar violão ou tocar tambor. Acorda suada depois de um pesadelo, cheira o garfo com comida, corta as unhas perto do sabugo e depois se arrepende. Já cogitou largar tudo e recomeçar muito longe. Consegue — ou não — fazer as palavras cruzadas sem olhar para as dicas da última página. Tem medo — ou não — de espíritos. Jogou no bicho, quase acertou a quina, perdeu tempo numa fila, se irritou com a porta giratória do banco. E até mesmo Marcela Temer com todo o seu recato, e Milena Santos com todo o seu silicone, ou as duas com todos os seus estereótipos, já pensaram, sentiram ou viveram algumas das coisas descritas acima.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.