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Capas de dentro

Por Angelo Abu

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Em maio, escrevi neste espaço sobre como recebi a missão de ilustrar as capas de quinze (na época seriam catorze) livros do escritor moçambicano Mia Couto, que estão sendo reeditados pela Companhia das Letras em uma nova coleção, e sobre o processo de criação de cada uma.

Já havia, então, manifestado o desejo de conhecer Moçambique, que cresceu pela imersão no universo do autor em que me encontrava e da necessidade que sentia de ampliar o meu repertório visual e cultural sobre aquele país. Pesquisar pela internet era como olhar pelo buraco da fechadura e a necessidade de atravessar de vez o portal começou finalmente a se condensar em decisão. Moçambique representava mais do que uma pesquisa de campo, mas uma oportunidade de cruzar uma fronteira entre realidade e ficção. De adentrar fisicamente no universo que estava ilustrando.

Mas não queria ir como turista, estava determinado a conhecer o país mais a fundo, através de uma relação mais próxima com as pessoas de lá. Passei cerca de um mês e meio providenciando visto, pesquisando e fazendo contatos diversos, até que me vi com uma vasta rede trançada para me receber da maneira mais intensa e econômica possível.

Naquele momento de preparativos, ainda antes partir, cheguei a ilustrar três capas (afinal, há um cronograma que segue): Na berma de nenhuma estradaVozes anoitecidas e Estórias abensonhadas, todos de contos.

mia2Algumas delas já se beneficiaram dos novos contatos. O alcance de profundidade da minha pesquisa havia crescido consideravelmente, com tantas fotos e opiniões para consultar. Percebi, por exemplo, nas fotos, que as mulheres enroladas em capulanas (cangas estampadas com padronagens africanas, mas geralmente fabricados em Java), equilibrando algum objeto na cabeça e, muitas vezes, um bebê nas costas, eram onipresentes no país, parte da identidade nacional. Foi então que pensei nas árvores desfolhadas sobre suas cabeças como alegoria da perda de referências e do desenraizamento que o contexto de pós-guerra gerou em muitos dos personagens dos contos de Na berma de nenhuma estrada. Além de uma ótima oportunidade para homenagear aquelas equilibristas presentes em todo país.

 

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Diferente dos romances, em que procuro fazer uma interpretação do todo, nos livros de contos primeiro espero que alguma imagem salte voluntariamente do texto. Se não, procuro dar um sentido visual para o título ou busco alguma interseção de sentido entre os contos. Foi o caso de Vozes anoitecidas, em que os pássaros estavam presentes em várias estórias. Há o corvo vomitado, os pássaros sagrados de plumas brancas, o pássaro da morte e também aqueles em que as mulheres se transformam. Optei por esta revoada noturna (Anoitecida) de uma espécie de pássaro sagrado genérico que não fosse nenhum dos que acabei de citar, mas que ao mesmo tempo fossem todos eles, uma afro-fênix ou algo assim.

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Já em Estórias abensonhadas o conto “O cego estrelinho”, logo no começo do livro, destacou-se para mim e comecei a construir aos poucos uma imagem que refletia não só ele, como também o “abensonhadas” do título.

miaaaResultou em uma silhueta estrelada (como devem ser os objetos percebidos na cegueira: cheios de noite sem lua) em contraste com uma constelação de sóis (que tanto propiciam a visão, como também podem cegar). Pesquisando sóis-mandala-moçambicanos como referência, o mais aproximado do que havia pensado que consegui encontrar foi este ao lado, de Burkina Faso. Arrisquei uma versão baseada nela e submeti à avaliação dos meus novos amigos virtuais para saber se estava muito fora da estética moçambicana. Todos a consideraram pan-africana o suficiente… Que poderia ter sido inspirada na arte de qualquer parte do continente sub-saariano. Aceitei o veredito. Mas minhas incertezas nas tomadas de decisões deste tipo só reforçaram para mim que a travessia do Atlântico, para a qual me preparava, havia sido uma decisão acertada. Precisava atravessar a fechadura, saber pelos meus próprios olhos como seriam os sóis vistos da berma de lá.

 

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Até que chegou o dia de partir. Um dos contatos que fiz previamente foi com o Centro Hakumana, uma instituição que trabalha educando e prestando assistência a pessoas com diversos problemas sociais e de saúde. Me dispus a passar as manhãs dando oficinas para as crianças de lá em troca de estadia e comida. Um escambo perfeito, ótima maneira de me aprofundar na cultura, economizar na viagem e de contribuir para um projeto que me parecia bem bonito. E assim foi.

De um dia para o outro estava cercado de novidades, vivendo uma outra dimensão da nossa língua, outra dimensão de existência. Uma experiência que acabou por transcender as capas, se desdobrando em diversos ramos. Em poucos dias, vínculos fortíssimos foram criados sem que eu me desse conta. Além do próprio Mia, que finalmente tive o prazer em conhecer, fiz diversos amigos. Trabalhei com meninos de 8 a 15 anos com ilustração de estórias inventadas ou recontadas por eles em roda, à sombra de uma mangueira (tudo devidamente gravado). O resultado foi maravilhoso, completamente interrompido por minha pré-marcada data de retorno. Voltei ao Brasil certo de que este é um trabalho que quero dar continuidade, mas antes havia ainda sete livros pela frente para ler e ilustrar suas novas capas. E muita informação para aos poucos digerir.

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mia7Li Na varanda do frangipani e Antes de nascer o mundo no decorrer da viagem. Passava os primeiros dias em Moçambique procurando frangipanis para fotografar como referência até que descobri que esta árvore era uma velha conhecida do Brasil, aqui chamada de jasmim-manga, tão comum no sul da Bahia, onde moro. Fotografei vários, mas no final acabei optando por omitir a árvore já contida no título, revelando apenas sua varanda com vista para os dois mundos: o dos vivos, representado pelo Oceano Índico e o dos mortos, com o pangolim (sugerido apenas pela textura das escamas e por sua forma arrenrolada) ensolarando as trevas.

mia8A cena assim leva aos olhos do leitor não o frangipani objetivamente, mas seu ponto de vista,
subjetivo. Que é também o ponto de vista do narrador xipoco(fantasma). Para o pangolim, me baseei em fotos que fiz no Museu de Ciências Naturais de Maputo e também nos grafismos de várias capulanas. No final ficou bem simples e
gráfica, com muita influência dos muitos horizontes de lá.

 

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Em O fio das miçangas, de contos, uma imagem ou outra já havia se insinuado como candidata, mas quando me deparei com a chuva de peixes do conto final, não tive dúvida. Acabei optando por alinhar os peixes como as miçangas do conto que dá título ao livro. Mas alinhei numa composição meio amontoada, quase, de novo, como em um grafismo de capulanas, ou uma pintura de Mulangatana. Ou mesmo um Mailove (caminhonetes de transporte urbano em que as pessoas têm que se abraçar para não cair, de tão cheias. Daí o nome, my love). Para os peixes, busquei alguns em selos antigos do país, outros, nas fotos que fiz no Museu de Ciências Naturais de Maputo, e o restante, na imaginação.

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mia13E se Obama fosse africano? é o único livro de ensaios da coleção. A princípio, por isso o mais desafiador. Não queria remeter diretamente ao Obama do título. No máximo, sutilmente, através do vermelho e azul norte-americanos ali presentes. Por sorte o próprio texto me entregou de bandeja uma imagem precisa, que dialoga com o título, com o universo geral do livro e com uma das formas de expressão artísticas mais emblemáticas do país. Foi no ensaio “O planeta das peúgas rotas”, no seguinte trecho: “Nós somos como uma escultura maconde uja-ama, somos um ramo dessa grande árvore que nos dá corpo e nos dá sombra. Distintamente daquilo que é hoje dominante na Europa, nós olhamos a sociedade moderna como uma teia de relações familiares alargadas.” Em minha estada em Maputo visitei escultores maconde que me proporcionaram além de fotos e de um amuleto que trouxe, memórias táteis daquele texto.

 

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Antes de nascer o mundo em Moçambique tem como título “Jesusalém”, que viria a ser o nome do país que um dos personagens resolveu criar para nele se exilar com sua família e alguns agregados. O livro acabou rebatizado para a edição brasileira em uma espécie de tradução cultural. Mas quando mencionei pessoalmente para o Mia Couto que era o livro que estava lendo naquela ocasião em que estive por lá, ele me confessou que o título que queria ter dado e que sempre imaginava é O afinador de silêncios. Ao final, trabalhar com uma obra trientitulado acabou ampliando e enriquecendo minha visão sobre ela.

Pensando no significado do livro como um todo, enquanto A confissão da leoa, para mim, mergulha no universo feminino, Antes de nascer o mundo é seu avesso: tem o mundo masculino como matéria-prima. Trata-se de um livro solar. Sabia que devia ter uma luz pré-gênese, de gema do mundo. O amarelo foi minha primeira certeza. Amarelo que vai do chão árido da Jesusalém à velhice do mapa, que na história, quando rasgado, prenuncia na forma dos cacos a chegada da mulher primordial. O mapa também foi um elemento que ficou presente na minha mente durante toda a leitura. Foi minha segunda certeza, que acabou me levando ao centro de Maputo em busca de uma cartografia do país para ser rasgada um dia.

Pensava em representar os dois irmãos brincando no rio de seu éden particular, mas não havia ainda definido a cena. Terminei a leitura em Moçambique, mas viria a ilustrá-lo somente semanas depois, no Brasil. Foi então que percebi que aquele estado de suspensão, de gravidez mental de uma imagem estava secretamente afinando meus silêncios. O suspense em si revelou-se para mim um afinador natural de silêncios. Assim que o irmão mais velho acabou suspenso no ar, no meio de um salto no desconhecido do seu mapa-mundo.

mia16A cena estava imaginada, mas continuava sem referências em que me basear. E trata-se de uma imagem que só funcionaria sobre uma base naturalista. Um dia mencionei para uma amiga, a Adriana Londoño, que lamentava a velha amendoeira da ponte de Santo André, onde moro, ter morrido. Além de um ícone local era o único lugar de onde as crianças dali saltavam no rio. Foi quando ela me disse que, por sorte, havia feito as fotos que eu buscava há alguns anos, daquele exato local, e que seria um prazer colaborar. Incrível sintonia. Aproveito para manifestar aqui minha gratidão a ela e também felicidade por termos ressuscitado a amendoeira da ponta.

 

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Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra a presença constante do homem à espera de seu enterro demandava por si alguma forma de representação simbólica. Mas quando, em determinado momento da história, a terra se recusa a se deixar cavar, foi que a pá me surgiu como totem. Cavar uma simples cova se tornou quase uma batalha, física e espiritual. Assim as pás acabaram se desdobrando em variadas formas, algumas meio lança, outras meio carrancas… Ferramentas diversas para cavar nos mais variados planos entre a vida e a morte. As tiras horizontais azuis remetem ao rio-tempo do título, fluxo da vida.

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Até o décimo primeiro e último conto da coletânea Cada homem é uma raça, não havia ainda definido uma imagem para a capa. Foi então que ela apareceu pronta, no finalzinho do livro, na forma de laranjas incandescentes. Em Os mastros do paralém no trecho que segue: “…o mulato era um mussodja e caminhava, por entre o pomar, com sua farda guerrilheira. Mas, de espanto: ele tocava as laranjas e elas se acendiam, em chamas redondas. O laranjal parecia uma plantação de xipefos.” Me pareceu uma ótima chance de novamente padronizar estampa de capulanas.

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Contos do nascer da terra foi o último dos quinze. Um livro de 35 contos, dentre os quais dois foram escritos para sua filha, Rita Couto, que acabei vindo a conhecer pessoalmente e que me recebeu tão generosamente na Fundação Fernando Leite Couto, que ela coordena, e onde acabei dando uma palestra a convite do próprio Mia. Por isso aquelas duas histórias continham uma camada extra para mim, uma vez que os personagens já vinham com fisionomias e relevos pré-traçados. Acabei optando pelo segundo conto, intitulado “A menina sem palavra” em que há uma irresistível cena onírica da lua se estilhaçando no mar abaixo, que se cindia em uma fresta de sangue. Achei que essas imagens, além da força que continham por si mesmas, dialogavam bem com o título do livro. A lua rachada parece o ovo primordial do mencionado nascer da terra. A racha de sangue, remete à própria saída do ventre ou algo assim.

Partindo para a execução, procurei dar uma ambiguidade aos brancos do plano de baixo que funcionam tanto como reflexo quanto como mencionados cacos da lua. Quis também que sutilmente estivessem contidas naquelas formas manchas de leopardos ou girafas e que as nuvens ficassem bem zebradas. Ou como presas de marfim dispostas simétricas em torno de uma máscara. E o mais importante: busquei dar à cena, por causa do título, um clima de último crepúsculo, de pré-primalvorada. E tudo sem perder de vista a voz da Rita.

E eis que chegou ao fim. Ao todo foram quinze livros em onze meses. Hei de sentir falta da constância deste trabalho. Mas o universo do Mia Couto e os tantos outros mundos adjacentes que vim a descobrir seguem presentes em mim. Chegou a hora de digerir cada um deles. Só tenho a agradecer aos moçambicanos pela amorosa maneira com que me receberam. Como se diz em changane, língua original do sul do país, Kanimambo! Abaixo, alguns moçambicanos que cruzaram meu caminho e que refletem a diversidade humana daquele país.

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Angelo Abu nasceu em Belo Horizonte em 1974. Graduou-se em cinema de animação pela UFMG, e vem ilustrando, nos últimos 20 anos, livros infantis e juvenis para diversas editoras. Em 2010, ficou em primeiro lugar no concurso de caricaturas da Folha de S. Paulo, para onde passou a contribuir esporadicamente. Neste ano, lançou Macunaíma em quadrinhos, adaptado e ilustrado em parceria com Dan X, pela editora Peirópolis.

 

Oswald pixolesco

Por Elisa von Randow

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Reza lenda que, durante alguns loucos dias de 1916, o jovem Oswald de Andrade andava pela cidade de São Paulo com a grande diva internacional Isadora Duncan em seu automóvel conversível. Na alvorada daqueles tempos, na colina primitiva da cidade, compreendida entre os rios e vales hoje domesticados sob o asfalto, a modorrenta vila despertava para a modernidade luminosa do século XX. Em breve, aquele rapaz topetudo seria um dos atores fundamentais do terremoto cultural que até hoje inspira e alimenta as vanguardas artísticas do Brasil e do mundo.

Hoje, quando olhamos para os edifícios históricos desse centro antigo, cenário dos passeios tresloucados, difícil não pensar que eles são testemunhas inabaláveis das transformações da cidade, de seus dias de opulência e decadência. Além das marcas do tempo deixadas pela cidade bricolagem, que não para de se fragmentar e multiplicar, grita em suas empenas uma camada contemporânea de poesia violenta e urbana, diálogos incompreensíveis, manifesto das vozes dos que recusam fazer parte do estabelecido.

O pixo toma as paredes em batalhas clandestinas. Ele não respeita as fachadas recém pintadas, não dá a mínima para o patrimônio histórico, foge da polícia e despreza a propriedade privada. Com ímpeto suicida, seus escritores anônimos criam uma linguagem cifrada, sintética e radical, “sacudida pela contribuição milionária de todos os erros”. Como a escrita de Oswald, nas palavras de Sabato Magaldi, “privilegia-se o gosto demolidor de todos os valores; renega-se conscientemente o tradicionalismo cênico, para admitir a importância estética da descompostura”.

Daí nasce a ideia central do projeto gráfico para os livros de Oswald de Andrade, a serem relançados pela Companhia das Letras: a convivência entre camadas de tempo distintas mas semelhantes em sua revolucionária radicalidade e originalidade paulistana. Com um perfume de vanguarda concretista, vandalismo e uma pitada de tropicalismo urbano, foi desenhada a fonte Oswald, geométrica, sintética, paulistana e universal.

Para o miolo, usamos a fonte Silva Text, desenhada por Daniel Sabino do estúdio Blackletra.

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Memórias sentimentais de João Miramar, primeiro lançamento da reedição das obras de Oswald de Andrade, já está nas livrarias.

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Elisa von Randow é designer e ilustradora, trabalha com projetos editoriais e culturais. Entre 2001 e 2008 integrou a equipe da Máquina Estúdio, na qual produziu capas e livros premiados. Em 2009, inaugurou sua primeira exposição individual, Nada está em seu lugar, com desenhos, fotos, colagens e gravuras.

Na berma de tantas Moçambiques

Por Angelo Abu

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Há alguns anos, utilizando a técnica de recorte e colagem, ilustrei um livro chamado Dima, o pássaro que criou o mundo, uma antologia de contos de autores de todos os países lusófonos organizado pela editora Melhoramentos. No final do ano passado, o Alceu, diretor de arte da Companhia das Letras, viu as tais imagens em meu site e propôs como teste que eu refizesse duas das capas do renomado escritor moçambicano Mia Couto utilizando aquela mesma técnica. A editora estava com planos de refazer todas as capas de quatorze volumes do autor que eles editam, com exceção de uma trilogia mais recente em que todos os três volumes são ilustrados pelo talentoso Marcelo Cipís. Caso essas duas primeiras capas passassem no teste, caberia a mim refazer as quatorze!

Conhecia o Mia apenas de entrevistas e por amigos. Ainda não havia lido nada dele, mas sabia do peso de seu nome e, logo, do tamanho da minha missão.

Passei, então, duas semanas mergulhado na leitura de A confissão da leoa e de O último voo do flamingo.

À medida que adentrei no primeiro livro, ele me encantou com sua atmosfera misteriosa e feminina. A partir do momento em que percebi aquele clima na história, a imagem que buscava se revelou muito explicitamente enquanto lia, na poética e emblemática cena do encontro de olhares entre a leoa que sacia sua sede e a protagonista que tinge o rio com gotas vermelhas do ciclo de seu sangue. Aquela era a cena síntese da história.

Primeiro estudo de leoa

Passei, então, a pesquisar imagens de leoas bebendo água para, a partir dali, começar a recortar. As primeiras me pareceram muito explícitas, pouco étnicas, quase cartunescas. Por isso, achei que ficaria mais elegante, mais no tom da história, se me baseasse não em leoas em si, mas em representações moçambicanas delas. Assim, decidi me basear em máscaras africanas de leoas. O sangue escorrido da protagonista foi apenas insinuado com alguns pedaços de papel vermelho rasgado. O resto da composição deveria ser construído pela vegetação ribeirinha, que delimitaria o rio com sua simples ausência. O fundo preto terminaria de compor o clima inconsciente do mistério feminino.

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Já em O último voo do flamingo, a pequena lenda que dá título ao livro – que simboliza a última gota de esperança em um país desolado pela guerra – se repete ao longo da história, quase se impondo como imagem. Sentia-me um pouco resistente em ser mais uma vez literal ao incluir na imagem o animal contido no título. A princípio, pensei em manter do flamingo apenas a cor rosa no céu de fundo, cuja luz crepuscular quase apocalíptica era pertinente ao ocaso histórico da narrativa. Cogitei substituir a ave por outros elementos da história, como capacetes azuis dos soldados explodidos pendurados nas árvores, por exemplo. Mas ao final não resisti à forma expressiva e sinuosa do corpo dos flamingos e acabei optando, mesmo correndo o risco de estar sendo óbvio, por sua silhueta, que pelo menos é um pouco menos explícita que a imagem completa. Para completar, deixei o chão todo fragmentado por blocos de papel rasgado, remetendo ao país em decomposição que é apresentado no texto.

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Para minha grande alegria, as duas capas foram aprovadas pelo editor e pelo autor. Dali em diante, mergulharia profundamente no universo do Mia. Mesmo já havendo ilustrado cinco das quatorze capas, não descarto ainda a possibilidade de fazer uma visita a Moçambique. Para isso, estou tentando um contato com o autor através da editora, mas tudo ainda um tanto incerto.

O primeiro que recebi dos doze livros seguintes foi Terra sonâmbula. A princípio, os guerreiros naparama foram os principais candidatos a figurarem na capa, por sua força simbólica na história. Mas ao final da leitura, percebi que a única constante naquele mundo de terras movediças era o ônibus batido no embondeiro (baobá). Repeti o recurso da fragmentação da terra agora no céu entremeado por pontos de luz-estrelas. Explorei na composição a forma de ampulheta, expandindo as raízes e os galhos do Baobá para a eternidade fora da página, para dialogar com o tempo daquela história.

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Em seguida veio O outro pé da sereia, cuja cena inicial da estrela (meteoro) caindo em chamas se imprimiu espontaneamente em todo o resto de minha leitura. Acabei incluindo ele na imagem de modo estilizado, na forma de um rasgão revelando cores quentes à esquerda da composição. À direita incluí a sereia do título, que na verdade é N. Senhora D’Ajuda. Optei por omitir o rosto e a coroa, que cheguei a fazer, para que os leitores tivessem maior margem para projetar, como no livro, suas próprias sereias na santa. O azul do manto foi dado pelo texto, e as estrelas estampadas nele são em referência à estrela cadente que substituí pelo rasgão.

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A mais difícil de todas até agora foi a mais recente, Venenos de Deus, remédios do diabo. As relações humanas eram o ponto forte da história, sem grandes ícones visuais ou alegorias no texto. Havia um lírio branco que se torna uma mão em um jarro, mas que não era muito significativo para a história. Seguia lendo, percebendo cada vez mais que era um texto de personagens. Pesquisava a população daquele país pela internet, no entanto ainda meio hesitante em escolher uma indumentária que fosse estereotipada, equivocada ou algo assim. Minha demanda por conhecer Moçambique cresceu novamente.

Quando estava no finalzinho da leitura, me deparei com uma cena que era a que buscava. Ao mesmo tempo icônica, pertinente ao resto da história, e o mais importante naquele momento: sem humanos. Tratava-se de um cemitério com flores brancas, onde havia, no lugar de uma das cruzes, uma âncora. De quebra, a corrente em torno da âncora poderia remeter à serpente enroscada no cálice do símbolo da medicina, tão presente no texto e no título. Mas a imagem não ficou boa. Ficou sóbria, sem nenhuma estilização, burocrática, desinteressante. Sorte que, quando pedi a opinião do Alceu, ele sugeriu que houvesse algo na imagem que remetesse ao romance entre o dr. Sidonho com a jovem Deolinda, personagem que jamais aparece na história. A presença dos humanos de fato se mostrou imprescindível no caso. Precisava ganhar intimidade imediata com a população moçambicana. Uma viagem relâmpago ao país estava fora de cogitação naquele ponto. Foi então que comecei a visitar sites de relacionamento para entrar em contato com pessoas reais.

Caminho refutado para _Venenos de Deus..._

Fiz amizade no Facebook, visitei os perfis das amigas das novas amigas, fotógrafos de moda locais, modelos, para entender o que cada grupo social costuma usar. Na manhã seguinte, me baseei em algumas delas para compor uma Deolinda. Acabei optando em silhuetá-la e vesti-la com roupas muito estampadas que a personagem talvez só usasse em algum ensaio fotográfico. Mesmo sendo menos preciso e, de fato, estereotipado (talvez calça jeans e camiseta representasse melhor uma garota de classe média moçambicana que vai estudar na Europa), a opção pelo turbante e pelas cores e estampas me pareceu graficamente melhor. Mesclei, então, a personagem com a âncora previamente feita em uma mesma cena, buscando uma síntese entre as duas composições.

Venenos de DeusRosa

A cada dois Mia Coutos que leio, tenho procurado ler algum livro curto de outro autor para refrescar meu olhar, para não enjoar de seu estilo de que tanto tenho desfrutado e, sobretudo, para não começar a misturar tudo na memória. Afinal, são quatorze livros e ainda nem cheguei na metade. Partindo agora para o Na berma de nenhuma estrada, primeiro de contos. Um refresco em pílulas, contos curtos e inspiradores. Ainda sem a menor ideia sobre por quais caminhos este me levará.

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As novas edições de A confissão da leoa O último voo do flamingo já estão nas livrarias.

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Angelo Abu nasceu em Belo Horizonte em 1974. Graduou-se em cinema de animação pela UFMG, e vem ilustrando, nos últimos 20 anos, livros infantis e juvenis para diversas editoras. Em 2010, ficou em primeiro lugar no concurso de caricaturas da Folha de S. Paulo, para onde passou a contribuir esporadicamente. Neste ano, lançou Macunaíma em quadrinhos, adaptado e ilustrado em parceria com Dan X, pela editora Peirópolis.

A identidade de Simenon

Por Alceu Chiesorin Nunes

O convite para fazer Comissário Maigret chegou de surpresa, mais ainda quando o Luiz anunciou o desafio completo: criar a identidade para a série de livros que sairiam na Inglaterra e Estados Unidos com a mesma roupagem do Brasil. Inacreditável para quem, na época, estava há menos de um ano na Companhia.

A proposta era trazer um tom contemporâneo ao policial já reconhecido pelo insistente uso do cachimbo e clima noir das fotos. A busca foi oposta, fotos coloridas com linguagem atual. A sugestão do Luiz era trabalharmos com o fotógrafo americano Gregory Crewdson. No mesmo dia fiz um estudo com mais de 20 fotos pra ver se funcionavam como capa de livro e coleção, a assinatura com o escrito “Simenon” ainda era primária, mas tínhamos uma coleção.

Os ingleses da Penguin acharam as imagens um pouco anacrônicas, mas não incomodava muito, a preocupação era em relação aos carros. Infelizmente não fechamos com o Crewdson. Pedimos uma ajuda a Peter Galassi, curador do MOMA, que indicou o italiano diCorcia, novos estudos a caminho… O clima manteve-se atual, a assinatura “Georges Simenon” evoluiu, o projeto parecia finalizado. Mais uma vez não fechamos com o fotógrafo, o clima ficou um pouco tenso, já estávamos trabalhando no projeto há seis meses, o tempo para estudos chegava ao fim, precisávamos da aprovação definitiva. Cada mudança uma nova rodada de aprovação com os parceiros da Penguin, era preciso acertar.

Parecia que o tempo amadureceu o projeto, a assinatura foi feita com a utilização da versão moderna do “branquinho” para apagar erros, ou pistas… Nosso guru “imagético” Peter Galassi sugeriu trabalhar com um novo fotógrafo, belga tal como Simenon, era um bom sinal. Harry Gruyaert possui um acervo de fotos incríveis, o registro do cotidiano de uma maneira simples, com temas naturais e mais ligados ao clima de Maigret.

Nove meses depois, como num parto, o projeto chegou à configuração aprovada. Para a Penguin já estamos na 13ª capa de Comissário Maigret, por aqui, este mês, fechamos mais duas edições. Eu, que não apreciava tanto o gênero policial, estou totalmente envolvido e surpreso com Simenon.

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Simenon como você nunca leu

Participe do debate “Simenon como você nunca leu” no Rio de Janeiro. Para marcar o lançamento da coleção Georges Simenon, vamos promover um debate entre seu filho, John Simenon, e Tony Bellotto, com mediação de Raphael Montes. A conversa irá abordar a vida e obra do autor e a história da literatura policial.
Quinta-feira, 29 de maio, às 19h
Local: Casa do Saber O Globo – Av. Epitácio Pessoa, 1164 – Rio de Janeiro, RJ

A distribuição de senhas começará meia hora antes do evento.

 

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Alceu Chiesorin Nunes é diretor de arte da Companhia das Letras e responsável pela identidade da coleção Comissário Maigret, de Georges Simenon, publicada no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos.

O caleidoscópio de Zadie Smith

No começo de maio a Companhia das Letras lança NW, de Zadie Smith, obra finalista do National Book Critics Circle Award, um dos dez melhores livros de 2013 segundo o New York Times e livro do ano pelo Wall Street Journal, QG e New Yorker.

Em NW, Zadie segue o passo de quatro londrinos — Nathan, Natalie, Leah e Felix —, conforme eles deixam o bairro de suas infâncias e passam a viver numa cidade tão acolhedora quanto áspera. O título se refere à região North West de Londres, onde se passa a história – mais precisamente no bairro de Kilburn, onde Zadie cresceu. A complexa topografia da Londres moderna é explorada nesse vívido retrato sobre ambição e apatia, mudança e continuidade e, no limite, sobre as barreiras sociais e pessoais e os modos que encontramos para derrubá-las.

Veja acima a animação da capa da edição brasileira de NW, feita por Marcos Kotlhar.

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