Diário de Laurent Binet

Diário de Paraty: 2 de julho de 2013

Por Laurent Binet (Tradução de Rita Mattar)


Rio de Janeiro, circa 1940. Foto por Jean Manzon.

“Não confio nas imagens. Mais do que em qualquer outra parte do mundo, no Brasil o paraíso é uma farsa, uma imagem poética, um clichê gasto.”
Blaise Cendrars (Brésil, Des hommes sont venus, 1952)

Dizem-me para não passear de noite pela praia de Copacabana, para não usar relógio ao sair pelo Rio. Dizem-me que há policiais armados na entrada das favelas. Contam-me de um café onde Tom Jobim e Vinicius de Moraes costumavam se encontrar. Leio que Lula tirou milhões de pessoas da pobreza e ao mesmo tempo contam-me do Posto 9, da segregação social nas praias vizinhas: nada de burguesas brancas no território das crianças pobres, nada de crianças pobres na areia branca das burguesas brancas.

Ouço o eco das grandes manifestações que ressoam na Europa e leio no Le Monde este artigo de um jovem escritor brasileiro desconhecido na França (por pouco tempo, eu espero), Julian Fuks: “Vale dizer que o que queremos não é nada abstrato. Nós queremos a anulação do aumento da tarifa dos transportes, e é possível consegui-lo. Certas pessoas dirão que é pouca coisa, e de fato é, sem dúvida. Mas o vigor que essa pequena vitória dará a nosso corpo, por tanto tempo imobilizado, não representa pouca coisa”.

Vejo a foto de um manifestante que ergue um cartaz com o retrato de Pelé e Ronaldo sob o qual escreveu: “Idiotas”. Leio no panfleto de apresentação da FLIP que há alambiques por toda parte em Paraty. Eu volto ao Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry, aos Tristes trópicos, de Claude Lévi-Strauss, consulto a página de Pedro Álvares Cabral na Wikipedia, assisto a Cidade de Deus em DVD , vejo por acaso Tropa de Elite 2 passando na televisão francesa esta noite, compro um livro de Machado de Assis para ler no avião.

Aceitei o convite da FLIP porque me disseram que Paraty era uma bela cidade portuária do século XVII e que me pagariam uma passagem executiva (duas passagens, na realidade, mas por fim eu vou sozinho, o que é uma pena, pois Ophélie me havia falado tanto sobre o Brasil!, mas de todo modo é sempre uma oportunidade). Sempre dizemos sim pelas razões erradas. Eu passei um longo e caótico mês de junho ocupado em me torturar com questões da vida e dos meus quarenta anos, muito longe de Paraty. Mas agora, a algumas horas da minha partida, enquanto coloco o repelente na mala, sinto-me pronto, quero viajar, eu, que não sou lá um grande viajante, tenho realmente vontade do Brasil.

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Laurent Binet nasceu em Paris, em 1972. Formado em literatura pela Universidade de Paris, é escritor, professor e autor de dois livros de não ficção. HHhH, seu primeiro romance, teve calorosa recepção crítica na França e recebeu, em 2010, o prêmio Goncourt para romances de estreia. Ele está no Brasil como convidado da 11ª Festa Literária de Paraty e participará da mesa “O espelho da história” no sábado.

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