Diário de Mohsin Hamid

Diário da Flip – Dia 4

Por Mohsin Hamid


No sábado, Paraty desperta totalmente. Eu vejo engarrafamentos, festas nas ruas, casais se beijando. Existe música ao vivo em todos os lugares, e telas gigantes da Flip exibem as palestras do festival. Meu jet lag bate e eu caio no sono às 17h. Mas minha esposa me acorda às 20h. E isso é algo bom, logo fica claro, porque, embora ainda não saibamos disso, vamos ficar na rua festejando até quatro da manhã.

Esta noite estamos acompanhados só de brasileiros. Dúzias de brasileiros. E nós: dois paquistaneses. Nós discutimos política, livros de ficção científica, robôs construídos em casa, as diferenças entre São Paulo e Rio, os efeitos da cachaça, a obra cinematográfica de Kevin Costner. Nós não queremos ir para a cama. Mas nós temos que. Então finalmente vamos para casa. Quer dizer: nós vamos para o hotel. Que, percebemos, começamos a chamar de casa.

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Mohsin Hamid nasceu em 1971 em Lahore, no Paquistão. É autor dos romances Moth SmokeO fundamentalista relutante, que deu origem ao longa-metragem dirigido por Mira Nair. Seus livros já foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Tem ensaios e contos publicados pelo New York Times, Guardian, New Yorker e Granta. No Brasil, acaba de lançar Como ficar podre de rico na Ásia emergente, e é um dos autores convidados da Flip 2014.

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Diário da Flip – Dia 3

Por Mohsin Hamid


17h15. Sexta-feira. Minha palestra. Uma multidão se reunia do lado de fora da tenda. Eu já havia esbarrado com algumas das pessoas nas ruas de Paraty nos dias anteriores. Elas acenam para mim ou vêm dizer oi. A Flip é certamente o festival mais amigável do mundo.

Eu entro na tenda com meu colega de palestra, Antonio Prata, e nossa moderadora, Teté Ribeiro. A hora chega. Somos levados até o palco. O evento começa. Antonio é incrivelmente engraçado. Ele segue fazendo a platéia rir, e Teté ri, e eu rio, e até o tradutor de português para inglês ri dentro dos meus fones de ouvido. Em alguns momentos, tudo que consigo ouvir é a tenda toda rindo, meu corpo rindo, meus fones de ouvido rindo. A palestra segue relaxada, calorosa. Como comparecer a um bom jantar com uma centena de amigos felizes. Quando acaba, fico triste por ter terminado.

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Mohsin Hamid nasceu em 1971 em Lahore, no Paquistão. É autor dos romances Moth SmokeO fundamentalista relutante, que deu origem ao longa-metragem dirigido por Mira Nair. Seus livros já foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Tem ensaios e contos publicados pelo New York Times, Guardian, New Yorker e Granta. No Brasil, acaba de lançar Como ficar podre de rico na Ásia emergente, e é um dos autores convidados da Flip 2014.

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Diário da Flip – Dia 2

Por Mohsin Hamid


O festival começou. A atmosfera de um festival é feita das pessoas que o frequentam, e as pessoas daqui são amáveis. Elas são relaxadas, amigáveis, curiosas — e são tantas. Andando pelas ruas de Paraty, vejo rostos que poderiam ser paquistaneses. Essa experiência é igual a atravessar um espelho e se deparar com um reflexo, ao mesmo tempo familiar e magicamente diferente.

São as pequenas coisas — o formato de um sorriso, o som de uma conversa — que me lembram que não estou em casa. Fico feliz de atravessar esse espelho. Satisfeito. Andando sem rumo, vejo um cachorro que poderia ser meu. No entanto, algo, algo sobre esse cachorro é diferente. Eu fico me perguntando, de pé em uma Terra que sei que ainda está girando, o que poderia ser?

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Mohsin Hamid nasceu em 1971 em Lahore, no Paquistão. É autor dos romances Moth SmokeO fundamentalista relutante, que deu origem ao longa-metragem dirigido por Mira Nair. Seus livros já foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Tem ensaios e contos publicados pelo New York Times, Guardian, New Yorker e Granta. No Brasil, acaba de lançar Como ficar podre de rico na Ásia emergente, e é um dos autores convidados da Flip 2014.

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Diário da Flip – Dia 1

Por Mohsin Hamid

Em Lahore, no Paquistão, onde eu vivo, e onde eu acordei cedo na manhã da última terça, tenho plantado árvores. A cidade de Lahore está crescendo rapidamente, e em todo o perímetro de nossa casa eu tenho plantado árvores para mantê-la afastada. Então eu tenho pensado em árvores ultimamente. Graças a alguma mágica do transporte aéreo eu acabei de cruzar o Golfo Pérsico, a Península Arábica, o Mar Vermelho, a África e o Oceano Atlântico do Sul, chegando no Brasil. Eu comecei a viagem terça. Quando eu cheguei, aparentemente ainda era terça. A aeronave quase manteve o ritmo do sol. Minha esposa e eu dirigimos do Rio até Paraty. Nós dormimos. Nós exploramos essa bela cidade. E então nós achamos essa árvore perto do porto, essa árvore, antiga, coberta de musgo, sussurrando as histórias de séculos pela brisa do oceano.

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Mohsin Hamid nasceu em 1971 em Lahore, no Paquistão. É autor dos romances Moth Smoke e O fundamentalista relutante, que deu origem ao longa-metragem dirigido por Mira Nair. Seus livros já foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Tem ensaios e contos publicados pelo New York Times, Guardian, New Yorker e Granta. No Brasil, acaba de lançar Como ficar podre de rico na Ásia emergente, e é um dos autores convidados da Flip 2014.

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