Flipinha

E para terminar…

Por Mell Brites

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Fotos: Antonio Castro e Mell Brites

Dia 5

Já de volta a São Paulo e ainda agitada — mas feliz — com a quantidade de informações e experiências que absorvi nesses dias de Flipinha, concluí que um bom jeito de encerrar este diário seria com o depoimento de Antonio, da equipe da Companhia das Letrinhas, sobre a sua ida a uma escola municipal ao lado da autora Patricia Auerbach, e com um relato sobre a estreia na festa literária de Adriana Carranca, que escreveu o nosso já best-seller Malala, a menina que queria ir para a escola. Vamos nessa, então, e deixo aqui um obrigada a todos que leram, comentaram e se animaram com os textos!

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No segundo dia de atividades da Flip, acompanhei a escritora Patricia Auerbach em uma atividade que, embora aconteça nos “bastidores” da festa, é motivo de muitas alegrias, risadas e encontros pelos arredores de Paraty. A chamada Operação Flipinha escala autores infantis das mais variadas editoras e os leva até escolas — todas elas públicas e muitas localizadas na periferia da região — para falar um pouco dos seus livros que foram trabalhados na sala de aula com os pequenos. Quando Patricia chegou à Escola Municipal Pingo de Gente, com uma bolsa grande e colorida nas costas, as crianças nem desconfiavam do que estava prestes a acontecer — algumas a olhavam meio de lado, outras pareciam nem notar a presença da autora de Histórias de antigamente e Pequena grande Tina, sendo que este último título, a história de uma menina que quer muito crescer, acabara de ser lido por elas.

O espaço da escola era pequeno, alguns pais de alunos dividiam cadeiras e por alguns minutos pensei se tudo correria bem. Porém, a plateia (cuja faixa etária ia de 4 a 6 anos) que estava sentada sob o sol da manhã paratiense, olhando para Patricia, logo mostrou ao que veio. As crianças tentavam a todo custo chamar a atenção da autora: algumas queriam lhe contar de um primo ou amigo que também mora em São Paulo, outras iam até ela e a cutucavam para falar como se chamavam. Mas essa ansiedade inicial passou rápido, não só porque Patricia sabia muito bem com quem estava lidando, mas, principalmente, por confiar no poder que as suas “histórias de antigamente” possuíam. Primeiro ela fez uma pergunta: “quem aqui gosta de sorvete?”, e, depois, começou a contar do seu avô que, quando menino, não tinha geladeira em casa — o que fez muitos dos pequenos ouvintes arregalarem os olhos, abrirem a boca e ouvirem as palavras de Patricia quase sem piscar.

Ver aquilo tudo acontecendo não me deixava só com saudades de ser criança, mas também me fazia entender o que a literatura e as histórias são capazes de fazer, não importa a idade do leitor. O auge do dia foi quando Patricia abriu sua bolsa e tirou a boneca Tina lá de dentro. A plateia foi à loucura: as crianças se aproximaram das duas, querendo ouvir tudo que Tina e Patricia tinham para falar. Não importava que a boneca não era uma menina de verdade — eles haviam lido sobre ela, fizeram seu desenho, conversaram sobre a sua história. Como ela, todos também queriam crescer e alcançar a pia do banheiro ou a gaveta mais alta do guarda-roupas.

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Pode ser presunçoso afirmar, mas senti que cada um daqueles pequenos leitores estava experimentando pela primeira vez o sentimento de empatia para com a personagem de um livro. Depois que saímos da escola — não antes de Patricia autografar muitos livros, tirar fotos, marcar sua altura na parede da escola e responder várias vezes um aluno que queria saber quando seria o recreio —, pensei sobre tudo aquilo que acabara de acontecer: não são muitas as vezes que, enquanto alunos, vemos personagens tomarem vida pelas mãos dos seus próprios autores, e é exatamente para isso que a Operação Flipinha se presta. E foi aí que percebi que a Flipinha não é (e nem tem que ser) negócio de gente grande, não. Mas, por isso mesmo, ela é das coisas mais sérias e incríveis que acontecem nas ruas de Paraty.

Antonio Castro, da equipe editorial da Companhia das Letrinhas.

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Adriana Carranca na Flipinha

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Como autora convidada da festa, a jornalista e escritora participou da programação oficial. Foi à Tenda da Biblioteca conversar com as crianças, a escolas que participam do projeto Operação Flipinha e falou sobre novas mídias no Espaço Itaú Cultural de Literatura, ao lado de Angela-Lago e Marcelo Rubens Paiva.

Na tenda, Adriana contou sobre sua viagem ao Vale do Swat, na conturbada fronteira do Paquistão com o Afeganistão, onde esteve para conhecer a infância da paquistanesa Malala Yousafzai, a mais jovem ganhadora do Nobel da Paz. Usando como exemplo a trajetória de Malala, Adriana falou do amor aos livros e do poder transformador da educação. Também relatou um pouco do seu trabalho como jornalista em áreas afetadas por crises humanitárias e guerras, e não deixou de chamar a atenção de todos sobre a importância de contar histórias reais às crianças, numa época em que elas estão cada vez mais conectadas com o mundo e têm mais acesso à informação. No final de sua participação, Adriana mostrou alguns tipos de véu usados no mundo muçulmano, e foi então que uma das crianças, a Lorena, quis vestir a burca. A autora perguntou à menina: “Quem está dentro da burca?”. Quando veio a resposta de que era ela própria, Adriana completou: “Viu? Continua sendo a Lorena! Embaixo do véu, das roupas, dos costumes e tradições de um povo, existem pessoas. Pessoas com desejos e direitos iguais aos nossos”.

Na Escola Municipal Cilencia Rubem de Oliveira Mello, a autora se emocionou ao ser recebida com cartazes com frases de Malala e palavras em árabe e pashtun, os idiomas falados pela personagem, além de desenhos lindos feitos pelos alunos e inspirados nos de Bruna Assis Brasil, ilustradora do livro de Adriana. Ela disse que uma das experiências mais legais foi conhecer Victor, um menino de dez anos, que adaptou o texto de Malala, a menina que queria ir para a escola para a história de uma personagem brasileira. “Malala poderia ser qualquer criança brasileira, nascida em uma área isolada, carente de escolas, ou em uma comunidade onde a violência impede tantas meninas e meninos de estudar. Foi muito interessante ver que o Victor fez esse paralelo.” Outro momento emocionante para ela foi quando os alunos apresentaram uma peça de teatro baseada em seu livro: “É uma emoção para o autor ver seu texto interpretado pelos leitores”.

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Na segunda escola que conheceu, a EM Professora Pequenina Calixto, os alunos haviam espalhado frases do livro pelas salas e receberam a autora no espaço da biblioteca com uma apresentação de música, feita por três adolescentes que tocaram flauta e saxofone. No final, eles fizeram uma entrevista com a autora. Já na Escola Comunitária Cirandas, ela respondeu a perguntas de alunos de todas as idades e conheceu Kaia e Jasmin, que escrevem e ilustram livros juntas e já têm cerca de dez prontos. “É inspirador ver as crianças lendo, escrevendo e criando novas histórias. Isso nos motiva a continuar”, concluiu a escritora.

E depois de tantas experiências em tão pouco tempo, perguntei à Adriana o que, para ela, ficava da Flipinha: “Uma das coisas mais ricas das festas literárias é o encontro com outros autores e a troca de ideias. Este ano, pude conhecer mais sobre o trabalho de escritores de livros infantis como Patricia Auerbach, Blandina Franco, José Carlos Lollo, Odilon Moraes, Angela-Lago e as histórias encantadoras de todos eles. É um momento de renovar as energias. A certeza que fica é a de que a única coisa a fazer agora é escrever, escrever, escrever…”

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Bem, essa me parece uma boa notícia: logo o próximo livro da autora de Malala, a menina que queria ir à escola sai do forno. Não podíamos terminar de maneira melhor!

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Livros e barcos

Por Mell Brites

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Dia 4

Paulo Irini, garoto de 21 anos, foi morto pela polícia de Paraty há aproximadamente seis meses. Ele estava dirigindo e dava carona para um suposto procurado da polícia quando seu carro foi atingido por 47 tiros. Paulo em breve seria pai. Quem me contou isso foi Gibrail, de dentro de um barco, enquanto assessorava as crianças na praia do Pontal que participavam da Regata da Flipinha. Esse era um exemplo, na opinião do comandante e vice-presidente do Instituto Náutico de Paraty, do quão violenta era a cidade e de como o ensino de vela fazia diferença no desenvolvimento da região.

O instituto surgiu há dezesseis anos e atende crianças de oito a dezessete anos gratuitamente, tanto de escolas particulares quanto públicas. As aulas acontecem três vezes por semana e com frequência os alunos participam de competições — como essa a que assisti hoje, já tradicional na festa literária, em sua décima primeira edição.

Depois das instruções do Gibrail — “todo mundo está de colete?”, “e a caneca pra tirar água do barco, está a postos?” –, o apito soou e aproximadamente vinte meninos foram para a água. Do bote onde eu conversava com o instrutor, via os barcos de tamanho e formato próprios para criança ziguezagueando, e, dentro deles, navegantes compenetrados. Entre uma resposta e outra, o comandante interrompia o papo comigo e gritava: “Arriba mais!”, “Isso aí, Artur!”, “A espicha tá frouxa, deixa eu ver se você aprendeu!”. E em seguida voltava ao assunto: “quem entra no projeto do instituto sai daqui outra pessoa. Não se envolve com coisa errada e o mais importante é que começa a trabalhar pro mercado náutico. Tem muita demanda por mão de obra qualificada e quem sai daqui já sai na frente”.

Quando perguntei sobre a relação entre a regata da Flipinha com o resto do festival (pois não me parecia óbvia a presença de um campeonato de vela num festival de literatura), Gibrail disse que Liz Calder, mentora da Flip, foi a primeira apoiadora do Instituto Náutico, numa época em que não se contava com nenhum tipo de patrocínio, e foi ela quem doou o barco que inaugurou o projeto. Além disso, ele contou que nos primeiros anos da festa havia uma gincana entre as escolas da cidade e uma das modalidades era o barco a vela, que depois acabou ficando muito popular e ocupou todo o espaço da competição.

Mas o que de fato respondeu à minha questão, que no fundo dizia respeito ao vínculo entre o esporte e a literatura naquele contexto, foi uma frase dita à toa pelo comandante quando, uma hora depois da largada, já voltávamos para o píer. “Isso aqui é uma delícia, uma criança dessa idade ter a liberdade de navegar assim…” A palavra liberdade, ali, me chamou a atenção. Não me parecia que Gibrail se referia só à sensação que temos ao navegar, mas também — e principalmente — à liberdade que conquistamos quando aprendemos algo e passamos a ter domínio completo disso. Passamos a ser donos daquele objeto e assim ganhamos poder de escolha. Nesse caso, então, a liberdade parecia intimamente ligada à cidadania — e essa, depois dos quatro dias de festa, talvez tenha se tornado a palavra-chave da minha experiência aqui. Livros e barcos, na Flipinha, oferecem às crianças a possibilidade de conhecer espaços novos e diversificados para que, num futuro próximo, encontrem o seu próprio, conscientes da escolha que fizeram. Assim quem sabe, como consequência, teremos mais para frente menos casos como o de Paulo Irini, que passou a levar o nome do troféu da regata de fim de ano de Paraty e se tornou um alerta para os moradores da região de que as coisas precisam mudar — e rápido.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Com a palavra, as crianças

Por Mell Brites

Dia 3

A proposta do meu relato de hoje era um pouco diferente. Me juntei aos autores do Pum, Blandina Franco e José Carlos Lollo, de quem já falei aqui, para fazer uma oficina de escrita com as crianças na Tenda da Biblioteca da Flipinha. A ideia parecia ótima: passar o bastão a elas para que escrevessem sobre suas experiências na festa, e depois publicaríamos tudo aqui, neste blog. Então hoje, às dez da manhã, começamos tentando: “Que tal vocês serem os jornalistas e falarem sobre o que mais gostaram de tudo que participaram?” Silêncio. “Vocês não querem que a gente coloque na internet tudo que fizermos aqui?” Silêncio. “E se em vez de escrever vocês desenharem?” Silêncio. É claro — naquela hora me dei conta — que não seria tão fácil. Depois de tantas horas mergulhadas em livros, peças de teatro, shows de música e todos os outros convites à imaginação, por que elas topariam voltar à realidade? Ali ficou evidente que falar do que tinha sido legal, do que tinha sido chato e narrar as atividades experimentadas até então parecia mais uma lição de casa.

Bem, só mesmo a criatividade de dois autores experientes seria capaz de reverter o jogo. Foi o Lollo quem disse: por que então não inventamos uma história todos juntos? Depois de um ou outro olhar de dúvida, para o nosso alívio a ideia foi acatada, e o resultado vocês podem ver logo abaixo. Com a palavra, as crianças:

Era uma vez um grupo de crianças em Paraty que estava brincando de esconde-esconde e lendo.

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Elas estavam em uma praça em um dia de sol.

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As que que estavam se escondendo encontraram, atrás de uma moita, um templo antigo com um livro mágico onde tudo que era escrito ali virava realidade.

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A primeira criança desenhou um guardião mutante. A segunda, uma coroa. A terceira, um dinossauro. Uma girafa de pescoço torto, um menino de cabelo preto, uma sereia cabeluda, um avião, um urso gigante guardião, um porco e um tubarão.

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As crianças fugiram das criaturas que não paravam de aparecer, mas quando chegaram na praça da Matriz perceberam que todos esses personagens que estavam pulando do livro mágico na verdade eram os personagens dos livros que elas tinham lido na Flip. Todos eles saíam dos livros e entravam direto na sua imaginação. Como qualquer personagem de qualquer livro.

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FIM

Autores da história e das ilustrações: Luiz Arthur, Sofia, Lívia, Gabriela, Silvia, Gael, Mateu, Maria Fernanda, Renato, Mell, Blandina e Lollo.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Você é dono do livro

Por Mell Brites

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Fotos: Mell Brites

Dia 2

Algumas semanas antes do início da Festa Literária Internacional de Paraty, os autores convidados da Flipinha foram desafiados: cada um deles teria que bolar uma história, uma música ou qualquer outra forma de expressão, a partir do título, e só do título, de um livro escrito por outro colega também participante do evento. E foi hoje, na abertura da Ciranda dos Autores, na Casa da Cultura Câmara Torres, que veio à luz o resultado do troca-troca. Lá estavam todos os escritores reunidos e a plateia lotada de crianças, professores e interessados em geral, para comentar suas criações e as dos colegas.

Assistimos assim a O caderno de rimas de João, de Lázaro Ramos, se transformando numa história sem rimas, à canção Número, do Palavra Cantada, tomando a forma de uma ilustração em aquarela, ao Jornal, de Patricia Auerbach, virando um vídeo musicado, ao Quem soltou o Pum?, de Blandina Franco e Lollo, se tornando “um conto cumulativo pra fora”, como definiu Celso Sisto, e ao Metade cara, metade máscara, de Eliane Potiguara, se metamorfoseando, nas mãos de Angela-Lago, no seguinte poema:

Metade,

Cara metade,

Máscara

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Se ontem dissemos aqui que todo mundo pode ser escritor, hoje de manhã a mensagem parece ter ganhado um tamanho maior: além de sermos escritores, é possível interferir na obra do outro e se apropriar dela do jeito que bem entendermos. Afinal, como disse Ana Luísa Lacombe, “a imaginação nunca se esgota” e, como completou Lázaro, “tudo que você quiser encontrar no livro você encontra. Você é dono do livro, use como quiser”.

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E foi com esse espírito que, mais tarde, ainda na Casa da Cultura, Angela-Lago e Lázaro Ramos chegaram ao palco com os crachás trocados. Os dois apresentaram sua obra e, como não podia deixar de ser num evento para crianças, falaram sobre o começo do trabalho como autores de livros infantis. Lázaro, com três já publicados, disse que o que o incentivou a fazer o primeiro foram suas lembranças da casa onde vivia quando pequeno e principalmente do quintal onde passava horas a fio observando o mundo. “O primeiro livro que escrevi foi para a criança que fui. O terceiro, para o adulto que eu quero que o meu filho seja.” Já Angela-Lago lembrou que fez o seu primeiro poema aos sete anos de idade — e depois nunca mais parou. Ela emendou dizendo: “E qualquer livro ensina alguma coisa. Antes de escritores, somos cidadãos. A gente ensina, qualquer livro abre alguma porta, nem que seja a porta do encantamento estético”.

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Pois às 14 horas, na Tenda da Biblioteca da Flipinha, assisti justamente a um completo encantamento de um grande grupo de crianças ao encontrar Blandina Franco, José Carlos Lollo, criadores do Pum, e Patricia Auerbach, autora de Pequena Grande Tina e Histórias de antigamente. Enquanto Patricia relembrava episódios da infância, Lollo as desenhava para a plateia — contando, é claro, com os palpites do público animado. Mais do que encantada com aquela narrativa visual que se criava ali, ao vivo e a cores, a plateia parecia ser uma velha conhecida dos personagens mencionados — quem nunca ouviu falar do cachorro Pum? –, esbanjando propriedade ao fazer sugestões. Com aquele grupo alegre e barulhento, não havia dúvidas de que todos já sabiam há tempos daquilo que Lázaro tinha dito algumas horas antes: “Você é dono do livro”. O aprendizado de hoje, então, foi para os autores — e não para as crianças.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Deste lado do mundo

Por Mell Brites

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Fotos: Mell Brites

Dia 1

Cheguei em Paraty um pouco atrasada para ouvir Yasmin falar. Mas a cidade ainda vazia me permitiu chegar à tenda da biblioteca da Flipinha antes de a conversa começar. Um grupo de aproximadamente quinze crianças, todas do ensino público, a aguardavam lendo os livros expostos nas prateleiras ao redor.

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Alguns minutos depois, quando a convidada de onze anos apareceu sem alarde e pegou no microfone, quem conheci foi uma menina bastante tímida que, com o olhar baixo, começou imediatamente a ler seu próprio livro torcendo, assim me pareceu, para que aquilo acabasse o mais rápido possível. Filha de pai russo, muçulmano, e mãe brasileira e católica, Yasmin Ziganshin autopublicou, em dezembro de 2015, Do outro lado do mundo, em que fala sobre a sua origem multicultural.

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Ela conta que nasceu em Tóquio, onde seus pais se conheceram, em 2002, quando trabalhavam na cidade, e que até chegar ao Brasil, com três anos de idade, não sabia falar nenhum idioma. Diz que sua família tem várias nacionalidades, idiomas e religiões — e que é assim que o mundo deveria ser, misturado e tolerante. Às perguntas do público mirim, respondeu sempre com poucas palavras:

“Como você teve a ideia de fazer o livro?”

“Minhas amigas me perguntavam muito sobre a minha história e resolvi escrever pra contar.”

“Você é mais católica ou mais muçulmana?”

“Mais católica.”

“Quanto tempo você demorou para escrever?”

“Uns meses.”

Depois, em conversa reservada, me disse querer ser arquiteta, não ter vontade de virar escritora, gostar de andar de bicicleta — aprendeu a andar sem rodinhas no ano passado — e de brincar com as amigas. Apesar da mudança em sua vida desde o ano passado, quando o livro foi lançado para download pela Amazon e atingiu rapidamente os três mil acessos, da sua participação em programas de TV e das entrevistas que vem dando a jornais da grande imprensa, Yasmin tem o comportamento e as ambições de uma criança na pré-adolescência. Quando perguntei à sua mãe como seriam os próximos dias de festival, ouvi: “ela volta para o Rio amanhã, não pode faltar na escola.”

Foi aí que entendi que talvez o grande êxito de Yasmin não tenha sido a publicação de um livro aos dez anos, nem mesmo a sua interessante história de vida, que, pensando bem, tanto se aproxima da de muitos brasileiros. O recado que parecia vir junto à figura daquela garota tímida e simpática era o mesmo que apareceu algumas vezes na voz da bibliotecária que coordenava a atividade: “viu, pessoal, todo mundo pode ser escritor”. Seja as suas amigas que vieram do Rio como acompanhantes, seja a plateia curiosa que a ouvia atenta, todo mundo tem uma boa história para contar. Adulto ou criança, deste ou do outro lado do mundo.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

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