FLIP

Svetlana Aleksiévitch na Flip 2016

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Vencedora do Nobel de Literatura em 2015, a jornalista bielorussa Svetlana Aleksiévitch foi confirmada hoje como convidada da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre os dias 29 de junho e 3 de julho.

Um dos principais livros de Svetlana, Vozes de Tchernóbil, será lançado no Brasil no próximo mês, quando o acidente nuclear completa 20 anos. No livro, Svetlana constrói uma grande reportagem jornalística mostrando as consequências da tragédia por meio das vozes de pessoas que vivenciaram o seu potencial de destruição.

Outro título da escritora que chega às livrarias brasileiras é “A guerra não tem rosto de mulher”, sobre mulheres que participaram da Segunda Guerra Mundial. O livro será lançado durante a Flip.

Ana Cristina Cesar será a próxima homenageada da Flip

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Os fãs de poesia podem comemorar: Ana Cristina Cesar será a próxima autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty. Uma das vozes mais proeminentes da poesia marginal dos anos 1970, sua obra influenciou diversos autores da atualidade, como Ana Martins Marques, Bruna Beber e Angélica Freitas. Paulo Werneck, curador da Flip, justificou a escolha dizendo que “a obra de Ana C. é densa, pulsante, e conquista leitores em todas as partes do mundo. A homenagem vai poder iluminar áreas menos conhecidas de sua obra e desfazer alguns lugares-comuns a respeito de sua vida”.

Ana C., que se suicidou aos 31 anos de idade, deixou aos leitores os livros Cenas de abrilCorrespondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos Antigos e soltos, todos reunidos no volume Poéticalançado em 2013 pela Companhia das Letras, que também inclui uma sessão com poemas inéditos.

Na época do lançamento, convidamos vários autores que são também leitores de Ana C. para prestar uma homenagem a poeta. Julia de Souza, autora de Covil, escreveu: “Eu não sabia muito bem explicar o meu fascínio pelos poemas da Ana, que se confundia um pouco com um fascínio pela sua vida. Pois há uma armadilha, agora percebo, que é essencial na obra dela. Ana nos envolve numa teia em sua escrita cheia de dêiticos: ‘eu’, ‘você’, ‘aqui’, ‘agora’, ‘este poema’. A um só passo, essas palavras têm o poder de deslocar infinitamente o poema para o momento presente; de implicar o leitor no poema, que tantas vezes é, aqui, invocado como interlocutor (‘É para você que escrevo, hipócrita’). E, last but not least, de criar a ilusão de uma escrita espontânea, confessional, em que os limites entre literatura e vida são porosos.”

Ana Martins Marques, que acaba de lançar O livro das semelhanças, também deu seu depoimento sobre a relação com a poesia de Ana C.: “Sempre saí da leitura dos poemas da Ana me perguntando menos sobre aquela que no texto diz ‘eu’ do que sobre aquele/aquela em que me via transformada pela força dessa interpelação. Aprendia aí alguma coisa sobre a poesia, alguma coisa que tem a ver com destinação, desejo e drama.”

A Flip 2016 vai acontecer entre 29 de junho e 3 de julho, na cidade de Paraty. Veja a seguir algumas leituras feitas em homenagem a Ana Cristina Cesar.

Minha vida sob escolta armada

Por Roberto Saviano (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

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Foto publicada no perfil oficial de Roberto Saviano no Instagram.

Roberto Saviano cancelou sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty dois dias antes do início do evento. Sua equipe de segurança não permitiu que o jornalista e autor dos livros Gomorra Zero zero zero viesse ao Brasil, onde falaria sobre o narcotráfico, tema de seu último livro. Desde 2006, ele vive sob a guarda das autoridades italianas depois de ser ameaçado de morte pela máfia por conta da publicação do relato em que expõe detalhes sobre a camorra. No início do ano, Saviano publicou no The Guardian um artigo falando justamente sobre como é viver cercado de guardas e mudando de endereço constantemente. Leia, abaixo, um trecho deste texto sobre o antes e o depois de Gomorra. 

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Minha vida, antes e depois

Antes. Percorrendo incansavelmente os subúrbios até apanhar uma história no ar, daí, uma corrida frenética atravessando a cidade em minha Vespa para chegar primeiro à cena do crime e ver o corpo antes dele ser movido. Para chegar lá antes da família, com seus terríveis lamentos cortantes e angustiados. Dirijo minha Vespa das cenas de crime para os tribunais e as prisões. Eu estava cobrindo a batalha pelo domínio entre os chefes do clã Di Lauro em Secondigliano, e um grupo dissidente conhecido como os espanhóis, porque o líder havia mudado o centro de suas operações para a Espanha, onde vivia na clandestinidade. Era como ser um repórter de guerra: dois ou três assassinatos por dia, ataques incendiários — bombas incendiárias arremessadas às casas das pessoas. Era incrível que algo assim pudesse estar acontecendo no meio da Europa.

Depois. Viver com guarda-costas mudou tudo; é tão complicado tentar trabalhar com uma escolta armada a reboque. Se estou na Itália, tenho que decidir o que vou fazer com três dias de antecedência. Eu vivo nesse lapso temporal de três dias permanentemente, de modo que sempre sinto que estou atrasado para tudo. Seja lá o que eu queira fazer, eu tenho que deixar os guarda-costas saberem, e eles decidem o melhor modo de fazê-lo.

Se eu quiser viajar para o exterior, eu tenho que informar ao departamento de segurança do governo, com semanas, ou até meses de antecedência, exatamente para onde estou indo e como será minha agenda. Onde me hospedarei, os lugares que irei visitar, as pessoas com quem me encontrarei. Então eu tenho que esperar a permissão para viajar — para descobrir se o país que eu quero visitar me considera bem-vindo. Lá chegando, leva alguns dias para estabelecer um relacionamento com a escolta da polícia local. No início, há a sensação de que eu sou um inconveniente, uma carga, um problema administrativo, especialmente quando há um evento público.

Eu não confio mais em ninguém. Temo me afeiçoar a alguém e baixar a minha guarda. Estou sempre à espera que as pessoas me decepcionem. É a paranoia tradicional do prisioneiro.

Há novos amigos, novos lugares, novas rotinas, mas há também um novo Roberto Saviano. As circunstâncias o modificaram; ele é diferente da pessoa que era antes, e dos amigos que tinha então. Provavelmente, uma pessoa pior. Mais retraído, afastado, porque constantemente sob ataque. E mais focado em si mesmo, porque se tornou um símbolo.

Eu realizei o sonho de todo escritor, o sonho que a maioria dos meus colegas não ousa sequer imaginar. Um best-seller internacional. Um público enorme. Mas todo o resto se foi: a chance de uma vida normal, a chance de um relacionamento normal. Minha vida foi envenenada. Eu estou sufocado por mentiras, acusações, difamação, uma porcaria incessante. No final, você fica marcado por isso.

Desde 2006, minha vida tem sido uma busca contínua de algum lugar para morar, um lugar para escrever. Tenho vivido em tantas casas, em tantos quartos diferentes. Não morei em qualquer lugar por mais do que alguns meses durante todo esse tempo. Quartos pequenos, todos eles, alguns minúsculos. E nenhum deles menos que escuro. Eu teria gostado de um quarto maior, um aposento mais iluminado. Eu teria adorado uma varanda, um terraço: eu tenho ansiado por um terraço como antes eu ansiava pela oportunidade de viajar. Mas eu não podia dar palpite, eu não podia tomar uma decisão sobre lugar em que eu moraria. Eu não podia sair por aí procurando casas: dois carros à prova de balas e sete guarda-costas não facilitam as coisas quando se quer passar despercebido. Assim que eu finalmente encontrava algum lugar para morar, assim que as pessoas descobriam onde eu estava vivendo, em que rua, em qual número, era hora de me mudar.

Em Nápoles, era impossível encontrar uma casa. Os carabinieri que eram meus guarda-costas tentaram me ajudar a encontrar um lugar para alugar, por meio de seus contatos. Fácil o bastante, até que a locatária descobriu que era para mim. Assim que me vêem, sai algo do tipo: “Eu não posso, me desculpe, eu tenho filhos”, ou “Eu não posso, acabei de alugar para outra pessoa.” E lá fui eu de volta para o quartel. Eu ainda estou procurando um lugar só para mim.

Enquanto isso, moro nesses espaços monásticos, despojados de tudo, cada movimento controlado.

Como bagagem: um saco para meias, camisetas e calças. Um para camisas e jaquetas. Um com medicamentos, escova de dentes, pasta de dentes e carregadores de celular. Um saco para livros, jornais. E o laptop. É isso aí. Essa é minha casa.

Muito do que tenho escrito nos últimos anos, este artigo incluso, o fiz em quartos de hotel. Esses impessoais e idênticos hotéis, que eu passei a odiar. Esses quartos de hotel são escuros, com janelas que você não pode abrir. Tenho visitado países — às vezes, lugares aos quais eu sempre desejei ir  —, e tudo o que vejo é o interior de um quarto de hotel e o horizonte de uma cidade através do vidro escuro de um carro à prova de balas. A maioria dos países não se atreve a me deixar sair para uma caminhada curta, nem mesmo com os guardas armados que deslocaram para cuidar de mim. Eles geralmente me mudam para um novo hotel após uma noite. Quanto mais aparentemente civilizado, calmo e pacífico um lugar, quanto mais longe da máfia e quanto mais seguro eu me sinto lá, mais eles me tratam como uma bomba não detonada que poderia explodir na cara deles a qualquer momento.

Na Itália, particularmente em Nápoles, costumo pernoitar no quartel dos carabinieri, com o cheiro da graxa da bota de meus companheiros de quarto; o comentário barulhento do jogo de futebol na TV, os gemidos quando eles são chamados de volta ao trabalho, ou quando a equipe adversária faz gol; sábado e domingo, dias mortos. Dias passados ​​na barriga vazia de uma baleia. Você pode ouvir os gritos do lado de fora, você pode sentir as pessoas se movendo ao redor, você sabe que está um dia ensolarado, que o verão já começou. Eu me lembro que no começo da minha vida à prova de balas, acordei uma noite no quartel, no escuro, sem reconhecer nada. Eu não tinha ideia de onde eu estava. Desde então, a mesma coisa aconteceu muitas vezes, eu acordo no começo da noite e não sei onde estou. A última vez que estive em Nápoles, fiquei em um quartel que costumava ser um mosteiro. Ele tem um terraço, e dá pra ver o mar de lá de cima. Eu consegui assistir o amanhecer sobre a baía mais bonita do mundo.

Muitas vezes me perguntam se eu me arrependo de ter escrito Gomorra. Normalmente, eu tento dizer a coisa certa. Eu digo: “Como um homem, sim, como um escritor, não”. Mas essa não é a resposta honesta. Na maior parte do tempo em que estou acordado, eu odeio Gomorra. Eu desprezo esse livro. No início, quando eu dizia aos jornalistas que se eu soubesse o que estava vindo eu nunca teria escrito o livro, seus rostos despencavam. Se era a última pergunta na entrevista, eu ia embora com um gosto ruim na boca, sentindo como se eu não tivesse nem começado. Eu percebi que devia ter dito, claro, que faria tudo de novo amanhã. Que eu sacrificaria tudo, tudo de novo. Mas tanto tempo se passou que agora eu sinto que fiz jus ao direito de partilhar os meus arrependimentos, e admitir que sinto falta do tempo em que eu era um homem livre. O que quer que eu tenha planejado para a minha vida, o fato é que eu escrevi Gomorra, e pago por isso todos os dias.

Leia o artigo completo em inglês.

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Roberto Saviano nasceu em Nápoles, em 1979. É autor, entre outros, de Gomorra (Bertrand Brasil, 2008), que foi traduzido em mais de quarenta países, ultrapassou 10 milhões de exemplares vendidos e originou o filme de mesmo nome, vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes em 2008, e de A máquina da lama (Companhia das Letras, 2011). Jurado de morte pela máfia italiana depois da publicação de Gomorra, Saviano seguiu firme em seu propósito de revelar as articulações do crime com a economia formal, escrevendo em jornais como La Repubblica, The New York Times, El País eDie Zeit. Em 2014, publicou Zero zero zero, onde mapeia o tráfico internacional da cocaína e mostra quem são seus personagens e suas conexões com a economia formal e o mercado financeiro.

Amigos escritos

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Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade se conheceram em Belo Horizonte no distante abril de 1924, durante a expedição dos modernistas que Mário, junto com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, o escritor suíço Blaise Cendrars e outros, empreendeu pelas cidades históricas de Minas. Àquela altura o poeta paulista era uma figura de proa da cultura brasileira, enquanto o itabirano ainda não havia publicado seu primeiro livro —  Alguma poesia só iria sair em 1930. A correspondência entre os dois poetas tomaria corpo pelos vinte anos seguintes, até às vésperas da morte de Mário, em 1945, e as suas cartas foram reunidas e anotadas pelo próprio Drummond no início da década de 1980 em A lição do amigo, que agora reeditamos como um tributo ao autor homenageado da edição da FLIP, que começa amanhã.

Pois A lição do amigo é um desses livros aparentemente singelos que, na verdade, encerram uma série de leituras: o relevo dos afetos na constituição de um cenário cultural, a relação entre dois artistas decisivos de nosso país e o processo de amadurecimento de um jovem poeta que, como saberíamos mais tarde, seria um dos mais importantes nomes da lírica de língua portuguesa. Além disso é uma deliciosa viagem por um tempo de livros e delicadezas.

Leia a seguir trechos selecionados da carta que Mário de Andrade enviou quando Drummond publicou Alguma poesia, já percebendo a importância e o enorme poder de permanência desse livro que, oitenta e cinco anos depois de sua publicação, continua um dos mais importantes da nossa lírica.

“A primeira vitória do seu livro e a decisiva, que assegura o valor extraordinário e permanente dele e da sua poesia, é não dar a impressão de passadismo. Me explico. O que eu mais temia, diante da evolução rapidíssima da poética no século XX, é que os poemas de você, muitos antigos e refletindo processos de cinco, seis anos atrás ou mais, e já abandonados, produzissem mau efeito reunidos em volume. Dessem a impressão de adesismo retardatário ou de carneirismo a certos assuntos poéticos que os moços de todo o Brasil se encarregaram de vulgarizar ao excesso, abastardar com a precariedade dos jovens de vinte anos e ficaram reduzidos a pó de traque. Assuntos como recordações de infância, descrições rápidas haicaizadas, a temática nacional, paisagismo sensacionalístico etc. são assuntos já revelhos na poesia modernista e de todos você usa. Compreende-se: o perigo era enorme. (…) Ora, o que me surpreendeu mais foi a integralidade segura, bem macha, com que seus poemas reunidos e em tipografia vencem os perigos que atravessavam. É inútil a gente datar de cinco anos atrás um poema como “Infância” pra que ele readquira o valor qualitativo. Podia ser datado de 1o de julho de 1930. Vence da mesma forma pela quantidade das anotações sensíveis e pela qualidade do todo. Não fazia mal ser de adesão a um assunto rebatido, porque era melhor que os outros sobre o assunto. Seu livro é de hoje, de ontem e de amanhã. Não tem valor episódico. Vale pela força intensíssima do lirismo de você, pela originalidade dele dentro do assunto mais batido. É a melhor vitória dele e de você: livro que ficará entre os melhores do lirismo brasileiro.

(Araraquara, lo de julho de 1930)”

Chegando no Brasil

Por Ngũgĩ wa Thiong’o 

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Nunca estive no Brasil, mas, mesmo assim, tenho a sensação de já conhecer o país e o seu povo. Talvez em razão de sua história. Muitos brasileiros negros são descendentes de Angola e do Congo. E é muito comum se referirem ao afro-brasilianismo nos mesmos termos com que se referem ao indigenismo haitiano, ao afrocubanismo e ao renascimento do Harlem como as raízes da (movimento literário) Negritude, capitaneados por Aimé Césaire e Sédar Senghor.

No meu caso, é bem possível que esteja também relacionado com meu filho Bjorn, de origem queniana e sueca. Ele esteve no Rio de Janeiro por duas vezes trabalhando com jovens da periferia. Fala o português com fluência e se recorda de sua experiência na cidade com afeto.

É também provável que esteja relacionado com meus encontros com os romances de Jorge Amado: Terras do sem-fim e Gabriela, cravo e canela. O livro parece exalar o cheiro, a terra e o verde exuberante que brota do solo, em especial na Bahia.

Com relação à FLIP, minha expectativa é não apenas conhecer novos escritores, mas também sentir o aroma da terra e o sabor da vida, tão bem capturados pelos romances de Jorge Amado.

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Leia a seguir um trecho da introdução de Simon Gikandi para Um grão de trigo, primeiro livro de Ngũgĩ wa Thiong’o publicado no Brasil que será lançado no dia 30 de junho.

O status de Um grão de trigo como um clássico da literatura africana jamais foi posto em dúvida. Publicado em 1967, no meio da primeira década da independência do Quênia, era o terceiro romance de Ngũgĩ e um forte sinal de seu amadurecimento como escritor moderno. Apesar de terem sido bem recebidos por leitores e críticos, os dois romances anteriores de Ngũgĩ, Weep Not Child e The River Between, revelavam sintomas do estilo de um escritor ainda jovem e da sua busca insegura por um lugar no cânone emergente das letras africanas. Os primeiros romances de Ngũgĩ refletem a tentativa do aprendiz em modular formas literárias herdadas para dar conta de cenários africanos; mas Um grão de trigo se destaca como obra de um romancista maduro, seguro de seu controle sobre as múltiplas experiências e contradições a definir as vidas africanas pós independência, inclusive o caráter frágil da identidade social. (…)

Os antecessores de Ngũgĩ na cena literária africana haviam se preocupado com o passado e as condições de sua representação narrativa. Ao conceber o passado africano como tragédia, ou de modo romanceado, esses escritores afirmavam categoricamente, bem em consonância com Achebe, que o tema fundamental da literatura africana era fornecer aos africanos um sentido adequado da própria história. A motivação para produzir literatura africana, argumentava-se, era a de recuperar um passado africano como instrumentalidade, e a de mostrar que os africanos tinham uma história viável. Mas, quando Ngũgĩ escreveu seu terceiro romance, esta preocupação com a história começava a ser questionada por uma nova geração de escritores africanos. Na verdade, já em 1967, Ngũgĩ surgira como o porta-voz principal de um grupo de escritores que alertava sobre o perigo de utilizar o passado para mascarar a crise do presente, argumentando que chegara a hora dos intelectuais negros falarem sobre os problemas de gente comum, que já estava sendo excluída do projeto de construção nacional. Além do mais, Um grão de trigo estava sendo escrito num momento de incerteza sobre a direção que a sociedade africana tomaria depois da independência. No meio da primeira década da independência, a euforia que acompanhara a descolonização cedera, dando lugar à desilusão e ao desencanto. Os escritores não tinham mais certeza de que as formas literárias que pretendiam recuperar o passado fossem capazes de arcar com o peso incerto do presente. (…)

Um grão de trigo pertence à longa linhagem de romances modernistas cuja linguagem, sentido e visão são propelidos pela incerteza da gente sobre a história, o lugar, a revolução e a moral. Na verdade, a preponderância da ironia em Um grão de trigo assinala sua afinidade com o estilo literário do alto modernismo, do qual ele se apropria, e ao mesmo tempo inverte. O romance utiliza estratégias bem conhecidas do modernismo, inclusive fluxos de consciência, cronologias múltiplas ou fracionadas, e imagens fragmentadas, para dar conta daquilo que Ngũgĩ veio a considerar como a crise da independência africana. Mas já que seu objetivo era reconstituir a narrativa da descolonização no Quênia e refletir sobre o deslocamento profundo dos personagens em relação a suas histórias e cenários, especialmente durante o período Mau Mau nos anos 1950, Ngũgĩ não podia abandonar o realismo tradicional. Precisava dele para tratar de assuntos e comunidades reconhecíveis e localizá-los na textura de uma história conturbada, ainda que rica. Seu desafio foi como afirmar esta história e torná-la uma presença palpável em suas obras, enquanto também desconstruía seu uso e abuso na situação pós-colonial. O sucesso de Um grão de trigo pode ser atribuído ao emprego magistral da forma modernista, por Ngũgĩ, para explicar a política da transformação na África pós-colonial.

Simon Gikandi

Universidade Princeton, 2008

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graoUM GRÃO DE TRIGO
Sinopse: 
Publicado originalmente em 1967, este romance magistral, inédito no Brasil, trata do difícil processo de independência do Quênia, e das dúvidas e lealdades que cada um leva consigo. Mugo é um homem solitário, tido como herói pelos habitantes da aldeia de Thabai. Misterioso e calado, Mugo atuou ao lado de Kihika — mártir da luta contra o domínio inglês que morreu executado em praça pública. Durante o tempo em que ficou preso nos campos de detenção, nunca delatou seus companheiros, nem mesmo sob tortura. Conforme o dia da independência se aproxima, no entanto, ex-ativistas planejam expor e executar o suposto traidor que levou Kihika à morte. Sombras começam então a pairar sobre todos, até mesmo sobre Mugo.

Ngũgĩ wa Thiong’o participará da FLIP na sexta-feira, dia 3 de julho, na mesa “Escrever ao sul”, com Richard Flanagan. Os ingressos estão à venda.

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Ngũgĩ wa Thiong’o nasceu em Limuru, Quênia, em 1938. É romancista, ensaísta, dramaturgo e um dos principais escritores e estudiosos africanos em atividade. Seu primeiro romance, Weep Not, Child, foi publicado em 1964, enquanto estudava na Inglaterra. Em 1977, ele escreveu uma peça teatral que contrariou o governo do Quênia e acabou preso por mais de um ano pelo regime ditatorial. Um grão de trigo (1967) é o seu terceiro romance. Vive atualmente nos Estados Unidos, onde é membro da American Academy of Arts and Letters e professor da Universidade da Califórnia, em Irvine.