Janela do Professor

Gramática das emoções

Por Elaine Lavezzo

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Foto: Tiel del Vale.

Nesta seção mensal, abrimos uma janela para contar sobre as atividades e experiências vividas pela equipe do departamento de educação da Companhia das Letras. Sempre que possível, enriqueceremos este espaço com relatos de educadores sobre suas práticas em sala de aula.

Conheça o trabalho de Elaine Lavezzo, da Escola Internacional de Alphaville em Barueri, e o projeto literário desenvolvido por ela em parceria com as professoras Anaí Teles (Artes), Carla Litrenta (5º ano do fundamental)  e Natascha Paiva (3º ano do ensino médio) com base na adoção do livro Mário que não era de Andrade.

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Uma experiência pedagógica envolvendo teatro e literatura

O projeto Literatura em Cena nasceu há uma década, a partir da leitura e da adaptação teatral da obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, encenada por alunos do então 6º ano, em um teatro improvisado numa grande sala de aula, no ano de 2005. A aventura cênica dessa “turma que gostava de teatro” seguiu pela literatura afora, até inaugurar o auditório da Escola Internacional de Alphaville em 2009, com a apresentação do espetáculo Vida Severina, uma livre adaptação da peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, na qual alunos e alunas eram os “Severinos” que migravam pelo universo da pós-modernidade. Os cantos e encantos dessa “Vida Severina” serviram de norte para outros alunos da escola, que também resolveram embarcar nessa caravana teatral, na qual eu também peguei carona. Este passo foi decisivo para eu mudar minha trajetória como educadora, migrando do ensino de português para as artes cênicas.

Esse deslocamento profissional indicou-me novos caminhos e perspectivas para trabalhar com os alunos. Ao invés da gramática do texto, passei a observar mais sensivelmente a gramática das emoções. A singularidade do olhar de cada aluno e a pluralidade da visão do grupo eram destinos incertos a serem cuidadosamente pesquisados. O que mais me impressionou — e emocionou! — nesta investigação foi a descoberta de que o teatro é um território pedagógico democrático e inclusivo, que dá voz e o merecido espaço a alunos que muitas vezes não se expressam tão bem em aulas da grade curricular por motivos cognitivos, étnicos e socioeconômicos. Por trabalhar em uma escola que preza pela visão integral do aluno, a atuação dos estudantes nas peças passou a orientar um olhar mais sensível dos professores em relação à performance pedagógica dos alunos. Nesse cenário que se descortinou, nós, educadores, passamos a aprender muito mais sobre o mundo sem fronteiras que contribui sensivelmente para a formação de alunos disléxicos ou com diferentes questões de aprendizagem.

Um ponto de encontro nesse caminho de confluências entre a literatura e as artes foi o projeto de encenação do espetáculo teatral Maria que era de Andrade, uma livre adaptação do livro Mário que não era de Andrade. Nesta premiada obra da literatura infanto-juvenil, a escritora carioca Luciana Sandroni aborda a vida do escritor paulistano Mário de Andrade e a relevância do modernismo enquanto vanguarda artística no Brasil. Desde 2008, este livro vem sendo lido e trabalhado por alunos do 5º ano do ensino fundamental, que muitas vezes participam de um bate-papo com a autora. No entanto, em 2015 este projeto literário seguiu em busca de novas direções.

Pegando carona no projeto “Literatura em Cena”, este ano o livro Mário que não era de Andrade foi adaptado para teatro, numa montagem protagonizada por alunos do 5º ano do fundamental e do atual 3º do ensino médio — a primeira turma da escola a desenvolver um projeto literário com a obra de Sandroni. A adaptação para o teatro passou por uma mudança no gênero do protagonista e a versão ganhou o título de Maria que era de Andrade, personagem interpretada pela aluna Maria Sarmento, de 11 anos, que brilhou como a criança que viaja pela história de Mário de Andrade e de seus amigos como Dona Olívia Penteado, Villa-Lobos e outros artistas que participaram do Modernismo no Brasil.

A ousadia artística dos modernistas inspirou o projeto literário, que acolheu alunos de diferentes faixas etárias (de 10 a 17 anos) e realidades pedagógicas, abrindo o palco para o talento de alunos com dislexia e com síndrome de Asperger. Nesse cenário inclusivo e democrático que a arte coloca em cena, uma ciranda formou-se com base na trajetória pedagógica de cada um para fortalecer-se com os vínculos criados no trabalho coletivo. Na cena final, todos os alunos estavam juntos, de mãos dadas: os alunos do 5º ano despedindo-se do ensino fundamental I e os alunos do 3º ano despedindo-se do ensino médio e da escola. Tal como na Semana de Arte Moderna, o público presente no teatro não se conteve e reagiu. Os espectadores do ensino fundamental e médio invadiram o palco e entraram na ciranda dessa viagem literária, protagonizada pela sensibilidade cognitiva e pedagógica dos mais diversos Mários e Marias.

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Elaine Lavezzo é educadora e criadora do projeto “Literatura em Cena”, que promove a leitura por meio de adaptações cênicas de obras da literatura universal protagonizadas por alunos do ensino fundamental e médio.

A primeira vez a gente nunca esquece

Por Daniela Vitieli

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O primeiro beijo!

O primeiro emprego!

A primeira…

Enfim, experiências inaugurais são especiais e a gente nunca esquece. Então por que seria diferente com a minha primeira Convenção de Divulgação Escolar da Companhia das Letras? Sim, a minha primeira vez, pois o evento está em sua sétima edição e não estive presente nas versões anteriores. São esses olhos frescos e sem vícios que contam um pouco esse momento especial para o Departamento de Educação.

Tudo começou com a organização. Até aqui sem problema, afinal já tinha trabalhado com eventos antes. Mas a preparação desse evento é algo único e pensado em todos os detalhes, equilibrando a opinião de todos: participantes e equipe. O Departamento de Educação, em meio as suas atividades rotineiras e cotidianas de divulgação escolar e incentivo a leitura, arruma tempo para produzir tal evento com todo carinho e dedicação. Durante dois dias, divulgadores escolares parceiros de todo Brasil conheceram as grandes apostas do Grupo Companhia das Letras para escolas públicas e privadas do país.

Como se tratava da sétima edição da convenção, algumas estratégias estavam desgastadas. O grande desafio era surpreender. Então por onde começar? Com a escolha do local! Um hotel especial, cercado de natureza e tranquilidade, com uma infra-estrutura especializada em eventos. O passo seguinte fora as pequenas, na verdade grandes, coisas: passagens, hospedagens, transfers, alimentação, táxis, brindes, livros, dinâmicas, materiais, autores, programação. Nesse ano, havia ainda o desafio de planejarmos o trabalho de divulgação do Grupo Companhia das Letras, que passou a incluir os selos Objetiva e Alfaguara. As surpresas não ficaram só por conta do local, a Convenção foi planejada para ser uma grande surpresa. A abertura contou com a diretora de produção Elisa Braga e com a performance da contadora de histórias Kiara Terra. Ufa! Começamos bem! Kiara consegue aliar sensibilidade com humor, quesitos indispensáveis para quem trabalha com educação.

E agora, o “Day After”? Será que continuaríamos a superar as expectativas? O jeito é seguir o plano, mas a sensação de aperto no coração ainda permanecia!

Oficialmente, o principal objetivo da convenção é munir os divulgadores de ferramentas, informações, inspiração e vontade de ler tudo aquilo que vão divulgar nas escolas. No entanto, acho que a convenção extrapola seus objetivos: conhecimento compartilhado, solidariedade, troca de experiências, novas amizades e grandes oportunidades. Logo no primeiro dia, pudemos contar com a presença de três autores fantásticos: José Roberto Torero, Marcus Aurelius Pimenta e Adriana Carranca. Eles trouxeram para o palco os bastidores do ofício do escritor, como surgem as ideias, como é escrever em parceria, como se faz a pesquisa para o livro, o relacionamento com o editor, a escolha da ilustração e projeto gráfico. E assim concluímos a primeira etapa do nosso evento!

Nos aproximávamos de mais um desafio: a atividade cultural. O que sempre foi aguardado com grande ansiedade em todos os outros anos também teria um novo formato: seria dentro do hotel! Chegado o momento de integração mais aguardado pelo grupo, ainda não sabíamos qual seria a repercussão. Um jantar com cardápio de botequim e videokê, no início, deixou alguns tímidos, mas ao fim da noite estavam todos numa vibração única de alegria e união.

É chegado o último dia! A sensação de aperto ainda continua, um pouco mais leve. Nossa manhã começa agitadíssima com uma verdadeira aula sobre o livro do momento: Brasil: Uma biografia. Confesso que sempre gostei de história, porém algumas vezes me desinteressava na aula, mas com a autora Lilia Moritz Schwarcz é impossível não ficar fascinado, simplesmente um encanto! Entre um autor e outro, nós do Departamento de Educação também falamos sobre os destaques para adoção, e eis que nesse momento uma das autoras resolve assistir nossa apresentação, e adivinhem?!?!  Sim, eu era a única que falaria sobre o livro dela! Senti um nervosismo, mas por fim falei e sobrevivi, afinal escrevo esse texto.

E agora? Como continuar mantendo o evento surpreendente? Nosso encerramento não poderia ter sido melhor: Amyr Klink! O homem que foi do Brasil a África pelo mar em um barco a remo, o homem que realiza diversas expedições marítimas a Antártida. O “gran finalle” deixou um gostinho de quero mais e saí da convenção pensando: “Preciso de um ‘barco’ e coragem”.

Assim chegamos ao fim, e só realmente no final, com a sensação de missão cumprida, que o aperto no coração se desfez!

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Daniela Vitieli é pós graduada em comunicação institucional (FGV) e trabalha como divulgadora escolar no Departamento de Educação da Companhia das Letras.

O medo bem construído

Por Vivian Schlesinger

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Você se lembra onde estava no dia 14 de junho de 1982? Nem eu. Mas muita gente se lembra. Todos os argentinos, por exemplo. Nesse dia, o general Mario Menéndez assinou a rendição da Argentina à Grã-Bretanha, perante o general Jeremy Moore, selando a derrota na Guerra das Malvinas. Mas os argentinos sofriam humilhações muito mais pessoais, íntimas até. Como sei disso? O romance Ciências morais recria aquilo que só a ficção pode trazer: o medo e a vergonha da época. O autor, Martín Kohan, nascido na Argentina, publicou coletâneas de ensaios e contos e nove romances, três deles traduzidos para o português: Duas vezes junho (Amauta Editorial, 2005), o premiado Ciências morais (Companhia das Letras, 2008) e Segundos fora (Companhia das Letras, 2012).

Nos dias 22 e 24 de junho, no auditório da Companhia das Letras, em São Paulo, será oferecido o curso “A guerra e o medo na ficção de Martín Kohan”. No primeiro dia, será apresentada uma introdução à obra do autor. No segundo dia, o autor delineará os reflexos da história de censura e guerra em sua ficção.

Kohan é um autor de fazer medo. Essa é uma de suas obsessões. Com suas raízes literárias firmemente arraigadas nos escritores europeus do começo do século XX (Adorno, Benjamin, Arendt), mas regado pelas águas bélicas e ditatoriais do Río de la Plata (San Martín, Saer, Chejfec), produz uma literatura que consegue dizer tudo que já foi dito de forma nova, sem hermetismo mas sem facilidade. Ciências morais, por exemplo, que relata o papel de María Teresa, uma jovem inspetora de alunos em uma escola tradicional de Buenos Aires durante a Guerra das Malvinas, trata do tédio na vida das pessoas, da sensação de impotência mediante um chefe autoritário, do prazer cruel — e fugaz — em vigiar o outro. María Teresa esconde-se no banheiro dos rapazes para descobrir um possível fumante entre eles. O que começa como cumprimento do dever torna-se inconfessavelmente lascivo.

Mas acima dela há outros com ainda mais zelo e menos escrúpulos, cujo tédio ela será convocada a aliviar. Como em tantos de seus romances, Kohan delineia a Argentina de então (e de agora, talvez). O medo permeia cada página, assim como estava misturado ao ar das escolas aos campos de futebol. Quando não havia o que temer, temia-se o medo. Não é fato que cães ferozes farejam o medo em você? Se houver cães por perto, não sinta medo, eles saberão. Mas a palavra medo não aparece em sua prosa. “O conformismo oculta o mundo em que se vive. É um produto do medo”, segundo Walter Benjamin. Nesse jogo de esconde-esconde, os personagens de Kohan — estudioso de Benjamin — optam pelo conformismo e pagam o preço. Não há heróis, e mesmo o vilão não tem um rosto único. Pode exibir talvez um bigode, uma farda, mas sua identidade maléfica está no olhar do narrador. Um dia em que María Teresa está no banheiro, escondida em um cubículo, vigiando, ouve alguém entrar com passos decididos e que bate na porta sem exagero. É seu superior, Biasutto.

Dotado de um olhar complexo, ora em primeira pessoa, ora em terceira, o narrador de Kohan faz mais do que narrar, é estrutural. Conduzido pelas mãos do narrador, o leitor não poderá abandonar-se ao deleite fácil do enredo. Em Segundos fora, ele transforma em câmera ultralenta os dezessete segundos que discorrem entre o golpe de um boxeador que derruba o adversário para fora da lona e o reerguer do adversário, que volta para a luta. São mais de duzentas páginas que o leitor percorre sem parar, porque precisa saber como termina essa queda. O enredo central, a histórica luta entre Jack Dempsey e Luis Ángel Firpo em 1923, é o substrato para três enredos que acontecem em três épocas diferentes: a investigação de um crime que teria ocorrido exatamente no momento da luta; o rompimento entre dois jornalistas de um diário da Patagônia que discordam sobre esse e muitos outros assuntos, cinquenta anos mais tarde (1973); o presente (1990), quando um terceiro jornalista, que trabalhou com ambos, volta à Patagônia para o enterro de um deles. Para desafiar o leitor, há ainda vários narradores e relatos quase ensaísticos sobre Mahler, Strauss, Kafka, Freud, a Plaza de Mayo, futebol e, claro, sobre o boxe. E achados: “E vertigem para ele é isto: uma duração excessiva do ato de cair.”.

Enquanto lia Duas vezes junho, pensava “preciso terminar rápido para controlar essa taquicardia”. Mas não adiantou. A taquicardia volta cada vez que me lembro: “A partir de que idade se pode começar a torturar uma criança?”. Assim começa o relato feroz em linguagem pretensamente domesticada, de um narrador que tudo vê e ouve, mas finge para si próprio que não entende nada. Basta dizer que o cenário é Buenos Aires da Copa do Mundo de 1978. Utilizando seus recursos de concisão e contundência, Kohan reúne, por exemplo, em uma frase, a barbárie de que é capaz um médico, o horror do roubo de bebês, e ainda o preconceito racial. Assim vemos no doutor Padilla, médico do exército, ao comentar sobre uma criança que nasceria de uma grávida presa e torturada.

Kohan não escreve sob a ótica da militância, e sim da infância vivida na ditadura. Da amálgama entre ditadura e Copa do Mundo, ele diz, “A memória social inventou uma recordação de pura vitória. Então eu quis fazer um romance que fosse pura derrota”. Parece familiar?

Há algo de obsessivo em sua atração pela obsessão. A minúcia na linguagem, o peso do detalhe (que ao final parece leve), o transtorno que leva à repetição dos atos, aparecem nos personagens e são, confessadamente, reflexos do ato literário. “Detenerse en cada palabra, elegir cada palabra, sopesar cada palabra. Me gusta escribir así. Probar esa intensidad de la escritura.” Valerá a pena ouvi-lo e descobrir como ele escolhe cada palavra para produzir uma das vozes mais originais e maduras da literatura hispânica contemporânea.

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Participe do curso A guerra e o medo na ficção de Martín Kohan, que acontece nos dias 22 e 24 de junho na Companhia das Letras, em São Paulo, às 19h.

A literatura argentina é fortemente marcada por sua história de guerras e ditadura. A obra de Martín Kohan não é exceção, como demonstra seu romance Ciências morais. Este curso ocorrerá em duas etapas: no primeiro dia, Vivian Schlesinger apresentará uma introdução à obra de Martín Kohan: seus ensaios, romances e contos; seu estilo e técnica narrativa; seus personagens e enredos mais marcantes. No segundo dia, Martín Kohan, com mediação de Vivian Schlesinger, irá delinear os reflexos da história argentina de guerra e censura em sua ficção.

Inscreva-se.

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Vivian Schlesinger nasceu em São Paulo, em 1955. É mediadora de sete clubes de leitura. Ministra oficinas de escrita criativa e crítica literária. Mediou debates com autores como Paulo Henriques Britto, Cristovão Tezza, Luiz Ruffato e Michel Laub, entre outros. Autora do livro de poemas Papaya Dawns (Dobra Editorial, 2011), é tradutora (Revista Machado de Assis), jurada em concursos literários, como Jabuti, e colunista do jornal Rascunho.

Uma amizade (im)possível: encontro entre disciplinas

Por Márcia Celestini Vaz

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Ilustração de Spacca para o livro Uma amizade (im)possível, de Lilia Moritz Schwarcz.

Nesta seção mensal, abrimos uma janela para contar sobre as atividades e experiências vividas pela equipe do departamento de educação da Companhia das Letras. Sempre que possível, enriqueceremos este espaço com relatos de educadores sobre suas práticas em sala de aula.

Conheça o trabalho de Márcia Celestini Vaz, do colégio COC SAPIENS em São Paulo, e a sequência didática elaborada por ela com base na adoção do livro Uma amizade (im)possível – As aventuras de Pedro e Aukê no Brasil colonial.

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No 1o bimestre do 4o ano do EFI do COC SAPIENS, desenvolvemos uma sequência didática para integrar as disciplinas de língua portuguesa, produção textual e história. Este trabalho chama-se “Projeto Leitura” e aplica-se a todos os anos do ciclo escolar, com focos específicos, considerando diferentes gêneros textuais. As expectativas para esta série se concentram na diversidade de estratégias que possam levar o estudante a aprofundar suas habilidades iniciais como leitor. Com esse objetivo, os alunos devem ler uma narrativa transpondo seus elementos constituintes (personagens, cenários, enredo, tempo e foco narrativo) e também sua estrutura básica (apresentação de uma situação inicial, conflito, clímax e desfecho).

Pretende-se que o aluno tenha a oportunidade de desenvolver certa inquietação previamente lançada: como se descolar dessa base textual e começar a fazer perguntas ao texto de modo autônomo e crítico? Em outras palavras, essa inquietação deve levar o aluno a associar fatos, ideias e temas; relacionar informações, dados, conceitos; e inferir, de modo coerente, levantando hipóteses, refutando ou afirmando-as. O olhar da investigação começa assim.

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Considerando-se os diversos níveis de leitura e partindo-se do pressuposto de que a escola é a principal “agência formadora” desse olhar de investigação, a intenção do Projeto é fazer com que o aluno, gradativamente, transporte-se do olhar fragmentado, do olhar ingênuo que não questiona, para um olhar que pergunta, critica, desconfia… desvela.

Fundamental para o processo de aprendizagem, esse olhar faz o leitor suspender sua visão do texto e começar a indagar: “por que impossível?”, “por que (im)possível?”. Além de começar a perceber que um prefixo muda todo o significado da palavra, descobre que o impossível pode tornar-se possível, que o desconhecido, inabitado e escuro começa a se revelar quando se deixa conduzir pela “voz” do texto, pelo foco narrativo, pelo enredo, pelas personagens, que, em atuação, mostram universos antes nunca percebidos. Esse é o navegar proposto pelo livro, ao fazer a junção entre a História e a Literatura. Por meio desse universo tão familiar à criança, o poético, revela-se que o outro, a História, à primeira vista tão distante e inatingível, pode ser visto, entendido, apreendido.

E assim tem início nossa jornada…

Logo no princípio do ano, e como atividade de “aquecimento” para a leitura da obra Uma amizade (im)possível, os alunos são desafiados a se desprender de outro texto (a professora lê um livro desconhecido pelas crianças sem apresentar capa e título originais). Após a leitura (feita duas vezes, em aula e na íntegra), um aluno de cada turma (são duas as classes de 4o ano) reconta oralmente, com suas próprias palavras, o enredo. Após essa fase coletiva de releitura, os alunos partem para a produção individual de reconto, que inclui uma capa com ilustrações e títulos elaborados pelo próprio estudante. Essas escritas e representações visuais são, em um terceiro momento, comparadas ao texto original. O objetivo é, portanto, observar se um aluno de 4o ano, com nove anos em média, consegue retomar a sequência narrativa de um texto apenas de ouvido e como ele representa por imagens e pelo título o tema central da história.

Com esse primeiro “aquecimento”, passamos à segunda fase do Projeto, quando o livro Uma amizade (im)possível é apresentado ao aluno. Após a exploração da capa, estimulamos a antecipação de informações, o conhecimento prévio dos alunos sobre o possível tema a ser tratado no livro e, finalmente, iniciamos a leitura da obra.

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Neste momento do trabalho, recebemos a dupla de contadores de histórias, a Cia. Ruído Rosa, para uma apresentação sobre o livro estudado. Tal atividade faz parte do projeto Adote Novas Histórias, da Companhia das Letras, por meio do qual as escolas são contempladas com a contação do livro adotado — Uma amizade (im)possível faz parte dos livros que integram esse projeto da editora.

A dupla, então, desenvolve uma performance ressaltando as questões relacionadas a uma leitura crítica. O início da apresentação mencionou um dos aspectos centrais do livro: a polêmica sobre o “descobrimento” do Brasil. A dupla entrou na telessala informalmente: “Ah, descobrimos a sala da contação!”, “Não, não descobrimos! Achamos! A sala e as pessoas já estavam aqui, já existiam, antes de chegarmos!”.

A partir da amizade entre um índio criança, Aukê, e Pedro, a criança portuguesa, os alunos se envolveram com a narrativa e com os fatos e referências históricas. A viagem entre realidade e ficção se inicia pelo título e suas leituras (im)possíveis. O leitor é convidado a refletir, por exemplo, acerca da concepção que se tinha do mundo antes das grandes navegações (o oceano acaba em um precipício? existem monstros marinhos?); sobre os vários “ãos” e seus desdobramentos: exploração, aculturação, (des)caracterização; sobre a diversidade cultural e étnica expressa em hábitos alimentares, de higiene pessoal, em vestimentas… e na língua!

A leitura e a performance dos contadores sobrepõem textos que revelam as duas culturas em interação. As atividades do Projeto prosseguem, com leitura e compreensão do texto, reconto, comparação entre o texto lido e a apresentação vista, com discussões e reflexões sobre a história e a ficção.

Toda essa sequência parte de um retorno ao texto-livro, para uma segunda leitura, essa de compreensão, uma vez que as turmas foram estimuladas, pela contação, a visualizar personagens, espaços, diferenças. Em seguida, assim como fizeram na atividade de “aquecimento”, os alunos são estimulados a recontar o texto, agora fixando os detalhes, investindo em recursos de linguagem, acionando a memória textual e visual. Depois, conduzidos pelas professoras, partem para a “leitura comparativa” entre o livro e a contação (o que há de diferente e de semelhante entre o lido e o visto?). Por fim, descobrem as artimanhas da literatura, da ficção, para fisgar o leitor e fazê-lo da história entrar na História.

Uma amizade (im)possível — livro e contação — faz o leitor se transformar em um navegador: para além do que se apresenta em um texto, o que posso descobrir?… Ou seria achar?

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Marcia Celestini Vaz é Coordenadora da Área de Linguagens, Códigos e Tecnologias do colégio COC SAPIENS, de Osasco – SP.

Sobre cadência e companhia

Por Michaela Nanni

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Antologias são sempre interessantes. Sobretudo as boas. A sensação de seguir com fôlego numa cadência é sempre agradável — e literatura é mesmo ritmo, aguçamento das percepções: léxico, construção, significância, significado. Sem, por favor, essa necessidade toda de apuração de técnicas. Aos menos, não ao leitor. A ele, o que interessa é sempre ela: a cadência da boa leitura. A leitura como companhia.

Em agosto, o selo Boa Companhia completará três anos. Antologias de naturezas variadas, com acordes assonantes a oferecer ritmos distintos a gosto do leitor. Voltado especialmente para alunos dos ensinos Fundamental II e Médio, o selo apropria-se do catálogo de autores da casa e oferece coletâneas selecionadas por tema, gênero ou autoria.

Tendo Jorge Amado como estreante, passamos por Vinícius, Drummond, Paulo Mendes Campos, Mia Couto e Millôr Fernandes para desembocar neste mês em Tchékhov, já avistando Sérgio Porto e Alice Ruiz para o segundo semestre. Se a unidade das antologias citadas se dá pelo estilo próprio de cada autor, que discorre sobre temáticas múltiplas, ainda contamos com o oposto: seleções temáticas dando tom uniforme a obras de autores diversos. Depois de agrupamentos acerca do fantástico, do amor, do horror e dos bichos, ainda em 2015 teremos o humor como elemento organizador de um novo volume do Boa Companhia.

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Capas da coleção Boa Companhia

Nestes dias, juntamente com Kaschtanka e outras histórias de Tchékhov, chega às livrarias a antologia Tempos de Escola. Contos, crônicas e memórias que varrem um período de cento e trinta anos da literatura brasileira e quebram qualquer expectativa que pretenda alimentar — ainda que sem intenção — os lugares-comuns do imaginário escolar na literatura. O lirismo sofisticado e o estilo particular dos autores dão fluidez à leitura sem deixar de fazer notar ao leitor atento as mudanças sociais, organizacionais e estilísticas que acontecem ao longo de mais de um século da literatura nacional.

Machado abre a coletânea com sua conhecida maestria, explorando o dilema psicológico de um aluno que, em contraste com as tramas e responsabilidades que a jornada na escola lhe apresenta, só anseia por seguir a sua vontade de brincar no morro ou no campo e seguir o rufo do tambor de um batalhão de fuzileiros que lhe vem ao encontro. Seguindo o panorama cronológico, encontramos Olavo Bilac acompanhando um hilário caso publicado na Gazeta de Notícias que traz a história de um menino que aprende a ler através dos programas de cinematógrafos, devido ao seu gosto pelo assunto — e o narrador faz um apelo às paixões como substitutos do mestre-escola, uma vez que já não se pode contar com os investimentos governamentais. Teremos ainda Otto Lara Resende, com a inocente raiva sentida por uma garota em relação ao seu namorado de escola por conta de seu falecimento — que a coloca em uma situação completamente marcante e inusitada. Entre narradores atraentes como Lima Barreto e Drummond, seguimos pela antologia até chegar aos nossos habilidosos contemporâneos Sérgio Sant’Anna, Antonio Prata e Fabrício Corsaletti.

Boa Companhia completa três anos proporcionando satisfação a seus editores e leitores. Cumpre seu papel de ser, sobretudo, um selo de cadência da leitura, que passeia ritmado através de toda diversidade e riqueza que as cuidadosas antologias possam reunir.

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Michaela Nanni estuda Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras.

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