Janela do Professor

Uma introdução aos mundos indígenas para as crianças

Por Valéria Macedo

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Antes de contar a história de Aldeias, palavras e mundos indígenas, inicio narrando um pouco da minha história. Eu sou antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Há uma década venho trabalhando com populações guarani no Estado de São Paulo, e tenho maior proximidade com duas aldeias: a do Rio Silveira, no litoral, e a do Jaraguá, na capital.

Antes disso, atuei por cinco anos no Instituto Socioambiental (ISA), onde participava da equipe do Programa Povos Indígenas no Brasil. Ali pude tomar contato com a imensa riqueza e diversidade do universo indígena, tomando parte de pesquisas, da produção de livros e do website com informações sobre os diferentes povos e sobre a questão indígena de um modo geral.

A ideia de Aldeias, palavras e mundos indígenas nasceu de conversas com editoras que trabalham na Companhia das Letras, principalmente Mariana Mendes e Rafaela Deiab, quando pensávamos em uma publicação que introduzisse o universo indígena para crianças com pouco ou nenhum contato com a escrita. Nossa intenção era promover um encontro com o universo indígena de modo a evitar preconceitos infelizmente arraigados no senso comum, como a imagem de um nativo genérico e representante de um modo de viver ultrapassado.

Da nossa parte, queríamos mostrar a diversidade entre os grupos indígenas e o quanto eles podem nos ensinar. Enfim, a ideia era ampliar as possibilidades da criança imaginar outros mundos possíveis e, ademais, se imaginar neles. A aposta é que mais pra frente esses leitores possam construir novas possibilidades para nosso mundo!

Com esse propósito selecionei quatro povos — Yanomami, Kuikuro, Krahô e Guarani Mbya — como fonte de inspiração para demonstrar um pouco dessa diversidade nos modos de viver, construir casas e aldeias, comer, enfeitar-se, fazer festas e brincar. Incluí um pequeno texto sobre cada povo, pois a intenção é apenas despertar a curiosidade em um público que começa a experimentar esse tipo de tema.

Para construir esses diferentes modos de viver inspirados nesses quatro povos, precisávamos de uma ilustradora cujos desenhos não fossem muito fantasiosos, pois eu tinha muitas fotografias e informações etnográficas para guiar o trabalho. Mas também não queríamos um traço muito realista, já que a ideia era construir mundos a partir das aldeias existentes, e não somente reproduzi-las.

Aldeias, palavras e mundos indigenas

Mariana Massarani foi a escolha perfeita, já que criou registros cheios de encantamento, sem deixar de ter como referência o material de pesquisa realizado sobre a vida nas aldeias. Mariana foi mostrando os desenhos, fazendo ajustes a partir dos comentários, e o resultado ficou lindo, como uma grande brincadeira que mexe com a gente, de verdade!

Além dos desenhos, outro caminho para se experimentar a diversidade entre os índios é o contato com as palavras, nas respectivas línguas desses povos. Por vezes, não é fácil pronunciá-las! Mas mesmo o estranhamento que as palavras geram entre as crianças, com ou sem a participação dos pais ou professores na leitura, nos parece instigante como forma de conhecimento.

Nosso objetivo é, assim, que o livro convide tanto crianças não indígenas como indígenas para essa viagem. Nos parece importante que as escolas indígenas tenham em suas bibliotecas publicações não apenas sobre o próprio povo ou sobre os não indígenas, como também sobre outros povos indígenas, de modo a reconhecerem semelhanças e diferenças culturais e linguísticas.

Além de me voltar para um público também indígena, fiz questão de dividir os direitos autorais com associações dos povos nos quais nos inspiramos. Alguns de seus representantes ajudaram na revisão dos desenhos e na correção das palavras. Particularmente, agradeço muito a Mutuá Kaühe Kuikuro e a Davi Kopenawa Yanomami pelas correções e a inestimável ajuda. Agradeço também a Paula Mendonça por me apresentar a Mutuá, e a Moreno Martins pela mediação no contato com Davi. Por fim, faço um agradecimento mais do que imenso aos meus amigos Guarani, que me ensinaram tantas palavras e um mundo de significados. Sobretudo, me ensinaram como aprender sobre o outro pode ser uma maneira de aprender muito sobre nós mesmos fazendo da diferença um motor de criatividade e conhecimento. Espero que nossos leitores comecem desde cedo a curtir essa brincadeira!

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Valéria Macedo é antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em janeiro, publicou pela Companhia das Letrinhas Aldeias , palavras e mundos indígenas, ilustrado por Mariana Massarani.

Um olhar sobre os cursos na Companhia

Por Maria Queiroz

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Uma das missões que recebi ao entrar no Departamento de Educação, aqui na Companhia das Letras em julho deste ano, foi acompanhar os cursos — uma programação elaborada semestralmente que traz autores, tradutores, professores ou especialistas abordando temas sobre literatura e o fazer literário. Minha intenção aqui é conduzir o leitor a conhecê-los a partir da experiência que tive.

Com a proposta de falar sobre percepção da linguagem, Vanessa Ferrari abre a programação de setembro e se prepara para ministrar Os mitos da boa narrativa e a percepção da linguagem, baseado em sua experiência como editora na avaliação de originais. O ambiente está pronto e o público se aproxima, os lugares vão sendo ocupados e há um leve desassossego; olhares e movimentos inquietos preveem o início da aula.

Com zelosa atenção, a plateia acompanha cada tópico. As palavras proferidas pela Vanessa parecem encontrar lugares próprios e fazem a conversa ganhar fôlego à medida que os mitos dessa boa narrativa vão sendo colocados por meio da discussão dos textos que entram como exemplo. Os ouvintes demonstram receptividade ao assunto e repousam suas curiosidades sobre uma estreita conversa com o poeta Alberto Martins, que atendendo ao convite de participar apenas no encerramento da aula, traz à luz, junto com a colega, um pouco do processo de construção da sua narrativa. A conversa com o público reflete a necessidade de usar a língua em seu máximo aproveitamento e, por último, pensar a respeito da linguagem como instrumento de comunicação e como ferramenta estilística.

Ao final de outubro partimos para o segundo curso: Por que eu quero este livro — O papel da capa na escolha do livro. Temos Alceu Nunes, designer de profissão e funcionário da Companhia, analisando o processo criativo da produção da capa de livros. A cada slide, esboços de capas e exemplos de artistas, é quase impossível não se impressionar com o cuidado com que cada arte é concebida. O público, composto por curiosos, profissionais e estudantes, parece estar em busca de dicas. O contato com a bagagem do professor torna a conversa ainda mais animada, colocando-os diante de fatos interessantes diante dos protótipos apresentados, aproximando ambos da experiência do capista e de sua importância em relação ao mercado editorial. Afinal, a arte exposta na capa é imprescindível no primeiro contato do leitor com o livro.

Já na primeira semana de novembro, o curso de Escrita literária, com o autor Luiz Ruffato, propõe uma reflexão sobre o ato de escrever tendo como foco a prosa de ficção. Designados a trazerem um conto ou trecho de romance próprio, os participantes vão chegando e se acomodando em círculo, doze pessoas compõem o grupo que se mostra empolgado para o início das leituras. No papel de mediador do grupo, o autor estimula cada um a ler o próprio texto e em seguida ouvir as opiniões dos demais integrantes, as análises são expostas entre ideias e olhares que transitam num clima amistoso proporcionado pelo calor da discussão. Assim, o argumento das duas aulas pode ser compreendido à medida que fatos recorrentes ou novos acerca do sentido da escrita possam ser pautados ao elemento essencial ao escritor: a leitura.

O curso Sopa de pedras – um passeio pela paisagem da arte de contar histórias encerra a programação do semestre durante a terceira semana de novembro. Nele, Regina Machado conduz suas alunas a uma viagem pelo universo da “contação de histórias”. Para isso, recorre à sua vasta experiência. O público é envolvido por uma atmosfera singular: a aula transcorre entre a bagagem que cada uma traz consigo e as matrizes dessa verdadeira arte. Vislumbra-se o sentido que a história exerce sobre quem conta. Com um semblante terno, as participantes sentem-se convidadas a criar situações de encontros através de palavras quase encantadas: “Era uma vez…”, “E se fosse possível que…”. Refletir sobre essas e outras questões ligadas também à qualidade ancestral da história de narrar parece motivar as alunas que, no segundo momento da aula, dão vida ao processo criativo por meio de uma atividade prática que possibilita abraçar um mundo infantil também presente no adulto.

É nesse clima de estreitas relações entre língua, linguagem, criação, imaginação e diálogo aberto com o público que a programação se encerra. Ao imergir na multiplicidade de facetas do processo de ensino-aprendizagem é possível perceber nesses ângulos o conhecimento que pode ser extraído através das ideias colocadas na roda, expostas e debatidas com o objetivo de ampliar os horizontes presentes no universo literário.

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Maria Queiroz é formada em Letras e assistente no Núcleo de Incentivo à Leitura do Departamento de Educação da Companhia das Letras.

Cidadania se ensina “com”, não “sobre”

Por Lilia Moritz Schwarcz


Quando André Botelho e eu organizamos a coletânea de textos chamada Cidadania, um projeto em construção (Claro Enigma, 2013), imaginávamos estar fazendo muito — ou o suficiente — ao introduzir um tema de tal complexidade, dirigido, dessa vez, a um público que ia além dos muros protegidos da Universidade. Nós, acadêmicos, nos valemos de tal maneira do diálogo interno que, muitas vezes, acabamos por produzir estudos um tanto endogâmicos: entre nós e para nós.

Por isso, André e eu ficamos satisfeitos com o desafio de editar um livro que atendesse a um público mais amplo: proveniente dos primeiros anos das universidades privadas ou mesmo públicas, assim como leitores do Ensino Médio. Visando esse tipo de leitor, tentamos, então, deixar mais claro, mas sem simplificar, conceitos, histórias e facetas que envolviam essa grande questão da nossa modernidade.

Foi com esse objetivo que lançamos nosso livro, contando com a colaboração de vários professores que trataram do tema a partir de diferentes ângulos, e retomaram a questão da cidadania a partir de faces distintas: justiça e direitos; esferas públicas e privadas; religiosidade; violência; racismo; questões de gênero; movimento LGBTS. Lançado o livro, ele ganhou vida própria, e mostrou como há questões que são vocacionadas para adentrar o espaço público.

Foi assim, com um certo susto e igual grau de ceticismo, que recebi e atendi ao convite feito pelo COC SAPIENS para que participasse de um debate com alunos do Ensino Fundamental. Mais especificamente, dos 9 aos 14 anos. Ceticismo, pois, do alto de meu isolamento acadêmico, não podia imaginar que o tema fosse fazer sentido e “apaixonar” leitores que recém começavam a se experimentar na nossa vida cívica.

Ainda bem que errada estava eu ao supor que assuntos como esses têm idade certa, ou “prazo de validade”. Fui à escola com minhas anotações preparadas: pronta para dar uma aula e responder questões. O problema é que, mais uma vez, estava equivocada. Na verdade, logo que entrei no COC SAPIENS, entendi que era melhor guardar minhas notas no bolso.

Chegando a um corredor, me deparei com uma “floresta de conceitos”. O pior (ou melhor) é que além de conceitual, a floresta era também real, sendo composta por temas muito palpáveis, como: favela, saúde, desigualdade social, cultura, minorias, capitalismo, felicidade, utopia, liberdade, segurança, domínio, escravidão, fome, ambição, força, raça, suicídio e outros mais. Foi emocionante verificar como os vários domínios do livro eram pronta e corretamente “traduzidos” para se transformarem em questões que faziam sentido naquele contexto e para aquele grupo, em especial.

Mais emocionante, ainda, foi notar que a “floresta era viva”: habitada pelos alunos cidadãos, que fizeram uma espécie de “visita guiada” comigo, explicando cada um dos painéis, opinando e participando. Nada parecia exterior, tudo era incorporado ao ambiente e ao trabalho lá realizado. Naquele “bosque”, não existiam limites claros e a interdisciplinaridade reinava majestosa. Na minha frente apresentavam-se “lições” retiradas das aulas de história, de desenho, de português, de filosofia, e tudo mais que fosse possível incluir. Nesse teatro de ensino, tanto os professores — Ana Paula Peixoto da Silva Lima (produção textual), Adriana Gomes (artes plásticas), Eduardo Osti Garcia (filosofia), Diego Luiz Escanhuela (história) —, como a coordenadora Marcia Celestine Vaz e sobretudo os alunos encontravam-se igualmente motivados e dispostos ao diálogo.

Depois desse “passeio no bosque de ideias”, fomos todos para uma sala de aula. Achei que era chegada a hora de finalmente proferir minha palestra, mas, ainda essa vez, estava equivocada. Na verdade, primeiro ouvi um depoimento muito bonito, feito pelo professor de História, o qual, por conta dessas coincidências que a vida traz, conhecia meu trabalho, mas também partilhava comigo amigos muito especiais.

Já muito sensibilizada, passei a anotar questões vindas dos alunos. Se algumas eram previamente elaboradas, outras foram surgindo na ocasião, fruto do debate e do verdadeiro diálogo que passamos a travar: de igual para igual.

Saí de lá atrasada, mas esquecendo da hora. Fiquei matutando sobre como o conhecimento é infindo e sempre sujeito a novos desdobramentos. Pensei também no momento especial que nosso país experimenta, quando passamos por um processo eleitoral tão nervoso quanto participativo, e como os brasileiros deixaram de se comportar passivamente para lutar por seu próprio destino.

Mas, com certeza, o que mais mexeu comigo foi a certeza de que o país e sua juventude nada tem de alienados. Ao contrário, na minha frente vi alunos muito mais politizados do que eu me lembrava de ter sido, nessa mesma idade. Ao invés de imaginarem que esse tipo de agenda era exclusiva de um “mundo adulto”, nesse caso, eram os alunos que introduziam novas possibilidades e horizontes.

Foi o historiador P. Arriés, em História social da criança e da família, quem escreveu como não existem dados estáveis e universais para indicar os limites entre infância, juventude e a entrada do mundo adulto. Na verdade, as sociedades é que inscrevem nos corpos as cicatrizes da cultura. Talvez por isso, eu tenha estranhado esse descompasso entre a memória de “meu mundo juvenil” e esse outro mundo, muito menos ingênuo. Não há por que fazer “menos” da minha geração, e “mais” dessa. Talvez o mais relevante seja voltar — a partir de novo ângulo — ao tema da cidadania e das mudanças que vemos presenciando.

Em nosso livro chamamos atenção para como o Brasil chegou tarde — apenas nos anos 1970 — a essa vigorosa agenda dos direitos civis. Ou seja, nesse mundo legal das proteções e privilégios pessoais dados a todos os cidadãos por lei. Talvez sejam essas “novidades” que tenham gerado uma sociedade mais politizada, atenta, alerta e que não distingue gerações. Podemos prever, assim, um mundo civil e cidadão muito mais amplo, que inclua a Terceira Geração, mas também a Primeira, a Segunda e tantas outras.

Uma política virtuosa produz, também, cidadãos virtuosos e vice-versa. Um mundo cidadão feito de instituições sociais fortes produz representantes críticos e que se valem das benesses das democracias consolidadas. E, quem sabe, essa apresentação dos alunos do COC SAPIENS seja um bom termômetro para medir a alteração na nossa temperatura cidadã.

Historiadora que sou, fiquei pensando como vale à pena experimentar as voltas que o mundo dá. Quem sabe o conteúdo daquela “lição” possa ser resumido da seguinte maneira: conhecimento não se faz sobre, mas com.

Tocou o sinal, chegou o intervalo: hora de ir para casa. Diante da aula de cidadania que recebi, parti com uma certeza: a de ter aprendido muito mais do que ensinei. Bela inversão; rara oportunidade!

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.


Memórias maduras da infância

Por Pedro Moritz Schwarcz


Nesta última segunda-feira, como de costume, fui ao Clube de Leitura da Penitenciária Feminina de Santana, que realizamos todo mês. A bola da vez era o livro de Antonio Prata, Nu, de Botas, em que o autor, consagrado pelas suas colunas, compõe uma série de pequenas anedotas da própria infância, filtradas pela ficção, pelo humor e por memórias remotas que poderiam ser de todos nós.

Antes do encontro dessa última segunda, do dia 15 de setembro, pensei muito a respeito de um possível “choque de classes”, já que no livro de Antonio estão impregnadas memórias que obedecem as recordações de uma “infância de um menino de classe média”. No entanto, a reação das nossas sempre surpreendentes leitoras foi muito diversa. “Histórias mais bonitas que as de Robinson Crusoé”, parafraseando Drummond, eram as histórias contadas pelas presidiárias, bem como as de Antonio. Eram, porém, mais duras ou igualmente sofridas. Mas o grande pulo do gato desse livro, e que foi o ponto mais interessante de troca, conversa e debate do encontro, é a conclusão inequívoca de que toda infância é uma espécie de “ilha” como a de Robinson Crusoé. Nas histórias de Prata, um menino convive com a alteridade pela primeira vez ao se deparar com a existência dos vizinhos, com a arqueologia camaleônica do tempo e da imaginação através dos desenhos formados nos tacos soltos do chão da sala e no piso ladrilhado dos cacos de cerâmica do quintal, com os bichos de estimação que “não funcionavam”, ou muitas vezes “paravam de funcionar”, tal qual bichinhos de brinquedo. Há também o caso do “Cometa Halley”, muito menor e mais sem graça do que prometia ser, visto do colo de uma daquelas mamães dos amigos que provocavam certa instabilidade por causa de sua “beleza fora do comum”. O estranhamento do cosmos cai lá de cima para aterrissar num cantinho da varanda da casa de campo de um amigo. As proibições também marcam presença, essas que só fazem as crianças se interessarem pelo universo marginal e clandestino, além das regras e convenções. A “África” que estava logo ali, seguindo reto, oceano à frente, “terra à vista”; “as mulheres peladas do enorme e suntuoso castelo”, ao lado do teatro Cultura Artística; os castelos de areia; as casas dos vizinhos que realocavam os móveis e os quartos de maneira diferente do “modelo status quo da casa própria”.

A partir desse pressuposto de que a criança de certa forma é sempre um “ingênuo e inocente marginal”, percebo agora como a minha visão da suposta “infância diferente” e “choque de realidades” era ambivalente. Principalmente pensando que o livro retrata uma infância que vai do final dos anos 70 ao meio dos anos 80, onde as brincadeiras de rua eram muito mais atraentes do que a televisão e a tecnologia dos iPads, internet, celulares e demais modernidades cada vez mais em voga hoje em dia. Para as minhas companheiras de leitura, naquele clube na Penitenciária, a rua, o quintal da escola, foi também o verdadeiro palco do “cinema da infância”. Porém, a rua, para muitas delas, se tornou uma espécie de labirinto ou selva que mais tarde foi denominada “lar”. Um lar que já não era mais tão repleto de aventuras lúdicas e nem tão aconchegante, mas muito mais um palco, onde a guerra dos super-heróis é substituída pela “guerra contra fome e pela sobrevivência”. Os meliantes já não são exatamente crianças que riscam as paredes, quebram algo valioso ou fingem estar doentes para fugir da escola.

Algumas diferenças, mesmo por detrás de toda a catarse demonstrada por elas com relação a essa nostálgica “ilha mais bela que a de Crusoé”, apareceram claramente. Luana, uma das participantes do clube, relacionou uma das crônicas em que o jovem Antonio era retirado do seu tradicional programa de TV favorito de domingo, o incrível “Bambalalão”, para ir à festa de um parente muito distante, que “não tinha uma perna”. Em “A perna do seu Dúlio”, Antonio vai a uma festa do “pai do marido da tia”, sentindo-se completamente injustiçado. Nunca ouvira falar do tal do seu Dúlio e sabia que na festa encontraria vários “adultos petulantes” falando sobre seu nascimento e apertando sua bochecha como se ele fosse um ursinho de pelúcia. Também sabia que “as várias crianças da sua idade” iriam tratá-lo como um “forasteiro”, sem contar os “delinquentes” com suas espingardas de chumbo e estilingues. Porém, o que Antonio não sabia era que iria conhecer um personagem mágico, que aos 80 anos amputara uma perna. “ Cadê sua perna, seu Dúlio?”, perguntou Antonio. A criança logo relacionou o ancião aleijado a um desses mágicos que serram pessoas, que brincam com bichos. Soube depois que haviam costurado sua perna, exatamente como sua mãe fazia com retalhos de couro.

Já Luana disse que sua mãe, talvez um pouco mais severa que a mãe de Antonio, usava essas “anomalias” como resultado de uma “sem vergonhice”. “Se você mexer na tomada menina, você vai ficar sem perna que nem aquele menino do sinal. Ele ficou assim porque fez coisa errada.” Luana também relacionou uma etapa da sua infância, quando teve que se deparar com o fato de que “seu pai ia mudar de casa”.  Só que no caso de Luana, seu pai não mudou de casa, mas foi embora. Tudo com uma explicação mais vaga e mais dura. Sua mãe lhe disse que seu pai foi embora porque gostava mesmo era da “Zona”. Quem sabe aquele mesmo tipo de “castelo suntuoso” que o pai de Antonio sempre passava, ao acompanhar o movimento do público que viera assistir o seu mais novo espetáculo. Aquele local, frequentado por “homens tristes e sem namoradas, atrás de mulher pelada”, como seu pai lhe explicara. Seu pai também lhe contara que “as casas por traz dos luminosos, das fumaças e neons, eram bares e não teatros”. Antonio, por sua vez, indagava: “ estranho, eu conhecia muitos bares; o que tornava aquele tão diferente dos outros, em que comíamos frango à passarinho com batatas fritas e misturávamos Coca com Sukita?”. Já seu pai respondia laconicamente: “Mulheres Peladas”. Antonio, em seu papel de criança, ruminava mais dúvidas e indagações frente ao misterioso “mundo proibido”. “ Fiquei bastante intrigado. Do alto de minha meia década de existência, ‘mulher pelada’ não evocava nada além da imagem de minha mãe entrando e saindo do banho, de touca na cabeça e toalha na mão, cheiro de xampu no ar, gotículas de vapor nos azulejos. Bem, talvez a fumaça vista pelas portas entreabertas fosse vapor do chuveiro em que as tais mulheres se banhavam, mais algumas questões maiores permaneciam sem resposta: o que levaria as mulheres a tomar banho num bar? Porque permaneceriam peladas depois da ducha? Qual seria a graça de comer frango a passarinho de bunda de fora?”

Quem sabe nossas mulheres do Clube não se reconheçam como pessoas tristes. O mais interessante dos encontros é perceber que essas questões relativas ao “mundo mágico e misterioso da infância” não recebem as respostas certeiras que gostaríamos. Na verdade, elas só fazem procriar questões mais elaboradas. Quem sabe a literatura não seja um meio para continuarmos com essas perguntas tão “ingênuas” e “filosóficas”? E essas questões permeiam, cada vez mais, esses encontros que temos realizado há mais de três anos. Projeto coordenado pelo Departamento de Educação da Companhia das Letras, estendemos o modelo dos Clubes de Leitura, já realizados nas livrarias, para essas instituições totais como a Penitenciária Feminina de Santana, a ONG Aldeia do Futuro, Caps Itapeva, Instituto Criar, Abrigo Maria Maymard, Hospital do Câncer e Biblioteca Mario de Andrade. Sempre que saímos desses eventos, aprendemos muito e fortificamos mais e mais essas indagações que nos acompanham desde a infância. As máscaras sociais caem no convívio com a diferença e a infância volta para amadurecer cada vez mais essas questões sem respostas.

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Pedro Moritz Schwarcz nasceu em São Paulo em 1985. Formado no curso profissionalizante do Teatro Escola Célia Helena, trabalha na Companhia das Letras como assistente do departamento de educação, curador dos Cursos na Companhia e coordenador dos Clubes de Leitura Penguin/Companhia.

Diálogos no sexto encontro de divulgação escolar

Por Patrícia Osse Kanno


Uma das atividades mais importantes e divertidas do Departamento de Educação é a nossa Convenção de Divulgação Escolar. Nesse evento anual reunimos aproximadamente quarenta participantes de vários estados brasileiros. O encontro ocorre em São Paulo, normalmente no mês de julho ou agosto, e inclui muito trabalho. O divulgador escolar tem como objetivo, como diz o nome, dominar o acervo da Companhia das Letras a fim de entender que livros combinam com que escolas. A ideia final é ser um facilitador, apresentado os livros do nosso catálogo para os professores, para que eles, por sua vez, possam aumentar o leque de leituras com os seus alunos.

A necessidade de fazer este tipo de evento surgiu por conta da distância física entre as pessoas que compõem o grupo de divulgadores, o que torna a comunicação nem sempre eficiente. A boa troca de ideias da editora com os divulgadores é essencial e o encontro tem como primeira meta apresentar os livros recém-lançados e com potencial de adoção. No entanto, o que fomos aprendendo, aos poucos, é que outra das vantagens da convenção é a troca de experiências do dia a dia. De um lado, mesmo estando em regiões diferentes, o comportamento dentro do ambiente escolar é bastante semelhante, principalmente se pensarmos nas maneiras de trabalhar com a leitura. Por outro lado, a diversidade também é muito relevante. Dessa maneira, a troca de experiências acaba por proporcionar a criação de novas posturas por parte dos divulgadores, mas também, para nós, aqui da editora, gera uma infinidade de novas ideias.

O evento tem duração de dois dias e geralmente começa na terça-feira pela manhã e termina na quarta-feira no final do dia. Já a produção do evento é bem mais longa: começa com três meses de antecedência e envolve desde a compra das passagens, reserva de hospedagem e restaurantes, agendamento de táxis até a contratação da equipe para servir café. Mas também inclui decisões de conteúdo, como eleger quais livros serão apresentados, quais os autores que serão convidados para conversar com os divulgadores, a elaboração da programação, ou até mesmo a preparação de uma apostila com o resumo dos livros que serão apresentados.

Nossa proposta, no fundo, é disseminar o conhecimento num evento que não seja exaustivo para ninguém; ao contrário, cada vez mais nós e os divulgadores aguardamos a convenção animados por conta da qualidade e da descontração que reina durante esses dois dias. Para garantir esse ambiente profissional e criativo, distribuímos as diferentes palestras com atividades diversas, que vão desde oficinas até bate-papo com autores. Grandes escritores prestigiaram nossa convenção, trazendo um pouco de suas histórias. Entre eles: Mia Couto, Michel Laub, Isabel Lustosa, Ilan Brenman, Alberto Martins, Socorro Acioli e Reginaldo Prandi. Junto com eles, tentamos manter um clima leve sem que com isso se perca a produtividade. O resultado é que o grupo inteiro fica imerso nos livros e na literatura. Estamos na sexta edição da Convenção e o acúmulo de vivências e a intimidade do grupo cresce a cada ano, e torna cada vez melhores os encontros.

Normalmente, o ponto alto do primeiro dia é o anúncio do passeio cultural, nosso momento de lazer que acontece depois do jantar. Todos suspiram! O passeio reaviva nosso lado infantil, pois para transportar um grupo grande como esses, só mesmo um ônibus de viagem, que traz a lembrança das excursões escolares da infância. A programação cultural representa um momento de descontração, onde os diferentes participantes da convenção podem trocar ideias em grupos menores, de acordo com suas afinidades, ou até retomar amizades feitas em anos anteriores. Um participante de Minas Gerais pode descobrir muitos gostos em comum com outro de Goiânia, assim como outras relações são criadas nesses momentos especiais. Ao longo dessas seis edições, levamos o grupo de divulgadores a espetáculos de ballet, a musicais, para assistir um concerto com a orquestra da OSESP a um show de standup. Nessa ocasião, inclusive, tivemos oportunidade de jantar no Bar Brahma, que fica numa das esquinas mais famosas da cidade: Avenida Ipiranga com a São João, como canta Caetano Veloso.

O período mais intenso para a divulgação escolar é o segundo semestre, quando as escolas planejam o que será lido e trabalhado no ano letivo seguinte. É esperado que os divulgadores tenham agilidade no atendimento e nas indicações para análise e para isso só o conhecimento profundo do conteúdo dos livros pode ajudar e funcionar. Quanto mais o divulgador domina as abordagens e as interpretações presentes nos diversos livros, mais eficiente será o trabalho de divulgação, pois de certa forma ele facilitará o trabalho do professor que está sempre com a agenda lotada entre a elaboração das aulas, reuniões, correções de textos e provas. Quanto mais objetivo for o trabalho do divulgador, melhores serão os resultados em termos de adoções. Começar o segundo semestre com uma convenção bem realizada nos motiva, pois esse é o espaço apropriado para a discussão das nossas rotinas e para o planejamento mais afinado sobre os livros que iremos trabalhar.

Na minha primeira convenção, seis anos atrás, fui incumbida de apresentar alguns dos nossos títulos para o grupo lá reunido. Ao me apresentar estava muito nervosa e meu jargão era: “Calma, estou muito nervosa” e todos riam achando que eu estava brincando. De fato estava, pois suava muito e minha mão permanecia fria. Depois desse tempo todo fui criando coragem e o grupo sempre me incentivando e dizendo que minha apresentação tinha sido boa e que a minha fala realmente agregava algo ao trabalho deles. Hoje, depois de tantos anos, me sinto mais tranquila e posso dizer até que sou sem-vergonha.

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Patrícia Osse Kanno é divulgadora escolar no Departamento de Educação da Companhia das Letras desde 2008.

 

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