Janela do Professor

Os mais adotados do semestre

Por Priscilla Joaquim

Professora Magali Witzel Divino com seus alunos do 9º ano do Ensino Fundamental.

Entre as atividades do Departamento de Educação está o trabalho de divulgação das obras da editora aos diversos colégios — públicos e privados — de nosso país. O intuito é não só que o professor escolha um livro do nosso catálogo para o trabalho com seus alunos — ou seja, que o adote —, como também colaborar para a melhor formação escolar e cidadã de uma maneira geral. Há uma série de possíveis razões que fazem com que uma determinada obra seja adotada ou não.

Esse post é, na verdade, uma espécie de abertura para uma atividade que pretendemos rotinizar. Ou seja, a cada semestre pretendemos trazer uma lista dos livros mais adotados, sempre acompanhada do comentário de um professor. Mas queremos mais: buscaremos a partir da nossa lista de livros do semestre, levantar algumas hipóteses acerca das razões que podem explicar essa situação.

Os cinco primeiros títulos do nosso ranking são:

O primeiro dado que chama atenção é a presença de dois títulos que constam das listas de leituras obrigatórias de grandes vestibulares: Capitães da areia e Sentimento do mundo. O fato de serem as edições de bolso a aparecerem dentre as mais adotadas também reforça a hipótese de que estes livros foram selecionados prioritariamente por conta dos vestibulares. (As edições de bolso, por apresentarem preços inferiores às convencionais — embora com a totalidade das obras —, costumam ser as preferidas dos colégios nestes casos de leitura para vestibular.)

Os outros três títulos presentes no ranking têm em comum o fato de não serem lançamentos (os mais recentes foram publicados há mais de seis anos).

O que tal característica pode indicar? Que as adoções por parte dos colégios acontecem a longo prazo.  Temos algumas hipóteses para explicar esse fenômeno:

– Por conta do período de escolha dos colégios: muitos colégios definem suas listas uma vez ao ano, o que significa que, dependendo do período de lançamento de determinado título, ele só aparecerá nas adoções do segundo ano seguinte ao seu lançamento;

– Porque os professores, em geral, sentem-se mais à vontade para trabalhar com obras que conheçam em profundidade — o que costuma levar um certo tempo de maturidade e de intimidade com os livros.

Isto sem mencionar o fato de que muitos colégios definem os temas a serem trabalhados independentemente dos livros. Neste caso, a escolha da obra acontece em um segundo momento, em função do tema — e não o contrário. Então, é preciso também que o livro chegue às mãos certas, no momento certo. Mas isso talvez seja tema para um outro texto.

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Um livro que também está presente no ranking (na 13ª posição) é Eu sou Malala, de Malala Yousafzai. Este título merece destaque porque foge do perfil de quase a totalidade das demais obras do ranking. Diferentemente da maioria dos títulos que lá aparecem, este foi lançado muito recentemente (outubro/2013).

O sucesso deste título junto ao público escolar provavelmente se explique por um conjunto de razões:

– Abordagem de temas extremamente atuais e importantes (conflitos religiosos, intolerância, desigualdade de gênero);

– A história relaciona-se diretamente à questão do acesso à educação — tema caro aos colégios;

– O enredo apresenta acontecimentos reais e recentes, e é contado em primeira pessoa — o que aproxima o narrador do leitor;

– Malala e sua história tiveram grande visibilidade na mídia — também pelo fato de ela ter sido indicada ao Prêmio Nobel da Paz.

A Professora Magali Witzel Divino, que adotou o livro Eu sou Malala para suas turmas de 9º ano do Ensino Fundamental, descreve agora como foi o trabalho com a obra:

“A leitura em si é um passaporte para as viagens mais diversas, onde o viajante ultrapassa as fronteiras da ficção ou mesmo sente a realidade em cada página, sempre acompanhado pelos sentimentos das personagens.

A obra Eu sou Malala fez com que meus alunos deixassem de ser meros leitores e passassem a questionar as vivências da personagem, sofrendo com as diferenças culturais e aceitando-as. Essa leitura em especial, para eles e para mim como professora, é a certeza de que o direito de se comunicar fortalece a existência do ser humano em seu mais íntimo sonho de viver.”

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De uma maneira geral, e analisando o ranking de adoções do 1º semestre de 2014, é possível argumentar que a escolha de livros por parte dos colégios tende a eleger obras já consolidadas no mercado, entre os professores, nos colégios e por vezes dentre os alunos. No entanto, alguns fatores — muitas vezes externos à obra, como observamos: ser indicada como leitura obrigatória nos grandes vestibulares, abordar acontecimentos atuais e que tenham alcançado destaque nos meios de comunicação — influenciam na escolha, o que pode favorecer também títulos novos.

Todavia, independentemente dos critérios considerados na eleição de um livro, o que se deseja é que a leitura seja uma experiência de ampliação. Ampliação do repertório e ampliação do olhar. Do olhar para si e do olhar para o outro. Para que, a partir desse conhecer(-se) e desse reconhecer(-se), tragédias como a que aconteceu com a menina Malala não mais existam.

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Priscilla Joaquim é formada em letras e trabalha como divulgadora escolar na Companhia das Letras desde 2012.


Chave para destrancar

Por Camilla Rillo


Caro Educador,

Um dos grandes prazeres da equipe do departamento de educação — formada por Rafaela, Mariana, Patrícia, Camilla, Priscilla e Michaela —, tem sido indicar para os professores os livros infanto-juvenis publicados pela editora. Mensalmente nos dividimos e cada uma, por afinidade e gosto, escolhe o que vai ler e depois narramos umas para as outras. Nesse processo, acabamos por descobrir livros maravilhosos, que passam a serem lidos  por todas nós. É comum que, de tempos em tempos, elejamos um “queridinho”, que acaba sendo adotado por despertar para questões, temas e sentimentos únicos.

Nessa seção do blog, dividiremos com vocês nossas descobertas! Camilla Rillo, assistente de divulgação escolar, é uma grande detetive na arte de descobrir esses livros tão companheiros quanto queridos: desses que logo viram amigos íntimos. Convidamos você a ler abaixo a reflexão que Camilla fez para o livro Aristóteles e Dante descobrem o segredo do universo, de Benjamin Alire Sáenz.

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Incertezas, silêncio e ausências de respostas compõem um grande vazio no cotidiano de Aristóteles. Sua vida é como um grande dia cinzento, aqueles dias em que tudo que se quer é ficar sozinho e distante de tudo e de todos. Mas como fugir de si mesmo?

Não há como escapar: na verdade, o mergulho foi dado e tudo ocorreu em um dia de verão. O sol nasceu, bateu na janela do quarto, e a vida entrou como uma brisa leve. Aristóteles sem saber nadar vai para a piscina, para boiar em seu tédio. Mas o sol brilhou e Dante surgiu como um raio de luz para ensiná-lo a nadar e é  assim que se inicia a jornada de Aristóteles para o mergulho em si mesmo. Um garoto como Dante, com um jeito tão único de encarar a vida, é peça fundamental para que Aristóteles quebre as barreiras que ele mesmo construiu dentro de si.

Adolescência, amizade, descobertas, temas tão presentes nas nossas vidas, são narrados de uma maneira comovente e delicada. Benjamin Sáenz traz na base de sua história o sentido do amor e do carinho presente nas relações familiares, os quais são tão importantes para esse encontro inesperado com a própria essência de cada um de nós. Tanto Dante quanto Aristóteles têm o amparo de suas famílias e seus pais estão sempre abertos e dispostos a ajudá-los nessa fase tão única e especial da vida de cada um deles.

Aí está um livro muito atual, que relata temas importantíssimos para serem abordados e discutidos na adolescência, uma vez que fazem parte do nosso conturbado e intenso universo juvenil. A agenda é variada: relacionamentos, curiosidade em experimentar cerveja, maconha, masturbação, homofobia. A todos eles o autor oferece um tratamento leve, descontraído e natural. Até a situação de agressão, que Dante sofreu em determinado momento de sua vida, acaba sendo fundamental para que Aristóteles, ao salvar Dante, começasse a desvendar que amor e amizade caminham sempre juntos.

Esses são temas difíceis, mas que precisam ser olhados sem tabus e despidos de preconceitos. São muitos os desafios  que o educador enfrenta para transformar a sala de aula em um espaço de discussão, reflexão e transformação. Mas é só assim que é possível ampliar a percepção e a clareza desses alunos. Esperamos que esses assuntos sirvam como ferramentas para auxiliar os leitores e os educadores empenhados na construção das várias identidades que vamos inventando, para nós mesmos, e como parte do processo complexo, demorado e sempre contínuo do autoconhecimento.

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Camilla Rillo é assistente de divulgação escolar no departamento de educação da Companhia das Letras.

Clubes de Leitura: conexão em rede, remição de pena e outras histórias

Por Janine Durand


Há quatro anos, quando começamos o projeto dos clubes de leitura, tínhamos o desejo simples de abrir espaço para o compartilhamento de ideias, para a escuta e o diálogo tendo o livro como razão principal desse encontro. O maior desafio, no entanto, era fazer com que as pessoas se juntassem aos clubes não apenas uma, duas vezes, mas que transformassem um encontro casual e circunstancial num ritual que se repetiria a cada mês, mas que seria único como todo encontro com o outro deve e pode ser.

O primeiro passo seria construir uma ponte entre as pessoas e os livros, e neste sentido a presença de um mediador de leitura era estratégico e fundamental. Era ele que daria o tom descontraído e acolhedor (e para tanto precisava ser um leitor de livros e de gente), ao mesmo tempo em que o mediador se comportaria como a figura central no sentido de equilibrar os tempos de fala (é, às vezes tem gente que se empolga e nem percebe que falou 20 minutos sem parar…). O mediador também precisava ser um bom “perguntador”, aquecendo e ampliando os debates (sem nunca fechar a discussão).

Os ingredientes para os clubes: cadeiras em círculo, mediadores bem escolhidos, leitores abertos ao encontro, livros selecionados com cuidado, parceiros comprometidos (livrarias, bibliotecas, ONGs e institutos, penitenciária, escolas, clubes, entre outros) e uma equipe leitora e empolgada fizeram deste projeto um projeto permanente da Companhia das Letras. Atualmente, o Programa de Clubes de Leitura reúne cerca de 800 pessoas, em 50 clubes de leitura que ocorrem mensalmente em 12 cidades brasileiras. Isso é ainda pouco para um Brasil que não é considerado leitor, mas representa sem dúvida um bom incentivo se pensarmos que são 9600 leituras realizadas por ano.

Dois grandes acontecimentos marcaram o Programa no mês de abril:

O primeiro foi a vinda dos nossos 50 mediadores para o II Encontro de mediadores de clubes de leitura, nos dias 15 e 16 de abril; encontro esse que contou com a presença de Mia Couto, Milton Hatoum e Lilia Schwarcz. Além do diálogo profundo e sensível com os autores convidados, o evento fortaleceu nossa conexão em rede e aguçou o sentimento de estarmos todos trabalhando num programa democrático de acesso e incentivo à leitura. Além do mais, a atividade revelou como a aparente ação solitária de cada mediador está, na verdade, apoiada por uma rede que a partir de novos diálogos amplia suas possibilidades de criação e ação.

O segundo acontecimento, tão importante quanto o primeiro, foi anunciado no dia em que fizemos um encontro especial com Juan Pablo Villalobos, autor de Festa no Covil, livro selecionado pelas detentas da Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Apoiamos e mediamos este clube há quase três anos, e ele foi escolhido, pela diretoria de educação desta penitenciária, para ser o projeto piloto na implementação da lei de remição de pena pela leitura. Esta lei, aprovada em 2013, prevê que um livro lido mensalmente pode diminuir em quatro dias a pena do leitor, abrindo a possibilidade aos detentos que queiram ler doze livros em um ano, de ter sua pena diminuída em quarenta e oito dias. Entendemos que esta aprovação é um avanço inestimável aos detentos e à sociedade, pois ao colocar a educação e o livro no centro de um processo de remição, além do estudo e do trabalho, atribui valor ao que de fato pode resultar numa experiência transformadora. Nossa aposta é que o livro abre portas para as relações entre real e simbólico, interpretações, metáforas, aquisição de linguagem e ampliação de repertório, e a participação nos clubes de leitura, além da sensação de pertencimento a um espaço de fala e escuta, incentiva a ressignificação de ações cotidianas e possibilita a conquista progressiva de protagonismo e autonomia dos participantes, tão importantes para a consciência coletiva e cidadã. Assim, não faltaram razões para que, num clima de emoção e felicidade entre diretoria de educação penitenciária, mediadoras, autor e participantes, tivéssemos uma das reuniões mais marcantes deste clube de leitura sempre tão especial!

Adoraria contar mais sobre a lei da remição, acerca dos nossos clubes de leitura sociais, do projeto de voluntariado, ou mesmo outras histórias lindas sobre leitores que vem me emocionando nos últimos quatro anos. Isso sem esquecer da minha própria experiência como mediadora. Mas não seria possível, nem valeria a pena, inundá-los, de uma vez só, com tantos assuntos.

Me despeço, assim, com uma citação de A sociedade da neve, de Pablo Vierci, livro debatido inúmeras vezes nos clubes, e que gosto infinitamente: “Éramos um grupo, e o objetivo era que cada um fizesse a sua tarefa, sem que nenhum líder ou semideus precisasse emitir ordens. Se havia algo ausente na sociedade da neve, era a ideia de protagonismo. Esta é, afinal, a sensação que tenho quando penso nos clubes de leitura.

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Janine Durand é pedagoga e coordena o Núcleo de Incentivo à Leitura do Departamento de Educação da Companhia das Letras. Além disso, gosta de sentar em círculo.

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