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Links da semana

Na quinta-feira passada aconteceu o lançamento de Cachalote em Porto Alegre, na Palavraria. O blog da livraria postou fotos do evento, e o blog de Ronaldo Bressane tem uma entrevista com os dois autores sobre o processo de criação da HQ. O artista Rafael Coutinho fez um pôster inspirado em Cachalote, que pode ser adquirido no site do Estúdio Elástico. O próximo lançamento será em Curitiba, no dia 14.

Para aqueles que gostam de capas de livros, o blog Caustic Cover Critic reúne diversas capas que seguem o mesmo estilo, ou que usam abordagens diferentes para ilustrar temas semelhantes. Mas se você prefere pensar em onde guardar seus livros, veja o Bookshelf Porn, com várias fotos de estantes diferentes, de todos os tamanhos e estilos.

Foi divulgado um novo cartaz do filme de Scott Pilgrim. Se você for como o Scott, que prefere jogar a trabalhar, veja os cadernos da Trapped in Suburbia Design, com páginas que, quando amassadas, viram bolas basquete, futebol e outros esportes.

O blog Depois da última página tem uma resenha de O caminho para Wigan Pier, último título de George Orwell lançado pela Companhia. Este mês será lançado A vitória de Orwell, um ensaio sobre os mitos criados em torno do autor de 1984. A má notícia é que o autor do ensaio, Chistopher Hitchens, que também escreveu Cartas a um jovem contestador, cancelou a turnê de lançamento de seu último livro para se tratar de um câncer no esôfago.

No Twitter algumas pessoas estão brincando de inventar #stieglarssonclassics: livros clássicos com títulos adaptados para o formato usado pelo autor da trilogia Millennium. Alguns exemplos são Lolita (The girl who wasn’t old enough for a dragon tattoo) e Hamlet (The girl who loved the manic-depressive prince of Denmark).

Henning Mankell, compatriota de Stieg Larsson e também autor de romances policiais, teve seu título O guerreiro solitário lançado recentemente. O blog O queijo e os vermes fala sobre o autor e resenha seu primeiro título lançado no Brasil, Assassinos sem rosto.

Aliás, Assassinos sem rosto e vários outros títulos policiais da Companhia estão com desconto de até 40% até 31 de agosto.

Seguindo o exemplo da Amazon e da Barnes & Noble, a Sony também abaixou o preço de seus e-readers. E no Brasil, a Saraiva entrou recentemente no mercado de e-books. Mas, por mais que a tecnologia da leitura digital tenha avançado nos últimos anos, a leitura em papel ainda é mais rápida que no Kindle ou no iPad.

A Petrobras avisa que está com inscrições abertas para seleção pública de patrocínio a projetos culturais.

A revista eletrônica Opperaa fez uma boa resenha de Invisível, de Paul Auster, e o escritor Martin Amis conseguiu cancelar a publicação de uma biografia com a qual não concordava.

Para terminar, o expert em estudos midiáticos Henry Jenkins colocou em seu blog uma entrevista em três partes com Joe Saltzman, jornalista premiado e professor da University of Southern California, responsável por um estudo muito interessante sobre a imagem dos jornalistas na cultura popular. A base de dados, que pode ser consultada online, já tem mais de 75 mil exemplos de figuras de jornalistas em livros, filmes, músicas e outros, que vão muito além de Tintim e Todos os homens do presidente.

Links da semana

No dia 16 de junho nós organizamos um encontro com blogueiros, para falar um pouco da nossa proposta e ouvir o que vocês tinham a dizer sobre o nosso blog até agora. Anotamos todas as críticas e sugestões (que vocês sempre podem nos mandar por e-mail ou escrever nos comentários). Algumas mudanças já apareceram, como a participação de editores contando sobre os livros em que estão trabalhando, e outras ainda estão planejadas.


Encontro de blogueiros

Todas as quartas-feiras, por exemplo, passaremos a colocar links de posts legais de outros blogs, e algumas notícias que acharmos interessantes.

Para começar, veio à tona a notícia de que John Updike deixou um extenso arquivo sobre seus trabalhos. Este mês a Companhia lançou dois livros do autor: As bruxas de Eastwick (em versão pocket) e sua continuação, As viúvas de Eastwick, e você pode ler sobre os dois no blog Devoradora de livros.

No dia 16 foi comemorado o Bloomsday, em homenagem ao livro Ulysses, de James Joyce. Para comemorar a data, o Daily Beast montou uma lista de livros que são considerados os equivalentes ao Ulysses em suas culturas, e o escolhido do Brasil foi Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Para aqueles que ainda estão se acostumando com as novas tecnologias, duas novidades: o fabricante dos cadernos Moleskine criou uma capa especial para o Kindle, que, além de proteger o e-reader, tem um bloco para aqueles que preferem fazer suas anotações em papel. Já os saudosistas das máquinas de escrever podem adaptar suas máquinas para funcionarem como teclados eletrônicos, que podem ser usados via USB em computadores, laptops e até mesmo no iPad. Mas se você já se adaptou ao mundo da leitura digital, saiba que tanto a Amazon quanto a Barnes & Noble abaixaram o preço de seus e-readers.

Em resposta à lista da New Yorker dos 20 escritores americanos abaixo dos 40 anos que a revista acredita que merecerem atenção, o Telegraph divulgou uma lista semelhante com autores britânicos.

Alguns dias antes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciar os detalhes da venda de ingressos para o festival, os organizadores da Feira de Frankfurt divulgaram que o Brasil será o país homenageado da feira de 2013. A expectativa é que o foco na literatura brasileira estimule traduções dos autores do país no exterior.

O blog Leia Livros! traz uma resenha legal do infantil O livro da dança, da professora e crítica de dança Inês Bogéa, e o site Publishing Perspectives tem um texto bonito e interessante sobre o trabalho de um tradutor cego, que não abandonou seu trabalho apesar de suas dificuldades.

Para terminar, os leitores de Scott Pilgrim podem criar avatares à sua imagem no Scott Pilgrim Avatar Creator, com direito a status iguais ao usados no quadrinho e trilha sonora de videogame.

Jornal português homenageia José Saramago

O jornal português Público organizou uma homenagem a José Saramago, com cronologia, entrevistas e depoimentos de diversas pessoas. Entre elas estão Gonçalo M. Tavares, Fernando Meirelles e alguns parentes de Saramago. Abaixo você lê um trecho do texto do escritor moçambicano Mia Couto. Todos os depoimentos podem ser lidos no site do jornal.

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Universidade de Évora, 1999

O abraço estava mal distribuído. Ele abraçou-me. Eu fui abraçado. A razão dessa troca desigual não era apenas de ordem física. Eu estava preso pela timidez, vivendo um momento inusual, num território estranho. A pergunta de Zeferino Coelho, no dia anterior, ainda ecoava confusamente dentro de mim:

– Você importa-se que José Saramago, depois da entrega do seu prémio, faça um debate público consigo?

O editor da Caminho conhecia antecipadamente a minha resposta: ter Saramago na cerimónia de entrega de um prémio era a impossível cereja por cima de um improvável bolo. Embalsamado num fato escuro, fui subindo a escadaria do edifício da universidade. E lá estava ele, no último degrau, com seu porte nobre, abraçando-me logo à chegada como se fosse ele o patrono do prémio. Para mim, aquele abraço era uma recompensa maior.

O programa era breve e, num instante, se iniciou a anunciada conversa entre mim e ele. O anfiteatro estava cheio, no pódio estava o Presidente da República de Portugal. A um certo momento, em tom paternal mas ríspido, Saramago admoestou-me: eu que deixasse essa “coisa” da biologia e me dedicasse apenas à escrita. Lembro-me do seu tom, peremptório: “Já te disse, a escrita pede tudo, não aceita partilhas.”

Mas eu sabia que, também para ele, essa entrega à literatura não o ocupava com exclusividade. Saramago foi um cidadão do mundo, entregue a causas e debates, desdobrando-se em viagens e semeando presenças. Recordo ver uma fotografia sua, já doente e antevendo o fim, acarinhando Aminatou Haidar, activista pela independência do Sara Ocidental. Em greve de fome, Aminatou está frágil, quase desfalecida. Não menos frágil está José Saramago. Mas as mãos de José e de Aminatou amparando-se mutuamente geram a força de um infinito abraço.

Chico Buarque comenta a morte de Saramago

“Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa.” — Chico Buarque para o blog da Companhia.

Saudade não tem remédio

Por Luiz Schwarcz

Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na internet, liguei pelo skype para Pilar, que sem que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação, o destino de José já estava traçado, os médicos não acreditavam mais na possibilidade de um novo milagre, como o do ano passado, quando venceu, contra todas as expectativas, os problemas pulmonares que o acometiam.

Posso dizer que José Saramago era um grande amigo meu e da minha família. Quando vinha ao Brasil hospedava-se em minha casa, no quarto que foi da Júlia, minha filha. Ele detestava hotéis. Viu meus filhos crescerem. Fui conhecer sua casa em Lanzarote logo que se mudou com Pilar, abandonando Portugal. Assisti emocionado a cerimônia do Nobel em Estocolmo — pouco antes, no hotel, aprovamos, Lili e eu, o vestido de Pilar para o evento. Estava em Frankfurt quando ele recebeu a notícia do prêmio; celebramos juntos.

(Foto por Renato Parada)

A obra de Saramago veio para a Companhia das Letras por acaso. No fim da feira de Frankfurt de 1987 (no segundo ano de vida da editora), ao me despedir de Ray-Gude Mertin, uma amiga pessoal e agente literária de muitos autores brasileiros, comentei que José era dos meus autores favoritos. Conversa à toa, de fim de feira. Não fazia ideia de que ela representava o escritor português, junto com a editora Caminho, e que estava para mudar Saramago de editora no Brasil. Atrasei minha partida e voltei, com a bagagem no porta-malas do táxi, para falar com Zeferino Coelho sobre a Companhia das Letras.

Foi tudo muito rápido, Jangada de pedra foi o primeiro livro, lançado em abril de 1988 com a presença do autor no Brasil, junto com Pilar, jornalista que conhecera em 1986 e que mudou tanto a sua vida. A empatia foi imediata, apesar da minha gafe inicial — perguntei-lhe em plena praia de Copacabana se era verdade que, em Portugal, Psicose, de Hitchcock, fora intitulado O filho que era mãe, e Vertigo, A mulher que morreu duas vezes.

Em seguida fui a Lisboa. Já éramos bem amigos, ele queria me mostrar o novo livro que escrevia. Em sua casa, na rua dos Ferreiros à Estrela, José leu trechos de A história do cerco de Lisboa, e me levou para jantar no seu restaurante favorito, o Farta Brutos. Pilar foi minha guia de Lisboa na ocasião, reservou o hotel num velho convento na rua das Janelas Verdes, e mostrou os locais que aparecem no meu livro favorito de Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis. Comprei com Pilar o primeiro computador de José. Antes disso, ele datilografava três vezes cada livro para entregá-lo completamente limpo a seus editores.

No Brasil, o lançamento de Jangada de pedra foi uma festa interminável. Filas enormes na livraria Timbre e a efusão de beijos e abraços no escritor fizeram-no exclamar, “Luiz, esta gente quer me matar de amor”. Daí para frente, esse amor dos brasileiros por José Saramago só cresceu, suas visitas se tornaram mais frequentes, e vários dos últimos livros lhe ocorreram em viagens pelo país, nas quais estávamos juntos. Lembro-me ao menos de três ocasiões em que isso aconteceu. A mais recente delas foi em sua última estada no Brasil, quando da publicação de A viagem do elefante, livro que José resolveu lançar mundialmente aqui, em novembro de 2008, como presente ao carinho e aos amigos brasileiros. Ele já estava muito fraco, e a viagem era mesmo uma ousadia. Ao chegar em minha casa, numa das nossas primeiras conversas, me disse que não escreveria mais, estava se sentindo velho e cansado.

Depois do evento de lançamento no SESC Pinheiros, vencida uma fila enorme de autógrafos — Saramago nunca recusava autografar, nem mesmo doente —, fomos ao Rio, para a continuidade dos eventos. Ao pousarmos na cidade, enquanto eu recolhia as bagagens, José anunciou para mim, Lili e Pilar, que decidira voltar a um velho projeto e que no voo achara a solução que faltava para Caim, que acabou sendo seu último livro.

Eu poderia contar outras tantas histórias aqui. Poderia até falar das nossas discordâncias, de uma discussão amigável que tivemos, sentados no alto do Bauzinho, em São Bento do Sapucaí, olhando para o horizonte da Serra da Mantiqueira, que nós dois adorávamos. Mas o espaço é curto: um blog, mídia que Saramago curtiu muito antes que eu. Em outro momento, quem sabe. Agora só quero me despedir mais uma vez de José. Com as melhores lembranças, o amor, e minha saudade. Maldita palavra, tão portuguesa, que agora ficará associada ao meu amigo. Mas saudade não tem remédio, não é, José?

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras.

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