Outros

“Eu entrevisto as pessoas mais simples, aquelas pessoas que silenciosamente caem no esquecimento”

Assista ao encontro com a Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch que aconteceu em São Paulo logo após sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty.

Svetlana foi uma das autoras que mais se destacaram no evento em Paraty, falando sobre as histórias emocionantes que recolheu para escrever seus livros, dois deles já publicados pela Companhia das Letras no Brasil: Vozes de Tchernóbil e A guerra não tem rosto de mulher. No primeiro, ela narra, através das vozes de centenas de entrevistados, as consequências da tragédia nuclear de Tchernóbil, ocorrida há 30 anos. Já no último livro lançado aqui, a jornalista apresenta um lado pouco conhecido da Segunda Guerra Mundial, narrado pelas mulheres que lutaram pela União Soviética. A Companhia das Letras ainda publicará mais duas obras de Svetlana Aleksiévitch.

Literatura e mulher: essa palavra de luxo

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Ana Cristina Cesar em 1976. Foto: Cecilia Leal

Em 1979, Ana Cristina Cesar publicou na revista Almanaque 10: cadernos de literatura e ensaio, editada pela Brasiliense, o texto “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”. No ensaio, a poeta carioca analisa livros de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, discutindo o que seria a “poesia feminina”, o lugar que a mulher ocupa no meio literário e qual a percepção de sua obra por críticos e leitores. O texto é publicado agora na nova edição de Crítica e tradução, volume que reúne textos críticos e ensaios de Ana Cristina Cesar sobre cinema, literatura e outros assuntos, além de suas grandes traduções, como a do conto Bliss, de Katherine Mansfield. Como diz Alice Sant’Anna no prefácio desta edição, Ana C. aponta como “a mulher ideal dos poemas, essa mulher antiquada, trata sempre do Belo, etéreo, sublime, com nobreza e uma boa dose de pudor”, enquanto em sua poesia “Ana trata justamente de desconstruir a perspectiva da mulher bem-comportada, elevada, perfeita”.

Leia a seguir um trecho de “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”.

* * *

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama de Baudelaire
Isabel Câmara

I.
— Haverá uma poesia feminina distinta, em sua natureza, da poesia masculina? E no caso de existir essa poesia especial, dever-se-á procurar nela caracteres tais como uma sinceridade levada até o exibicionismo, uma sexualidade que nada mais é do que o desejo de se fazer amar pelos leitores? Poder-se-ia dizer que o homem é mais intelectual ou então se aprofunda mais? Será preciso ligar o sentido da experiência interior a um caráter essencialmente feminino? Poder-se-ia dizer que o apegamento ao real seja uma das características do homem em oposição à mulher?

II.
— Faça uma enquete tipo Globo Repórter. Saia à rua e pergunte aos pedestres: o que é poesia; o que é mulher; e mulher fazendo poesia, fala de quê. As respostas vão configurar o senso comum do poético e do feminino. Surgirão algumas imagens que se convencionou chamar da natureza e considerar belas. O cancioneiro popular. Perfume, pérola, flor, madrugada, mar, estrela, orvalho, pólen, coração. Tépido, macio, sensível. E em aparente contradição: inatingível, inefável, profundo. A velha contradição que os românticos não conseguiram resolver. Mulher é inatingível e sensual ao mesmo tempo. Carne e luz. Poesia também. O poético e o feminino se identificam.

Passemos agora para o campo erudito. Estou escrevendo a propósito de dois livros de mulheres famosas: Flor de poemas, de Cecília Meireles, e Miradouro e outros poemas, de Henriqueta Lisboa. Os dois da Nova Fronteira e, a julgar pelas edições, vendendo bem. São livros de escritoras consagradas; antologias com notas editoriais, prefácios de professores universitários, biografias, bibliografias. O prefácio a Cecília: “Poesia do sensível e do imaginário”. O prefácio a Henriqueta: “Do real ao inefável”.

O título dos prefácios já encaminha a leitura dessas poetisas: imagens estetizantes, puras, líquidas. Tudo aqui é limpo e tênue e etéreo. A dicção e os temas devem ser belos: ovelhas e nuvens. Falando ou de preferência se insinuando sobre o segredo das coisas ocultas. Intimidade, dom mágico, pudor, meios‑tons, surdina, véus, nuance. O ocluso, o velado, o inviolado. A tentativa de “apreensão da essência inapreensível” das coisas. A função tradicional da poesia (de mulher?): “elevação” além do real. Tons fumarentos. Nebulosidades. Reflexos crepusculares. Luz mortiça, penumbra. Belezas mansas, doçura. Formalmente, uma poesia sempre ortodoxa, que passou ao largo do modernismo. Um temário sempre erudito e fino. Cecília é considerada “a única figura universalizante do movimento modernista” ao afastar-se dos “vícios expressivos, do anedótico e do nacionalismo” que subsistiam em quase todos os poetas de então. Henriqueta insiste numa poesia metonímica, de interiorização, aprofundamento, abstração, em que a natureza aparece em flocos, resíduos, gotas de orvalho, voz de luar, chuva triste, espuma entre os dedos, pássaro esquivo, bolhas desvanescentes. Movimento: elidir o visível. Dissolver. Abstrair.

A apreciação erudita da poesia dessas duas mulheres se aproxima curiosamente do senso comum sobre o poético e o feminino. Ninguém pode ter dúvidas de que se trata de poesia, e de poesia de mulheres. Não quero ficar panfletária, mas não lhe parece que há uma certa identidade entre esse universo de apreensão do literário e o ideário tradicional ligado à mulher? O conjunto de imagens e tons obviamente poéticos, femininos portanto? Arrisco mais: não haveria por trás dessa concepção fluídica de poesia um sintomático calar de temas de mulher, ou de uma possível poesia moderna de mulher, violenta, briguenta, cafona onipotente, sei lá?

A crítica constituída se divide em relação às poetisas: uns veem na delicadeza e na nobreza de sua poesia algo de feminino; outros silenciam qualquer referência ao fato de que se trata de mulheres, como se falar nisso fosse irrelevante ante a realidade maior da Poesia. Seria possível superar essas atitudes críticas? Pensar na recepção da poesia consagrada de mulher como instância organizadora de um universo naturalmente feminino. Suave. O natural: onde as imagens estetizantes ecoam o senso comum do poético e do feminino.

* * *

O ensaio completo você encontra em Crítica e tradução, publicado pela Companhia das Letras, que já está nas livrarias.

A Liga

Por Claudia Rosenberg Aratangy

Liga das universidades 1

Encontro da Liga das faculdades Leitoras.

É uma Liga, mas não é a da Justiça. É formada por heróis com superpoderes? Não, mas tem encantamento e magia, emoção e aventuras.

Um grupo de cinco faculdades – Faculdades Campos Salles, Faculdade de Ciências Contábeis e de Administração de Empresas (FACCAT), Instituto Singularidades, Faculdades Sumaré e Universidade Cruzeiro do Sul (UnicSul) – montou, cada qual no seu campus, um Clube de Leitura em parceria com a Companhia das Letras. Este grupo é chamado de Liga das Faculdades Leitoras. Cada Clube, formado por alunos de Pedagogia ou de Licenciaturas (portanto, futuros professores), é mediado por uma professora amante da literatura. Na companhia de livros cuidadosamente selecionados, os Clubes tiveram, desde setembro passado, seis encontros, nos quais cada um dos seis livros foram lidos.

A curadoria foi feita por Luci Ana Santos da Cunha, da Campos Salles; Luciana Ferreira Leal, da FACCAT; Alcione Muterle, do Singularidades; Maria Elena Roman, da Sumaré; Silvia Valéria Vieira, da UnicSul; Rafaela Deiab e Janine Durand, da Companhia das Letras e Claudia Aratangy e Luciana Gerbovic, da Literária Consultoria. Foram escolhidos títulos de gêneros variados, diferentes nacionalidades e categorias (humor, drama, aventura, romance). Os escolhidos foram:

As avós, de Doris Lessing;

Persépolis, de Marjani Sartrapi;

Eles eram muito cavalos, de Luiz Ruffato;

A vida do livreiro A. J. Fikry, de Gabrielle Zevin;

Três vezes ao amanhecer, de Alessandro Baricco e

Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos.

Os participantes da Liga puderam ler os seis títulos, pagando apenas por um , uma vez que os custos foram divididos entre todos igualmente e os livros rodiziaram entre as faculdades.

A experiência foi marcante e transformadora. Aleni dos Santos Pereira, participante do Clube de Leitura da Sumaré, relata como o Clube mudou sua forma de encarar a leitura: “Eu gostava só de romance. Mas eu tive uma outra visão, quando começou o Clube. Ler um livro e ter a possibilidade de ver a minha visão e a visão das outras pessoas é muito gratificante”.

No sábado, dia 4 de junho, para encerrar o primeiro ciclo de leituras da Liga, todos os participantes foram convidados a participar de um evento especial no auditório das Faculdades Sumaré.

Na abertura, além das boas vindas do diretor da Sumaré, Ramón Vilarinho, e da mediadora, Maria Elena Ramón, anfitriões do evento, os participantes e representantes de cada faculdade deram seu depoimento.

Aline, da Faculdades Sumaré, ressaltou como a discussão coletiva mudava sua impressão sobre a leitura feita: “Esses momentos de conversas sobre o livro lido eram realmente sensacionais, pois até os livros que eu afirmava não ter gostado, sentia vontade de ler novamente e acabava concluindo que havia gostado da leitura“.

Adriana, da FACCAT, destacou o quanto tem sido gratificante ler e comentar as leituras com amigos e familiares. Adriana Calabró, do Singularidades, definiu a literatura como um grande exercício de empatia: “Quando o autor escreve, ele entra no mundo dos personagens e no mundo dos leitores; depois, é o leitor que entra no mundo do autor e no dos personagens, e com eles vibra, se emociona… E o Clube de Leitura nos dá mais uma oportunidade de empatia, pois cada um entra no universo da leitura do outro”. Marina Moreira Santos, da Campos Salles, destacou que “foi um desafio, mas as leituras nos encantaram. Além disso, a gente não ensina o que não sabe, então você só pode ensinar os seus alunos a gostar da leitura se você for capaz de ler, de gostar e se encantar”. Para Giovanna Held, das Artes Visuais, integrante da UnicSul, o Clube, além de permitir uma “fuga” das tradicionais leituras de estudo da faculdade, permitiu a “experiência de compartilhar os diferentes pontos de vista que cada um tinha de cada livro, foi muito prazeroso pra todos nós”.

Na sequência, houve uma conversa por Skype com Juan Pablo Villalobos, que começou falando sobre o processo de escrita de Festa no covil. Ele surpreendeu a todos ao revelar que, inicialmente, pretendia escrever uma história infantil. Os participantes perguntaram sobre detalhes do enredo, sobre as escolhas do autor relativas ao tema e sua abordagem, suas influências literárias e, por fim, sua opinião a respeito da importância da formação de leitores, não só para os professores, mas para qualquer pessoa: “Tenho certeza que, não só os professores, mas um matemático, um engenheiro, um médico, seriam melhores se tivessem um bom conhecimento da tradição literária. Porque as grandes questões da existência e as grandes questões da nossa história, os grandes desafios que temos como seres humanos, estão na nossa literatura. Tenho certeza de que esses empresários, executivos, políticos, etc., poderiam tomar decisões melhores se tivessem um bom conhecimento da nossa literatura”.

O último momento do evento foi em salas de aula, nas quais, em grupos menores, os participantes de cada faculdade puderam compartilhar uns com os outros o que foi a experiência do Clube.

Todos, sem exceção, destacaram o quanto aprenderam e se transformaram ao longo dos encontros. Alguns confessaram que sequer gostavam de ler ao ingressar no Clube, mas que isso mudou radicalmente.

A Liga continuará e com novos participantes. Muitos dos integrantes deste primeiro Ciclo estão se formando e deixarão o Clube. De qualquer forma, já não são mais imunes aos poderes de uma boa história e, como heróis e heroínas, seguirão difundindo o gosto pela leitura pelas escolas e lugares por onde passarem.

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Claudia Rosenberg Aratangy graduou-se em Educação Física pela USP, especializou-se em Dança-educação no Goldsmiths College de Londres, fez MBA em gestão de projetos na FGV e atualmente cursa Direito no Mackenzie. Elaborou, implantou e fez a gestão de diversos programas e projetos de educação e leitura na área pública — dentre eles Programa Ler e Escrever, o Projeto Bolsa Alfabetização e o Cultura é Currículo. Pertenceu à equipe de elaboração dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), coordenou uma série de programas de TV na TV Escola, foi da equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e também Diretora de Projetos Especiais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), onde implantou o Clube de Leitura do projeto Premier Skills, entre outras ações ligadas à difusão da leitura. Atualmente dá consultoria em projetos de leitura, em um projeto de investigação didática, para o Instituto Arte na Escola e também para a Comunidade Educativa CEDAC. Escreve de vez em quando no blog  Peixe grande – pequenas histórias.

As novas cores do Império Russo

14b As novas cores do Império Russo - crédito  (Imagem da coleção Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii, da Biblioteca do Congresso)

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii Collection/Library of Congress

Dorrit Harazim é uma das mais célebres e respeitadas jornalistas do Brasil, com passagem por publicações como as revistas piauí, Zum Veja. Agora, pela Companhia das Letras, lança o seu primeiro livro, O instante certo, que reúne textos em que conta as histórias de algumas das mais célebres fotografias já feitas. Com o olhar voltado para os aspectos humanos das imagens, Dorrit enxerga para além de jogos de luzes e sombras, mirando sempre nas narrativas que as fotografias por vezes revelam e por vezes ocultam.

O instante certo será lançado amanhã, dia 22 de junho, no Rio de Janeiro (Livraria Argumento, 19h). Leia a seguir um trecho do livro em que Dorrit fala das fotografias de Sergei Prokudin-Gorskii, que registrou em cores paisagens e pessoas da Rússia.

* * *

Raras vezes o título de um livro foi tão feliz. Nostalgia, o volume de 320 páginas com imagens laboriosamente captadas pelo fotógrafo russo Sergei Prokudin‑Gorskii no início do século XX, é uma experiência quase sensorial. Ele faz renascer um regime moribundo — no caso, o vasto império do czar Nicolau II — em todo o seu esplendor e dimensão.

Lançado em Berlim na derradeira edição do Mês Europeu da Fotografia de 2013, Nostalgia (editora Gestalten) veio preencher a última lacuna — uma versão em livro da monumental obra do pioneiro da cor. Tornou‑se assim possível apreciar também em papel impresso imagens que até então só podiam ser admiradas on‑line ou precisavam ter os negativos em lâminas de vidro projetados em alguma superfície.

Em se tratando de Prokudin‑Gorskii, nem poderia ser diferente. Tudo na trajetória desse cientista‑inventor da era pré‑Revolução Bolchevique é incomum, empolgante e sobretudo lento. A começar pela milagrosa ressurreição digital de sua obra pela Biblioteca do Congresso americano, que levou mais de meio século para ser realizada.

Sergei Mikhailovich Prokudin‑Gorskii pertenceu a uma das antigas famílias da nobreza russa cujos ancestrais serviram o país por cinco séculos. Só no XIX haviam participado da derrota para Napoleão em Austerlitz, da desforra na Guerra Patriótica de 1812 e da Guerra da Crimeia. Os interesses do jovem Sergei, contudo, passavam longe de qualquer farda. Embora tivesse estudado física, matemática e química, além de ter cursado a Academia Imperial de Medicina, sua curiosidade maior era pela fotografia, então ainda uma arte e ciência em construção.

Ele tinha apenas dois anos em 1861, quando o físico inglês James Clerk Maxwell realizou seu histórico experimento de três filtros com que obteve a primeira imagem fotográfica colorida. Era precária, porém revolucionária. Ao longo das quatro décadas seguintes os melhores profissionais europeus, inclusive Prokudin‑Gorskii, que já se tornara fotógrafo com estúdio próprio, se desdobraram em experimentos para obter uma gama de cores mais naturais, com nuances intermediárias.

Prokudin‑Gorskii foi o mais arrojado deles. Graças aos conhecimentos de química, produziu uma emulsão ultrassensível para a fixação de cores em lâminas de vidro e encomendou a fabricantes alemães uma câmera específica que atendesse a suas necessidades.

Tinha em mente um projeto quixotesco: documentar toda a diversidade natural, arquitetônica e etnográfica do Império Russo. Queria viver da venda de cartões‑postais coloridos que retratassem a imensidão do país.

Faltava‑lhe apenas o essencial: dinheiro para a empreitada.

Foi salvo por Liev Tolstói. Na primavera de 1908, por ocasião dos oitenta anos do já na época mundialmente cultuado autor de Guerra e paz e Anna Kariênina, Prokudin‑Gorskii obteve permissão para fotografá‑lo em sua propriedade de Yasnaya Polyana, perto de Tula.

Levou exatos seis segundos para fazer o único retrato em cores existente do escritor, que morreu dois anos mais tarde. Nele, Tolstói mais se assemelha a um patriarca do Velho Testamento que ao homem que Nicolau II no fim da vida chamou de “gênio do mal”. Reproduzido milhares de vezes desde então — em forma de cartão‑postal, pôster, páginas de revista ou jornal —, o instantâneo é o mais famoso retrato de um personagem da história da Rússia.

Maksim Górki, compatriota e admirador de Tolstói, assim descreveu a foto ao vê‑la pela primeira vez: “Lá está ele, como um deus. Não um deus do Olimpo, mas o tipo de deus russo que senta num banco de carvalho sob um limoeiro dourado. Não muito majestoso, porém mais astuto do que todos os outros deuses”.

O retrato de Tolstói e algumas fotografias que Prokudin‑Gorskii captou em curtas viagens ao mar Negro, Crimeia e Turquestão, abriram‑lhe as portas das cortes europeias e dos salões dos Romanov em Copenhague. Aproveitando‑se de uma audiência com Nicolau II, então imperador e autocrata de Todas as Rússias, o fotógrafo decidiu expor ao monarca seu ousado projeto: percorreria os domínios czaristas ao longo de dez anos, numa expedição que o levaria do Ártico à fronteira com a China. No final, a nação estaria documentada em 10 mil fotos.

O czar, ele próprio um fotógrafo amador, foi fisgado pela proposta. Além de atender à sua vaidade pessoal, a empreitada teria um propósito educativo — em cada escola elementar seria instalado um projetor, e os alunos teriam a oportunidade de conhecer a riqueza e as belezas nacionais em toda a sua vastidão e diversidade.

Antes de partir em campanha, o intrépido explorador obteve autorização para circular por áreas de acesso restrito a civis. Nicolau II também lhe cedeu um vagão transformado em câmara escura e laboratório que foi sendo acoplado aos trens utilizados para cruzar o dilatado território russo.

Durante os dois primeiros anos Prokudin‑Gorskii mapeou a região industrial dos Urais, percorreu toda a extensão do rio Volga, enfronhou‑se pelo território da histórica Batalha de Borodino e fez duas expedições pela província Transcaspiana. Nos anos seguintes, outros rumos, novos mapas, mais fronteiras reveladas.

14c_As novas cores do Império Russo - crédito (Imagem da coleção Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii, da Biblioteca do Congresso)

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii Collection/Library of Congress

As imagens coletadas iam de castelos a catedrais, trabalhadores do campo a senhores feudais, barqueiros a emires, famílias judaicas a clãs de cossacos. Como seus conterrâneos, Prokudin‑Gorskii não fazia a mais vaga ideia de como eram os compatriotas das regiões mais distantes da Rússia — como viviam, que feições tinham, que dialeto falavam, quais crenças os moviam. Daí o valor histórico e insuperável de sua obra. As imagens, originalmente reunidas sob o título “Fotografias para o czar” e destinadas a documentar os vastos domínios do imperador, acabaram desempenhando um papel inesperado: conseguiram criar um embrião de identidade comum a uma população formada por povos que nada tinham em comum, exceto a geografia política.

A técnica da fotografia colorida da época, da qual Prokudin‑Gorskii foi o grande inovador, consistia em fazer três fotos monocromáticas em rápida sucessão, cada uma através de um filtro de cor diferente (azul, verde e vermelho). Para visualizar a imagem, faziam‑se projeções em tela (ainda não era possível fazer cópias em papel — o primeiro filme colorido Kodak só chegou ao mercado mundial trinta anos mais tarde). Os negativos em lâminas de vidro eram colocados num projetor oblongo de lente tripla, também fabricado sob encomenda para o fotógrafo, e reproduziam a imagem como sendo uma só, de cores vibrantes e saturadas.

Passados seis anos de expedições exaustivas e custosas, nem mesmo Prokudin‑Gorskii aguentou o tranco. Como os cofres do czar custeavam apenas o transporte, o resto da empreitada ficara por sua conta e risco. E, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, ele se tornara obrigado a desviar a função do vagão‑laboratório para trabalhos militares.

Após a Revolução Bolchevique de 1917, sua sobrevida como membro do Comitê de Organização do Instituto de Fotografia e Fototécnica seria tênue. Por isso, precavido, decidiu fazer de uma missão à Noruega, uma viagem sem volta a sua terra. Levou consigo todos os negativos que conseguiu socar nas malas e terminou a vida como tantos russos anônimos que emigraram para a Europa Ocidental. Morreu na Maison Russe, nas cercanias de Paris, em 1944, pouco depois da libertação da cidade pelas tropas aliadas. Está enterrado no cemitério russo de Sainte‑Geneviève‑des‑Bois.

Foi então que começou a tortuosa trajetória póstuma de sua obra.

Durante todo o período de ocupação de Paris pelos nazistas, a coleção de Prokudin‑Gorskii permaneceu escondida em porões úmidos da capital francesa. Em 1948, no miserê europeu do pós‑guerra, os herdeiros do fotógrafo foram contatados por emissários da Fundação Rockefeller, interessada na aquisição do lote completo para doá‑lo à Biblioteca do Congresso americano. Fecharam negócio: por 4 mil dólares, doze volumes de folhas de contato indexadas pelo autor e 1902 negativos em lâminas de vidro trocaram de dono e atravessaram o Atlântico. Foram mantidos em Washington, intocados, por mais de cinco décadas.

Foi somente em 2001, portanto quase um século depois de Prokudin‑Gorskii ter superado as primeiras dificuldades técnicas da cor na fotografia, que a ciência encontrou na tecnologia digital a chave para enfim poder mostrar ao mundo a obra do mestre russo. Através de uma técnica chamada digicromatografia, a Biblioteca do Congresso restaurou todos os negativos em lâminas de vidro e colocou esse tesouro on‑line gratuitamente, em alta resolução, com a riqueza de informações e dados típica das grandes instituições culturais.

Desde então, uma exposição itinerante com uma seleta das 58 melhores imagens de Prokudin‑Gorskii percorre o mundo.

Faltava apenas uma versão da obra em livro, para quem não gosta de degustar fotos de arte em computador ou tablet. Nostalgia, com suas 283 imagens de página inteira, preenche a lacuna.

Sergei Mikhailovich Prokudin‑Gorskii retratou um império que não sabia estar às vésperas de sua maior revolução. Nada mais apropriado, portanto, que também ele, autor de obra tão arrojada, tenha sido o precursor de uma revolução — na fotografia e no seu foco.

Junho de 2013

Dois livros para Muhammad Ali

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O tricampeão mundial de boxe Muhammad Ali, falecido na última sexta-feira, foi um lutador que cativou quase todos os grandes jornalistas americanos de sua época. Dois dos mais importantes livros sobre o lutador foram publicados pela Companhia das Letras na coleção Jornalismo Literário. Um deles, A luta, de Norman Mailer, se tornou um clássico da reportagem autoral: em 1974, Mailer acompanhou Ali na sua viagem ao Zaire para o famoso combate contra George Foreman. Um documentário sobre essa disputa pelo título mundial, Quando éramos reis, ganhou o Oscar em 1996. O outro livro, O rei do mundo, escrito pelo editor da revista New Yorker, David Remnick, é uma biografia centrada na primeira fase da carreira de Ali, na primeira metade da década de 1960, a última grande era dourada dos lutadores pesos-pesados. Cassius Marcellus Clay Jr., seu nome de batismo que ele renegou, foi odiado e amado pela imprensa americana quando despontou como o maior lutador de todos os tempos. Abaixo, trechos dos dois livros.

* * *

“Sim a loucura era fértil na África, e naquela loucura africana dois lutadores ganhariam, cada qual, cinco milhões de dólares; e enquanto mil e quinhentos quilômetros adiante, na beira do mundo famélico, negros morriam de inanição, dois lutadores, cada qual ganhando acima de cem mil dólares por minuto se a luta durasse todos os quarenta, mais se terminasse antes. Era natural, naquela sandice, que um dos lutadores fosse revolucionário e conservador, em outras palavras, um Muçulmano Negro, cujo objetivo final era que os Estados Unidos cedessem um grande pedaço dos Estados Unidos para a formação de um país negro, e que aquele rico revolucionário conservador (campeão de bolinhas de gude aos dez anos de idade) enfrentasse um defensor do sistema capitalista cuja mãe havia sido cozinheira e barbeira e chefe de uma família de sete até que entrasse em colapso e fosse recolhida a um hospital mental e seu filho confessasse “bebedeira, vagabundagem, vandalismo e roubo pela força”, se tornasse batedor de carteira e nisso — para citar Leonard Gardner — ‘fosse um fracasso total; movido pelos pedidos de socorro a Deus de suas vítimas, sentia-se compelido a retroceder e devolver todas as carteiras’. Isso tinha sido aos catorze anos, aos quinze, aos dezesseis. O resto da história, conhecemos. Foreman junta-se ao Job Corps e vence o título olímpico dos Pesos Pesados antes de completar vinte e um anos. Dança pelo ringue com uma bandeirinha. ‘Não falem mal do sistema norte-americano na minha presença’, diz sob a investidura total da bandeira, ‘suas recompensas estão lá para qualquer um que decida, dobre as costas, dê duro no que faz e se recuse a permitir que qualquer coisa o derrote. Vou agitar esta bandeira em todos os lugares públicos que puder’, ao que, seis anos mais tarde, durante um jantar de comentaristas de boxe, Ali gritou de volta: ‘Vou dar uma surra nessa bunda cristã, sua puta branca de bandeirinha’. Engalfinharam-se no palco e Ali agarrou a camisa de Foreman, deixou-o de smoking, mas sem camisa. Por sua vez, Foreman abriu o paletó de Ali pelas costas. No dia seguinte houve desculpas, e Ali declarou que ‘jamais insultaria a religião de alguém’, mas os resultados psicológicos foram tão inconclusivos quanto o confronto entre Ali buma iê e Foreman buma iê; decerto aquilo servira de paralelo à tarde na TV em que Ali ficou repetindo que Frazier era ignorante até que Frazier o atacou fisicamente.”.

(A luta, Norman Mailer, coleção Jornalismo Literário, Companhia das Letras. Tradução de Cláudio Weber Abramo).

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“’Ali era um guerreiro magnífico e simbolizava a nova postura do negro’, disse Toni Morrison. ‘Não gosto de boxe, mas ele era algo à parte. Sua graça era incrível.’ Patterson, contudo, não compreendera Ali. Pagaria por isso.

“A luta seria dura de assistir, e o primeiro assalto foi o pior de todos. Como um peso-mosca genial, Ali passeou pelo ringue. Parecia uma libélula sobrevoando as lonas e as cordas. Por três minutos inteiros ele não soltou nem sequer um golpe de verdade. Sua intenção era humilhar, atlética, psicológica, política e religiosamente. O que poderia desmoralizar Patterson com mais intensidade? Ali dançava, esquivando-se facilmente das patéticas tentativas de Patterson de atacar, e provocava o desafiante: ‘Vamos americano! Lute, americano branco’.

“Ali era tão ágil e queria tanto atormentar Patterson que circulava pelo ringue fingindo desferir golpes, fintando, pulando, ameaçando, mexendo os ombros, forçando Patterson a reagir e revelar seu medo.”

(O rei do mundo, David Remnick, coleção Jornalismo Literário, Companhia das Letras. Tradução de Celso Nogueira.)