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Stephen King escreve uma carta de amor ao suspense

Por Boni Neto

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Para comemorar o laçamento de Mr. Mercedes, de Stephen King, convidamos fãs do autor para escreverem sobre a incursão do mestre do horror na literatura policial. Começamos com a participação de Boni Neto, responsável por um dos maiores sites brasileiros dedicados ao autor.

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Tive minha primeira experiência literária com Stephen King em meados de 2008. O Concorrente foi o primeiro livro que li, e a escolha não poderia ter sido mais estranha. Stephen King, um dos autores norte-americanos mais populares do mundo há 40 anos, tem como marca registrada o horror. Contudo, isso não o impede de ocasionalmente explorar a ficção-científica (caso de O Concorrente), o drama, a fantasia e outros gêneros.

Não é de surpreender que sua incursão no mundo do suspense policial tenha dado tão certo. Mr. Mercedes é o primeiro volume de uma trilogia, seguido por Achados e Perdidos (em maio) e End of Watch (em julho), e não traz qualquer elemento sobrenatural, um dos artifícios favoritos de King. Nesta nova narrativa, o detetive Bill Hodges será obrigado a revogar sua aposentadoria para resolver seu único caso em aberto: o Massacre do Mercedes, chacina em que um maníaco utilizou um Mercedes para atropelar várias pessoas, matando oito delas, durante uma feira de empregos.

Para encontrar o homem que se autodenomina “O Assassino do Mercedes”, Hodges contará com a ajuda de uma dupla de improváveis aliados: Jerome Robinson, um rapaz esperto e leal, e Holly Gibney, uma moça de saúde mental abalada, que se mostra disposta a enfrentar suas dificuldades graças à amizade com Hodges. Com o passar da leitura, nota-se que o coração do livro está justamente no relacionamento do trio, na dinâmica que cada um traz à perseguição ao doentio e provocador assassino, e na descoberta de que, juntos, os três são imbatíveis, apesar de terem talentos e personalidades completamente diferentes.

É claro que estamos falando de Stephen King, então humor não vai faltar na história, e são nas figuras de Holly e Jerome — personagens desacostumados com o lado perigoso do mundo — que o autor insere esse seu lado, procurando contrabalancear a personalidade do detetive Bill Hodges, um homem mais sério e obcecado.

Além dos personagens muito bem construídos, o romance apresenta situações memoráveis que deixa o leitor ansioso para virar a próxima página, mas, ao mesmo tempo, cauteloso para não perder um detalhe sequer. É um livro ideal para os amantes do suspense que pode ser lido independentemente de ter acompanhado a carreira do autor. Mas não se surpreenda se no decorrer da leitura surgir a vontade de fazê-lo!

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Boni Neto é formado em Direito e graduando em Jornalismo, com uma grande sede de leitura que nem mesmo Stephen King foi capaz de matar depois de quase 70 livros lidos. Amante da literatura clássica e do jornalismo literário, é webmaster do King of Maine, site dedicado a Stephen King que está no ar desde 2012.

 

O espírito livre e artistico de Vinicius de Moraes

Por Miguel Jost

Vinicius de Moraes

A obra poética de Vinicius de Moraes é, sem dúvida alguma, uma das mais significativas na vida literária brasileira no século XX. Seus poemas e versos ocupam um lugar privilegiado dentro da tradição não só pela riqueza de forma, estilo e técnica, mas, principalmente, pela sua enorme popularidade fora dos circuitos convencionais da poesia e da literatura. Vinicius é até hoje um dos poetas mais lidos e citados em nosso país, e podemos afirmar também que foi um dos escritores que mais influenciou a formação de um ethos afetivo da sociedade brasileira. Sua capacidade de criar toda uma nova gramática sobre as maneiras de escrever e conceber o amor foi definitiva nesse processo. Mas essa habilidade ímpar de traduzir a experiência do amor de forma tão íntima e certeira por meio da sua poesia muitas vezes rasurou o fato de Vinicius ter sido um poeta de grande dedicação ao labor e ao fazer poético. A imagem do poetinha, do homem de espírito livre e boêmio, somada ao seu sucesso como compositor popular a partir dos anos 1960, também consolidou essa impressão sobre o autor.

É fundamental, nesse sentido, sublinhar que Vinicius era um perspicaz conhecedor da tradição poética e de suas diversas escolas e estilos. Desde menino, quando ficava horas transcrevendo poemas de cunho simbolista e parnasiano, passando pelos anos da Faculdade de Direito, quando se dedicou ao estudo de poetas franceses — como Claudel, Baudelaire e Rimbaud —, e chegando ao período de profunda imersão na obra dos poetas ingleses, Vinicius foi um estudioso convicto que demonstrou vasto interesse em conhecer a poesia e a fortuna crítica de autores clássicos.

Nesse mergulho na tradição da poesia inglesa — por ocasião da bolsa de estudos em Oxford, fruto do prestigioso prêmio Filipe d’Oliveira, nos anos 1930 —, Vinicius chegava a jornadas rigorosas de até doze horas de estudo ininterrupto. Sua fascinação pelos sonetos de Shakespeare, que o poeta traduzia incessantemente nesse período, foi um dos pilares para que Vinicius fosse considerado por muitos críticos nas décadas seguintes um reinventor da forma-soneto na poesia brasileira.

O amplo conhecimento de diversas tradições poéticas da literatura ocidental é o que levou Manuel Bandeira a afirmar sobre Vinicius: “Tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas) e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, e o esplêndido cinismo dos modernos”.

As nuances modernas, românticas, simbolistas e parnasianas se interpenetram e se contaminam, principalmente nos livros lançados a partir dos anos 1940. Por vezes, é possível observar alguns desses cruzamentos até mesmo dentro de um único poema. Esse híbrido de sua escrita é o que impossibilita a classificação de Vinicius dentro de qualquer escola ou movimento, gerando um enorme desconforto para os críticos e historiadores da literatura que trabalham com esse tipo de pressuposto.

A publicação em 1946 de Poemas, sonetos e baladas é um dos exemplos mais bem-acabados desse mosaico de estilos e formas que caracterizou a sua produção poética. Com ilustrações de seu amigo Carlos Leão, o livro demonstra toda a heterogeneidade que marcou a formação de Vinicius. No posfácio da reedição em 2008 pela Companhia das Letras, o ensaísta José Miguel Wisnik, em total consonância com a citação de Manuel Bandeira, escreve: “O livro de 1946 se desdobra em faces românticas, clássicas, simbolistas e modernas; é desigual mas sempre elevado, como tudo no autor, pela nobreza do sentimento e pela autenticidade da veia lírica”. É possível, portanto, afirmar que essa confluência entre tantas escolas, e principalmente sua inadequação para se tornar um representante fiel delas, é uma das principais características da escrita de Vinicius.

A partir dos anos 1950, mantendo o mesmo espírito livre, o poeta estenderia sua atuação para o teatro, o cinema, a crônica e, principalmente, a canção popular. Sem fazer juízo de valor entre essas linguagens e sem respeitar certos postulados da época — como a clássica distinção entre a literatura como alta cultura e a música popular como baixa cultura —, o autor se tornou um dos personagens mais importantes para que esse tipo de hierarquia não se consolidasse em nosso país. Assim como em toda sua trajetória nos livros de poesia, Vinicius não se interessava por limites preconcebidos quando o assunto era seu processo artístico criativo. O que nunca mudou foi a sua matéria-prima: a palavra poética, em suas diversas possibilidades e dimensões.

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Miguel Jost é professor do Departamento de Letras da PUC–Rio, é mestre e doutor em Estudos de Literatura por esta mesma instituição. Em 2008 organizou e assinou o prefácio do livro Samba Falado – Crônicas musicais de Vinicius de Moraes, que revelou um enorme volume de textos do poeta sobre a música popular ainda não publicados. Desde então vem desenvolvendo uma série de trabalhos ligados a preservação e circulação da obra de Vinicius. Em 2013 foi convidado para ser curador de uma série de atividades organizadas pela VM Produções por conta do centenário de nascimento do poeta. Em 2014 foi também o curador geral de uma grande exposição que marcou o fim das comemorações do centenário de Vinicius de Moraes no Rio de Janeiro.

O Guia de Jorge

Por Joselia Aguiar

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Os azulejos, a grande porta aberta sem ninguém à vista para me receber, os móveis de madeira da sala onde me sentei, o barulho de conversa que vinha do jardim: tantas vezes contei o meu único encontro com Jorge Amado, enfatizando esse ou aquele ângulo mais humorado ou plástico, que agora o esforço é o de retroceder a um sóbrio relato inicial para recuperar uma espécie de fundamento amadiano talvez escamoteado por entre as versões.

Uso vestido de flores miúdas e uma sandália que mais parecem chinelos, carrego um gravador grande, bloco e caneta.  Sou repórter C num jornal baiano que estreava para fechar pouco depois e, entre minhas atribuições, escrevo para uma seção chamada Cidade da Bahia. Artistas, escritores e intelectuais revelam aí o lugar de que mais gostam, aquele que lhes traz a mais bonita memória ou lhes despertou uma inspiração particular. São essas as três perguntas, é isso que têm de me responder. Para sair foto sua, ao lado da foto do tal lugar, numa página de domingo.

Por inteiro o nome é Cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Até a virada para o século 20, abreviava-se Cidade da Bahia. Passou a ser Cidade do Salvador e, depois, apenas Salvador. Por que escolheram uma repórter C para ir entrevistar um dos mais importantes autores da língua portuguesa? Menos simples de esclarecer; creio que porque gostava de literatura.

Os minutos se passam, e não há como Jorge Amado me dar objetivamente o que quero. Viera da conversa no jardim com outro jornalista, já despachado. Vendo sua camisa com um alegre estampado e os chinelos, me sinto em casa. Parece contrariado. Parece, não. Está contrariado. “Todos os lugares da Bahia.” “Mas tem de escolher um só, no máximo três…” Explico outra vez a pauta. Dou exemplos. O seu amigo Calasans Neto me contou do Beco do Mingau. De tão maravilhado, jamais conseguiu reproduzi-lo em tela. João Ubaldo, claro, citou a Ilha de Itaparica. É outro município, mas ninguém exige rigor.

Súbito se levanta. “Fique aí”. Segue casa adentro. A uma senhora que surge pelo corredor, diz: “Dá sorvete à menina, Zélia”. Volta com um exemplar de seu Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios. Assina: “Com um beijo de Jorge”. E se livra de mais um jornalista.

O sorvete era de manga.

A Cidade da Bahia, Jorge Amado conheceu como repórter mal saía da adolescência em fins da década de 1920. Das páginas policiais logo chegou às de política. Estabeleceu-se no Rio. Exilou-se em Estância, depois Buenos Aires e Montevidéu. Quando escreveu o seu guia vivia de novo como jornalista na capital baiana. Não era mais um iniciante.  Co-dirigia a redação de um jornal que deixou de existir pouco depois. Autor de sucesso e militante comunista, estava impedido de circular pelo país – ele e sua obra — por determinação da ditadura de Getúlio Vargas. Recomeçava a publicar romances cujos enredos transcorriam na região cacaueira em décadas anteriores, Terras do Sem Fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944), ambos fora do contexto da luta política daqueles dias. Para continuar a despistar, preparou um título de aparência turística, gênero que estreava no mercado de livros brasileiros.

“Não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Vem, a Bahia te espera”.  Sim, estão lá topografia, personagens e história, o calendário das festas populares, receitas com dendê, leite de coco e pimenta.  Mas a primeira edição (1945) é turística só na aparência. “Junto com a poesia, te direi da dor.” Entre as extravagâncias, o autor endereça a visitante imaginária a bairros proletários, dá números minuciosos da tuberculose e até recomenda que, se tiver coragem, assista a dois ou três enterros de anjos – os defuntos-bebês–, experiência com que conhecerá de fato a cidade, “múltipla e desigual”. Como adverte: “se és apenas uma turista ávida de novas paisagens, de novidades para um coração gasto de emoções, viajante de pobre aventura rica, então não queiras esse guia.” E faz a lista “mais completa que foi possível organizar” de  terreiros de candomblé a conhecer, época em que ainda sofriam a invasão da polícia.

Reescrito pelo autor para atravessar décadas, o guia foi perdendo em denúncias como essas e ganhando em afetos. Na Bahia dos meus dias de repórter C, uma anedota corrente sugeria que, a cada republicação, o autor precisava fazer novos verbetes para acrescentar mais amigos. Um desses incluídos significou um gesto politicamente ousado: Carlos Marighella, guerrilheiro morto pela ditadura civil-militar em curso à época, em fins da década de 1970. “Retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano.” A graça de comparar edições é também encontrar o que nunca mudou. Como a descrição de Salvador que me parece a mais característica sua, presente já na primeira: “escorre o mistério sobre a cidade como um óleo”. As suas percepções sobre o temperamento do habitante: “o baiano faz da amabilidade uma verdadeira arte, é arguto até não mais poder”, “um pouco derramado e um pouco distraído, um pouco poeta mas também astutamente político”. Constato que o guia serve para conduzir-me por sua obra através do tempo. O fundamento amadiano é evidente na justa soma de suas versões.

Passados tantos anos, ainda me espanta pensar como me deu objetivamente o que ele queria.  Na materialidade de um livro, compreendia sua recusa. “Todos os lugares da Bahia.”

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Joselia Aguiar é jornalista da área de livros, mestre e doutoranda em história (USP).  A convite da editora Três Estrelas, do grupo Folha de S.Paulo, iniciou em 2011 pesquisas e entrevistas para escrever a biografia do escritor Jorge Amado, projeto que se encontra em sua última fase.

 

O riso, a sina e o sonho

Por Antonio Arnoni Prado

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Antonio Arnoni Prado, autor de Cenário com retratos.

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“Alice, olha que são horas; o major Quaresma já passou”. Era assim que os vizinhos reagiam numa casa afastada de São Januário, no subúrbio, ao avistar a figura de Policarpo Quaresma passando todos os dias, religiosamente às quatro e quinze da tarde, de volta do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário.

A cena, conquanto singela, nos desvenda, já na abertura do romance, aquela que será uma das marcas indissociáveis do espírito de seu protagonista: a regularidade metódica, quase doentia, e a obsessão incontornável frente ao compromisso do dever cumprido.

Visto por esse ângulo, Quaresma é o antípoda mais exacerbado de Lima Barreto, como sabemos um libertário apátrida avant la lettre, inconformista e revoltado contra as “formalidades do poder” que o acabariam arrastando para as trincheiras da contestação mais radical, seja no plano social e político, seja no das convicções estéticas e ideológicas.

Daí o peso específico de Policarpo Quaresma em meio ao conjunto das personagens de Lima Barreto. Veemente e incansável na defesa dos valores da pátria, podemos dizer que Quaresma é um recorte irônico do sarcasmo barretiano frente ao passadismo dos motivos retóricos do herói neorrealista. Míope e fardado, folclórico e falando tupi, agricultor atropelado pelas formigas, a sua imagem se confunde com a do medíocre incontido e sempre revoltado frente à mediocridade.

Se é legítimo tomar esse desequilíbrio como forma de explicar a revolta, não há como descurar das três faces críticas de Policarpo Quaresma: a cômica, a delirante e a trágica, uma sobreposta a outra, compondo no todo como que um tríptico amoldável e simultâneo, numa espécie de máscara  reversível sempre pronta a rebelar-se.

O Policarpo da face cômica é um tipo de exceção no conjunto da sociedade em que vivia. Apesar de estudioso, lido e cheio de preocupações com a cultura da terra, no fundo não passava de um contraponto risível e fora de eixo diante das limitações de seus vizinhos do subúrbio, gente como Caldas, Albernaz, Bustamante, Genelício (“ele não era formado, por que meter-se em livros?”) e tantos outros. Para eles, aliás, era justamente o livro, enquanto “instrumento de gerar loucura”, a razão para o escárnio e a chacota ao major Quaresma, transformando a face delirante no traço mais incisivo de seu caráter, a ponto de levá-lo a imaginar-se um conselheiro de Floriano Peixoto durante os episódios da Revolta da Armada: “Marechal Floriano, Rio! Peço energia. Sigo já”, eis o que escreveu, com os olhos brilhando de esperança, assim que leu nos jornais que os navios da esquadra se insurgiram contra o presidente, intimando-o a deixar o poder.

Daí o anticlímax da face trágica, em que a morte e o fracasso – incabíveis no coração arrebatado desse anti-herói intransigente – se encarregam de trazê-lo à realidade sob o brilho indiferente das estrelas.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

Lima Barreto suberviso, por Felipe Botelho Correa

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Antonio Arnoni Prado nasceu em São Paulo. Publicou sua tese de doutorado, Itinerário de uma falsa vanguarda, em 1983, ensaio atualmente consagrado. Foi professor visitante em diversas universidades estrangeiras e leciona na Unicamp desde 1979Em 2015, lançou pela Companhia das Letras o livro Cenário com retratos, que reúne ensaios sobre grandes autores brasileiros.

Lima Barreto subversivo

Por Felipe Botelho Correa

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Rio de Janeiro em 1915.

Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Felipe Botelho Correa, pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

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“Subversivo” foi a definição de Triste fim de Policarpo Quaresma em uma das poucas resenhas que apareceram nos jornais logo que a edição em livro do folhetim de Lima Barreto foi publicada em dezembro de 1915. Com ares de denúncia, o autor da crítica aponta o escritor carioca como pertencente a uma nova geração de intelectuais antirrepublicanos que ganharam espaço através de “publicações obscuras e desdenhadas que não receberam a tempo o corretivo devido”.

Foi de fato através de edições de baixo custo que Lima Barreto fez seu nome circular nas livrarias da época numa tentativa de dar sobrevida aos textos que publicava em revistas e jornais. Triste fim… é uma das pérolas dessa atuação incansável, combativa e debochada que ele encarnou sobretudo através da sátira. Atuação essa que ele próprio definia como consequência de suas implicâncias com certas ideias, indivíduos e práticas que surgiam nos primeiros anos da República no Brasil. “Não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada: tenho implicâncias”, afirmou ele em 1911.

Esse foi o mesmo ano em que escreveu a história de Policarpo Quaresma. O herói quixotesco, cujo destino já está marcado no título do romance, é um personagem que cultiva as origens e as características autênticas de sua pátria mítica “no silêncio do seu gabinete” através das leituras de uma seleta biblioteca com obras de ficção e de história exclusivamente sobre o Brasil. A história do triste fim do visionário estudioso do “culto das tradições” brasileiras aparece como subversivo não só por ridicularizar a administração republicana e tratá-la com desdém, como afirma o oficial militar autor da resenha tirânica, mas por expor, como um cronista burlesco que mata pelo riso, o caráter ridículo das ideias que surgiam no contexto político e social da jovem República.

O livro de Lima Barreto é uma resposta contundente e irreverente aos ultranacionalismos que pipocavam em textos como Porque me ufano de meu país (1900), de Afonso Celso, Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, ou mesmo no próprio Hino Nacional, cuja letra foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909 para idolatrar a pátria amada, que é imaginada deitada “em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo.”

Triste fim… é subversivo porque ousa pensar o Brasil para além das ideias de nação e pátria, e em busca de uma perspectiva mais complexa em relação aos problemas e tensões de sua época, como fica claro em outros textos de Lima Barreto publicados na imprensa. Em vários desses artigos, muitos deles recentemente descobertos e ainda inéditos em livro, a implicância com o nacionalismo essencialista fica evidente. Para ele, o conceito de humanidade deveria se sobrepor ao de pátria, e a literatura deveria ser a arte que, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, deveria trabalhar pela união da espécie, e não pela construção de conflitos, como a Primeira Guerra Mundial que já estava em curso quando, há cem anos, Lima Barreto bancou do próprio bolso a primeira edição deste livro que se tornou um clássico.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Felipe Botelho Correa é do Rio de Janeiro e transferiu-se para o Reino Unido, onde concluiu seu doutorado pela Universidade de Oxford. Atualmente é pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.