Outros

Confissões de um homem livre

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Quando tinha doze anos, Luiz Alberto Mendes fugiu de casa pela primeira vez. Filho de pai alcoólatra e de dona Eida, vivia num ambiente de brigas intermináveis e de opressão. Aos dezenove foi preso, acusado de assalto e homicídio. Primeiro passou pela Febem, atual Fundação Casa, depois, já adulto, cumpriu pena em várias casas de detenção. Em 1984, fugiu e foi recapturado. Quase dez anos depois, vivendo em regime semiaberto, com um pé na liberdade e outro no sistema prisional, foi detido em flagrante por roubo.

Confissões de um homem livre, recém-lançado pela Companhia das Letras, encerra a trilogia de Luiz Alberto Mendes iniciada em 2001 com Memórias de um sobreviventeseguida de Às cegas em 2005. Assim como nos outros livros – em que narrou suas primeiras passagens pelas prisões e a experiência que o levou até à escrita -, o seu relato do mundo do crime é um dos poucos que não doura a pílula. O discurso é seco, nervoso e direto. Sua honestidade, desconcertante. E são essas qualidades que aparecem de modo mais contundente nesta história sobre os anos que antecederam a sua liberdade.

Confissões de um homem livre já está nas livrarias. Leia um trecho a seguir.

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Eu pensava estar preparado para o que me esperava lá dentro, mas fiquei chocado: a prisão parecia uma favela. Três alojamentos assimétricos e, dentro deles, total confusão. Um pavilhão enorme e aberto, com camas quadriliches formando “comarcas” de dois quadriliches cada uma, fechadas por panos que lhes davam a aparência de quartos ou celas. Cerca de duzentos companheiros amontoados por pavilhão. Um banheiro com três chuveiros e outro com três privadas.

Assim que cheguei, fui procurar vaga em alguma comarca. Depois de procurar por algum tempo, encontrei um velho amigo, Pardal, era irmão do Sidnei, um grande parceiro meu da Penitenciária do Estado que morrera de AIDS. Pardal me abrigou em sua comarca. Os demais companheiros pareciam gente boa. Ele me contou que em breve começaria a trabalhar: ia consertar máquinas de escrever na empresa de um amigo.

Mais da metade dos presos dali trabalhava na cidade de São Paulo. À noite, uma multidão deles retornava aos alojamentos. No meio daquele monte de gente, reconheci dois amigos: Índio e Davi. Eles saíam da prisão às cinco da manhã e voltavam às nove da noite.

Eu já estava começando a me sentir agoniado. Fazia tempo que não recebia notícias de casa: será que Irismar já dera à luz? Além disso, eu não tinha dinheiro. Depois de várias visitas à direção de produção, por fim consegui emprego numa fábrica de condutores elétricos, a Nevaflex, na Vila Prudente. No meu primeiro dia de trabalho, juntei‑me a um grupo de presos que também ia para lá. Embarcamos num ônibus fretado pela empresa e descemos na porta da Nevaflex. Fui trabalhar numa tecelagem enorme.

Vigiava uma máquina cheia de bobinas. Meu serviço consistia em trocar as bobinas de tempos em tempos. Na minha frente, do outro lado da máquina, uma moça fazia o mesmo serviço.

Trabalhei a manhã inteira em pé. Eu olhava a moça, ela me
olhava e às vezes sorria. Como sempre, eu tinha dificuldade de me aproximar das pessoas. Às vezes tentava puxar assunto, mas minhas conversas pareciam feitas de lata. A moça, no entanto, era gentil. Lá pelas tantas, me avisou que estava na hora do almoço. A comida era péssima. Engoli rapidamente, sem me importar com o gosto. Comia para me alimentar, para continuar forte e não adoecer. Sentir prazer em comer não era o essencial. O que me interessava era explorar a cidade lá fora. Caminhei pela calçada movimentada. Os prédios estavam tatuados de grafite e as ruas, cheias de carros. Tudo cheirava a fumaça e gasolina.

A praça da Vila Prudente era bonita. Sentei‑me ali e fiquei contemplando a paisagem. Trabalhadores descansavam em outros bancos. As garotas eram lindas e eu não enjoava de olhá‑las. Trabalhei o resto da tarde alimentado pelas imagens que observara. Enfim, consegui conversar um pouco com a minha colega de trabalho. Ela me contou que morava longe e que pegava duas conduções para chegar até lá.

Voltei para a cadeia ainda dia claro e vi um companheiro de comarca empinando pipa junto do alambrado. Fui me sentar perto de onde ele estava e fiquei olhando, absorto, a pipa que dançava lá no alto. Ela também estava presa. Voava, voava, mas só se libertaria de fato se a linha se arrebentasse. Mas aí, mais cedo ou mais tarde, acabaria caindo.

À noite conversei com o Pardal. Fazia alguns dias que ele tinha começado a trabalhar, estava cheio de novidades e ideias. Pensava em consertar computadores, pois as máquinas de escrever já estavam ficando obsoletas. Logo os outros companheiros começaram a chegar à nossa comarca. Um deles, um ex‑ladrão de carros, tinha uma oficina mecânica. Estava muito cansado, ainda sujo de graxa. Tomou banho e desmaiou na cama. Então chegou o Valdir, a “menina” do alojamento em Tremembé. Também fora transferida e trabalhava como cabeleireira no centro de São Paulo. Parecia disfarçada entre nós, vestida como homem. Seus trejeitos e atitudes, porém, eram inconfundivelmente femininos. Fiquei até de madrugada conversando com Valdir. Em Tremembé havia um preconceito enorme contra homossexuais. Já em Franco da Rocha ninguém se ligava na vida de ninguém. Todos levavam uma vida quase livre, uma vez que o pessoal só ia à prisão para dormir. Valdir se preocupava com o preconceito lá de fora; não tinha tempo para os caras ali. Perguntei sobre seu antigo namorado de Tremembé e ela contou que a relação acabara. Perdera o sujeito para uma advogada, mas agora isso já não tinha importância. Estando fora, conseguia quantos quisesse, disse. Momentos depois ela se levantou e foi tomar banho. Voltou enrolada numa toalha, que deixou cair, como que por acaso, revelando sua calcinha — o mesmo exibicionismo de sempre. Para quem gostava da coisa, Valdir era um prato cheio: uma grande bunda branca saltava da calcinha cor‑de‑rosa. Tinha seios pequenos — estava tomando hormônios. Parecia uma garota mesmo.

Sentou‑se um pouco na minha cama. Meus companheiros nos lançaram olhares disfarçados enquanto jantavam. Fiquei embaraçado. Pardal riu da minha cara. Todos estavam acostumados com Valdir, eram amigos dela, que cortava e ajeitava o cabelo do pessoal da nossa comarca, ensinava as melhores combinações de cores para as roupas e como comprá‑las. Era bem‑educada e dava lições de boas maneiras. Valdir subiu para sua cama toda cheia de charme, rebolando. Era bem excitante, mas eu não queria enveredar por aquele caminho. Temia gostar.

Triste fim

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. Lilia Moritz Schwarcz, que está escrevendo a biografia do autor, estreia a série de posts que serão publicados no blog durante todo este mês.

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Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado pela primeira vez na edição vespertina do Jornal do Comércio: de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911. Esse era o mais importante periódico em circulação no Rio de Janeiro e o texto de Lima figurou na seção “Folhetim do Jornal do Comércio”; gênero que se convertera numa coqueluche da cidade. Geralmente escandalosos, os folhetins garantiam o desenrolar de tramas rocambolescas com finais diários sempre emocionante. E Triste fim não fugiria à regra. Dividido em 52 folhetins trazia três diferentes partes com desfechos “tristes”: primeiro, o final da carreira de Policarpo como funcionário público; segundo, quando há a falência do sítio do herói; e terceiro, com o personagem se voluntariando para o exército; preso e desiludido com a República.

A obra só apareceu sob a forma de livro em dezembro de 1915: praticamente 100 anos atrás. Lima pagou pessoalmente para ver a única edição de Triste fim que conheceu em vida. Em março de 1917, no seu Diário anotou: “Devo unicamente ao Lima pela impressão do Policarpo”. No ano de 1916 assim se referia à publicação: “O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco. Tomei dinheiro daqui e dali… Audaces fortuna juvat”. O livro representava uma cartada profissional importante para Lima Barreto, e por isso a audácia não tinha preço. Afinal, o autor queixava-se sempre da pouca evidência como escritor — nessa que era também uma República das Letras — e não se pode dizer que seu livro de estreia tenha ajudado.

Lima Barreto havia publicado Recordações do escrivão Isaías Caminha em 1909, livro que lhe conferira certa notoriedade, mas custara também caro (e em outro sentido): nele, Lima fazia sérias críticas ao racismo vigente e denunciava a “imprensa burguesa” como o “4o poder da República”. A obra desnudava bastidores do jornal Correio da Manhã e práticas de jornalistas colegas, todos com codinomes facilmente identificáveis. Por isso, com grande dose de premonição, escrevera: “Eu não tenho inimigos, mas meu livro os terá”.

Lima Barreto parece ter pago caro demais, em mais outro sentido. Triste fim era livro muito mais bem-acabado do que Recordações. No entanto, era irônico e alusivo, apesar de recuar ao tempo passado. E mais uma vez o livro foi recebido com um grande silêncio. Apesar da pouca repercussão, o jornal A Época do dia 18 de fevereiro de 1916 deu na primeira página uma entrevista acompanhada de resenha favorável à obra. Entre outros, a matéria destacava o lado marginal do autor e sua origem “suburbana”. “No Rio de Janeiro, não há quem não o conhece. Ele vive em todos os bairros, arrabaldes, subúrbios: seu elemento é a rua. Pergunta-se a qualquer pessoa: “Tu viste o Lima?”. Ela responderá: ‘Vi-o hoje, pela manhã, jogando bilhar.’ (…) Estudou engenharia e abandonou o curso. Escapou de ser doutor, diz ele. Fez-se empregado público e, parece, é o desespero dos chefes. Procuramo-lo. Andamos de botequim em botequim, de confeitaria em confeitaria e fomos encontrá-lo em uma brasserie.”

Mas Triste fim não era apenas mais um retrato “triste” de seu autor. Ele traduziria um pouco de tudo: o lugar marginal de Lima, a situação declinante de sua família, mas também o ambiente conturbado e a fragilidade do nosso nacionalismo. Lima recua, porém, aos idos de 1893, período em que começava a Revolta da Armada; que sacudiu o país. A circunstância não lhe poderia ser mais significativa. Foi em 1890 que seu pai, João Henrique é demitido da imprensa nacional, sob alegação de conivência com a monarquia. Por ingerências de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, poderoso político do Império, João Henrique aceita emprego como escriturário das Colônias de Alienados na Ilha do Governador. Nesse meio tempo, Lima Barreto é matriculado como aluno interno no Liceu Popular Niteroiense e entra na Politécnica. Mas a calmaria duraria pouco. No ano seguinte, o presidente Deodoro da Fonseca fecha o Congresso; frente à pressão política pede demissão, sendo sucedido num contragolpe por seu vice, Floriano Peixoto.

O próprio pai de Lima seria diagnosticado como neurastênico, uma doença mental que o obrigaria a ficar recolhido pelo resto da vida. Por isso, loucura é metáfora pessoal e social para pensar o público e o privado, e a sina do país. Ajuda a pensar também no escritor, sua falta de sorte, e a pouca fortuna do nosso Estado.

Na vida pessoal, a história de Lima daria, então, uma guinada — ele abandona a Politécnica, atua como arrimo de família na condição de Amanuense do Ministério da Guerra, e muda-se para o subúrbio de Todos os Santos. Já nosso Triste fim ficaria imortalizado por conta da sua galeria de tipos impagáveis, que não se prendem à experiência íntima de seu autor. De um lado há Policarpo, “um visionário” e defensor das “coisas do Brasil”, tão pontual que servia de “relógio da vizinhança”. De outro, Floriano com seu “bigode caído; traços grosseiros, pobre de expressões, a não ser a da tristeza que não lhe era individual, mas nativa”. É também forte o contraste entre Ismênia a Olga: a primeira frágil como o pai de Lima, logo sucumbe à loucura; já Olga, afilhada de Policarpo, é a ética do major inscrita no corpo de mulher. Há também a contraposição entre o bondoso artista, Ricardo Coração dos Outros, e Genelício, empregado do tesouro que não passava de um “artista na bajulação”. Mas não existem heróis ou vilões no livro; eles são todos uns talvezes, na feliz expressão de Oliveira Lima. O general Albernaz e o contra-almirante Caldas ostentavam seus títulos com galhardia, mas nunca haviam participado de qualquer batalha. Doutor Florêncio “era mais guarda de encanamentos do que engenheiro”. E assim por diante, com cada figurante expressando seus dilemas. Ceticismo e otimismo; honestidade e contravenção; sanidade e loucura; progresso e decadência são dilemas desse momento que oscilava entre a profunda crença no futuro, o olhar saudoso para o passado, a descrença diante do porvir.

Obras como essa acabam por merecer várias redescobertas, muitas vezes relidas por questões do presente. Pensar nas ciladas do patriotismo, olhar com ceticismo para os projetos de nacionalidade, denunciar desigualdades fazem parte das muitas inspirações dessa obra, que se lê com facilidade, mas que permite várias esquinas de interpretação. Além do mais, sua crítica fina e bem-humorada não permite que o texto se torne datado. Há ironia até no nome do personagem central da narrativa. Policarpo significa aquele “que tem e produz muitos frutos”, a despeito da vida do herói não resultar em qualquer “produto”. Quaresma é também palavra de vários sentidos: significa o período de quarenta dias de jejum, que se segue ao sacrifício de Cristo; sacrifício entendido como ato de consagração, cujo desenlace pode ser triste mas igualmente fundar um pacto com a sociedade. O verbo “carpo” (que vem de carpir, chorar, lamentar) remete à ideia de tristeza, presente no título da obra. Por fim, Quaresma é também um tipo de coqueiro; essa árvore presente já nos nossos primeiros mapas seiscentistas. Policarpo Quaresma seria assim um pouco de tudo: uma espécie de Cristo ressabiado dessa nacionalidade tropical; um líder melancólico de um novo e eterno porvir. Pois livros bons são assim mesmo: não se deixam apanhar e desfazem das pistas que eles próprios deixam. Triste fim de Policarpo Quaresma faz 100 anos, cada vez mais jovem.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Lima Barreto subversivo, por Felipe Botelho Correa

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Raduan Nassar: 80 anos

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“Raduan tem um jeito que é só seu, uma mistura de solidão e tristeza, com um sorriso que começa silencioso no canto dos lábios e depois vai se escancarando e ficando sonoro, principalmente se a conversa é mais longa e pessoal. Embora traga consigo uma mágoa da vida literária, que o fez abandonar a profissão e se voltar integralmente à vida rural, seus livros são o maior testemunho de um coração ultra generoso. Para escrever dessa maneira, tratar seus personagens com tamanha compreensão e riqueza, é preciso ter um conhecimento do mundo tão aberto como profundo e singular.”

Hoje, dia 27 de novembro, Raduan Nassar completa 80 anos. O relato acima é de Luiz Schwarcz, falando da história editorial de um dos principais escritores brasileiros. Autor de Lavoura arcaica Um copo de cólera, Raduan ganhará suas primeiras traduções para o inglês e o espanhol em 2016.

Para comemorar a data, releia os dois textos em que Luiz Schwarcz fala sobre seu encontro com Raduan e a importância da sua literatura para a Companhia das Letras, publicados aqui no blog em 2013:

  • O reencontro: “Reencontrar Raduan Nassar talvez tenha sido o melhor que me aconteceu no ano passado.”
  • A surpresa: “— Você não imagina. O Luiz (Fernando Carvalho, cineasta que filmou Lavoura arcaica) passou aqui e me arrastou para a Balada. Disse que não arredaria pé da minha casa sem que eu fosse, e acabei indo. Não houve jeito. E foi bom, sabe, imagine que houve uma moça que me disse que meus livros foram muito importantes para a vida dela. Me pediram autógrafos, Luiz, me limitei a uma assinatura magra em cada exemplar.”

 

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

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Na Europa após a Segunda Guerra, em meio a uma paisagem de escombros, figuras esqueléticas e quase absoluto desamparo social e psicológico, uma menina e um homem perambulam por entre as ruínas. A menina é Hanna, tem catorze anos, é portadora de uma doença congênita e está em busca do pai; o homem é Marius, sujeito enigmático que parece se esconder do próprio passado. Essa improvável dupla protagoniza Uma menina está perdida no seu século à procura do painovo romance de Gonçalo M. Tavares que acaba de chegar às livrarias.

A história tem contornos fantasmagóricos e irônicos típicos do autor português, que, avesso às convenções do gênero, constrói um retrato a um só tempo abstrato e absolutamente tocante sobre as verdadeiras vítimas da guerra: as pessoas comuns, aquelas mais fragilizadas, que de repente se veem à margem de todos os acontecimentos. Leia um trecho de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai.

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Ao princípio da manhã saímos do hotel — havia muito para fazer nesse dia — e só aí, afastados, me lembrei de que o hotel não tinha nome, ou pelo menos esse nome não estava visível em lado nenhum — nem na entrada, nem em qualquer documento de que me lembrasse —, o que não era significativo, apenas um pormenor a que, no regresso, eu deveria dar atenção.

Descíamos, já ao fim da manhã, a rua principal ocupados com um dos passatempos inconsequentes que fascinavam Hanna: contar coisas iguais — candeeiros, pequenos bancos de rua — ou pessoas com determinado tipo de vestimenta, pessoas com casaco longo, uma, duas… três pessoas com chapéu — uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete; mulheres de cabelo comprido, mulheres de cabelo curto, homens com barba, sem barba; cães, carros de cor preta, carros de cor cinzenta.

Propus‑lhe, nessa altura, contarmos as pessoas que passavam a sorrir e começámos a contar, e a princípio pareciam poucas — uma, lá ao fundo, duas, três — mas o mais interessante era que havia, e tal ficou claro a partir de uma certa altura, uma relação directa entre os sorrisos e a proximidade física, espacial. De uma forma objectiva, eram muito mais as pessoas que sorriam quando muito próximas de nós. Poderia pensar que se tratava de um puro acaso e que o facto simples era que as pessoas que estavam a maior distância estariam apenas mais neutras ou infelizes, mas o que se passava realmente era que Hanna como que fazia batota, induzindo, sem consciência, o aparecimento de expressões simpáticas. Quase invariavelmente as pessoas que se cruzavam connosco deixavam cair algo que, segundos antes, lhes fechava o rosto e, sem defesas de qualquer espécie, sorriam, carinhosa e abertamente, umas vezes para ela, outras vezes para mim, outras vezes para os dois.

A contabilidade que eu e Hanna levámos a cabo atingiu assim proporções claramente irreais. Talvez em quinze minutos, não mais numa outra vez em que repetimos este jogo tive o cuidado de confirmar com exactidão o tempo de passeio, o que aqui não aconteceu —, mas dizia que, em não mais de quinze minutos, contámos setenta e seis pessoas a sorrir. Mesmo tendo nós estado a descer a rua principal da cidade num momento do dia agitado — antes do almoço —, tal número não se justificava; não era preciso ser pessimista para perceber que era impossível existir tanta felicidade, digamos, por metro quadrado. E a sensação que eu tinha era de que Hanna se constituía como um elemento estranho, que parecia, como Moisés, à medida que avançava, separar as águas. A sensação era a de que a cidade e os seus elementos humanos — e mesmo não humanos (até as coisas fixas, os postes de electricidade) — se desviavam para um lado ou para o outro quando ela se aproximava, mas aqui, ao contrário do que sucede aquando da passagem de um homem poderoso ou de uma caravana de carros sinalizada como importante, o desvio a que Hanna obrigava as pessoas — desvio concreto, físico, um metro mais para a direita ou para a esquerda — era realizado com profundo e evidente prazer, prazer que se exteriorizava, então, quase infalivelmente, por via de um sorriso naquele momento crucial, decisivo, na história das cidades, e a que raramente se dá a devida atenção, esse momento de intensidade extrema em que duas ou mais pessoas, caminhando em direcções opostas, se cruzam, não apenas numa linha próxima dos ombros, mas ainda visualmente. Esse momento de cruzamento com outros tornou‑se para mim — em tantas outras ocasiões — um momento de satisfação, como se murmurasse para mim próprio: mais um, mais um!, numa espécie de jogo de sedução em que, para mais, não era eu nem o sujeito nem o objecto da sedução. Muita da extraordinária sensação de reconhecimento que eu sentia devia‑se à expectativa criada no pequeno trajecto — espacial e temporal — que ia daquele momento em que, ao longe, a trinta metros, digamos, víamos uma pessoa, até ao referido instante em que, se quiséssemos e se nos esforçássemos, poderíamos ver a cor dos olhos do outro, e o outro poderia ver a cor dos nossos olhos, tal a proximidade. E sim, as pessoas quando cruzavam o olhar com Hanna sorriam, com simpatia.

A voz do gueto

Por Nei Lopes

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Para o Dia da Consciência Negra, convidamos o professor Muniz Sodré e o escritor Nei Lopes para escreverem sobre Entre o mundo e eu, livro em que Ta-Nehisi Coates mostra a seu filho através de cartas como a mácula da escravidão ainda está presente nas sociedades em diferentes roupagens e modos de segregação. A seguir, leia o depoimento de Nei Lopes.

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“Você é impotente ante o grande crime da história que foi permitir que existissem guetos” (grifamos). Esta afirmação resume a grande mensagem deste importante livro do afro-americano Ta-Nehisi Coates.

E o livro é relevante, entre outros aspectos, porque suscita comparações ao leitor brasileiro: dá vontade de aprender melhor como ocorreram, no Brasil e nos EUA, os respectivos processos de extinção da ordem escravista; como operaram as contradições no pós-abolicionismo, lá e cá; como o Brasil claramente apostou na solução do “problema negro” pela diluição de sua porção africana no grande caldo geral.

Ele faz também refletir sobre como, a partir dos conceitos de literatura “periférica”, “marginal” e/ou “independente”, alguns círculos de legitimação abraçaram, no Brasil, a ideia de criação de um gueto, não só dentro da literatura como um todo, mas principalmente dentro daquela literatura de combate ao racismo, produzida por afrodescendentes em geral. Dentro dessa legitimação, no Brasil de hoje, se o escritor não é do gueto, sua palavra não significa, não opera nem ecoa.

Observemos que embora este livro venha do ghetto (aqui a forma inglesa é indispensável), sua edição brasileira, sob o aspecto formal, comprova, na “Nota sobre o título”, consignada na página de créditos, que não há boa literatura sem o aval das instituições legitimadoras, como as academias e demais círculos formuladores dos cânones literários.

E é assim que a voz do gueto deixa de ser panfleto e se torna, realmente, obra literária relevante, como esta, e abre as portas do mundo.

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entreomundoENTRE O MUNDO E EU
Sinopse: 
Em um trabalho profundo que articula as maiores questões da história dos Estados Unidos e os ideais americanos com as preocupações mais íntimas de um pai por um filho, Ta-Nehisi Coates apresenta uma nova e poderosa reflexão para a compreensão da história norte-americana e de sua discussão racial atual. Como é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele? E como podemos todos nós contar e reconhecer de forma honesta essa história e, ao mesmo tempo, nos libertar do fardo que ela representa? Entre o mundo e eu é a tentativa de Ta-Nehisi Coates de responder a estas perguntas em uma carta a seu filho adolescente. Coates compartilha a história de seu despertar para a verdade sobre seu lugar no mundo por meio de uma série de experiências reveladoras.

Entre o mundo e eu já está nas livrarias.

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Nei Lopes é escritor afrocarioca. Seu livro mais recente é Rio Negro, 50, publicado em 2015 pela Editora Record.