Penguin-Companhia

Leia um trecho de “Doze anos de escravidão”, o livro que deu origem ao filme ganhador do Oscar

Doze anos de escravidão, que já havia ganhado o Globo de Ouro em janeiro, acaba de ganhar três Oscar: melhor atriz coadjuvante, melhor roteiro adaptado e melhor filme!
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O filme é uma adaptação da autobiografia de Solomon Northup, um negro livre que foi sequestrado e submetido à escravidão entre 1841 e 1853. Leia abaixo um trecho do livro, já disponível em todas as livrarias na edição da Penguin-Companhia (tradução de Caroline Chang):

* * *

A dor em minha cabeça se atenuara um pouco, mas eu me sentia muito tonto e fraco. Estava sentado sobre um banco baixo, feito de tábuas, sem casaco nem chapéu. Minhas mãos estavam algemadas. Em torno de meus tornozelos havia um par de pesados grilhões. Uma ponta de corrente estava presa a um grande anel que saía do chão; a outra, aos grilhões em meus tornozelos. Em vão tentei me pôr de pé. Acordando desse transe tão doloroso, demorou algum tempo até eu conseguir organizar meus pensamentos. Onde estava? O que significavam as correntes? Onde estavam Brown e Hamilton? O que eu fizera para merecer ser encarcerado em tal masmorra? Eu não conseguia entender. Havia um branco de duração indefinida antes de eu acordar em tal lugar solitário, e os acontecimentos desse período não foram recordados nem mesmo com o maior esforço de memória. Agucei os ouvidos em busca de algum sinal ou som de vida, mas nada quebrou o silêncio opressivo, a não ser o clangor de minhas correntes, sempre que eu ousava me mexer. Falei em voz alta, mas o som de minha voz me surpreendeu. Apalpei meus bolsos, tanto quanto os grilhões permitiam — o suficiente, na verdade, para me certificar de que eu não apenas fora roubado em minha liberdade, mas que os documentos que a atestavam e meu dinheiro também tinham sido levados! Foi então que começou a ganhar espaço em minha mente a ideia, a princípio difusa e confusa, de que eu fora sequestrado. Mas isso me parecia impossível. Deveria ter havido algum mal­-entendido — algum engano fatídico. Não era possível um cidadão livre de Nova York, que não fizera mal a homem nenhum, tampouco violara qualquer lei, ser tratado de forma tão desumana. Quanto mais eu contemplava minha situação, porém, mais tinha certeza de minha suspeita. Era um pensamento lamentável, de fato. Senti que não havia confiança ou misericórdia em homens desprovidos de sentimentos; e, voltando­-me para o Deus dos oprimidos, deitei a cabeça sobre minhas agrilhoadas mãos e chorei lágrimas amargas.

* * *

Cerca de três horas se passaram, durante as quais permaneci sentado no banco baixo, absorto em reflexões pesarosas. À distância ouvia o cacarejar de um galo, e logo mais um estrondo ao longe, como coches passando aceleradamente pelas ruas, chegou até meus ouvidos, e eu soube que era dia. Nenhum raio de sol, porém, penetrou minha prisão. Finalmente ouvi passos que pareciam vir de cima, como de alguém caminhando de um lado para o outro. Ocorreu­-me que decerto eu estava em um imóvel subterrâneo, e o cheiro de umidade e mofo do lugar confirmava minha suposição. O barulho acima continuou por pelo menos uma hora, quando, enfim, ouvi passos vindo de fora. Uma chave rangeu na fechadura — uma porta pesada fez ranger as dobradiças, permitindo uma inundação de luz, e dois homens entraram e se postaram à minha frente. Um deles era alto, forte, com uns quarenta anos de idade, talvez, cabelo castanho­-escuro, ligeiramente salpicado de grisalho. Seu rosto era amplo, sua compleição, corada, seus traços, graúdos, expressando nada mais além de crueldade e astúcia. Tinha cerca de um metro e oitenta de altura, usava um traje completo, e sem qualquer preconceito tenho a permissão de dizer que era um homem de aparência sinistra e repugnante. Seu nome era James H. Burch, conforme fiquei depois sabendo — um negociante de escravos bem conhecido em Washing­ton; e naquele momento, ou recentemente, ligado por negócios, na condição de sócio, a Theophilus Freeman, de New Orleans. A pessoa que o acompanhava era um simples lacaio chamado Ebenezer Radburn, que agia meramente como carcereiro. Esses dois homens ainda vivem em Washington, ou viviam na época em que, voltando da escravidão, passei por aquela cidade, em janeiro último.

A luz que penetrara pela porta aberta me permitiu observar o cômodo no qual eu estava confinado. Tinha cerca de três metros e meio por três metros e meio — com sólidas paredes de argamassa. O assoalho era de tábuas pesadas. Havia uma pequena janela, sobre a qual cruzavam­-se espessas barras de ferro, com um postigo externo, firmemente fechado.

Uma porta com armação de ferro levava para a cela ou cave adjacente, totalmente destituída de janelas ou qualquer abertura para a luz. A mobília do quarto no qual eu me encontrava consistia no banco de madeira em que eu estava sentado e em um fogão de ferro antiquado e sujo. Além disso, nas duas celas, não havia nem cama nem cobertor, absolutamente mais nada. A porta, pela qual Burch e Radburn haviam entrado, levava a um estreito corredor e, subindo um lance de escadas, até um quintal, cercado por uma parede de tijolos de três ou três metros e meio de altura, imediatamente atrás de uma construção de mesmo tamanho. O quintal se estendia atrás da casa uns nove metros. Numa parte do muro havia uma porta de ferro pesada que dava para uma passagem estreita e coberta, que por sua vez contornava uma das laterais da casa até a rua. O destino do homem de cor sobre o qual a porta da estreita passagem se fechava estava selado. O topo do muro suportava a extremidade de um telhado, que subia na direção da parte interna, formando uma espécie de recesso aberto. Abaixo do telhado havia um sótão circundante onde escravos, se assim quisessem, podiam dormir à noite, ou, na intempérie inclemente, buscar abrigo da tempestade. Era, no geral, como o celeiro de uma fazenda, a não ser pelo fato de ser construído de forma que o mundo lá fora jamais pudesse ver o gado humano ali mantido.

A construção à qual o quintal era adjacente tinha dois andares e dava para uma das ruas de Washington. Sua fachada tinha a aparência de uma residência particular sossegada. Um estranho que a olhasse jamais sonharia com seus usos execráveis. Por mais estranho que pareça, perfeitamente avistável dessa mesma casa, soberano em sua colina, ficava o Capitólio. As vozes de representantes patrióticos enchendo a boca para falar de liberdade e igualdade e o clangor das correntes dos pobres escravos quase que se mesclavam. Uma casa de escravos sob a sombra do Capitólio! Tal é a descrição correta de 1841 da casa de escravos de William, em Washington, em uma de cujas celas me vi tão inexplicavelmente confinado.

“Bem, meu rapaz, como se sente agora?”, perguntou Burch ao passar pela porta aberta. Respondi que me sentia mal e perguntei a razão de meu cárcere. Ele respondeu que eu era seu escravo — que me comprara e que estava prestes a me mandar para New Orleans. Afirmei, em alto e bom som, que eu era um homem livre — morador de Saratoga, onde tinha mulher e filhos, que também eram livres — e que meu nome era Northup. Reclamei com amargura do estranho tratamento que recebera e fiz ameaças de, uma vez liberto, buscar vingança pelos males sofridos. Ele negou que eu fosse livre e com um xingamento enfático declarou que eu vinha da Geórgia. Repetidas vezes afirmei que não era escravo de ninguém e insisti para que ele retirasse minhas correntes imediatamente. Ele tratou de me silenciar, como se temesse que minha voz fosse ouvida. Mas eu não queria saber de ficar em silêncio e denunciei os autores de minha prisão, fossem quem fossem, como vilões irremediáveis. Percebendo que não podia me calar, ele se lançou num furor violento. Com xingamentos blasfemos me chamou de crioulo mentiroso, fugitivo da Geórgia, e todos os demais epítetos profanos e vulgares que a mente mais indecente poderia conceber.

Durante esse tempo Radburn manteve-se em pé e em silêncio. Sua função era supervisionar aquele estábulo humano, ou melhor, desumano, receber escravos, alimentá-los e açoitá­-los, a uma taxa de dois xelins por cabeça por dia. Ele desapareceu, e em poucos momentos voltou com os seguintes instrumentos de tortura: o remo, como é chamado na nomenclatura dos castigos para escravos, ou pelo menos na nomenclatura com a qual primeiro me familiarizei, consistia numa tábua de madeira de uns cinquenta centímetros ou pouco mais escarvada nessa forma. A parte do remo em si, que tinha o tamanho de duas mãos espalmadas, fora furada com uma broca fina em vários lugares; o gato era uma corda grande de vários cordões — os cordões se abriam, com um nó na extremidade de cada um.

Assim que esses formidáveis flagelos apareceram, fui pego pelos dois homens e bruscamente privado de minhas roupas. Meus pés, como já fora dito, estavam presos ao chão. Colocando-me sobre o banco, com o rosto para baixo, Radburn pôs seu pesado pé sobre os grilhões entre meus punhos, mantendo-os dolorosamente junto ao chão. Com o remo, Burch começou a bater em mim. Golpe após golpe foi infligido sobre meu corpo nu. Quando seu incansável braço finalmente se fatigou, ele parou e perguntou se eu ainda insistia em ser um homem livre. Eu insisti, e então os golpes recomeçaram, mais rápidos e com mais força, se é que isso era possível. Quando se cansava ele repetia a mesma pergunta e, recebendo a mesma resposta, prosseguia em sua ação cruel. A essa altura o diabo encarnado praguejava as imprecações mais demoníacas. Com a força dos golpes o remo se quebrou, deixando o inútil cabo nas mãos de meu agressor. Ainda assim eu não capitulava. Todos aqueles golpes brutais não eram capazes de forçar meus lábios a proferir a mentira imunda de que eu era um escravo. Jogando com força contra o chão o cabo do remo quebrado, Burch pegou a corda. Foi mais doloroso ainda. Lutei com todas as minhas forças, mas foi em vão. Roguei por misericórdia, mas minhas preces só foram respondidas com imprecações e novos golpes. Pensei que morreria sob os açoites do bruto maldito. Até agora a carne se arrepia sobre meus ossos quando lembro da cena. Eu estava em fogo. Só posso comparar meus sofrimentos às agonias flamejantes do inferno!

Por fim fiquei em silêncio diante de suas repetidas perguntas. Eu não daria nenhuma resposta. Na verdade, estava quase incapacitado de falar. Ainda assim ele vergava o chicote sem descanso sobre meu pobre corpo, até parecer que a carne lacerada era arrancada de meus ossos a cada golpe. Um homem com uma centelha de misericórdia na alma não espancaria nem mesmo um cachorro dessa forma cruel. Ao fim e ao cabo Radburn disse que era inútil continuar me açoitando — que eu já ficara bastante machucado. Assim, Burch desistiu, dizendo, ao mesmo tempo que agitava ameaçadoramente o punho fechado junto a meu rosto, sibilando as palavras por entre seus dentes firmemente cerrados, que, se algum dia eu ousasse dizer mais uma vez que tinha direito à minha liberdade, que fora sequestrado ou qualquer coisa do tipo, o castigo que acabara de receber não seria nada em comparação com o que aconteceria. Jurou que ia me dobrar, ou me matar. Com essas palavras de consolo, os grilhões foram tirados de meus punhos, com meus pés ainda presos à argola do chão; o postigo da pequena janela gradeada, que havia sido aberto, foi novamente fechado, e, quando eles saíram, trancando a grande porta atrás de si, fui deixado numa escuridão tão densa quanto antes.

Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução

Por José Francisco Botelho

Lancheria do Parque

Stanley Kubrick certa vez disse que dirigir um filme é como escrever Guerra e paz em uma montanha russa. Não tenho ideia de como seja dirigir um filme ou escrever Guerra e paz. Mas traduzir Os contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, foi como passar doze meses em uma montanha russa, no meio de um terremoto, tentando equilibrar nas mãos um glossário de inglês medieval. Vou sentir falta dos solavancos.

Mas antes de falar sobre o Chaucer, preciso falar sobre a Lancheria do Parque e sobre o Bom Fim. Mais que um bairro, o Bom Fim é o coração excêntrico de Porto Alegre — o lugar onde tocadores de gaita escocesa se topam com judeus hassídicos impecavelmente vestidos de preto, e onde um sujeito em puídas bombachas de gaucho platino há tempos tenta me vender sua coleção de gibis da Marvel. O ponto nevrálgico do Bom Fim é a Lancheria do Parque — o lugar que serve o melhor suco de laranja batido em todo o mundo sublunar; e onde os garçons gritam os pedidos dos fregueses, a plenos pulmões, para os funcionários do outro lado do balcão.

Quando o editor Leandro Sarmatz me lançou a proposta-desafio de traduzir Os contos da Cantuária em versos — isso foi por volta do início de 2012 — eu alugava um escritório no segundo andar de um casarão histórico, cor de rosa, a meia quadra da Lancheria. Não havendo ar condicionado ali, comecei a traduzir o Chaucer ao sabor das intempéries porto-alegrenses, cujo nome é legião. Completei os primeiros decassílabos em meio ao calvário do verão de Porto Alegre, com a ajuda de um honesto ventilador de canto — mas, quando vieram os meses do inverno, o halo avermelhado de minha estufa apenas acentuava o fato de que meus dedos estavam gelados demais para digitar. Algumas tardes, então, passei a me transferir com livros, papéis e canetas a uma das mesas da Lancheria, onde o ajuntamento de pessoas me proporcionava o necessário calor (humano, no caso) para seguir trabalhando.

Pelos meus cálculos, traduzi três contos inteiros em meio aos célebres brados de “laranja batido!” e “farroupilha de salaminho, prensado!”. Um outro frequentador contumaz do local, notando minha aplicação meio maníaca sobre aqueles papéis, certa vez me perguntou o que eu escrevia. Sofro de uma certa timidez de escritor, que me leva frequentemente a mentir (de forma irracional) sobre o que estou escrevendo. De forma que respondi: é um roteiro, para um filme sobre contrabandistas. (Eu realmente pretendo um dia escrever um roteiro sobre contrabandistas. Seja como for: algumas semanas atrás voltei à Lancheria, e o mesmo habitué me perguntou “como vai o roteiro”. Dei de ombros e respondi: “Larguei de mão”).

Mas antes de prosseguir, preciso falar de Bagé, e dos maçaricos — me refiro ao pássaro, não à ferramenta. Quando eu já havia chegado mais ou menos à metade dos Contos — lá pelo “Conto do Navegador”, eu acho — me mudei de cidade. Por motivos longos demais para este modesto relato, vim morar por algum tempo em minha cidade natal, Bagé, em uma das regiões mais isoladas do Brasil, na fronteira profunda com o Uruguai. Em sua solidão algo orgulhosa, a cidade gosta de recordar certos visitantes inusitados: Omar Shariff costumava jogar bridge no Clube Comercial (era amigo do dono de um haras, aqui perto); Richard Gere era visto tentando comprar pãezinhos em uma padaria local (ele namorou, por um tempo, uma pintora bajeense); e Yves Montand certa vez deu uma canja em um famoso restaurante de pescados (não tenho a menor ideia do que Yves Montand fazia por aqui).

Mas, bem,  o que interessa é que  passei a viver em uma casa antiga no centro histórico de Bagé, com um pátio enorme e decadente, frequentado regularmente por bandos de maçaricos:  eles são pássaros compridos, escuros, cujo canto é formado por piados distintos, sincopados e vagamente ominosos. A essas alturas, a tradução diária de decassílabos já havia se entranhado de tal forma em minha cabeça que eu tentava escandir e metrificar tudo a minha volta. O prazo final se aproximava, e o medo de falhar na empreitada me levou quase a duplicar as horas de trabalho. No supermercado, eu me flagrava contando as sílabas dos nomes dos produtos, na ponta dos dedos; outras vezes, lá estava eu a  escandir as primeiras palavras de minha filha, que na época completava uns dois anos de idade; em alguns momentos do dia, minha esposa era obrigada a me chamar de volta ao já quase esquecido mundo das frases sem métrica: “Chega de decassílabos, Chico”.

Mas, à noite, o ritmo surdo dos decassílabos continuava pulsando entre minha cabeça e o travesseiro.

O clímax dessa história ocorreu certa tarde, quando eu chegara ao nebuloso píncaro de um capítulo, e tudo ao meu redor parecia estranho e mudo; e foi então que um maçarico passou voando pela janela. A sombra bateu em meu rosto, fiquei atordoado por uns instantes, houve um movimento involuntário de meus dedos. E percebi: eu estava tentando escandir os piados do maçarico. Pensei, nitidamente: Agora, sim, estou virando o louco dos decassílabos. Cogitei o desespero por um instante, mas então fiz aquilo que sempre se deve fazer em momentos de espasmo existencial. Eu fui preparar um mate.

Enquanto tomava o chimarrão, a sensação de mau agouro se desfez e percebi que, na verdade, estava tudo acabando, para o bem ou para o mal: faltava pouco, muito pouco para o fim da montanha russa. O verão havia voltado e a loucura dos decassílabos em breve iria acabar. Desde que eu me sentara para escrever o primeiro verso do “Prólogo geral”, minha filha havia aprendido a andar e a dizer “Nabucodonosor”; dois fios brancos haviam surgido em minha barba. Eu havia passado doze meses na companhia de Harry Bailey, o Albergueiro, e sua trupe — em breve, muito em breve, iríamos nos separar. Nesse momento, senti algo semelhante ao que Rudyard Kipling descreve em um dos melhores contos do Livro da selva: “Uma grossa e morna lágrima caiu em seu joelho e, triste como se sentia, Mowgli sentiu-se feliz por estar tão triste — se é que vocês conseguem entender essa espécie de felicidade de ponta cabeça”.

Não chorei, claro — sou hiperbólico, mas não melodramático. Terminei o mate, enquanto minha felicidade de ponta cabeça era invadida por outra sensação igualmente imponderável. Eu sairia dos Contos, em breve, e para sempre — mas, graças aos meandros da vida e da literatura, minhas duas terras estranhas, o Bom Fim e Bagé, ficariam de alguma forma lá dentro, enfeitiçadas e escandidas, entre os loucos, os lordes, os santos e os depravados de meu querido Geoffrey Chaucer.

[A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano.]

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

Resultado do concurso O grande Gatsby

Obrigada a todos que participaram do concurso O grande Gatsby, recebemos ótimas respostas!

O melhor resumo em 140 caracteres foi enviado por Romulo Ribeiro:

“Milionário misterioso tenta reaver amor do passado criando mundo de ilusões para uma amada que se mostra tão ilusória quanto todo o resto.”

Parabéns, Romulo! Você ganhou 5 livros da Penguin-Companhia, entraremos em contato por email.

O filme de O grande Gatsby chega aos cinemas brasileiros dia 7 de junho. Para aqueles que gostam de ler o livro antes de ver o filme, a Penguin-Companhia está vendendo com desconto sua edição do clássico, que tem tradução de Vanessa Barbara e introdução de Tony Tanner: o livro físico está disponível em diversas lojas por R$19,50, e o e-book está à venda por R$7,90.

Concurso: O grande Gatsby

No dia 7 de junho chega aos cinemas brasileiros a nova adaptação de O grande Gatsby, com direção de Baz Luhrmann. O filme tem Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan nos papeis principais, e promete ser bem diferente das adaptações anteriores.

Para aqueles que gostam de ler o livro antes de ver o filme, a Penguin-Companhia está vendendo com desconto sua edição do clássico, que tem tradução de Vanessa Barbara e introdução de Tony Tanner: o livro físico está disponível em diversas lojas por R$19,50, e o e-book está à venda por R$7,90.

Para combinar com essa versão moderna do livro, nós aqui do blog propomos o seguinte: resuma O grande Gatsby em 140 caracteres. O autor da melhor resposta ganhará 5 (cinco) clássicos da Penguin-Companhia, à sua escolha.

Para participar, basta deixar seu resumo na caixa de comentários deste post até a meia-noite do dia 26 de maio. Os editores da Companhia avaliarão as respostas, e o vencedor será divulgado aqui no blog dia 29 de maio. Só aceitaremos uma participação por pessoa, e para evitar cópias, todos os comentários serão ocultados até o fim do prazo.

Veja os trailers abaixo para se inspirar, e boa sorte!

O impassível Sr. Darcy

O protagonista esnobe e rabugento de Orgulho e preconceito está fazendo duzentos anos — e nunca esteve tão bem. Qual o seu segredo? A jornalista e romancista Allison Person ensaia uma resposta. Veja ao final do post como concorrer a 2 exemplares deste clássico.

Numa noite invernal de 1995, jantei com o sr. Darcy num acolhedor restaurante italiano em Covent Garden. Mal toquei na comida, tão absorta em devorar o homem a meu lado. Seu porte era elegante, os gestos, a um só tempo, contidos e envolventes, os olhos, duas lagoas profundas nas quais seria um prazer afundar. Do que me lembro, apaixonei-me por Darcy pela primeira vez há uns vinte anos, e agradeci aos céus por ainda conseguir lembrar o que ele apreciava em uma mulher. “Seja jovial e interessante”, recomendei a mim mesma. Jovial e interessante. Como Elizabeth Bennet.

No restaurante, as mulheres faziam intricados desvios para chegarem ao lavabo, a fim de poderem passar rente à nossa mesa e olhá-lo de frente. Ele admitiu seu desconforto por ser o objeto desse tipo de fascínio vulgar.

“Não se preocupe”, eu disse, citando (e torcendo para soar jovial e interessante) o início da devastadora carta de Darcy a Lizzy após ela ter recusado seu pedido de casamento. “É melhor ir se acostumando a todo esse assédio.”

A bem da verdade, minha companhia naquela noite não era de fato o sr. Darcy, e sim Colin Firth, ator que recentemente irrompera para a fama — ou, mais apropriadamente, emergira direto para ela ao sair de um lago em uma camiseta justa e molhada — ao interpretar Darcy na adaptação de Orgulho e preconceito dirigida por Andrew Davies para a BBC. Finda a filmagem, Firth se ausentou do país para um trabalho no exterior. Ao retornar, a Inglaterra já estava rendida à Darcymania. Ao pedir a ele que comentasse sobre o assédio, Firth assumiu a expressão levemente cordial de um simples mortal que sabe estar levando o crédito pela força de um personagem ficcional (a mesma expressão apresentada atualmente por Robert Pattinson, o astro dos filmes da série Crepúsculo). Sujeito modesto, Firth contou o que aconteceu ao dizer a sua velha tia, uma devota de Jane Austen, ter sido escolhido para o papel de Darcy. “Não seja tolo, Colin”, a tia respondeu, ferina. “O sr. Darcy é bonito e atraente de doer.”

Faz duzentos anos que “o mais orgulhoso e antipático homem do mundo” adentrou os salões de Hertfordshire e recusou a dança com a srta. Bennet por ela ser “razoável; mas não […] bonita o bastante para me tentar”. A idade não tirou o vigor do sr. Darcy, nem a inflação reduziu o poder de suas 10 mil libras anuais — meio milhão em valores atualizados. Desde então, o romance de Darcy e Elizabeth estabeleceu o padrão para as histórias de amor com percalços: pavimentar o caminho para o encontro de duas mentes afins com um bocado de obstáculos, removendo-os a seguir um por um. Em Orgulho e preconceito, a posição social inferior de Lizzy (e alguns parentes desagradáveis) e a soberba de Darcy são o que os mantêm separados por alguns dos mais inebriantes capítulos da língua inglesa.

Fui apresentada a Fitzwilliam Darcy aos dezesseis anos. Não foi amor à primeira vista; e nem era pra ser. O gênio de Austen em Orgulho e preconceito consiste em ela nos apresentar Darcy do ponto de vista ultrajado de Elizabeth. Enquanto Lizzy vai confirmando sua convicção de que esse arrogante dono de uma vasta propriedade em Derbyshire não passa de um mau partido, um mortificado Darcy vai percebendo estar cada vez mais atraído por aquela jovem vivaz. “Mas, assim que admitiu claramente para si e seus amigos que ela não tinha um traço de beleza no rosto, começou a perceber que se tornava um rosto extraordinariamente inteligente, pela bela expressão de seus olhos escuros.”

Nenhum autor conseguira até então fazer o público sentir como a química da atração amorosa começa a se insinuar e crepitar, não importando a resistência oferecida por seus elementos. Darcy e Elizabeth não foram concebidos apenas para os anos 1800, mas para todo o sempre. Eis-los aqui, em 1954, apanhados pelo grande letrista Johnny Mercer: “When an irresistible force such as you/ Meets an old immovable object like me/ You can bet as sure as you live./ Something’s gotta give/ Something’s gotta give.” [Quando essa força irresístivel que é você/ Encontra este velho impassível que sou eu/ Pode apostar que enquanto você viver./ Alguém terá que ceder/ Alguém terá que ceder.]

Lizzy Bennet é a força irresistível que toda garota secretamente quer ser. Da perspectiva da meia idade, creio ser esta a mais perene de todas as fantasias femininas: achar um cara orgulhoso e durão e fazer com que ele ame a nós, e somente a nós. Afinal, quem é Christian, o bilionário distante de Cinquenta tons de cinza, senão um Darcy que tem um quarto vermelho da dor no lugar de um jardim guarnecido?

Pelo menos foi essa a minha reação adolescente ao sr. Darcy. Coisa séria para uma garota devoradora de livros angustiadamente cheia de si nos anos 1970. Antes de ler Orgulho e preconceito, minhas noções de romance vinham das fotonovelas da revista Jackie e de encontros promovidos por amigos do candidato a pretendente na lanchonete do bairro. “O Dave tá a fim de você. Tá a fim de uns amassos com ele, hein?”

O coração não palpitava à abordagem de Dave e seu bafo de salgadinhos. Todas as garotas são romancistas românticas, a imaginar febrilmente seus próprios futuros. Decepcionada com Dave e seu eu cheio de espinhas, comecei a elaborar intricadas fantasias de sedução dirigidas ao rosto de David Cassidy — bonito, rico, maravilhosamente inacessível. Implausíveis como fossem, esses roteiros transbordavam de desejo ardente. Assim, ao ler a obra-prima de Austen pela primeira vez, deparei-me ali com algo que já sabia, mas não conseguira ainda expressar tão bem.

Não creio ter sido uma coincidência que Jane Austen tivesse a mesma idade de Elizabeth Bennet, vinte anos, ao escrever a primeira versão de Orgulho e preconceito. Quando o romance foi revisado e publicado, em 1813, ela já contava 37 anos, uma velha solteirona. Austen tivera seus dias no mercado do casamento, aquele circo de carne jovem, ganhos e conexões. Dotes como os dela não possuíam valor de troca naquele tempo e lugar históricos. O proprietário de uma Pemberley real jamais se dignaria a notar uma mulher brilhantemente inteligente, de origem humilde, que fora obrigada a se mudar de sua terra natal em razão das brutais regras de herança masculina. Em sua ficção, Austen podia não só denunciar a situação, como também mostrar o caminho certo.

Sempre me dá vontade de chorar quando leio a parte em que Elizabeth diz a Darcy que sua ideia de uma mulher talentosa é de tal forma elevada: “Sim, abarca muita coisa. […] Deve possuir tudo isso, e a tudo isso deve acrescentar algo mais substancial, o aperfeiçoamento de suas qualidades intelectuais por meio de muita leitura.”

Muita leitura? Oh, Jane, bendita seja. Obrigada, autora querida, por dar seu recado a todas as garotas loucas por livros, por gerações, à espera de multimilionários bonitões prontos a serem postos de joelhos por nosso conhecimento profundo da literatura do século XVIII.

Fantasia? Claro que sim. Ninguém mais do que a tia Jane, ao editar seu texto num quarto gélido, sabia que Fitzwilliam Darcy não viria em seu socorro. Dá até para ver o sorriso irônico da romancista no momento em que perguntam a Lizzy em que momento ela soube que estava apaixonada pelo sr. Darcy. “Creio que a data precisa foi a primeira vez em que vi a sua bela propriedade em Pemberley”, responde nossa jovial e esperta heroína. Garota de sorte.

Austen morreu quatro anos após a publicação de Orgulho e preconceito. Mas o amor de Darcy por Elizabeth é imortal. Por quê? Porque sua criadora escolheu acreditar que um homem podia amar uma mulher por aquilo que ela era, e, ao acreditar nisso, e escrever isso com talento transcendental, ela fez disso a realidade. Foi assim há duzentos anos e é assim que sempre será. Enquanto houver impassíveis objetos masculinos e irresistíveis forças femininas, pode apostar sua vida, alguém terá que ceder.

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Allison Pearson é colunista do Daily Telegraph e autora de dois romances, Não sei como ela consegue e I think I love you. Texto publicado originalmente na revista Inteligent Life, edição de janeiro/fevereiro 2013. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

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Concorra a 2 exemplares de Orgulho e preconceito na edição da Penguin-Companhia. Deixe um comentário até a meia-noite de hoje (28 de janeiro) respondendo a seguinte pergunta: por que o encanto pelo sr. Darcy continua até hoje, 200 anos após a publicação do livro? Escolheremos as 2 melhores respostas e anunciaremos os vencedores amanhã, neste mesmo post.

[Editado dia 29 de janeiro, às 17h10]

Obrigado a todos que participaram! As respostas escolhidas foram:

“Justamente por Darcy provar que é possível um homem gostar de uma mulher pelo que ela é, por provar que o orgulho não é tudo e que muitas vezes uma primeira impressão pode estar errada. Todos gostamos de imaginar um homem que seja mais do que aparenta, que nos ame pelo que somos, que queira descobrir o que somos de verdade. E Darcy ultrapassa os preconceitos de Lizzie Bennet para isso.” — Camila Loricchio

“Porque o Sr Darcy supera atitudes orgulhosas e preconceituosas com uma postura inteligente e verdadeira. Inteligência e sinceridade nunca saem de moda. Pelo contrário, são qualidades cada vez mais valorizadas, porque são cada vez mais raras. Para os mais otimistas, o Sr Darcy não perde o encanto, porque é inspirador. Já os mais pessimistas buscam no herói de Jane Austen um alento de algo que lhes parece existir apenas no mundo da ficção. Inspiração ou nostalgia, o fato é que o Sr Darcy resistiu a dois séculos de mudanças e, ao que tudo indica, resistirá a pelo menos mais dois.” — Gabi

Parabéns! Entraremos em contato por email.