Penguin-Companhia

Gatsby, o livro mais triste do mundo

Por Vanessa Barbara

[Leia A cartografia de O grande Gatsby, com um mapa da área onde se passa a história, e Gatsby no cinema, sobre as adaptações do livro.]

[Atenção: este texto contém spoilers.]

Comecei a traduzir O grande Gatsby em janeiro e, ao final da empreitada, quatro meses depois, havia um cadáver num colchão inflável, descrevendo círculos na piscina. Meu casamento chegara ao fim e, como Nick Carraway, eu estava de volta ao Oeste para limpar a sujeira que os outros deixaram pra trás — no funeral, apareceu apenas um homem com os Olhos de Coruja, e choveu bastante.

Foram cinco meses de perplexidade e angústia, ainda mais porque eu não lembrava o que acontecia no final e ia seguindo, página a página, pensando “isso não vai dar certo”, e, ainda assim, virando a folha. Mesmo que a tragédia tenha sido suficientemente anunciada, eu insistia em decifrá-la, detendo-me em parágrafos misteriosos como os do final do capítulo 2 e procurando obter maior clareza, ainda que doesse.

O grande Gatsby fala de um novo-rico que compra uma mansão à beira da baía, em West Egg, e passa a promover festas extravagantes para reconquistar um grande amor do passado, Daisy, casada com um sujeito hipócrita e arrogante chamado Tom Buchanan. O narrador é Nick Carraway, primo de Daisy, que também mora do lado pobre da baía (East Egg é onde vivem os ricos). Tom mantém um apartamento em Nova York onde costuma se encontrar com a amante, sem o menor pudor, e durante aquele fatídico verão Daisy acaba engatando um romance com Gatsby.

Há duas cenas que ilustram à perfeição o que Gatsby significou pra mim nesses quatro meses: de um lado, o incidente com a roda do automóvel, no final do capítulo 3, e de outro, o último encontro entre o narrador e Tom Buchanan, no fim do livro.

O incidente da roda fecha magistralmente a descrição de uma festa no jardim da mansão de Jay Gatsby, onde se passava a noite toda dançando, brigando e se embebedando. Quase ninguém era efetivamente convidado, poucos conheciam o anfitrião e havia uma cantora alta e ruiva, integrante de um famoso coro, que “bebera grandes quantidades de champanhe e se convencera inoportunamente, no decorrer da canção, de que tudo era muito triste — de modo que não estava só cantando, mas também chorando”. Quando alguém lhe faz uma piada, ela lança as mãos ao céu, afunda na cadeira e cai num sono etílico.

Ao final da festa, o narrador deixa a mansão e vê um carro caído numa vala, provavelmente saído da garagem há não menos de dois minutos. Completamente embriagado, o motorista sai dos escombros e pergunta o que houve.

“Meia dúzia de dedos apontaram em direção à roda amputada. Ele a encarou por um instante e então olhou para cima, como se suspeitasse que tivesse caído do céu.

[…] Então, tomando um longo fôlego e endireitando os ombros, ele comentou:

— Será que alguém aí sabe informar onde tem um posto de gasolina?

Pelo menos uma dúzia de homens, alguns quase tão bêbados quanto ele, lhe explicaram que roda e automóvel não mais se encontravam unidos por um elo físico.

— Para trás — ele sugeriu, depois de uma pausa. — Vamos dar marcha a ré.

— Mas falta uma roda!

Ele hesitou.

— Não custa tentar.”

Os trechos sobre a festa são impagáveis e me fazem lembrar uma piada do cineasta Woody Allen: “Francis Scott e Zelda Fitzgerald voltaram pra casa, após uma tresloucada festa de réveillon. Era abril.”

São passagens engraçadas e ao mesmo tempo melancólicas, que trazem à tona personagens como Klipspringer, tão assíduo das festas que era conhecido como “o hóspede” — duvidava-se que tivesse outra residência — e que, no final, ressurge apenas para pedir seus tênis de volta. As noites ofuscantes e barulhentas no jardim de Gatsby prenunciam a frieza que estava por vir.

Toda a dissimulação e desprezo tem seu ápice na cena mais sufocante do livro, dentro de um quarto no Plaza Hotel, quando Tom resolve humilhar Gatsby e passar a limpo a traição da esposa. Brutalmente, manda-os voltar no mesmo carro.

Na volta, Daisy atropela a amante de Tom e é Gatsby quem assume a culpa. Tudo termina em sangue e tragédia, menos para os Buchanan, que se mudam para outro lugar e seguem suas vidas como se nada tivesse acontecido.

O que nos leva àquela que, ao meu ver, é a principal cena do livro: Nick está andando pela Quinta Avenida, meses após o incidente, e encontra Tom. Hesita em cumprimentá-lo (“você sabe o que penso de você”).

Nesse trecho, muitos críticos falam da moralidade oscilante do narrador, que, no fim das contas, acaba apertando a mão de Tom, de certo modo compactuando com toda a sujeira e indiferença que vira até então: um marido negligente que trai publicamente a esposa, uma esposa avoada que sai impune de um homicídio culposo, uma vítima desiludida boiando num colchão inflável. A certa altura, Nick admite que Gatsby “vale mais do que todos eles juntos”, embora seja tarde demais para dizê-lo, e a despeito de o próprio Gatsby não ser uma pessoa tão admirável quanto o narrador faz pensar.

Ninguém sai impune desse romance duro e sem concessões — talvez apenas o Homem de Olhos de Coruja, que, bêbado há mais de uma semana, tem um insight sobre Gatsby, comparando-o a uma biblioteca de encadernações verdadeiras, mas que nunca foram lidas.

Lembrando o dia em que a filha nasceu, Daisy confidencia ao primo: “Não fazia nem uma hora que ela tinha nascido e Tom estava sabe Deus onde. Acordei do éter com um sentimento de completo abandono e perguntei à enfermeira se era menino ou menina. Ela me disse que era menina, e então eu virei a cabeça e chorei. ‘Que bom que é uma menina. […] Espero que ela seja uma grande tonta: é o melhor que uma garota pode ser neste mundo, uma belíssima tonta’”.

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Daisy e Tom pertencem a uma “irmandade secreta muito distinta” a quem tudo é permitido, e a quem basta fingir que nada aconteceu para que de fato nada tenha ocorrido. O romance inteiro é calcado em “acidentes”: o atropelamento fatal, os motoristas imprudentes, o namoro de Daisy com alguém de classe inferior, o esbarrão no trem entre Tom e a amante, que leva ao prolongado adultério. É como se os erros e descuidos das pessoas pudessem ser tomados como acidentes, como negligências inconsequentes sem qualquer implicação mais séria. “É como se Nick [o narrador] tivesse que se defrontar com um universo inteiro de casualidade. Desimportante. Insignificante”, diz Tony Tanner, na introdução desta edição. “Num mundo dominado pelos Buchanan, a pura contingência reina absoluta, ameaçadora e grotesca.”

O próprio narrador pondera:

“Eu nunca seria capaz de perdoá-lo ou de gostar dele, mas vi que seus atos eram, a seus olhos, inteiramente justificáveis. Tudo decorrera de forma descuidada e confusa. Eles eram todos descuidados e confusos. Eram descuidados, Tom e Daisy — esmagavam coisas e criaturas e depois se protegiam por trás da riqueza ou de sua vasta falta de consideração, ou o que quer que os mantivesse juntos, e deixavam os outros limparem a bagunça que eles haviam feito…”

Na madrugada após o atropelamento, Nick espia pela cortina da cozinha e vê o casal conversando — não exatamente felizes, mas não de todo tristes. “Havia um clima inequívoco de intimidade natural naquela cena, e qualquer um poderia jurar que estavam conspirando.”

E estavam. Depois do almoço, os Buchanan já tinham partido sem avisar ninguém, e, antes do fim do ano, Tom caminhava pela rua com naturalidade, parando para olhar a vitrine de uma joalheria — talvez em busca de um presente para a nova amante. “O que vocês queriam? O que esperavam?”, diria o Homem de Olhos de Coruja, com sua sabedoria bêbada.

Para que o caso pudesse permanecer o mais simples possível, ninguém tomou a responsabilidade para si, apressando-se em atribuir o crime a um homem “louco de tristeza”. E ficou por isso mesmo. A indiferença é tamanha que, quando Tom percebe a hesitação de Nick em cumprimentá-lo, reage de forma indignada: “Você está louco, Nick. […] Não sei qual o seu problema”.

“Apertei a mão de Tom; me pareceu tolo não fazê-lo, pois tive a súbita impressão de que estava lidando com uma criança. Então ele entrou na joalheria para comprar um colar de pérolas — ou talvez apenas um par de abotoaduras —, livre para sempre da minha sensibilidade provinciana.”

Até o último instante, Gatsby esperava o telefonema de Daisy. E é assim que, ao final do romance, temos um cadáver boiando à deriva num colchão inflável, e uma tradutora que abraçou o livro por acidente — justo este livro — e até hoje não sabe ao certo se o automóvel que a atropelou era verde-claro ou amarelo.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

A cartografia de O grande Gatsby

Por Vanessa Barbara


(Clique na imagem para vê-la ampliada)

O mapa acima foi cuidadosa e atabalhoadamente confeccionado pela tradutora deste romance, com vistas a se localizar na geografia mítica de Fitzgerald, que mistura logradouros inventados à cartografia real de Long Island.

O objetivo é ajudar o leitor a se situar nas andanças dos personagens pela região e no caminho até Manhattan.

A fictícia “West Egg” do livro, onde moram Gatsby e Nick Carraway, corresponde a Kings Point, na península de Great Neck. A badalada “East Egg”, onde vivem os Buchanan, corresponde a Sands Point, na península de Cow Neck.

O lendário Vale das Cinzas, onde se localiza a oficina de George Wilson e onde ocorre o acidente, é uma região comprida e desolada, conhecida na época como o Depósito de Corona, no Queens, onde eram descartadas as cinzas industriais das fornalhas de carvão, além de lixo e esterco. Em 1936, a área foi revitalizada para a Feira Mundial de 1939-40, e hoje abriga o Flushing Meadows Corona Park (onde até há pouco tempo havia o Shea Stadium).

Pode-se dizer que a oficina de Wilson no Vale das Cinzas fica próxima ao ponto onde a rodovia e a ferrovia cortam o rio Flushing. Em sua geografia mítica, Fitzgerald teve de aproximar o traçado de ambas para poder situar a oficina à beira da estrada e a pouca distância da ponte levadiça que define a parada dos trens.

Recomenda-se que o leitor imprima este garboso mapa de proporções razoavelmente fidedignas a fim de anexá-lo à última página do livro, podendo se sentir à vontade para percorrer os passos dos personagens com a ajuda de peões coloridos, feijões ou carrinhos do Jogo da Vida.

Observação: Como base, usei uma foto de satélite gentilmente fornecida pelo Google Earth, transcrita em papel vegetal com canetinhas e lápis de cor. Fica o agradecimento a Jennifer Roberts, professora de literatura americana da Point Loma High School, em San Diego, Califórnia, que postou em seu blog este belo mapa, que adotei como esboço.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Primeiro ano do Clube de Leitura Penguin-Companhia das Letras

Por Fernanda Baggio de Almeida

Nesta segunda-feira, dia 19 de setembro de 2011, o Clube de Leitura Penguin-Companhia das Letras da Livraria Cultura comemora seu primeiro ano de existência. Colecionamos 12 encontros desde que começamos timidamente a trocar impressões sobre nossas leituras e a escolher nossos próximos livros do mês. Ler junto e poder conversar com alguém que mostre o mesmo interesse que o seu é uma experiência maravilhosa.

Descobrimos e redescobrimos autores, lemos obras que estavam esquecidas há muito e acrescentamos novos e inusitados escritores ao nosso gosto. Contudo, o mais relevante é o contato que tivemos com novos olhares, com novas formas de leitura e interpretação de textos clássicos e contemporâneos. Frente à liberdade e à ausência de qualquer espécie de filtro que a literatura nos propõe, nossos encontros dessacralizam todas as formas de convenção, regra ou mito que possam rondar um clássico já muito estudado e que nos induzem muitas vezes a uma leitura tendenciosa.

O envolvimento com a narrativa ou com os personagens, a atenção mais à forma ou ao argumento, o incômodo positivo ou negativo, o alumbramento ou a frustração que os livros podem nos causar, como de verdade o livro nos afetou, e a experiência propriamente dita é o que mais nos importa. Trata-se de uma experiência de troca e sinceridade, levemente arriscada, pois numa leitura em conjunto as convicções não valem mais nada. O entusiasmo de um pode contaminar e provocar uma leitura diversa em outro, que supostamente não tinha sido afetado pela leitura com a mesma intensidade do primeiro. Livros como As brasas, de Sándor Márai, Pelos olhos de Maisie, de Henry James, e Papéis avulsos, de Machado de Assis, geraram discussões intermináveis. E o mais interessante é que, de verdade, elas só terminam porque talvez não tenhamos o mesmo poder que esses livros têm de congelar ou condensar o tempo em palavras, parágrafos e capítulos.

Quando trocamos leituras, levamos para casa todo o conhecimento de mundo de nosso grupo: o olhar de uma estudante; a crítica de uma psicóloga; o conhecimento de um profissional de T.I.; o deslumbramento de uma advogada; o riso de uma dona-de-casa num trecho engraçado; as observações de uma vendedora; etc. Passados 12 meses desde que começamos, minha opinião é que, a cada encontro, mais leituras levo para casa e melhores os livros vão ficando, pois não leio sozinha como sempre fiz. Agora leio com novos olhos que acrescentam um mundo novo a cada obra.

[Veja a lista de cidades que recebem o Clube de Leitura]

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Fernanda Baggio de Almeida é funcionária da Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, e mediadora do primeiro clube de leitura Penguin-Companhia das Letras.

Gatsby no cinema

Por Vanessa Barbara

Em 29 de setembro, a Penguin Companhia irá lançar O grande Gatsby, com introdução e notas de Tony Tanner e tradução desta vossa humilde criada. Até então, o clássico de F. Scott Fitzgerald havia sido publicado no Brasil em 1980, pela Abril Cultural, em tradução de Brenno Silveira, e este ano pela Record, traduzido por Roberto Muggiati.

Durante os quatro meses que passei com Nick Carraway em Long Island, pude assistir três das seis versões cinematográficas do romance. Da primeira, lançada em 1926, restou apenas o trailer, mas sabe-se que era bastante fiel ao romance (embora fosse um filme mudo). A segunda é muitíssimo interessante, mas pelos motivos errados.

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Gatsby de 1949

Lançada em 1949 e dirigida por Elliott Nugent, esta adaptação ganhou um delirante subtítulo em português: O grande Gatsby – Até o céu tem limites. Encontrei muitas resenhas elogiando a performance de Alan Ladd no papel principal, e foi com grande expectativa que me dispus a ver o filme, após procurá-lo febrilmente pelos torrents desta vida.
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Quase morri de decepção. O longa já começa equivocado: vinte anos mais tarde, o casal Nick e Jordan visita o túmulo do notório gângster Jay Gatsby (o leitor não precisa se preocupar com spoilers, já que muita coisa dessa trama passa bem longe do original). Sim, pois as cenas seguintes deixam bem clara a ocupação do nosso herói: ele é visto trocando tiros com a polícia, traficando bebidas alcoólicas, sendo perseguido pela Lei e tocando o horror num flashback moralizante e destituído de nuances.

Em sua lápide, uma passagem bíblica escolhida por Nick: “Tal caminho parece reto para alguém, mas afinal é o caminho da morte”. Fiquei imaginando que tipo de gente bota uma coisa dessas na lápide do amigo.

Uma a uma, todas as ambiguidades do romance são destroçadas a golpes de marreta: com sua estola de peles, Myrtle sai da oficina correndo e grita: “O carro amarelo! É ele! Pare!”, algo que é apenas sugerido no livro — se tanto. A cena mostra sem pudor quem estava ao volante do automóvel, o momento da colisão e o ímpeto vingativo de George Wilson.

Antes disso, no quarto do hotel, em lugar de uma situação tensa e trágica, Daisy se decide a ficar com Gatsby, exclamando: “Estou indo embora e nada no mundo vai me segurar!”. Confesso que ri em voz alta. Mais que isso, ela faz menção de se entregar à polícia e pede ajuda ao marido. “Não me deixe ser covarde, não me deixe ser fraca e egoísta. Por favor, pela primeira vez na vida, me ajude a ser leal e decente, fazendo o que é certo”. Tom responde: “Não, você está tentando me confundir”. Em seguida, tenta avisar Gatsby de que alguém está atrás dele.

Nessa versão, assim como nas demais, Nick é um santo: não só precisa ser contido em sua ânsia de fazer o bem (“vocês não podem deixar Jay levar a culpa!”), como no final se casa com Jordan. Tom é coagido por um homem armado, mas ainda assim não dedura o rival.

É como se fosse tudo um mal-entendido, um azar cósmico, e não uma consequência direta dos atos dos personagens, todos egoístas e descuidados — sem exceções, como observa Tony Tanner sobre Nick em sua introdução.

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Gatsby de 1974

A mais famosa das adaptações para o cinema é a dirigida por Jack Clayton e roteirizada por Francis Ford Coppola. Mia Farrow está no papel de Daisy, Sam Waterston é o narrador e Robert Redford é Jay Gatsby, numa eterna pose blasé com as mãos nos bolsos que até hoje me vem à mente quando penso no personagem.
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Trata-se de uma versão quase literal dos acontecimentos do livro, unanimemente massacrada pela crítica por ser fiel ao texto e equivocada quanto às emoções e simbolismos do livro. O próprio Coppola renega o roteiro, dizendo que o diretor nem deve tê-lo levado em conta. Antes de Coppola, Truman Capote arriscou-se na função, mas parece que seu rascunho inicial fazia de Nick um homossexual e de Jordan uma lésbica vingativa. Foi demitido, e Coppola escreveu seu roteiro em três semanas.
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O resultado é um filme idêntico ao livro na aparência. Por dentro, é “tão morto quanto um cadáver que está há muito tempo no fundo da piscina”, conforme um crítico do Times. É superficial e melodramático, focando apenas no romance entre os personagens, mas, ainda assim, foi a versão que mais me agradou — fiquei satisfeita de poder assistir à história e às cenas do livro, com diálogos literais, embora o fato de Mia Farrow resistir a um Gatsby interpretado por Redford não faça o menor sentido. (Talvez tivesse sido melhor escolher um ator menos charmoso — entre os nomes cogitados à época, Warren Beatty e Steve McQueen dariam na mesma, mas Jack Nicholson seria uma boa opção, pois que é mais feioso.)

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Gatsby de 2000

A adaptação seguinte foi feita para a TV e dirigida por Robert Markowitz, numa parceria entre o canal norte-americano A&E e a britânica Granada Produções. Mira Sorvino faz o papel de Daisy, Paul Rudd é o narrador e Toby Stephens é Jay Gatsby.
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Esta versão também situa Gatsby como protagonista, numa trama invariavelmente focada no romance entre os dois amantes, prestando pouca ou nenhuma atenção ao narrador. Embora a adição das palavras finais do livro seja louvável, não gostei dos atores que fazem Gatsby e Tom — este último, que é pra ser um brutamontes, atua de forma quase gentil. Ele acerta no desdém, mas falha em agir como um grandalhão preconceituoso e agressivo, sem o menor respeito pelas mulheres. Tanto que, na cena da bofetada, ele chega a pedir desculpas à amante, como se o próprio ator não conseguisse evitar seu cavalheirismo.

Outro deslize do roteiro é associar grosseiramente o Homem dos Olhos de Coruja ao anúncio do Dr. T. J. Eckleburg, como se estivéssemos filmando um Gatsby for Dummies.

Uma das principais cenas do livro, a meu ver, é o encontro final entre Tom e o narrador, quando este finalmente cede e decide cumprimentar o brutamontes — apesar de tudo o que houve. Em nenhuma das adaptações a cena foi bem resolvida, tornando-se mais um momento de piedade do que de submissão moral do narrador perante as atrocidades dos demais.

Contudo, esta adaptação de 2000 é uma versão interessante que contém um quê da atmosfera do livro, e devo confessar que a Daisy de Mira Sorvino me agradou mais do que eu estaria disposta a admitir.

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Outros Gatsbies

Além dessas adaptações, há um filme obscuro do diretor Christopher Scott Cherot, de 2002, chamado G: Triângulo amoroso, cuja história é vagamente baseada no romance de Fitzgerald. O herói é um magnata do hip hop que deseja conquistar de volta o amor de sua vida.
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Em 2007, o coreano Lee Kang-hoon dirigiu uma série de TV para o público jovem chamada The Great Catsby que, a despeito do que se pensa, não é uma adaptação direta do romance, mas de uma história em quadrinhos protagonizada por gatos — esta, sim, foi vagamente baseada no livro. Daisy ganhou o nome de Persu e troca Catsby por Houndu, um executivo bem-sucedido. Um trecho dessa insólita série pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=UmRgUn7PTCE.
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Por fim, chegamos a 2011, quando o diretor Baz Luhrmann decidiu filmar, na Austrália, uma adaptação em 3D do clássico romance. Leonardo DiCaprio está no papel principal, Tobey McGuire é o narrador e Carey Mulligan é Daisy.

Os críticos já prenunciam mais um desastre, argumentando que é impossível adaptar o livro para as telas do jeito que Hollywood gostaria, já que o protagonista não é Gatsby, mas Nick Carraway, e o livro trata de seus dilemas morais.

A despeito de toda essa polêmica, há uma adaptação que ninguém menciona e que se ergue soberana entre as demais: O grande Gatsby para NES, um jogo de 8-bits com cara de antigo, criado por Charlie Hoey e Pete Smith. Este, sim, captura as nuances simbólicas do livro e se arrisca a modificações necessárias, como a jornada de Nick pela rede de esgoto novaiorquina e a aparição de espectros holandeses na praia, que são derrotados quando o herói arremessa seu chapéu. Os olhos do Dr. T. J. Eckleburg são um dos chefes de fase, bem como a luz verde que pisca no cais. Também é a única versão que acerta no protagonista: Nick Carraway.

Para jogar: http://greatgatsbygame.com.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

No esquenta do Ulysses

Por André Conti

Por muitos anos tornou-se uma convenção dizer que Ulysses é um livro chato. Seja pela dificuldade ou pelo tamanho, seja porque Finnegans Wake, o romance seguinte de Joyce, sedimentou de vez a fama do autor de inacessível, cifrado e esotérico. Como se ler Ulysses fosse pedante ou sinal de pretensão e o diabo.

Às vezes a reputação que antecede uma obra pode ser muito prejudicial. Toda a história da publicação do Ulysses e a própria personalidade espalhafatosa do autor colaboraram para isso. O livro passou anos proibido por acusações de indecência, e teve defensores (Ezra Pound, T.S. Eliot) e detratores (Virginia Woolf, Gertrude Stein) de peso. Passados quase cem anos de seu lançamento, ele ainda carrega o fardo dessas polêmicas.

O tipo de fama a qual Joyce foi alçado depois do Ulysses também era bastante incomum para a época. A discussão extrapolou o campo da crítica: gostar ou não do livro era quase como se posicionar politicamente nas eternas questões do nacionalismo irlandês. O autor, que ademais era um pândego, se aproveitava da situação. A um amigo, declarou que os críticos passariam décadas sem decifrar Ulysses. A outro disse que, depois do romance, sentia que podia fazer “o que quisesse” com a língua inglesa.

No caso do Joyce, é praticamente impossível dissociar vida e obra do autor. Quando foi convidado pelo poeta W.B. Yeats para um café — a maior distinção literária da época —, aguentou alguns minutos do encontro até declarar, joyceanamente, “O senhor está velho demais para ser influenciado por mim”. Há dezenas de anedotas como essa, que lançam luz no tipo de humor que é parte integral do livro.

Porque a verdade é essa: Ulysses é antes de tudo um livro engraçado, como seu autor foi em vida. A mulher de Joyce, Nora Barnacle, lembra de ouvir o marido rindo sozinho durante a escrita do romance, o que é um indicativo poderoso das intenções do autor. Ainda voltarei ao processo de edição do livro, já que ficarei nisso pelos próximos meses, mas a intenção agora era dizer isso. Que não há nada de pedante em ler e gostar do Ulysses. Que a dificuldade (e ela existe, claro) é amplamente recompensada, de um modo que poucas obras literárias tiveram ambição (e sucesso) em alcançar.

O crítico Declan Kiberd disse algo muito verdadeiro sobre o livro: Ulysses te dá de volta exatamente o esforço que você deposita nele. É possível lê-lo como um romance, cruamente, e tirar algo disso. É possível, numa segunda camada, lê-lo ao lado da Odisseia, traçando todos os paralelismos entre as duas obras. É possível ainda embrenhar-se na realidade social irlandesa do início do século XX e tirar ainda outra leitura. É possível ler São Tomás de Aquino e Aristóteles e se perder menos no terceiro capítulo. Cada degrau desses amplia os significados do livro, expande suas possibilidades narrativas, conduz o leitor ao (prazeroso) labirinto ficcional que é o Ulysses.

A operação que torna isso possível é relativamente simples. Seja quão profunda você decidir que será sua leitura, Ulysses funciona porque é um livro sobre nós. Ao recriar de maneira meticulosa um dia específico de uma cidade específica na vida de um homem específico, Joyce bateu o mais preciso retrato que conheço de quem somos enquanto espécie. No 16 de junho de 1904 em que se passa a ação do livro, tudo que é possível existir numa vida acontece: pessoas nascem e morrem, se apaixonam, são traídas, cometem pequenos e grandes delitos, levam suas vidas públicas e voltam-se à mais particular vida íntima.

O sr. Bloom não é um homem comum que representa a todos nós. Ele é, única e exclusivamente, o sr. Bloom. Mas o acesso que Joyce nos permite a ele — por meio de uma série de manobras estilísticas — universaliza a experiência humana e nos insere, com toda nossa mesquinhez, com nossas manias abjetas, nossos grandes (e secretos) fracassos e nossas vitórias microscópicas, no centro do que é estar vivo e apreender a realidade a nossa volta. Tudo isso, como eu disse, num humor desconcertante e muitas vezes pueril (e dá-lhe piada com peido, dedo no nariz, micção pública e afins).

Como em qualquer livro, para ler Ulysses basta abri-lo na primeira página e seguir até a última. Esqueça os paralelismos com a Odisseia. Esqueça que o conjunto dos dezoito episódios forma um corpo humano. Esqueça as dezenas de variações de estilo, o exibicionismo linguístico, as referências cifradas a acontecimentos obscuros e esquecidos. Ulysses não foi escrito para revolucionar o romance moderno. Ele revolucionou o romance moderno porque coloca todas essas questões a serviço de algo maior: falar, da maneira mais cândida e terna e divertida possível, de quem você é. O resto fica para uma segunda (e terceira) leitura.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.

Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.