Sala do editor

O menino que virou soldado que virou romancista

Por Flavio Moura

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Foto: Dion Madere

Ishmael Beah ficou conhecido no Brasil em 2007. Na Flip daquele ano, ele contou sobre as experiências que viveu no início dos anos 90, em Serra Leoa, país africano em que nasceu.

Sorridente, sem um pingo de autocomplacência, falou diante de um auditório lotado sobre sua infância, um tempo nada idílico em que teve de deixar os brinquedos de lado: em meio à guerra civil, foi obrigado a pendurar no ombro um fuzil e matar todo mundo que seus superiores diziam ser inimigos.

A guerra em questão, que durou de 1991 a 2002, deixou mais de 70 mil mortos e 2 milhões de refugiados.

A experiência está na base de Muito longe de casa: memórias de um menino-soldado, livro que ele lançou naquele ano e que a Companhia das Letras republica agora, em formato de bolso.

Beah virou celebridade em Paraty e o livro estourou, bateu na casa dos 80 mil exemplares vendidos no Brasil. Um punhado de teses foi feito a respeito, Beah virou embaixador da Unicef e criou sua própria fundação para dar suporte a crianças em situação de risco ao redor do mundo.

Naquele mesmo ano, nos EUA, o festejado Dave Eggers o alçou à condição de “mais lido autor africano contemporâneo”.

Pode ser exagero de Eggers, claro. Mas, ao lado de Chimamanda Ngozi Adichie, Teju Cole, Helen Oyeyemi e NoViolet Bulawayo, Ishmael Beah é voz importante de uma geração de escritores africanos que vem ganhando espaço na literatura contemporânea.

Agora com 35 anos, ele resolveu escrever um romance, recém-chegado às livrarias do país. É uma história de ficção, mas com o mesmo poder magnético do livro anterior.

Em certa medida, é possível ler O brilho do amanhã como uma continuação daquelas memórias. Se lá o foco estava na guerra, agora o centro da história é a tentativa de reconstruir um país arrasado pelo conflito.

Benjamin e Bockarie, dois amigos de longa data, retornam à cidade natal, Imperi, após o fim do confronto. O vilarejo está em ruínas, o chão coberto de ossos, as ruas desertas.

À medida que os antigos moradores começam a voltar, os dois assumem a liderança da nova comunidade, esforçando-se para reatar os laços há muito desfeitos: retomam seus antigos postos de professores, reconectam-se aos veteranos na tentativa de preservar as tradições locais.

Diversos obstáculos surgem à frente: escassez de alimentos, onda de assassinatos, roubos, estupros e retaliações. Os dois são ainda obrigados a enfrentar a destruição causada por uma companhia mineradora que ameaça cortar o abastecimento de água e bloqueia as ruas com fios elétricos.

Se Muito longe de casa ajudava a elaborar os crimes do passado encarando de frente o horror, O brilho do amanhã dá um passo adiante e apresenta, em forma de ficção, um povo em luta para sobreviver à culpa e recuperar alguma perspectiva de futuro.

E tudo isso numa prosa bastante particular, parente de Mia Couto e Jorge Amado tanto na capacidade de encontrar lirismo nos trópicos em ruínas como pelo cultivo da tradição oral.

Ah sim: faltou dizer que Beah é um sujeito bem-humorado e boa praça, que não fica posando de vedete do multiculturalismo nem se deslumbrou com a atenção dos principais jornais do mundo nos últimos anos.

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Flavio Moura é editor da Companhia das Letras.

A arte de escrever com a bola no pé

Por Flavio Moura

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Um dos prazeres do trabalho do editor é corrigir o rumo dos livros. É achar personagens pouco desenvolvidos, enredos que podem ser mais bem costurados, narradores que pedem voz mais convincente, encontrar deslizes sintáticos e gramaticais.

Nesse sentido, editar O drible, de Sérgio Rodrigues, foi uma tarefa simples até demais: o livro chegou pronto, não havia uma vírgula para mexer.

Sérgio é conhecido pelo texto impecável. Nas colunas sobre literatura e língua portuguesa que mantém há anos na imprensa, sempre se fez notar pelo texto fluente, leve e bem acabado. Mesmo quando trata de livros complexos, quando mobiliza um repertório denso da crítica literária, o que aparece na frente do leitor é sempre uma frase limpa, precisa, concreta, capaz de transformar assuntos áridos em argumentos cristalinos.

O drible sintetiza e leva ao extremo esses atributos. As páginas de abertura, inspiradas na cena inicial de Submundo, do americano Don DeLillo, merecem lugar nas antologias da literatura contemporânea: transformam o drible de Pelé no goleiro uruguaio, na Copa de 1970, numa sequência em que cada segundo parece durar uma vida inteira.

A esse começo memorável, Sérgio une um mergulho pelo circuito cultural do Rio de Janeiro dos anos 1960 e 1970 ­— os escritores, a praia, o jornalismo, a boemia — a partir da figura de Murilo Filho, um cronista esportivo de caráter questionável.

Cria ainda um jogador capaz de lances sobrenaturais — Peralvo, aquele que teria sido melhor que Garrincha e Pelé ­—, e o encaixa no meio de uma disputa entre pai e filho que acaba num desenlace cruel.

Publicado pela Anagrama, uma das editoras mais prestigiosas em língua espanhola, prestes a sair pela francesa Seuil, igualmente respeitada, e já bem recebido por parte importante dos principais críticos literários do país, O drible já tem espaço garantido no cânone da prosa brasileira recente. E esse espaço, o prêmio de ontem só fez confirmar.

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Flavio Moura é editor da Companhia das Letras.

Uma coletânea extraordinária

Por Julia Bussius

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Carta-padrão, China, 856 d.C.

“Ontem, tendo bebido demais, fiquei tão embriagado que passei dos limites; porém nenhuma das palavras rudes e obscenas que pronunciei foi dita por mim em sã consciência. Na manhã seguinte, ao ouvir comentários sobre o assunto, dei-me conta do que havia acontecido e quase morri de vergonha, só queria achar um buraco para me esconder. Tudo ocorreu porque minha pequena tolerância não me permite encher o copo até a borda. Humildemente espero que em vossa sábia benevolência não me condeneis por minha transgressão. Logo vou desculpar-me pessoalmente, mas, entrementes, envio-vos esta mensagem para vossa bondosa avaliação. Deixando muito por dizer, subscrevo-me, respeitosamente.”

Usher: Não deixa de ser um consolo saber que há mais de mil anos, como hoje, algumas pessoas bebiam demais, faziam um papel ridículo num jantar e acordavam no dia seguinte profundamente arrependidas. E isso acontecia com tanta frequência que em determinada região da China o chamado Departamento de Etiqueta de Dunhuang criou uma carta-padrão — um pedido de desculpa pelo mau comportamento da véspera — que o beberrão só precisava assinar e, cabisbaixo, entregar ao desapontado anfitrião. Essa versão data de 856 d.C.

Esta carta chinesa do século IX – que poderia ser usada como modelo por qualquer um de nós — é uma amostra da fascinante correspondência incluída no livro Cartas extraordinárias, que já está nas livrarias. Organizado por Shaun Usher, um aficionado por missivas e responsável pelo blog Letters of Note, este é um volume a ser saboreado aos poucos. Figuras como Leonardo da Vinci, Elvis Presley, Virgina Woolf, Gandhi e a rainha Elisabeth II, apenas para citar alguns, estão entre os remetentes desta coletânea de 125 cartas.

E oferecemos mais uma degustação: a carta de Charles M. Schulz, genial criador do Snoopy, para a leitora Elizabeth Swaim.

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5 de janeiro de 1955

“Querida srta. Swaim,

Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. Se ela ainda aparecer, será em tiras que estavam prontas antes de eu receber sua carta ou porque outras pessoas me escreveram para dizer que gostam dela. Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?

Obrigado por me escrever e espero que goste das futuras tiras.

Cordialmente,

Charles M. Schulz”

Usher: Em 30 de novembro de 1954, uma personagem chamada Charlotte Braun estreou na popular série de quadrinhos Peanuts, então com quatro anos de existência, e não agradou. Falastrona, descarada e dogmática, a “boa-praça Charlotte Braun” logo irritou os leitores fiéis de Peanuts e em 1o de fevereiro de 1955 despediu-se da série, após dez participações. Quarenta e cinco anos depois, após a morte de Charles M. Schulz, o criador de Peanuts, uma senhora chamada Elizabeth Swaim doou à Biblioteca do Congresso esta carta fascinante, que Schulz havia lhe enviado um mês antes do desaparecimento de Braun em resposta a sua reclamação contra essa personagem. Schulz concorda em matá-la, lembra Swaim de que ela será responsável por essa morte e acrescenta um desenho de Braun com um machado na cabeça.

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Julia Bussius é editora da Companhia das Letras.

Dia de Saramago

Por Julia Bussius

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Hoje José Saramago faria 92 anos. Celebramos neste 16 de novembro o dia daquele que foi “um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa”, como bem disse Chico Buarque.

A Companhia das Letras tem enorme orgulho em publicar toda a obra do autor no Brasil — um desejo antigo de Saramago que em 2013 finalmente pôde se cumprir. Desde que foi lançado seu primeiro livro na editora, Jangada de pedra (1988), firmou-se um compromisso de fidelidade, que se solidifica em 2014 com a publicação de todos os títulos também em formato digital, além da edição em seis volumes de suas obras completas e do livro póstumo Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, romance iniciado pelo autor pouco antes de sua morte e que nos trouxe a oportunidade preciosa de ler seus últimos escritos.

Viva Saramago!

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Julia Bussius é editora da Companhia das Letras.

Chaplin escritor

Por Julia Bussius


Cena de
Luzes da ribalta

Para quem está do lado de fora, o ofício de editar livros pode parecer algo que não envolve nada além de prazer literário. Quantas vezes nós, editores, não escutamos: “Que maravilha, então você passa o dia lendo histórias?”. É sempre um pouco triste desapontar esse simpático e esperançoso interlocutor e responder que o trabalho envolve, na verdade, muitas coisas além disso, ainda que haja, sim, muitos momentos de deleite com a leitura. Para mim, porém, devo confessar que a maior satisfação mesmo é quando recebo o primeiro exemplar de um livro, recém-chegado da gráfica. A alegria de ver aquele objeto pronto, de tê-lo em mãos depois de tantas idas e vindas no longo (e por vezes árduo) processo da edição, é difícil de ser explicada. Uma sensação de contentamento quase infantil, de modo que preciso me controlar para não importunar (muito) os que estão por perto para mostrar o tempo todo o livro incrível que acabou de chegar.

Mas quando Luzes da ribalta ficou pronto, não teve jeito: precisei importunar os colegas. Precisei inclusive ir até o outro andar da editora para interromper outros colegas e exibir o livro fabuloso do Chaplin que tinha ficado pronto. Tive que fotografar e compartilhar e mandar para todo mundo. Mas o fato é que a edição, com capa da Elisa von Randow, é algo fora de série. Mais de uma centena de imagens ilustram os bastidores da filmagem do longa-metragem e a atmosfera londrina que inspirou a novela (até então, inédita) escrita pelo gênio do cinema, e que depois viraria o filme. Um livro de encher os olhos — mas não só.

Charles Chaplin, que mal frequentou a escola, mostra uma impressionante veia literária nesta novela nostálgica e um tanto sombria, mas absurdamente sensível. Segundo seu biógrafo, David Robinson (organizador do livro), a intenção do autor nunca foi publicar o texto. O manuscrito teria sido uma espécie de exercício, um rascunho que depois se desenvolveu no roteiro do filme Luzes da ribalta (1952). O protagonista, Calvero, é um comediante decadente e alcoólatra, que se vê distante dos seus dias gloriosos de palco. Ele por acaso salva do suicídio a bailarina Terry, interpretada no cinema pela divina Claire Bloom, uma jovem desesperançada que não vê outra alternativa além da morte. O encontro desses dois personagens gauches é a base de uma história notável. E, para homenagear Carlitos, nada mais apropriado que citar outro Carlos, também gauche, autor do belíssimo poema “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, publicado no livro A rosa do povo. Eis um trecho:

Era preciso que um poeta brasileiro,

não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,

girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver

como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,

de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior

onde nem sempre se usa gravata mas todos são extremamente polidos

e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,

preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso, dispersos no tempo,

viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse

para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

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Julia Bussius é editora da Companhia das Letras.