Sala do editor

Por que amar o Snoopy

Por Mell Brites


Nunca fui fã do Snoopy. Não tinha o costume de ler as tirinhas do Charles Schulz ou assistir os episódios na tevê e nunca fiz loucuras para ter uma camiseta do Charlie Brown, um estojo da Lucy ou um fichário do Woodstock. Quando a Júlia Schwarcz me passou os livros da turma para decidirmos juntas se gostaríamos de publicá-los aqui no Letrinhas, confesso que comecei a avaliação com alguns pés atrás. Por que publicar histórias que, em geral, todo mundo já conhece, de personagens que estão estampados em materiais escolares, roupas, alimentos etc.? Isso me parecia no mínimo estranho — e talvez uma aposta errada.

Bom, não é difícil imaginar que a minha opinião mudou rapidamente. E posso explicar por quê. Parte considerável dos originais que temos recebido, e muitos livros para crianças que têm saído no Brasil e fora, discutem temas relacionados ao próprio ato de ler, à relação entre texto e imagem, à questão do livro objeto, entre outros assuntos que, de uma forma ou de outra, têm essa feição experimental e metalinguística. Isso, me parece, reflete o momento atual da literatura infantil; muito do que vem sendo publicado expressa essa vontade de brincar com o suporte, pensar o ato da escrita, refletir sobre, afinal, o que é a literatura para crianças. Acho a discussão muito válida, legítima e enriquecedora, e sou apaixonada por vários títulos com essa característica publicados aqui e em outras editoras no Brasil e mundo afora.

Mas ler um texto formulado há mais de sessenta anos me trouxe uma sensação que há tempos não encontrava nas histórias infantis, como se ali houvesse certa ingenuidade que os livros atuais não tivessem mais. Quando terminei a leitura de It’s time for school, Charlie Brown (ou, em português, É hora da escola, Charlie Brown, um dos quatro títulos que publicaremos em novembro), imediatamente pensei que a palavra de ordem naquela narrativa era simplicidade. Senti até uma espécie de euforia, um gosto de liberdade, quando me caiu a ficha de que “aquela era uma história”. Isto é: um enredo habitual (um garoto que sempre se dá mal na vida e está apavorado porque as férias estão acabando e o seu martírio vai recomeçar) somado a uma boa dose de sensibilidade com a palavra é suficiente para entreter, fazer pensar, abrir portas diferentes para cada leitor.

É a essa ingenuidade que me refiro, pois histórias como as de Schulz me fazem lembrar que nem sempre é preciso um “algo a mais”, uma crítica concreta, uma mensagem, um tema a ser tratado com a criança. E foi assim que me tornei fã convicta do beagle mais famoso do mundo e de seu criador.

Daí pra frente foi só alegria: trabalhar no processo de edição de texto, adequar as ilustrações ao formato que escolhemos para a nossa coleção, tentar reproduzir, nos releases e textos de quarta capa, um pouco dessa “singela magia” que encontrei nas narrativas do Schulz, pensar nas ações de divulgação e marketing e ver o entusiasmo de todos os departamentos da editora com esse cão que, pelo jeito, só eu não amava.

Estamos nas etapas finais da produção e tocando as ações de divulgação — acompanhem o Snoopy nas nossas redes sociais! Agora o que importa é que os livros cheguem lindos e alcancem o maior número possível de leitores. Torço para que muitos possam sentir esse prazer que senti e que só a verdadeira diversão traz, ou para que possam, no mínimo, se surpreender com essa turma capaz de muito, muito mais do que imaginamos.

Com este texto, abro no blog a nossa série de depoimentos sobre Snoopy e sua turma, que serão dados por autores da casa.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas.


Malala Yousafzai ganha o Prêmio Nobel da Paz

Por Flavio Moura


No início deste ano, a Companhia das Letras tentou convidar Malala para vir ao Brasil. A resposta veio polida, mas enfática: ela não tinha tempo, precisava estudar para o vestibular.

Dá pra imaginar quantas vezes ela terá de dizer o mesmo agora que se tornou a mais jovem da história a vencer o Prêmio Nobel da Paz.

Sua autobiografia, Eu sou Malala, saiu no ano passado. Fez um sucesso estrondoso — mais de cem mil exemplares no Brasil. No mundo todo, já está perto da casa dos dois milhões.

Não é pra menos. A história que ela conta ali foge a qualquer padrão. Há exatos dois anos — em 9 de outubro de 2012 — ela foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa. Estava dentro do ônibus, voltando da escola onde estudava.

Pouco tempo antes, em 2006, milícias extremistas do Talibã assumiram o controle do Vale do Swat, região do Paquistão onde ela morava. Entre as primeiras providências que tomaram estava a destruição de escolas que admitiam mulheres.

O pai de Malala era dono de uma dessas escolas. Criada desde pequena em meio a livros, a menina lançou um blog em que defendia seu direito à educação. Ficou marcada — e o tiro que recebeu veio por causa disso.

Às pressas, foi levada à Inglaterra para se tratar. Contra todos os prognósticos, ela se recuperou.  Não pode mais voltar a seu país, onde está jurada de morte, mas seu exemplo repercutiu pelo mundo. O prêmio Nobel é o exemplo maior disso.

Com apenas dezesseis anos, ela se tornou símbolo de muita coisa: da opressão sobre as mulheres em regimes obscurantistas; da luta pela educação em países carentes; da capacidade transformadora de uma experiência singular.

Enquanto o Estado Islâmico põe em curso um projeto expansionista assustador a partir da Síria, decapitando civis ocidentais e escravizando mulheres não muçulmanas, o prêmio a Malala é um sinal poderoso que o mundo democrático envia às facções obscurantistas de Alá.

Mas convém não jogar tanto peso nas costas da menina. Afinal de contas, ela precisa estudar.

* * *

A Editora Seguinte lançará a versão juvenil de Eu sou Malala em fevereiro de 2015, e a Companhia das Letrinhas publicará Malala, a menina que queria ir para a escola, escrito pela jornalista Adriana Carranca.

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Flavio Moura é editor da Companhia das Letras.

Fazendo coisas

Por André Conti


Esteve no Brasil o físico teórico e escritor Brian Greene. Ele veio falar no Fronteiras do Pensamento, onde apresentou a conferência “Em busca de uma teoria unificada”. Durante uma hora e meia, Greene tentou explicar o que ele faz como físico teórico, quer dizer, o que significa trabalhar concretamente, suar a camisa mesmo, na resolução das Grandes Perguntas: o que é o universo e o que há para além dele. Ele descreveu lindamente o funcionamento das coisas muito pequenas numa proporção assim: se um átomo tivesse o tamanho do universo inteiro, os fenômenos que ele estava mostrando teriam o tamanho de um lápis. Greene usou a imagem de um mar revolto para demonstrar esse mundo subatômico, com o movimento aleatório das ondas (em dez ou onze dimensões) sendo responsável pela existência de coisas diferentes: elétrons, prótons, eu e você. Alguém da plateia mandou um bilhete perguntando como é que se explicava a consciência humana em meio a tanta aleatoriedade. Ele respondeu que não era neurocientista e que entendia tanto de cérebros quanto nós; isso posto, caso o universo realmente funcione como ele imagina na menor escala possível, o provável é que a consciência seja apenas uma sensação decorrente do funcionamento desses fenômenos subatômicos. O que sentimos como a passagem do tempo, a força da gravidade, o estado da matéria e, sobretudo, a consciência de ser alguém, não passaria de um efeito colateral das engrenagens do universo.

Isso diz o sujeito que vive de forçar a própria consciência a abstrair o funcionamento do cosmos, para depois obrigar a mesma consciência a dar um sentido matemático àquilo tudo, ou seja, a usar uma segunda abstração, no caso as equações matemáticas, para tornar concreta a primeira abstração. Mas o barato é que ele faz isso no duro, como atividade do dia a dia: o processo deve ser precedido por acordar cedo, tomar banho, beber café, abrir a janela para ver se está frio.

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Mexi num computador pela primeira vez num museu de história natural, numa viagem com a família. O museu estava celebrando o Mês do Morcego, e uma das atrações era uma sala em que, usando os últimos recursos tecnológicos da época, tentava-se simular diversas habilidades dos morcegos. A ideia era mostrar que, mesmo comparados à tecnologia de ponta da época, os morcegos eram animais sofisticadíssimos, cujos sistemas de voo, detecção etc. ainda estavam à frente de nós. Na prática, eram totens de som que reproduziam as frequências captadas por morcegos, um pequeno biossonar que imitava o sistema de colisão dos morcegos, uma membrana peluda com textura horrenda que imitava a asa de um morcego. E havia também uns três computadores, todos travados no mesmo jogo de soletrar, em que você colocava à prova seus novos conhecimentos sobre morcegos. Foi uma experiência indescritível, o computador fazendo coisas. Você batia numa tecla e a letra aparecia no monitor, você completava a palavra e vinha um efeito dissolve e um morcego colorido. Ele tocava sons, mudava de tela, tinha um placar com a pontuação dos visitantes. Era melhor do que todo e qualquer morcego do planeta Terra.

* * *

Ninguém inventou o computador. Para Walter Isaacson, biógrafo de Steve Jobs e que lança agora Os inovadores: uma biografia da revolução digital, a ideia de uma máquina que resolve problemas variados surgiu no século XIX e chegou a seu estado atual pela colaboração de centenas de pessoas ao longo das décadas. Isso não é dizer o óbvio: a tecnologia avança, cada inovação dá um passo além da anterior etc. A tese de Isaacson é que a própria natureza do computador é indissociável desse processo altamente colaborativo. O computador é uma máquina aberta e de possibilidades tão vastas porque cada inovador queria fazer coisas diferentes com ele, fosse solucionar um impasse técnico, criar um produto novo, humilhar rivais, distribuir fanzines. Ou ainda: a inovação tecnológica não nasce de um lampejo no vácuo, há sempre uma demanda que eventualmente é alcançada pela ciência de seu tempo; daí inúmeros inventos similares, criados por pessoas que não se conheciam, terem surgido nas mesmas épocas no mundo (pergunte a um italiano quem inventou o telefone, pergunte a um brasileiro quem inventou o avião).

Os personagens do livro são engenheiros, inventores excêntricos, homens de negócios, nerds solitários. Essas vidas são narradas num fôlego só, se entrelaçam, há brigas, disputas judiciais e lances dramáticos — para quem gosta do assunto, é um thriller sem assassinos, mas com placas de circuito, cabos, soldas e relés. De saída, as personalidades deles parecem diametralmente opostas a de cientistas como Brian Greene: enquanto uns criam modelos abstratos para entender as coisas, eles buscam modelos concretos para resolver as coisas. Todavia, empresas como a Bell Laboratories e a Texas Instruments investiram caminhões de dinheiro em pesquisa pura, em gente que se ocupava também de ter ideias sem aplicação concreta e imediata. Na verdade, são dois mundos que se alimentam: as pesquisas de Greene podem exigir novos aparelhos para serem provadas; quem banca esses aparelhos espera usar seus componentes e ideias em outros aparelhos, desta vez de uso comercial. Ou ainda: um avanço prático na computação feito por um eremita do Vale do Silício pode dar a Greene a ferramenta de que ele precisa para provar alguma ideia. Sem esse ecossistema de teóricos, investidores e engenheiros, ainda estaríamos inventando o ábaco.

* * *

Saiu há duas semanas o disco novo do Shellac, banda maravilhosa de Chicago encabeçada pelo engenheiro de som Steve Albini. Ele foi produtor de centenas de discos, entre eles “In Utero”, do Nirvana e “Surfer Rosa”, dos Pixies, além de ter trabalhado com Breeders, The Jesus Lizard, Helmet, Dirty Three e outras tantas bandas sem as quais o universo estudado pelo Brian Greene seria mais silencioso e menos interessante. Como engenheiro, ele tem métodos rigorosos e intransigentes de trabalho, e costuma criar discos com pouquíssima interferência de produção, que tendem a soar como se a banda estivesse gravando ao vivo. Todavia, como esta carta espetacular que ele mandou aos integrantes do Nirvana quando queria produzir o “In Utero” mostra, ele é acima de tudo um técnico, ou seja, não se trata de impor seus gostos pessoais a um processo criativo que pertence aos artistas.

Mas ele também é músico, teve bandas fabulosas como Flour e Big Black, e mantém o Shellac desde 1992, embora os lançamentos e os shows sejam bissextos. O que importa é o seguinte: Shellac parece tudo menos uma banda de engenheiro, e decididamente não soa como os discos que ele produz. Para quem vive de trabalhar nas coisas que os outros fizeram (oi), é um respiro ouvir algo tão original partindo de alguém que, segundo suas próprias contas, produziu 1500 discos (“Alguns ótimos, alguns bons, alguns horríveis, a maioria ali no meio”). Sendo Editor com Vaidades Artísticas, ver que é possível fazer coisas suas com a mesma energia que trabalhamos nas coisas feitas pelos outros é animador.

* * *

Randall Munroe era um jovem prodígio da NASA. Ele trabalhava no departamento de robótica, o que em termos de fazer coisas é mais do que eu posso imaginar. Munroe abandonou a NASA para se dedicar ao XKCD, uma tirinha de internet que o tornou uma das mais célebres personalidades da rede. O mesmo tipo de criatividade que movia os engenheiros da revolução digital não foi suficiente a ele: mais do que colocar robôs em Marte, ele queria colocar seus personagens de palitinhos no monitor das pessoas. Batendo o olho assim, me parece inconcebível, mas é quase óbvio — ser um entre as dezenas de cientistas que ajudaram o robô Curiosity a mexer um bracinho para a direita ou ser a única pessoa capaz de fazer isso aqui:

As tirinhas costumam tratar de ciência, computação etc., de modo que os fãs volta e meia mandavam perguntas ao Munroe (que outro ex-funcionário da NASA você conhece?). Como bons leitores do XKCD, eles queriam saber de que altura é preciso jogar um bife para que ele chegue no chão ao ponto. Ou se é possível saltar de um avião com um tanque de gás hélio e encher bexigas o suficiente para não morrer na queda (parece que sim). Ou em que ano o número de perfis de pessoas mortas no Facebook vai ultrapassar o de pessoas vivas. Ou ainda o que aconteceria se a Terra parasse de girar e a atmosfera mantivesse a velocidade. Para dar conta, ele criou o blog What If?, em que investiga essas hipóteses com rigor científico, bonecos de palitinhos e senso de humor de físico de partículas. Agora ele fez um livro baseado no blog, E se? Respostas científicas para perguntas absurdas, que o Érico Assis traduziu e que a Cia. publica no início de novembro. Acabou de sair lá fora e está, merecidamente, em todas as listas: é dos livros mais engraçados e maníacos que já passaram aqui na editora. É também uma proposta curiosa. Esse é o sujeito que seria capaz de fazer coisas realmente impactantes na linha de frente do conhecimento científico, mas ele se dedica a responder, com a mesma seriedade, às únicas hipóteses mais improváveis do que mandar um robô para Marte.

Durante os últimos meses, trabalhei nos dois livros com a Lucila, a Erika, a Marina e a Adriane (gratidão eterna). Foi bom editá-los em paralelo, você começa a ver ligações entre tudo, a achar que a pessoa calculando um salto impossível de um avião está tentando, por caminhos outros, o mesmo que o engenheiro que grava um disco ou o físico que olha uma parede igual a nossa e vê dez dimensões. Isso de fazer coisas. Um mundo de gente fazendo coisas para que os outros possam fazer mais coisas, o que for.

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André Conti é editor da Companhia das Letras.

E aconteceu a primavera

Daqui a algumas horas, começa oficialmente a primavera, estação das flores e do desabrochar de um lirismo menos comedido. Para saudar a chegada de um dos momentos mais luminosos e coloridos do ano, apresentamos o poema “E aconteceu a primavera”, que integra o recém-lançado Discurso de primavera e algumas sombras, de Carlos Drummond de Andrade. Genial, o poeta mineiro trabalha aqui contra o clichê associado à estação, polinizando com versos o Brasil e um mundo cada vez menos colorido e verde. Um grande poema.

* * *

E aconteceu a primavera
Por Carlos Drummond de Andrade

 

I

Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que a menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.

 

Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no pano branco,
extintas primaveridades.

 

Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.

 

E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.

 

Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.

 

Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.

 

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…

 

II

— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…

 

— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.

 

É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.

 

Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! No cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.

 

— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.

 

(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)

 

— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
0controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.

 

(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)

 

— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?

 

É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)

 

Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?

 

No, I don’t care!

Em setembro, chega nas livrarias o Diário da Dilma. O diário começou como uma seção da revista piauí, onde, todos os meses, a publicação trazia uma página de sátira sobre a rotina da chefe do Executivo. A ideia partiu do então editor da revista, Mario Sergio Conti, mas coube ao jornalista Renato Terra dar forma à seção e assumir a função de “ghost writer” da presidente.

A Dilma criada por Renato Terra é atenta aos mínimos detalhes do penteado, adora jogar tranca, paparica o neto, faz fofoca com amigas da Casa Civil e da Petrobrás e vive a suspirar por seu príncipe encantado, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. Para compor o diário, inspirado numa coluna sobre a ex-primeira dama francesa Carla Bruni, criada pelo jornal humorístico francês Le Canard Enchaîné, Terra mergulha no noticiário nacional, descobre cores de esmalte e tendências fashion em revistas femininas, capricha no vocabulário cafona e fica de olho na agenda cumprida pela presidente na vida real.

Muitas informações de bastidores servem de material para o diário: há histórias que parecem brincadeira, mas são informações exclusivas recebidas pelo jornalista. Mas a mistura entre fato e ficção não deixa dúvida sobre o traço que predomina em todos os textos: o humor corrosivo e escrachado.

Abaixo, leia um trecho de Diário da Dilma.

* * *

1o de novembro — Ai que dor de cabeça! Ressaquinha de Campari: ontem fiz uma festa de Halloween com um pessoal aqui em casa. O Gilbertinho veio de padre, uma falta de criatividade! Foi tudo muito discreto porque se o Aldo Rebelo descobre…

2 de novembro — Fui visitar o Lula na segunda lá no hospital, coitadinho. Para aliviar o astral, cheguei fazendo troça: “Ô Lulinha, bem que te avisei que botar aquele cocar de índio ia dar zebra”. Pela primeira vez ele riu de uma piada minha. Tenho certeza que ele vai sair dessa. Vaso ruim não quebra!

3 de novembro — Esse discurso do G20 está me tirando o sono. Você delega e vem cheio de erro de concordância. Aí reclama e justificam: “A tradução simultânea conserta”. Depois vão para a imprensa dizer que sou exigente.

4 de novembro — Não tenho nenhuma intenção de dar dinheiro ao fundo de estabilização europeu. Minhas verbas já estão com umas ONGs que o Lupi recomendou e com o fundo de estabilização do meu topete. Mas tenho que respeitar os países endividados: em festa de formiga não se elogia tamanduá.

5 de novembro — Como aquela madame do FMI é elegante! Não dei bandeira na hora, mas pedi para o general araponga investigar onde ela faz compras.

6 de novembro — Ah, ah, ah, diário mon amour: a loira não vai ser candidata a prefeita de São Paulo. Pôs mais botox à toa! E nem adianta querer o lugar do Fernandinho. Depois de me livrar de um ministro da Educação tipo calamidade, vou colocar a Marta? Não estou louca ainda!

Estava na cozinha preparando uma omelete quando ouvi mamãe gritar “bingo!”. Titia veio correndo e as duas se escangalharam de rir. Depois, li as denúncias contra o Lupi e entendi que mamãe ganhou a aposta.

8 de novembro — Fiz duas sessões de VelaShape. Tive que marcar em nome da cunhada da Erenice e fui de peruca loira para ninguém me reconhecer. Perdi dois centímetros de cintura e um e meio de quadril. Já dá para entrar naquelas calças de helanca que comprei no free shop. São boas porque não amassam e marcam pouco.

9 de novembro — Esses estudantes que ocuparam a reitoria da USP me deram uma ideia. Vou organizar uma ocupação na Esplanada dos Ministérios para protestar contra a presença de ONGs. Acionei amigos subversivos que não via há décadas.

No final do dia, o João Santana apareceu todo esbaforido no meu gabinete. É a única pessoa que tem permissão para entrar pela passagem secreta atrás da estante. Enfático, me convenceu a desistir da ideia da ocupação.

10 de novembro — Não acredito que o Serginho Cabral fez aquela festa toda por causa dos royalties e não me convidou. Para contar piadas infames sobre o Lula ele me liga. Mas para ver show do Lulu Santos na Cinelândia, nada de telefonar para a Dilminha.

11 de novembro — Cheguei da ginástica matinal e titia estava com os olhos brilhando: “Você soube que um ministro fez uma declaração de amor para você diante de todas as câmeras?”. Curiosa, mas disfarçando, perguntei qual. “Aquele que começa com L”, respondeu.

Meu coração palpitou entre a euforia e o éden. Finalmente o Lobão tinha se vergado aos meus encantos e, romântico como Pepino di Capri, declarou-se em rede nacional.

Como quem não quer nada, fui para o quarto. Descobri que o “L” era de Lupi, aquele bofe!

12 de novembro — Fui à posse do Kalil, em São Paulo, e aproveitei para fazer uma consulta. Tenho arritmia toda vez que chego perto do Sarney. Ele me disse que era normal e que padecia do mesmo mal.

Esse Lupi está descontrolado. Tive que chamá-lo em meu gabinete e aplicar um “meu querido”.

13 de novembro — O PSDB me mata de rir. O slogan deles agora é “Yes, we care”. Ô gente pedante e entojada! Continuo nadando de braçada. Apesar de tudo, encarava o Fernando Henrique numa boa: No, I don’t care!

15 de novembro — Marisa ligou para transmitir um trocadilho do Lula. “Papademos papou Papandreou”, disse ela meio sem graça. É bom ver que ele continua ativo na articulação.

16 de novembro — Achei que o Lula está muito bem careca e sem barba. Aqueles dentes recapeados ficaram um pouco à vista demais, parece o Al Pacino. Os dentes, quero dizer. Mas, com a ajuda do Santana, ele está batendo o maior bolão. A Marisa é que podia dar um help e parar de fumar. Ou não aparecer na janela.

17 de novembro — Bem feito para o Berlusconi! Ficou falando aquelas grosserias para a Angela Merkel e deu no que deu. Vai ter que pagar mais caro agora pelo bunga-bunga! A tintura dele consegue ser pior do que a do PMDB inteiro. E olha que eles são liderados pelo Sarney.

18 de novembro — A gente batalha meses para lançar um programa bacana para beneficiar pessoas com deficiência e tem instantes de alegria. Mas volta para o gabinete e encontra o quê? Disputa por royalties de petróleo, denúncia de corrupção e parlamentares do PMDB em qualquer direção que se olha. Estou precisando de férias.

Fiquei emocionada ao ver o Romário. Lembrei o quanto eu e mamãe vibramos no tetra e como fiquei frustrada quando ele foi cortado na Copa seguinte.

19 de novembro — Como essas denúncias cansam a gente! Ainda bem que o Gabrielzinho vem visitar a vovó.

20 de novembro — Esse Mario Monti tem cara de bancário e parece ser bem mais respeitador. Mas não se pode dar confiança aos italianos.

21 de novembro — Bonitinho o vídeo com os atores da Globo criticando Belo Monte. No mesmo dia, recebi a resposta: Lobão veio de blazer de seis botões, foulard e gola rulê. Declamou, pausadamente, seus argumentos. Homem charmoso e contemporâneo age assim.

23 de novembro — O Beltrame está fazendo e acontecendo. A Globo nunca me deu essa colher de chá. Falando em Beltrame, o gaúcho é um pedaço! Vou marcar mais duas sessões de VelaShape e uma esfoliação no rosto. O Kamura ficou de vir aqui também. Estou tão cheia desse meu cabelo.